quinta-feira, 31 de março de 2016

dois em um

É um tipo perigoso, foi o que eu lhe disse após muita insistência. Riu-se com a ideia de perigo. Sim, perigoso: tem duas faces e, ao contrário de Cristo, só mostra uma.
Não é que nunca tenha acontecido antes (sobretudo, suspeito, com a minha mãe), mas, ultimamente, é quase sempre assim. A minha avó conta-me o essencial dos últimos tempos e depois pergunta-me pelo essencial da minha vida. Quase sempre por esta ordem. Mas isso irrita-me e quero fazê-la perceber que não temos que fazer telefonemas para cumprir requisitos mínimos ou objectivos. Por isso, desenvolvo a conversa, conto-lhe episódios mais curiosos que me aconteceram, falo-lhe do meu irmão, sublinho qualquer coisa que comi há dias e me soube muito bem, pergunto-lhe pelas galinhas. Mas, nesse momento, ela corta-me a palavra, já lhe noto a voz embargada pela irredutível distância, física e geracional, que nos separa (e a que ela atribui, infelizmente, um peso que eu não reconheço), e despacha-me. Sim, sim, então olha, beijinhos, que tudo te corra muito bem (como se só voltássemos a falar para o ano...). E o telefonema cai. Sei que lhe custa desligar, mas também sei que lhe custa ainda mais saber que está ali (porque quer, é certo), afastada de tudo e todos, numa casa enorme, outrora cheia de gente, agora apenas uma câmara de memórias. Por isso, despede-se à pressa, pousa o telefone, prefere não me ouvir para não ter que constatar o quão está afastada da vida dos filhos e dos netos. Joga estoicamente à defesa e eu não a censuro.
 
Ao fim da tarde, o meu avô chegará dos armazéns. Jantarão qualquer coisa cá em baixo (já não tem netos a correr pela casa e a quem fazer aquelas deliciosas batatas fritas que nem a minha mãe sabe reproduzir) e depois, no andar de cima, sentar-se-ão os dois na salinha à esquerda (em tempos o quarto da Titi...), cada qual numa das poltronas cinza com uma manta pelos joelhos. Espero que concordem no programa que querem ver; é uma chatice quando o meu avô prefere ir ver o futebol para a sala ao lado.

quarta-feira, 30 de março de 2016

Artes Entre As Letras #9 - Crítica de cinema



Em Março, escrevo para o Artes Entre As Letras sobre o Muito Amadas (um adaptação de parte da minha crónica no À pala de Walsh) e O Filho de Saul. Bons filmes.

***
 
Muito Amadas (2015), Nabil Ayouch ★★★★
O último filme de Nabil Ayouch dá a ver, sem qualquer planfletagem, um autêntico “lado B” de Marrocos, país onde os ditames da política e da religião coabitam com a prostituição, as drogas, a homossexualidade, a pedofilia, a transexualidade, a desestruturação familiar (não se vê, por um único instante, qualquer indício do “esplendor mágico” da Praça Jemaa el-Fnaa).
São tantas as faces semi-ocultas de Marrocos aqui desveladas quantas as que também existem nestas mulheres: três prostitutas, três amigas, três companheiras de casa, três pessoas como outras quaisquer a tentar sobreviver e ser felizes. Mulheres que, marroquinas no B.I., são universais nos medos e nos desejos: a Randa que se vê forçada a ter sexo com homens quando, na verdade, se sente atraída por mulheres; a Soukaina que tem de se mostrar permanentemente disponível e excitada perante os clientes mas a quem nem sempre apetece fazer amor com o namorado; a Noah que de dia anda de jilbab em público e à noite faz uso das mini saias a que a profissão obriga. Se Les Demoiselles d’Avignon (1907), de Picasso, foi o propulsor do cubismo enquanto estética e técnica que fez da captação dos múltiplos ângulos, planos, formas e volumes do objecto a sua marca distintiva, então, podemos olhar Muito Amadas como um filme profundamente cubista, nessa multiplicidade angular convergindo a demonstração de admiração de Nabil Ayouch para com a mulher marroquina – toda, sem excepção. Que Loubna Abidar, a actriz principal do filme, tenha entretanto emigrado para França em virtude de um ataque cometido por um cobarde e miserável grupo de homens numa rua de Casablanca (tendo, alegadamente, os hospitais e a polícia locais recusado acolhê-la nessa sequência) só diz bem do atual estado das coisas num país muçulmano que nos habituamos a enunciar como um caso de sucesso em matéria de democracia e direitos humanos.
 
