domingo, 31 de julho de 2016

Agosto



"Vício Chave", EP Projecto de Sábado à Tarde (2009). Roulote Rockers.

quarta-feira, 27 de julho de 2016

Artes Entre As Letras #13 - Em defesa de "Love"

 
 
 
Quanto aos filmes eróticos ou pornográficos, sem ser um espectador apaixonado pelo género, penso que constituem uma expiação ou, pelo menos, uma dívida por saldar com os sessenta anos de mentira cinematográfica sobre as coisas do amor. Faço parte dos milhões de leitores de todo o mundo que a obra de Henry Miller não só seduziu como ajudou a viver, sofrendo eu então com a ideia de que o cinema continuava tão atrasado em relação aos livros de Henry Miller quanto à vida tal como ela é. Infelizmente, ainda não consigo citar um filme erótico que seja o equivalente de Henry Miller (os melhores, de Bergman a Bertolucci, foram filmes pessimistas) mas, afinal, essa conquista da liberdade é bastante recente para o cinema e devemos igualmente considerar que a crueza das imagens levanta problemas bem mais bicudos do que a das palavras.

François Truffaut, Os Filmes da minha vida, Orfeu Negro, 2015, p. 20.
 
*
 
Há tempos, falei aqui desse "Em defesa de..." que o último filme do Gaspar Noé tinha suscitado em mim perante  o ataque generalizado de que foi vítima por grande parte (mas não toda) da crítica (e do público, já agora). O prometido é devido e, por isso, no número de Julho do Artes Entre As Letras, dedico o meu espaço a escrever - mais longamente do que o habitual - sobre Love. Como é evidente, o meu desejo não é "convencer" ninguém de nada ou mostrar o que está "certo" e "errado" sobre as leituras que se podem fazer do filme. Além de naturalmente respeitar quem desgoste ou mesmo odeie o filme, o meu desejo é, sim - o mesmo desejo, aliás, comum a todos os filmes sobre os quais escrevo -, contribuir para o debate sobre um dos filmes que mais me impressionaram nos últimos tempos.
 
O Artes Entre As Letras suspende as suas publicações em Agosto e volta em Setembro. Boas leituras e bons filmes.
 
 
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Em defesa de Love (2016), um filme de Gaspar Noé ★★★★
 
"Há tempos, referimo-nos, neste mesmo espaço, a uma tendência no seio de uma certa crítica em mal-tratar, por tudo e por nada, justa e injustamente, quase “por desporto”, dois cineastas contemporâneos, de seu nome Alejandro Iñarritu e Paolo Sorrentino (de quem, de resto, nem sequer somos especiais admiradores). A mesma tendência é possível observar, no campo do cinema dito psicadélico, sexual e “explícito”, com Nicolas Winding Refn e Gaspar Noé, autênticos “sacos de boxe” da crítica, tendo o último filme de Noé, polémico até mais não, sido objecto já de diligente tareia por parte da esmagadora parte dos nossos colegas. Como tantas vezes acontece com a crítica (cinematográfica ou não), o culto de ódios de estimação tem como efeito típico o de fazer com que o crítico, ansioso por iniciar o exercício de flagelação, se esqueça, hélas!, de olhar para o que os filmes têm lá dentro, seja por preguiça, inépcia, maldade ou, simplesmente, para seguir a tendência do momento (fazer crítica também é, sempre foi, um acto de coragem, sobretudo em tempos de unanimismos autoritários como são os nossos).
 
Um amigo que recentemente passou por uma experiência amorosa difícil confidenciou-nos que tinha achado Love um filme “perigoso”, no sentido em que talvez só pudesse ser devidamente apreciado (positiva ou negativamente, é irrelevante por agora) por alguém que se encontrasse emocionalmente estável. É um pensamento que indicia a carne de que se faz um filme como Love: a ilustração, autêntica e visceral, pungente e sincera, do amor como um sentimento radicalmente ambivalente, um afecto “extremista” capaz do 8 e do 80, de nos levar ao paraíso e ao inferno (por vezes em segundos…), pulsão shakespeareana de vida e morte. Aliás, olhando-o (ao amor) como essa parábola maldita e, por isso, disforme e contraditória, como não colocar a derradeira pergunta: será que o amor, de facto, existe? Ou será ele, antes de tudo, como uma personagem dizia em A Academia das Musas (o último filme de José Luís Guerín), uma “invenção literária”?
 
Love é a história de um casal e, como tal, necessariamente uma história de amor e de sexo, este último figurando aqui, mais do que nunca, como sexo-dependência, como o último elemento que, por vezes, segura uma relação, o aditivo que duas pessoas, por mais que racionalmente se queiram separar uma da outra, não conseguem largar. Por isso é que, contra aqueles que criticaram a reprodução alegadamente repetitiva e gratuita de cenas de sexo a partir de certa altura do filme, importa lembrar que tais cenas – isto é, o lugar e o sentido de tais cenas – são, em rigor, consequência de uma montagem inteligente e sintonizada com a “narrativa” própria das relações de amor: na verdade, essas cenas têm lugar após Murphy e Electra (Aomi Muyock, talentosa e lindíssima actriz de quem é difícil não ficar a pensar nos seus olhos para o resto da vida) terminarem pela primeira vez a sua relação e se reconciliarem, passado pouquíssimo tempo, de modo precipitado e titubeante (não é assim na vida?). Em rigor, até esse momento, as cenas de sexo alternam, de forma natural, com outras cenas, justamente porque essa é uma fase (relativamente) estável da relação; é, pois, na iminência da separação, da perda do outro, do abismo de “ficar sozinho” que o sexo-dependência vem violentamente à superfície e os cérebros não encontram outra solução senão a de ordenar aos corpos que se voltem a encontrar, senão a de fazer do prazer a única (mas artificial) salvação – e isso por mais que Murphy e Electra saibam como aquela relação não tem solução, como, no fim do dia, o estarem juntos só é pior, como a separação seria a opção mais sensata e saudável (não por acaso, o casal volta, pouco tempo depois, a separar-se definitivamente). Por outro lado, sendo o filme oferecido ao espectador de um ponto de vista declaradamente subjectivo (a narração, em off, por Murphy), a omnipresença do sexo no filme justifica-se pela sua omnipresença no pensamento do próprio Murphy: quão real é a circunstância de, quando recordamos uma pessoa que amámos no passado, nos lembrarmos também – senão sempre –, além de frases, lugares, gestos ou cheiros, do sexo com ela? E quão mais intensa não é essa memória quando se está, como Murphy, na mó de baixo, deprimido, quando se foi o rejeitado, quando se é forçado a fazer o luto de um amor perdido?
 