O Filho de Saul (2015), László Nemes ★★★★
A certa altura, um prisioneiro exasperado com o comportamento arriscado de Saul pergunta-lhe: “Mas tu queres morrer ou quê?!”. A resposta vem serena e desinteressada: “Nós já estamos mortos”. É um diálogo, passe a redundância, “de morte” e que sintetiza a matéria tratada neste filme de “zombies”, primeira longa-metragem do húngaro László Nemes, ovacionado em Cannes 2015 pelo testemunho dos últimos dias de um Sonderkommando – prisioneiros judeus que gozavam de um estatuto especial temporário, executando algumas tarefas logísticas e com isso adiando um pouco mais a sua própria eliminação – em Auschwitz, Outubro de 1944. Filme de horror, sim, mas um horror “materialista”, terreno, bem palpável, que dispensa, portanto, espíritos, fantasmas ou monstros (pelo menos os desprovidos de forma humana…), para nos relembrar que os homens são, ou podem ser, os piores pesadelos de si mesmos.
Nemes filma de câmara à mão (ou ao ombro), quase sempre nas costas do espantoso e muito bressoniano Géza Röhrig (o actor que interpreta a personagem de Saul), deliberadamente reduzindo a profundidade de campo e, com isso, a visibilidade do espectador para os espaços e macabras actividades por que Saul vai passando. É na sugestão e na insinuação, por isso, que fica todo o horror que se advinha, provando que o “indizível” pode também ser… invisível. Nesta casa de horrores em que os interlocutores se dirigem uns aos outros sempre por “Tu!” (a carência de um nome como exemplo paradigmático da desumanização) e os corpos mortos são designados por “pedaços” (…), a máquina nazi é a tal ponto perversa que, através da forte estrutura hierárquica introduzida nos próprios sonderkommando e numa lógica de “dividir para reinar”, torna as próprias vítimas inimigas umas das outras (todos se desprezam: judeus sonderkommando, judeus “não privilegiados”, polacos, húngaros, etc.).
Terá sido Eisenhower a apelar a que se filmasse e fotografasse tudo quanto se encontrasse em Auschwitz (e noutros campos) para ninguém poder um dia mais tarde negar os acontecimentos; no filme de Nemes, o registo fotográfico é justamente um dos meios pelos quais um grupo de sonderkommando tenta reagir (enviando fotografias do campo para os Aliados para provocar mais rapidamente a sua intervenção), podendo o filme ele mesmo ser visto, neste sentido, como um resistente gesto contra o esquecimento (sobretudo em tempos conturbados em que os fascismos saiem definitivamente da casca e já ganham eleições).
Um outro atributo magnífico do filme é o tratamento de som, aqui dotado de um papel tão ou mais importante que a própria imagem, de alguma forma revelando, no seu pormenor e no seu rigor, o que esta (a imagem) não mostra (os ruídos dos fornos em funcionamento e das limpezas dos mesmos pelos sonderkommando, os passos nos corredores, os documentos a serem queimados); os diálogos das personagens, por sua vez, sempre sussurrantes ao ponto de não se perceber quem fala e com quem, criam uma atmosfera geral de surdina, como se a palavra falada fosse o ultimo sopro de vida possível no inferno. E o sorriso final de Saul, o único do filme, não tem, ao contrário do que pode parecer, nada de alucinado: é a lúcida certeza, apesar de tudo, no futuro, no que as crianças, homens e mulheres de amanhã, poderão fazer para a mudança. É esta, por isso, uma estreia auspiciosíssima que deixa grandes expectativas para o próximo filme de Nemes.
Ficou no carro, deliberadamente esquecido. "Esqueci-me dele no carro, mas trago-to da próxima", fórmula que serve quer para o caso em que me arrependo de não o ter levado, quer confirme o despropósito que seria, afinal, levá-lo. Estupidamente ou não, ficou no carro, virei a cara do miúdo da capa para baixo e saí para a rua.
 