A narração desordenada, feita em off por Murphy, dos altos e baixos da relação passada com Electra (como “cenas da vida conjugal”) está perfeitamente harmonizada com a descontinuidade lógico-temporal das cenas que vão sendo mostradas (virtude do trabalho de montagem, novamente), oferecendo uma interpretação justamente subjectiva (porque é do interior da cabeça de Murphy que partimos e onde estamos durante todo o filme) dos acontecimentos, a qual corresponde ao confuso stream of consciousness do narrador (frases, imagens, gestos, lugares, tudo numa imparável torrente memorial), naquela que foi a forma achada por Noé para aproximar o mais possível o cinema da vida, no caso, a velocidade e a aleatoriedade dos pensamentos, da memória, enfim, da forma como olhamos retrospectivamente para os acontecimentos marcantes das nossas vidas. Quem não viu isto em Love, não viu nada e, seja-nos perdoada a desfaçatez, só ficou a perder.
 
Como Noé afirmou – e bem – publicamente, o sexo está na cabeça de muita gente durante grande do tempo, mas, ainda assim – completamos nós –, chegada a hora de o ver sem filtros no cinema, a primeira tendência é para o apupo: “pornográfico!”, “gratuito!”, “boçal!”. Manifestações que deixam latente um certo e real complexo com a visão do corpo humano como ele é e da sua dinâmica sexual. Foi assim com um incontável número de filmes na história (dispensamo-nos de fazer as citações óbvias) e, pelos vistos, ainda hoje o continua a ser. Claro que os menos (ou nada) moralistas (do público à crítica) recusarão esta ideia de si mesmos, preferindo falar do “vazio” do filme, embora esse qualificativo tenha sido utilizado precisamente como forma de enfatizar a excessiva “insuflação” do filme com o sexo (e, quanto a filmes “vazios”, o melhor da história do cinema faz-se deles: Antonioni, Kiarostami, Angelopoulos, Ozu, etc.).
 
Relativamente à “questão pornográfica”, apetece dizer que só quem nunca viu pornografia é que poderá dizer que Love é um exemplar do género. Em boa verdade, a pornografia, muito mais do que a opção pelo explícito, obedece a todo um código performativo e cénico da prática sexual, algo patente numa série de elementos, a começar nas posições sexuais (todas e mais algumas, sobretudo as malabaristas) e no modo de as filmar (os ângulos estereotipados), passando pelo tipo de corpos que as praticam (elas voluptuosas; eles musculados e altamente dotados) e as expressões (faciais, verbais) que os acompanham, terminando nos “feitos” alcançados (a duração temporal da relação sexual, a ausência de cansaço, as proezas de difícil execução, os supostos actos superlativamente “indecentes” praticados, etc.). Aliás, tanto é assim que cineastas feministas como Erika Lust, realizando filmes assumidamente pornográficos, têm procurado mudar as regras do jogo a partir “de dentro”, i.e., reformulando, a partir de um ponto de vista feminino e sexualmente paritário, a dialéctica do prazer e da praxis sexual interpretada pelos actores, por sua vez transmitida e, consequentemente, assimilada – “normalizada” – pelo espectador. Ora, nenhum dos elementos característicos do filme pornográfico acima referidos se consegue encontrar no filme de Noé. Aliás, não deixa de ser irónico que alguns dos detractores de Love sejam os mesmos que, perante A Vida de Adèle – onde a cena lésbica central, essa sim, tem muito de pornográfico (as posições sexuais e os ângulos de onde são filmadas, desde logo), voyeurista e “machistamente” fetichista (e não somos os únicos a dizê-lo; João Salaviza, por exemplo, afirmou o mesmo em entrevista) –, não tenham sentido nenhum “alarme” com o sexo. Onde muitos viram “pornografia” em Love, nós vemos verdade e beleza, vemos, acima de tudo, o amor e o sexo como eles são, as fantasias como elas são. Existem pénis e vaginas no filme? Seios, saliva, sémen? Penetrações? E o que é que existe, fora dos filmes e na vida dita “real”, senão isso mesmo? Quando, em Cannes, perguntaram a Noé sobre a noção de “transgressão” alegadamente subjacente ao filme, o cineasta deu a resposta correcta: “Transgressão? Qual transgressão?”. Porque, em Love, é da vida – e da vida na sua dimensão quase primitiva: amor e sexo – que estamos a falar, em primeiro e em último lugar.
 
Veja-se o espantoso primeiro plano do filme, um longo plano fixo de prazer mútuo entre dois amantes num quarto (quietude absolutamente impossível de encontrar num filme pornográfico), com a lindíssima música de Erik Satie (a composição para piano Gnossienne No. 1) em fundo a potenciar a dimensão fortemente pictórica (e poética) do quadro oferecido ao espectador. Dimensão pictórica, essa, transversal a todo o filme (a personagem de Electra, recorde-se, é pintora e o próprio Noé é filho de um pintor) e latente nos geométricos enquadramentos, os quais, mais do que convocadores de referências cinéfilas (Ozu, Kubrick), concorrem para a espacialidade claustrofóbica e irrespirável da relação de Murphy e Electra e, consequentemente, do filme, que, não por acaso, decorre, quase todo ele, em interiores (sobretudo a partir da primeira vez que o casal se separa). É, afinal, a mesma espacialidade “de quatro paredes”, de isolamento e reclusão do mundo, que preside a um filme como O Império dos Sentidos, por sua vez fundada nessa ideia do amor – sobretudo o amor possessivo e obsessivo, como este é – enquanto clausura física e espiritual (voluntária, claro, mas, ainda assim, uma clausura). E o que dizer do modo terno e delicado (nada “sexual” ou voraz, na verdade) como Noé filma aquele ménage à trois, momento do mais puro e inocente prazer entre três jovens a experimentar uma das fantasias sexuais mais habituais nas cabeças dos comuns mortais (é comparar com um ménage à trois num filme pornográfico e tirar as conclusões)?
 
Onde Noé macula o filme – e não temos reservas em dizê-lo – é, de facto, na ejaculação filmada em direcção ao espectador, que, além do tom de provocação óbvia (se bem que, aqui, até achemos alguma graça), parece ter sido o único pretexto justificativo para a utilização do 3D, na verdade perfeitamente dispensável (um chamariz de marketing, talvez), como dispensáveis são as brincadeiras egocêntricas e fetichistas do realizador com o seu próprio nome (decomposto em dois e atribuído a duas personagens). Mas isto – e um ou outro diálogo menos conseguido (o do “sentido da vida” quase a fechar o filme, por exemplo) – é pouco, muito pouco, para retirar valor e beleza a um filme que vive, todo ele, sob o signo de um sentimento que, desde tempos ancestrais, move os homens e alimenta fantasias, ilusões e mitos; que mói, mata, rejuvenesce, vivifica. Coloque-se agora a palavra “sexo” no lugar do nome desse sentimento e o efeito é o mesmo – é disso que fala Love".


Crítica - "Lights Out"



Entusiasmei-me tanto com a dimensão meta-cinematográfica do Lights Out (2016), filme de terror de David F. Sandberg apadrinhado pelo James Wan (produtor), que escrevi a crítica para o À pala de Walsh (clicar para ler). Para os que ainda não viram, há um prudente spoiler alert pelo meio do texto, por isso podem estar descansados.
 
 
«“Stay in the light!”, diz Rebecca (Teresa Palmer) aos polícias que tentam, ingloriamente, ajudá-la a ela e ao seu pequeno meio-irmão Martin; “Please just let the lights go out!”, implora, ao invés, Sophie (mãe de Rebecca) ao mesmo Martin quando o tenta convencer da bondade de Diana, a criatura indesejada. Logo por estes dois diálogos se intui a basta matéria cinéfila que temos em mãos para explorar a ideia-de-terror central do filme e, sobretudo, para cruzá-la com aquela que é uma das quintessências do cinema, a saber, a Luz (ou, se quisermos, a iluminação). É na escuridão que o fantasma de Diana – outrora uma criança com uma rara e extrema sensibilidade à luz (e de quem nunca vemos o rosto senão na sua versão “fantasmática” e, por isso, deformada) – assome e mata (é no escuro que o Mal se manifesta), e é na luz, pelo contrário, que ela fraqueja, que ela desaparece, que os seus malvados propósitos claudicam (é à luz que o Bem triunfa). A excepção é essa brincadeira cinéfila, esse piscar de olhos a George Lucas: o “sabre de luz” desencantado por Rebecca e que lhe permite combater o “dark side of the force” personificado por Diana».

[Excerto]

terça-feira, 26 de julho de 2016

eu, os meus amigos e os filmes

"(...) o que me importa não é fazer um balanço dos prós e dos contras, que indicasse o que nesses filmes resistiu ao tempo e o que neles se encontra já calcificado (se jogássemos esse jogo, ganharias nas calmas). O que me importa, sim, é dizer-te que, revendo-os hoje, descubro que me relaciono com eles do mesmo modo que me relaciono com alguns dos meus amigos de infância (entre eles, tu): os nossos interesses já não são os mesmos, mas – apesar dos defeitos que possamos descortinar uns nos outros – não somos capazes de fingir que não nos conhecemos para ficarmos bem na fotografia tirada por um terceiro. Até pode ser que não nos fique bem, mas – para o bem e para o mal – ainda não aprendemos a fazer de outra forma: nem eu, nem tu".
 
Belo texto e belíssima conclusão (sinto-a como se fosse minha, ainda que o Bud Spencer não faça parte do meu imaginário infantil) do Vasco Baptista Marques no À pala de Walsh (clicar).

sábado, 23 de julho de 2016

far from here



"Far From Here" (feat. Schoolboy Q), Kendrick Lamar EP (2009). Kendrick Lamar.


"You ever feel like nobody never understands you but you?
Not your momma, your poppa, only person is you
Not your brother, your sister, the only person is you
You ever feel like nobody never understands you but you?
Nobody, nobody but you
So it feels like, like it's only you"

sexta-feira, 22 de julho de 2016

só com gelo, sem limão

A Menina Rute da churrascaria ao lado de minha casa já não é a Menina Rute.

Começou por me pedir para não tratá-la por Menina, ao que eu obviamente acedi: não quero confusões com ninguém, muito menos com quem me põe picante (ou outro veneno) no frango. Menina porquê?, não tenho sessenta anos, alvitrou ela, inconscientemente formulando um dos mais engraçados paradoxos de que me lembro. E não tem, de facto, tem quase a minha idade a Menina Rute, é de Vila Real, terra do meu pai, que se meteu com ela logo da primeira vez que lá fomos, ainda eu estava em mudanças. Então como lhe chamo, homessa pelo nome, como é que haveria de me chamar. Está bem, Rute; e Rute ficou. Uns dias depois, peço uma coca-cola gelada para afogar a noitada anterior e ela diz-me: deixe lá essa coisa de me tratar por você. Deixo?, está bem, Menina, vou deixar, então. Não é Menina, é Rute, já disse! Sim, tem razão: Rute!, esqueci-me.