Na dúvida, protegemo-nos, reús cuja única culpa é a de termos um passado.
Porquê que não lhe cheguei a emprestar o filme?


 
(Les plages d'Agnès, 2008, Agnès Varda)

terça-feira, 29 de março de 2016

A noite já estava instalada e ele aproximou-se, trôpego, bêbedo, desarmado. Estava com uma amiga, talvez uma namorada. Pediu-me um isqueiro e, depois de acender o cigarro, puxou do maço. Tirou de lá três ou quatro cigarros e ofereceu-mos. Disse-lhe que não, que agradecia mas que não era preciso, e, de repente, já tinha os cigarros na palma da mão. "A noite ainda vai ser longa, vais precisar destes cigarros", lembrei-lhe. Sorriu e sacou de mais quatro ou cinco cigarros do maço que voltou a pôr na minha mão. "Bom, sendo assim, ficas com o isqueiro para ti, parece-me mais justo", foi o que me saiu. Despedimo-nos e, já ao fundo da rua, ouvi-o dizer para a rapariga: "Vês, o pessoal do Porto é assim, por isso é que eu gosto do Porto...".
As pessoas são previsíveis. Termina um ciclo e retomam-se velhos hábitos. O mal não está na retoma, o mal está, precisamente, no abandono prévio desses hábitos. Quando a eles se volta, a vida ganha um gosto amargo, um sabor a simulacro. A fastio. Mas e daí? É só mais um ciclo. Até ao próximo. Até que o termo "hábito" deixe de fazer sentido. Será nesse momento que deixamos de ser previsíveis?

segunda-feira, 28 de março de 2016

Crítica - "OPROCESSO" (2016)



A minha crítica ao álbum OPROCESSO (2016), acabadinho de sair, já pode ser lida no Rimas e Batidas. Não chegando a ser portentoso, é um álbum sólido vindo de dois rappers que muito aprecio (se bem que por razões muito distintas).

Para ler aqui (clicar).

"A diferença de abordagens de BWJ e Blasph de que falámos atrás, e a forma como elas encaixam sem estranhamento, são visíveis, por exemplo, nos temas envolvendo mulheres, casos de “Eu & Tu (Yeah)” e “Vulcânica”. Em ambas, ao tom glicodoce e sonhador de BWJ (na senda, por exemplo, de “Mega Cúmplices”), Blasph contrapõe o olhar desconfiado e amargo de alguém que, embora encantado e predisposto a apaixonar-se, mantém  uma certa “distância de segurança”, própria de quem, receando magoar-se, está sempre pronto para dar a fuga (...). Era assim na hipnótica “Eu Sei o Kek Tu Keres” (Frankie Diluvio Vol. 1), onde Blasph, depois de se apaixonar e ser rejeitado, acabava a roubar o Macintosh da miúda, e é também assim em “Eu & Tu (Yeah)”, onde, depois do flirt inicial que promete muito, acaba a adverti-la (...)".

[Excerto]

domingo, 27 de março de 2016

O mais engraçado nem foi o espantoso conjunto de coincidências que, no espaço de uma, duas horas, se sucederam; foi, na sequência de uma delas (um reencontro quando já nada o fazia prever), essa breve conversa envergonhada, olhos nervosos a alternar entre os olhos do outro e o chão (oh, como reparamos em pormenores dos sapatos nesses momentos!), sobre livros. Então estudas História? Eu? Não, e tu? Ah, eu também não...! E só não se riram muito pois, embora fosse o que lhes apetecesse, o embaraço da situação falou mais alto, como se, de repente, o que já fazia pouco sentido deixasse absolutamente de o fazer. Ou talvez não, talvez tenha sido aí que as peças, de alguma forma, se juntaram.

sábado, 26 de março de 2016

Vulcânica


"Vulcânica" (c/ Maura Magarinhos), álbum OPROCESSO (2016), Beware Jack e Blasph (a minha crítica em breve no Rimas e Batidas). 