Há dias, cheguei passava já da hora do fecho da cozinha, e ela, lá de dentro e com olhar garoto, atira: o senhor faz de propósito para chegar a estas lindas horas, não faz? Continuei a andar como se não me fosse dirigido, ignorando-a, e desci para o andar de baixo. Passado uns segundos, ela vem ter comigo com ar ofendido, a lista na mão e uma toalha na outra, e diz-me: não me ouviu a falar para o senhor?

O Senhor está no céu, Rute, ou já te esqueceste? Uma salsicha crioula e uma cola só com gelo, sem limão, trazes-me, por favor?

A fome de Bubu



Há dias, estava a rever ao almoço um episódio do Dragon Ball Z, saga "Bubu", fase morfo-psicológica "Gordo e bonacheirão" (uma entre muitas), quando dois momentos curiosos me chamaram a atenção. O primeiro, de que já não me recordava, era o absolutamente inusitado hábito da SIC em colocar a pronúncia portuense numa série de personagens. Quais? Personagens anódinas e sem destaque, frequentemente labregas e simplórias, como civis a fugirem da cidade a meio de uma catástrofe. Depois não admira que todo um país de Coimbra para baixo cresça a utilizar expressões - essas, sim, labregas e simplórias - como "o pessoal lá de cima", "lá no Norte", próprias de um esquema mental e cultural do país  assente numa chaveta com dois únicos vectores: Lisboa e "o resto lá em cima".
 
O outro, não menos inusitado mas bem mais simbólico (e escatológico), diz respeito a toda uma sequência que começa com Bubu elevado no céu (porque as personagens voavam quase todas, as boas e as más) a inspirar profundamente e, depois, numa demonstração da sua avassaladora força, a expirar uma espécie de tornado que racha uma série de edifícios ao meio, colocando a população em pânico. Depois disto, Bubu desce até ao chão e contempla, naquele seu ar simultaneamente inocente e maquiavélico, o rasto de destruição causado pela sua brincadeira pulmonar. Não satisfeito, decide fazer uma corridinha, acelerando contra tudo o que vê à frente e aumentando o saldo de edifícios desfeitos.
 
Neste passo, já não se vêem praticamente pessoas (quase nunca se viam mortos ou feridos civis na série, simplesmente eclipsavam-se, espécie de pudor que reservava a mutilação e o sangue para as personagens principais); sobra, apenas, uma rapariguita, vistosa e de pernas e ombros destapados. Bubu, de sorriso glutão, aproxima-se dela, agora visivelmente com outras intenções que não a de a matar: ela no chão, em pânico, ele de pé, Bela e o Monstro versão urbano-apocalíptica. Bubu ensaia um tête-à-tête com ela, inclusivamente tentando dar-lhe um beijo (esticando extraordinariamente a sua boca elástica), mas ela não acede. Nisto, Bubu repara numa revista caída ao lado da rapariga, na qual pega e vê a imagem de um rapaz bonito e em forma. "É de rapazes magros que tu gostas?", pergunta-lhe, após o que esfrega a cara e ganha, magicamente, um rosto franzino. Tenta, então, novamente o beijo e leva com nova recusa. Ofendido e impaciente, decide logo o que fazer em alternativa: não podendo "comer" a rapariga como quer, transforma-a num saboroso e domesticável caramelo que, num ápice, deglute a seu bel-prazer, celebrando o banquete com uma série de piruetas de contentamento.
 
O que é engraçado aqui, além dessa dupla noção de comestibilidade (e onde o canibalismo está implícito, ainda que imperfeito: Bubu não é um ser humano), é o modo como o problema do sexo é ultrapassado: provavelmente, Bubu não sabe exactamente o que isso (o sexo) é (se soubesse, talvez o passo lógico imediato fosse a violação), pelo que a forma que encontra para substituir o seu voraz apetite sexual é transformar a mulher em comida, dessa forma se pondo - e sobrepondo - em cena dois instintos primários (o sexo e a fome) - ou, se quisermos, duas "fomes": a "alimentícia" e a sexual -, duas pulsões animais capazes de se compensar mutuamente, enfim, dois prazeres que, desde os romanos, andam de mão dadas. Ao fazê-lo, porém, Bubu acaba por concretizar aquilo a que, num primeiro momento, renunciara, i.e., matar a rapariga. Como elemento de desejo, e se tivesse correspondido à fome sexual de Bubu, a rapariga sobreviveria;  recusando esse papel e passando a ser percepcionada por Bubu como um alimento em sentido literal, a rapariga receberá o destino - o castigo - fatal. Sexo, alimentação, morte - constelação essencial à qual, para estar completa, só faltaria o último e definitivo golpe escatológico, a defecação (que tipo de excrementos se geraria a partir de um caramelo... "humano"?!).

Que mal tem?




Videoclip da faixa "Que Mal Tem?" [Sobre(tudo), 2002, um dos discos da minha vida], o qual nunca chegou a ser terminado e que, por isso mesmo, nunca chegou a ser lançado. É mais uma extraordinária incursão de Sam The Kid ao seu incalculável arquivo de memórias (música, filmagens, fotografias), o qual vem sendo desempoeirado, nos últimos tempos, através do seu novo projecto, TV Chelas, que promete ser todo um regresso ao passado. Para acompanhar avidamente.

quinta-feira, 21 de julho de 2016

curriculum vitae



(Love, Gaspar Noé, 2015)

segunda-feira, 18 de julho de 2016

the music don't feel like it did when I felt it with you



"Teardrops", álbum Conscience (1988). Womack & Womack.