"Bem mais do que tudo
o que tu achavas saber
na sedução, o homem é peão
e sai quase sempre a perder
É um jogo que não é para ser jogado a dois
de boa esposa a viúva negra
que só ama para matar depois
Sem armas, não usamos balas
só damos uso à silhueta
enquanto se espera suavemente
viramos quimera numa ampulheta
Agora conta quanto tempo vai levar
para eu passar de engatada a amada
será que tinhas bem essa noção
quando então a tua boca era falada?

Fria e orgânica
Julieta doce e vulcânica
E assim será sempre
mulher que finge que sofre e mente

Fria e orgânica
Julieta doce e vulcânica
E assim será para sempre
homem que finge estar contente

Fria e orgânica
Julieta doce e vulcânica
Joga-te tal e qual tarot
faz de ti o seu zodíaco

Fria e orgânica
Julieta doce e vulcânica
E é assim com cara de santa
e olhar demoníaco

Cuidado com a vulcânica
É fria e orgânica
Cuidado com a vulcânica..."

quinta-feira, 24 de março de 2016

AlWasta


AlWasta (2016): o novo EP do homem do ano de 2015, a prolongar a grandeza de The Good Fight. Só o início, com "Asked About You", é de bradar aos céus.

quarta-feira, 23 de março de 2016

Phife Dawg



Foi um dos maiores rappers e um dos responsáveis pela meu amor com o hip-hop e com Nova Iorque (ou, pelo menos, com uma certa Nova Iorque, esta de "Electric Relaxation"). Um dos membros daquela que, se tivesse que escolher, seria provavelmente a minha banda predilecta, os A Tribe Called Quest. Que descanse em paz.

Crítica - "Frankie Diluvio Vol. 1" (2013)



Na semana em que é apresentado OPROCESSO, o aguardado álbum em conjunto de Beware Jack e Blasph, o Rimas e Batidas publica a minha crítica a Frankie Diluvio Vol. 1, primeiro álbum a solo de Blasph editado em 2013 (o texto foi originalmente publicado, em Agosto 2013, no sítio Rua de Baixo).

Para ler aqui (clicar). Em breve será também publicada a minha crítica a OPROCESSO.

"Frankie Diluvio… notabiliza-se, sobretudo, para além da mestria na punchline (há coisas que só mesmo Blasph sabe cuspir com obscenidade e classe em doses iguais), pela recuperação, em termos sónicos, do G-Funk com que Dr. Dre, nos idos de 90, revolucionou o hip-hop a partir da Califórnia, dando à luz a sonoridade com selo west coast (e que Dâm-Funk tem vindo a reciclar com o seu sedutor electro-boogie): samplagem do funk endiabrado tocado por gente como os Parliament e os Funkadelic (igualmente audíveis nos álbuns de alguns dos seu mais famosos membros, com George Clinton e Bootsy Collins à cabeça) acompanhada por baixos a rebentar pelas costuras (fat bass, não há melhor forma de o dizer), e, como pedra de toque, finas linhas melódicas tecidas pelos então inovadores – ao menos no mundo do hip hop em sentido estrito (a bem dizer, os Kraftwerk já lhes tinham dado bom uso antes) – sintetizadores, a que Timbaland e companhia deu novos contornos, muitas vezes de mau gosto, no hip hop da primeira década dos anos 2000".
[Excerto]

All she talkin' bout is come and see me for once

sexta-feira, 18 de março de 2016

Sam The Kid: a arte superior de um contador de histórias (Parte III)


Fotografia: Vera Marmelo

Foi publicada hoje a terceira e última parte do meu extenso artigo sobre o storytelling de Sam The Kid.