"Footsteps on the dance floor remind me baby of you
(...)
When I'm dancin' 'round, remind me baby of you"

domingo, 17 de julho de 2016

Curtas Vila do Conde #8: Encontros com Realizadores + "Por Diabos"



Estive ontem à conversa no Curtas com Anabela Moreira e João Canijo, André Santos, Rita Barbosa e Gabriel Abrantes, no âmbito dos Encontros com Realizadores da Competição Nacional. Hoje, estarei a moderar o debate com Carlos Amaral, Diogo Costa Amarante e Pierre-Marie Goulet, todos eles também com filmes em Competição Nacional. Apareçam.

Deixo também aqui o meu último texto que escrevi para o festival, sobre um dos filmes de que mais gostei nesta edição: Por Diabos (2016), de Carlos Amaral.

***

Por Diabos

Que sopro de frescura e originalidade se encontra neste último filme de Carlos Amaral – que competiu no festival em 2013 com “Longe do Éden” –, uma espécie de “etnoficção” na qual a história detectivesca da busca por uma mulher desaparecida se cruza com um olhar antropológico sobre as tradições do Entrudo num vilarejo de Trás-os-Montes. O mistério do desaparecimento confunde-se, assim, com o mistério das tradições e crenças milenares associadas aos “Caretos”, assim se gerando um enorme caldeirão místico (“O diabo a quatro” é expressão que aqui assenta como uma luva) favorecido quer pelo recurso a imagens de arquivo e a fotografias da desaparecida, quer pela banda-sonora (as cordas sempre a apurar o ambiente de mistério).

À narração em off, espécie de diário da investigação, somam-se os diversos “testemunhos”, desde um historiador, passando pelos habitantes da vila e até à própria desaparecida (neste caso, em modo “epistolar”), tudo gravado numa cassete cuja fita vemos a ser reproduzida, naquele que é mais um híbrido piscar de olhos à ficção e ao documentário e uma forma de despistar, com graça, o espectador. 

sábado, 16 de julho de 2016

We are both to blame


"Take Me Back", álbum Words (1982). F.R. David.



"I never said I could be
The guy you once saw in me
I wasn't made to love you
Everyone make mistakes
We are both to blame
 (…)
Take me back where I long to be

Where the music's free
And the lights are bright"

sexta-feira, 15 de julho de 2016

quando namorarmos

Eu estava na mesa do canto e ouvi-lhe dizer
– Eu pago, deixa estar.
– Oh, não pagas nada – foi o que ouviu de resposta. 
– Anda lá – insistiu ele –, esta é por minha conta. Fui eu que te convidei, por isso...
– Não, dividimos!
A senhora do restaurante chegou junto deles com a conta e ele acrescentou
– Quando namorarmos, dividimos, por agora pago eu.
Ela pousou os olhos no chão, passou a mão no cabelo e depois sorriu – mas isto fui só eu que vi, o rapaz não se apercebeu porque estava a introduzir os números do multibanco no aparelho.

Curtas Vila do Conde #7: Vária



Sexta-feira é dia para ver, entre outros, Retrospective (2016, Salla Tykka, uma habitué do Curtas) e Pedro (2016, de André Santos e Marco Leão). À noite, depois dos filmes, também há festa.

***
Pedro
A partir da (aparente) simplicidade de um dia de praia entre mãe e filho, a dupla portuguesa prossegue na senda formal e material dos seus trabalhos anteriores (exibidos amiúde no Curtas), construindo um filme cujo silêncio global rima com os “silêncios” mal resolvidos daquela relação (o namorado da mãe, as idas à “casa de banho” do filho), tema – o da dificuldade de comunicação familiar – que já vem de Má Raça. O som, recurso magnificamente trabalhado e verdadeiramente central na composição do filme (tal como na curta Infinito, por exemplo), chega, quase sempre (com excepção da momentânea banda sonora), de elementos exteriores: a mota, o vento, o mar. Nos planos sobre o rosto adolescente de Pedro e, sobretudo, no gosto por esse rosto, ecoa uma vasta tradição do cinema português, a começar em Paulo Rocha e Manuel Mozos, passando por Teresa Villaverde e chegando a Pedro Costa (e, mais recentemente, a João Salaviza). Mas existe também essa atracção pelo corpo, a mesma de alguém como, por exemplo, João Pedro Rodrigues ou, fora de portas, Pasolini, de quem Mamma Roma faz uma aparição no plano da mãe agarrada ao filho de mota. O gag dos sapatos, determinante na narrativa, é inteligentíssimo: uns e outros a dar largas, de acordo com a liberdade que a norma social concede, aos mesmos desejos nos mesmos refúgios (o mesmo bosque, aliás, de um filme, que aqui não deixa de ressoar, como O Desconhecido do Lago, de Alain Guiraudie, ou da própria curta dos realizadores Aula de Condução).

Retrospective
Podemos falar sobre a nossa vida a partir de determinados objectos? Artista visual multi-facetada (cinema, vídeo, fotografia), Salla Tykkä – cuja obra tem sido frequentemente exibida no Curtas, tendo mesmo sido uma das autoras In Focus em 2009 – ensaia, como o título indica, a retrospectiva de uma mulher tendo como referente cronológico o material fotográfico que esta foi adquirindo, pela sua voz se ouvindo a descrição das características, funcionalidades e outras particularidades e sendo nas dúvidas que tem sobre determinados aspectos que reside uma das dimensões mais interessantes do filme, a do esquecimento e da fragilidade da memória (“foi mesmo assim?”). O registo não é biográfico no sentido convencional do termo, pelo que a narração em off diz mais sobre o material do que sobre a vida pessoal da mulher, se bem que os objectos que estimamos possam, por vezes, revelar muito sobre nós. E depois, claro, há a imagem, não apenas a da mulher a manejar o equipamento mas, sobretudo, aquela que é filmada em diferentes momentos e locais (Patagónia e Terra do Fogo), quase sempre em registo paisagístico, a espaços poético, e cuja acumulação vai, bem assim, construindo toda uma outra paisagem, “memorial” (e neste sentido sim, biográfica), tal e qual as imagens mais ou menos nítidas (o problema da fidelidade da memória, novamente) que conservamos dos locais por que passámos na vida.

Nice (2)

Lembro-me de parar em Nice pelo meio de uma viagem num Verão conturbado. 2007, 2008? Por aí, vê bem, já lá vão oito anos, quem diria. Lembro-me da desilusão que tive ao meter os pés naquela odiosa praia de pedregulhos: então e a areia? É para aqui que os actores de cinema vêm?, que raio, não sabem mesmo o que fazer ao dinheiro. Também me lembro de conhecer uma americana, muito atraente por sinal, disse-me que não sabia o que era Portugal, é em Espanha, perguntou, o fascínio que eu lhe dedicava havia uns minutos por saber que andava a viajar sozinha há um par de meses a eclipsar-se de mansinho. Já não me lembro onde fiquei a dormir, mas recordo-me de estar a comer um gelado na mesma Promenade da noite de ontem e de um miúdo com um balão ter engraçado comigo e pedir a minha atenção, os pais com o embaraço natural de o filho estar a incomodar terceiros. O gelado caiu-me ao chão quando dei uma sapatada no balão, para felicidade do miúdo, que achou tudo aquilo muito cómico.
 
As pessoas costumam dizer, nunca percebi porquê, que não devemos voltar aos sítios onde fomos felizes. Que sentido esta porcaria faz? Nenhum; eu não tenho é vontade de voltar ao sítios onde fui infeliz. Por isso, não voltei entretanto a Nice, como não voltarão, umas por estarem mortas, outras pelo medo, as pessoas que lá estiveram ontem. Não voltei pelas minhas pernas, mas acabei por lá regressar como muitas vezes me acontece com outros lugares, ou seja, através dos filmes. No caso, esse maravilhoso La baie des anges do Demy (quão ignominiosa a tradução portuguesa do filme...), solar, poético e indolente como aquele jantar da Moreau com o Mann num terraço em frente ao Mediterrâneo em que dançam, apaixonam-se e desapaixonam-se com a mesma velocidade com que a Moreau ganha e perde umas coroas no casino. E aí, sim, Nice fez-se-me feliz, fez-me feliz, acendendo-me, pese embora os pedregulhos, uma ponta de desejo em lá retornar. A ressureição de que falei abaixo passa por isso: voltar, com mais determinação do que nunca, a Nice, comer um gelado, magoar os pés no caminho para o  mar, beber bom vinho em terraços soalheiros, dançar sem saber dançar só porque podemos e temos gosto nisso.

Nice

Tinha jantado fora, junto ao rio, numa mesinha da esplanada de um restaurante muito agradável. A seguir, fui a um festival de cinema. Ver filmes, discuti-los, encontrar conhecidos, fumar um cigarro e beber uma cerveja, trocar meia dúzia de impressões. Vim despreocupadamente para casa. Estava quase a adormecer quando oiço um casal meu amigo que ia ficar a dormir em minha casa a entrar silenciosamente. Fui à porta, um abraço grande, como estás, estejam à vontade, amanhã acordo cedo mas vocês estejam à vontade, o que precisarem, bom casório. Volto para o quarto e, antes de me deitar, dou tranquilamente uma volta pelas notícias, fico a saber do que se passa em Nice.
 
O que as pessoas estavam a fazer em Nice era exactamente o que eu fiz na noite passada: conviver e divertir-se com as pessoas de quem gostavam, gozar em liberdade da comida, do vinho, do tempo, daquilo a que nos acostumámos a chamar "as coisas boas da vida". Por isso é que a barbárie de Nice é a barbárie das nossas casas, das nossas ruas, por isso é que as pessoas mortas em Nice são também as pessoas com quem estive ontem à noite. Morremos todos ontem; saibamos nós que a ressurreição se faz pela persistência, pela bravura ingénua e indefectível de continuarmos a praticar o prazer e o riso.

quinta-feira, 14 de julho de 2016

Curtas Vila do Conde #6: Vária

 
 
 
Hoje, são exibidos, entre outros, Fim de Linha (2016, Paulo D'Alva e António Pinto) e Abigail (2016, Isabel Penoni e Valentina Homem) nas competições nacional e internacional, respectivamente.
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Fim de Linha
Realizado por Paulo d’Alva (presente em edições anteriores do festival com “A noite cheirava mal” e “Carrotrope”) e António Pinto, este é um filme de contrastes: a animação e as imagens de arquivo, a cor e o preto e branco, a musicalidade (cortesia dos Dead Combo) e a mudez das personagens, o registo surrealista (predominante) e o realista (proveniente das referidas imagens de arquivo), enfim, a omnipresente – mas ambígua – noção de tempo (os inúmeros relógios que vão aparecendo simbolicamente) e a descontinuidade temporal e lógico-narrativa de todo o filme. Quebra-cabeças misterioso e intrincado para o espectador, mas não menos poético e melancólico, do filme poder-se-ia sugerir ser, todo ele, um sonho, um delírio, enfim, uma fantasia própria de uma criança que não quer crescer, ideia favorecida pela sensação de recusa da passagem do tempo (12h17m e 20h17m são as horas que, invariavelmente, os relógios apontam) e de uma certa nostalgia pela infância (o baloiço, o miúdo defronte do combóio). São várias as pistas e as “pontas soltas” interpretativas que vão sendo deixadas aqui e ali (o “Crime e Castigo” de Dostoiévski…), mas é na contemplação e não tanto na decifração que está o poder encantatório do filme (e, afinal, de toda a arte). Ao contrário do que tantas vezes se ouve, o combóio não passa apenas uma vez.
 