Com a publicação desta última parte, fecho, por agora, a minha homenagem àquele que é o artista que mais me acompanhou na minha vida até esta parte. Na viagem de metro até à angustiante Faculdade de Economia (como é que se permitiu que os interiores de uma faculdade fossem todos pintados de preto?!); na viagem de ida e volta de carro com o meu irmão (tão pequeno que ele era, porque é que também foi?) até Coimbra para o funeral do pai da Inês; em tantas outras viagens de carro a sítios dos quais guardo boas e más recordações (e como ele era importante no regresso dos sítios onde não fui feliz...); tardes que o fiz ouvir ao meu pai, para o tentar convencer, sem grande sucesso, do enorme artista que ali estava (mas o amor com o meu pai também se faz, sempre se fez, disso, do choque e da discussão); amigos e namoradas a quem o passei, muitas vezes se consolidando cumplicidades que já se haviam insinuado; num interrail, em 2007, a ouvir, um phone no meu ouvido e outro no do Pti, a "A Diferença" mil vezes em loop; festas e mais festas onde tantas vezes fui dizer o nome dele ao DJ; concertos e mais concertos onde o vi, como aquele numa Queima do Porto, eu e o Henrique para lá de bêbedos a cantar "A partir de agora!", ou aquele no Rock in Rio com o Eva e o Coelho, ainda com o Snake, tronco nu e boxers de fora, ao seu lado (que descanse em paz); quando perdi um carro num insólito e uma das primeiras preocupações que tive foi a de conservar e secar a caixa e o booklet com as explicações do Pratica(mente); o Tavares e eu, 4 ou 5 da manhã no carro em baixo do prédio, a sacar, palavra por palavra, a letra toda da "Placas"; a primeira vez em que peguei num cd dele, o Sobre(tudo), na casa da Mimi na Murtinheira, o Marçal a dizer-me "ouve isso, puto, este gajo é do caraças..." (que pena o Marçal agora estar completamente desligado da cena...); ... Enfim, tantos e tantos outros momentos, bons e maus, em que sempre tive a voz dele na minha cabeça a ressoar um monte de coisas, dando o mote ou a palavra certa para o que estava a sentir ou precisava de interiorizar...

A certa altura, senti que escrever este artigo era como cumprir um dever comigo mesmo. Espero que o resultado final seja do agrado de toda a gente que se sente tocado pelo génio do Sam The Kid - Kid, sempre.


Para ler: Parte I, Parte II, Parte III.

"Nas duas canções que temos vindo a analisar, o que temos é um clímax marcado por uma conclusão mais ou menos trágica, em todo o caso passando ao ouvinte uma lição de moral – não de moralismo, entenda-se –, na melhor tradição do conto tradicional. Em “6 Ta Feira”, a moral é, no fundo, a subjacente ao adágio “quando a esmola é grande, o pobre desconfia”, no sentido em que Janice se fez oportunisticamente passar por interessada em ter um affair com o narrador quando, na verdade, apenas está interessada em ficar com o seu trabalho. Há, aqui, reminiscências de outro célebre storytelling de STK, “O Recado”, mais precisamente, no jogo de valores implicado no comportamento da personagem de Janice: STK confiou nela (Confiança), mas ela só lhe queria roubar o seu trabalho (Ganância), o que faz com que STK a despreze e a insulte (ele “perde-lhe” o Respeito)".

[Excerto]


L'ombre des femmes (2015), Philippe Garrel

quarta-feira, 16 de março de 2016

está no altar



"A vontade", álbum A Vontade Superstar (2012). Bruno Morais.

Sam The Kid: a arte superior de um contador de histórias (Parte II)



A segunda parte do meu artigo já pode ser lida no Rimas e Batidas (clicar).

"Note-se que, ao contrário do que é habitual, em que são os homens que se prontificam a pagar bebidas às mulheres (para ser cavalheiros mas, também, para as fazerem “soltar-se” um pouco mais…), em “6 Ta Feira”, é Janice quem põe o narrador “a beber bebidas pesadas (Já ‘tou crazy)”, com o objectivo interesseiro de o alcoolizar e, assim, conseguir o seu propósito, o qual, no caso, não corresponde ao que habitualmente é perseguido pelos homens (o contacto físico e, desejavelmente, uma noite de sexo), mas sim o de lhe sacar os instrumentais (...). (...) A inversão de papéis referida, com a mulher a tentar “embebedar” o homem, é o primeiro indício da posição de fragilidade e dominação em que o narrador, homem, se encontra, questão mais explícita no papel do carro enquanto meio de deslocação, como veremos adiante".