Abigail
Se um documentário é sempre um processo de aprendizagem para o próprio realizador, no sentido em que, à medida que vai filmando o seu objecto, o vai descobrindo e conhecendo mais aprofundadamente, este filme, presente em Cannes 2016, leva tal ideia a um inteligente grau de literalidade “visual”. De facto, num movimento simultaneamente fílmico e epistemológico de “fora para dentro” (característico, justamente, de todo o processo de aprendizagem), do exterior para o interior, as realizadoras partem de um jardim abandonado para entrar na casa de Abigail Lopes, mulher que sempre se bateu pela pacificação e convivência entre índios e não-índios e que inclusivamente viveu durante oito anos com o seu companheiro e histórico sertanista Francisco Meireles junto dos índios Xavantes da Serra do Roncador (Mato Grosso). Serra do Roncador (Mato Grosso), Xavantes da Serra do Roncador (Mato Grosso), vivendo oito anos junto a esses índiosSempre de câmara à mão, as realizadoras vão andando, literalmente, “de porta em porta” (de obstáculo em obstáculo), quase sempre no escuro, desse modo progredindo, às “apalpadelas”, na decrépita casa, cuja forma labiríntica rima com a dimensão mágica, mística, espiritual (no caso, o candomblé) de Abigail, patente nos objectos de culto e outras memórias que pululam neste “templo” improvisado. O registo documental (alternado com valiosas imagens de arquivo dos índios Xavantes nos anos 40), sendo predominante, não deixa de ser “provocado” por um ou outro elemento de ficção, desde logo a mulher (Abigail?) que a câmara vai perseguindo num jogo do “gato e do rato” no qual, à medida que mais nos aproximamos dela, mais ela nos continua a escapar (e não é assim todo o processo de aquisição de conhecimento?).

quarta-feira, 13 de julho de 2016

Curtas Vila do Conde #5: Sean Durkin

 
 
Inicia-se hoje a secção In Focus, este ano dedicada à produtora americana Borderline Films, criada e dinamizada por Antonio Campos, Sean Durkin e Josh Mond, três dos mais interessantes nomes do cinema americano contemporâneo.
 
Escrevi para o catálogo do festival sobre a curta (exibida hoje) e a longa (passa sexta) de Durkin presentes no Curtas. Bons filmes.
 
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Mary Last Seen
Com apenas 500 dólares no bolso e enquanto consolidava o argumento de Martha Marcy May Darlene, Durkin filmou esta curta aplaudida em Sundance e premiada em Cannes 2010, a qual é, a bem dizer, toda uma introdução à sua primeira longa, como que deixando as “pistas” para o que viria. Em ambas, o objecto central da atenção do americano é uma seita que vive numa comuna e o tipo de relações e efeitos que se estabelecem sobre os seus membros, outra forma de perscrutar um complexo país chamado América. De alguma forma, é como se a curta terminasse onde a longa se inicia, como se nos deixasse “à porta” desta última, literalmente: o filme termina com a personagem interpretada por Brady Corbet (o recruta de novos membros em ambos os filmes) a deixar a namorada Mary (a insistência no “M”) na sua “nova casa”. Na curta, trata-se da iniciação à seita; na longa, as consequências da estadia e a fuga.
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Com poucos recursos, Durkin consegue filmar com bastante sofisticação (alternando os planos fixos e as panorâmicas com uma câmara à mão cuja mobilidade ao estilo home video insinua a atmosfera de thriller que se confirma depois na longa) e o excelente tratamento de som contribui para a sensação de something’s wrong que desde início se pressente (o telemóvel que desaparece, a indiferença do rapaz perante esse facto…). Também à semelhança da longa, há, logo aqui, o interesse pela paisagem, filmicamente mas também programaticamente falando, na medida em que, filmando a ruralidade, Durkin vai de encontro ao coração da América tradicionalista e conservadora para questionar todo um país e sua mitologia, de alguma forma acabando por confundir o espectador ao concentrar no mesmo espaço geográfico e mitológico (a tal ruralidade) a “velha América” e as seitas com filosofias de vida aparentemente opostas (o anti-materialismo, a auto-gestão, o amor livre).
 
 
Martha Marcy May Marlene
A primeira longa de Durkin vem, na sequência da curta Mary Last Seen, reiterar o seu interesse primordial (partilhado, de resto, pelo seu colega e amigo Antonio Campos): a América e a sua história, a sua mitologia, o seu subconsciente, a sua psique. A partir da história de Martha, uma rapariga frágil e carente de afectos familiares que pensa encontrar-se consigo própria no interior de uma seita (ainda hoje numerosíssimas na América), Durkin questiona os valores, as ideias e as psicoses dessa sociedade tão complexa e fascinante como é a americana, a começar na família, passando pelo materialismo e o consumismo, o american dream, a violência e terminando na derradeira ideia de escape, de fuga – irónico o facto de Martha acabar, depois, a fugir da… seita – a uma sociedade “doente” através de formas alternativas de vida (amor livre, comunitarismo, auto-gestão, etc.).
 
Neste último particular, Charles Manson, uma das grandes “questões” mal resolvidas do século XX americano, vem indisfarçavelmente à tona, passo no qual a cultura totalitária, violenta e, afinal, de ódio que insufla muitas destas seitas é desconstruída por Durkin. A montagem paralela, narrando a acção no presente e em flashback, mais do que criar uma estrutura visualmente sobreposta (de um plano de Martha a saltar, no presente, para um lago passamos para um salto para outro lago no passado, num fluxo contínuo que corresponde ao seu fluxo mental), con-funde, deliberadamente, o presente e o passado, memória e fantasia, realidade e paranóia. Simultaneamente, esse mesmo “paralelismo” favorece e extrema a tensão entre as duas filosofias de vida em confronto, como se tudo se jogasse naqueles dois pólos opostos e não houvesse nenhuma outra opção intermédia de vida para Martha, sintoma de uma certa e real desorientação entre a população americana mais jovem (ontem como hoje).

terça-feira, 12 de julho de 2016

you I want


Siraiva, "You I Want" (feat. M. Maggie)

É nacional e não é bom, é muito bom.