[Excerto]

terça-feira, 15 de março de 2016

Artigo - Sam The Kid: a arte superior de um contador de histórias (Parte I)

Fotografia: Ricardo Miguel Vieira

No ano em que se contam 10 anos desde o lançamento de Pratica(mente), o Rimas e Batidas iniciou hoje a publicação de um artigo que escrevi sobre Sam The Kid e o storytelling. Trata-se de um artigo com alguma extensão, cuja publicação prosseguirá na quarta feira (segunda parte) e na sexta-feira (terceira parte). O título: "Sam The Kid: a arte superior de um contador de histórias".

A primeira parte pode ser lida aqui (clicar) e consiste, digamos, numa breve "introdução geral" ao storytelling no hip-hop e ao de Sam The Kid em particular, quanto a mim dotado de características específicas que o tornam único. Na segunda e terceira partes, irei descer ao concreto, analisando várias das suas canções, tendo como tema ou ambiente comum a noite e o jogo de sedução com uma mulher. Boas leituras.

"Não é um storytelling, digamos, convencional, em que ouvimos uma história bem contada do princípio ao fim. Mais do que um fio narrativo, estão constantemente a ser introduzidos descrições de movimento, tempo e espaço, acompanhadas de apontamentos introspectivos, ora irónicos e humorísticos, ora graves e carregados de um sentido moral. A reflexão subjacente a esses apontamentos – e o tempo, a lentidão lhe está associada – contrasta, pois, com a aceleração ou “imediatividade” do que se está a passar, dessa forma quebrando-se a distância entre narrador e ouvinte, no sentido em que o primeiro, quando os faz, deixa de estar imerso no ambiente descrito e passa a ser um sujeito consciente e reflexivo – um espectador (cinema, uma vez mais) – como nós, ouvintes. Ele é narrador e voyeur, e a sua narração a “janela indiscreta” hitchcockiana que permite ao ouvinte, como a James Stewart em Rear Window (1954), observar, a par e passo, os movimentos (e os segredos) do narrador e dos terceiros que com ele se cruzam".

[Excerto]

sábado, 12 de março de 2016

depressão


(Merrily We Go To Hell, 1932, Dorothy Arzner)


A certa altura do filme, fala-se em "depressão" como coisa ancestralmente ligada à desilusão amorosa. Nesse momento, ouve-se uma personagem dizer, muito espirituosamente, que uma bela depressão é aquela que Sylvia Sidney tem nas costas (é, para mim, a mais doce e mais bonita das actrizes de Hollywood dessas décadas, de tal forma que sempre preferi não investigar muito sobre a sua vida para não lidar com a provável postura de diva arrogante na "vida real"). Podia ter sido o Lubitsch a filmar esta cena, mas não, o touch, aqui, é mesmo de uma mulher, uma das raras realizadoras a filmar durante a golden age de Hollywood. É essa depressão, elegantíssima como tudo o que existe em Sidney, que se vê na imagem acima. E o que Dorothy Arzner faz com a luz e a sombra nessa depressãozinha (olhem, olhem outra vez), nessa covinha de pureza e carnalidade, é algo tão comovedor como o que Fritz Lang fez com a mesma Sidney nesta cena (aos 10 minutos e 5 segundos).

terça-feira, 8 de março de 2016

sex with riri



"Sex With Me", álbum Anti (Delux edition, 2016). Rihanna.

Amazing. Ela di-lo e eu não tenho qualquer espécie de dúvida.

domingo, 6 de março de 2016

Crítica - "Gelo"



Vi Gelo, de Luís (pai) e Gonçalo (filho) Galvão Teles, na abertura do Fantasporto, tendo o filme estreado na passada quinta-feira. No À pala de Walsh, escrevo sobre o porquê de não ter gostado do filme, nomeadamente, sobre as (acentuadas) fragilidades que aniquilam alguns dos seus pontos interessantes.

Para ler aqui (clicar).

"Na primeira aula a que Joana vai, ouve-se, a certa altura, o professor dizer que, no cinema, “primeiro vem a prática, só depois a teoria”. No caso de Gelo, porém, a impressão que fica é exactamente a oposta, no sentido em que, primeiramente, se aposta bem alto na “teoria” (citando-se máximas de Billy Wilder e John Ford) para, depois, se aplicar mal os conhecimentos “no terreno”. Essas citações de Wilder e Ford, referências do “cinema narrativo” que pai e filho apreciam, redundam num gesto solene que, se no momento em que é manifestado, até tem o seu sentido, soa, terminado o filme, bastante artificial e, fundamentalmente, desajustado por relação ao que se acabou de ver (é o risco de toda a citação). Se é certo que, em tese, como diz o professor, “todas as histórias são possíveis” (a frase ganha ainda mais peso, e mais risco, por ser pronunciada por Gonçalo Galvão Teles, co-realizador), não menos o é que o ponto fundamental está não tanto nessa infinitude de possibilidades, mas no modo como elas (histórias) são contadas".

[Excerto]

sexta-feira, 4 de março de 2016

teoria do tempo

Atrás de mim, no passeio, um rapaz com o filho às cavalitas perguntava-lhe em tom de contador de histórias: "então, o que é o ontem?". O miúdo ora se ria, ora ficava sério, embaraçado por já não se lembrar da resposta que o pai lhe havia ensinado segundos atrás. Nova explicação. "Então e o que é o hoje?". O mesmo. "E, agora, o anteontem, o que é, quando aconteceu?". O miúdo nunca sabia responder, embora agora suspeite de que era apenas por vontade de continuar a ouvir a voz protectora do pai que lhe chegava lá em cima onde ele estava, quase no céu, vendo todos cá em baixo, esse desejo de criança de ser "grande". Mas não, ser grande tem esse inconveniente de sabermos, com muita precisão, demasiada, o que é, ou o que foi, o ontem e o hoje.

Tarkovsky (2)




O video da Conversa À pala de Walsh sobre Tarkovsky já está disponível. Pode ser visto aqui (clicar).

A realização é da Catarina David.

quinta-feira, 3 de março de 2016

I wish I had someone else's face #2: Les Demoiselles de Marrakexe

 
 
A segunda edição da minha crónica I wish I had someone else's face parte de uma história sobre o meu amigo Gui e uma prostituta portuense para falar do Much Loved do Nabil Ayouch, que estreia hoje em sala, um filme fundamental sobre Marrocos e a mulher marroquina.

Para ler no À pala de Walsh.
 
 
"Se Les Demoiselles d’Avignon (1907), de Picasso, foi o propulsor do cubismo enquanto estética e técnica que fez da captação dos múltiplos ângulos, planos, formas e volumes do objecto a sua marca distintiva (e disruptiva relativamente aos cânones artísticos até aí prevalecentes), então, podemos olhar Much Loved como um filme profundamente cubista, nessa multiplicidade angular convergindo a demonstração de admiração de Nabil Ayouch para com a mulher marroquina – toda, sem excepção".
 
[Excerto]

quarta-feira, 2 de março de 2016

Entrevista - Layla Alexander-Garrett



Tive a oportunidade e o prazer de entrevistar a Layla Alexander-Garrett, colaboradora de Tarkovsky (sobretudo na rodagem d' O Sacrifício) e autora de alguns livros e artigos sobre a sua obra. Para quem não sabia que era possível "rebolar a rir" numa conversa com Tarkovsky, vai, creio, gostar de ler a agradável e calorosa conversa que tivemos.

A entrevista pode ser lida no À pala de Walsh.

«Tarkovsky era uma pessoa muito charmosa, que encantava toda a gente (...). Mas quando a rodagem de Offret começou, começaram também os problemas com Sven Nykvist [director de fotografia e colaborador habitual de Ingmar Bergman], porque o Andrei era, por vezes, um pouco insensível. Estava sempre a saltar para a frente da câmara, a filmar, a controlar a mise en scène, tudo. E, de repente, dizia simplesmente: “agora é para filmar!”. E o Sven dizia: “mas eu ainda nem vi o ensaio!”. Sven estava um bocado chateado, sentia como se o Tarkovsky lhe quisesse roubar a sua função. Eu traduzi isto para o Andrei e ele pediu imensas desculpas e disse que não queria incomodar ou magoar o Sven, mas que não conseguia ver o filme apenas através da câmara. Era a única forma de ele conseguir observar a composição, a mise en scène, o movimento dos actores – eu chamar-lhe-ia de “coreografia”, o modo como ele coreografava o movimento dos actores durante o plano, de uma forma nunca estática».

[Excerto]