Curtas Vila do Conde #4: Severed Garden


 
Hoje, entre os vários filmes exibidos, e além de alguns que repetirão e que por aqui já referenciei (casos de El Edén e Crystal Lake), o Curtas exibe Severed Garden (2015), de Gonçalo Almeida, filme que muito me entusiasmou e que deixa um lastro auspicioso para o realizador, como o meu texto para o catálogo testemunha.
 
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"Filme intrigante e prometedor aquele que Gonçalo Almeida – estreante em Vila do Conde – traz ao Curtas, um thriller onírico (e de “zombies”, embora obviamente afastado das convenções do género) sempre em contenção, sempre no limiar da loucura, sobre os receios e os traumas de uma mulher prestes a dar à luz. De sonho em sonho – de pesadelo em pesadelo, melhor dizendo –, vamos submergindo, por vezes sem saber distinguir entre realidade e alucinação (con-fusão favorecida pelo facto de a personagem principal lidar com a matéria dos seus sonhos na sua vida profissional), na perturbada psique de Sophie (Elisa Lasowski, tão talentosa quanto magnetizante, e não é só pela beleza), naquela que não deixa de ser uma abordagem freudiana às paranóias e recalcamentos que o indivíduo possui por debaixo da carapaça da normalidade aparente do dia-a-dia, e que aqui confluem para uma obsessão com a morte, aspecto particularmente sinistro e simbólico num momento em que Sophie se prepara para gerar uma nova vida.
 
Com uma fotografia magnífica e banda-sonora a condizer, Almeida filma com sobriedade e, sobretudo, com uma noção de ritmo notável, deixando o filme transpirar o ambiente espectral para o espectador e sabendo aproveitar o trabalho extraordinário da actriz principal, que, apenas com o seu rosto (mais meia dúzia de palavras e gestos), consegue encher o ecrã. Não fosse o facto de o filme abrir e fechar da mesma forma e diríamos que todo ele é um enorme pesadelo – e não será a maternidade, afinal, o pesadelo de Sophie?" 

segunda-feira, 11 de julho de 2016

Curtas Vila do Conde #3: Crystal Lake


Crystal Lake (2016, Jennifer Reeder) é um dos filmes exibidos hoje no Curtas Vila Conde, na secção Competição Internacional. A minha entrada para o catálogo do festival:
 
 
"A demanda pela self-preservation, ouve-se a certa altura, é um “act of political warfare”. É uma tirada que sintetiza a própria demanda de Jennifer Reeder – presente no Curtas 2015 com Sangue Sob a Pele – neste filme, no sentido em que a “luta pessoal” caminha par e passo com a “luta política” (individual e colectivo como faces da mesma moeda), no caso, a afirmação da mulher e a rejeição do lugar de “invisibilidade” que, historicamente, a sociedade sempre lhe reservou, seja nas posições mais tradicionais (família, poder político, poder económico), seja na circunstância tão simples como a de andar de skate. Não é por acaso que o dedo que esta menina magoa a andar de skate seja o middle finger, modo tão simbólico quanto insubmisso de fazer um “pirete” ao machismo e sua normatização em sociedade, aqui expresso também em termos plásticos (o skatepark reservado à luz do dia para os homens e à noite, na “clandestinidade”, para as raparigas).
 
A sublimação colectiva desse pirete “individual” opera-se com a rebelião feminist as fuck (como se lê na t-shirt de uma das miúdas) que, “ocupando” um skatepark (gesto político por excelência, esse o de “ocupar” um território), servirá, bem assim, de resolução interior para as carências afectivas da personagem principal. No retrato dessa viagem de auto-descoberta e superação que é o crescimento, Reeder desafia, ainda, o olhar ocidental convencional, desde logo na compatibilização que estabelece entre a afirmação feminista e o uso do hijab".

In Memoriam: Abbas Kiarostami

 
No À pala de Walsh, despedimo-nos sempre, com admiração e carinho, daqueles de quem mais gostamos. Para ler o nosso In Memoriam Kiarostami aqui (clicar).
 
 
O meu contributo:
 
"Antes de ser um apreciador do cinema de Kiarostami, já tinha dois apreciadores em casa. Os meus pais tinham um cassete VHS inglesa de Ta’m e guilass (O Sabor da Cereja, 1997) (penso que a minha mãe a trouxe de Londres quando lá estagiou, teria eu uns 8 ou 9 anos), cuja capa e sinopse me foram intrigando à medida que fui crescendo, no início um elemento puramente excêntrico para uma criança (um filme do… Irão?! Onde fica o Irão, mãe? Como são as pessoas lá?), depois um farol cinéfilo e indicador de que havia todo um “outro mundo” à minha espera, o mesmo no qual mergulhei definitivamente quando encontrei o Cineclube da Faculdade de Direito (para cuja programação uma colega minha escolheu mesmo o filme em 2012) e onde, aliás, me lembro de ouvir alguém (penso que foi o Pedro Ramires, cinéfilo da Faculdade de Economia e nosso fiel espectador) a citar pela primeira vez a famosa – e mal-entendida – frase do Godard de que o cinema tinha “morrido” com o Nema-ye Nazdik (Close-Up, 1990).
 
A segunda recordação mais nítida que tenho do Kiarostami é, novamente, familiar: no Verão de 2010, enquanto estudava para os exames, ouvia o meu pai no quarto, na sala ou à janela a entoar dramaticamente: “SHIRIN… SHIRIN… OH SHIRIN…!”. Lembro-me de a minha mãe chegar a casa e já estar pelos cabelos quando o meu pai a saudava dessa forma. Como acontece muitas vezes, a paixão do meu pai com o Shirin (2008) levou-nos a todos ao antigo Cinema Nun’Álvares (o meu pai viu o filme cinco vezes só durante o tempo em que esteve em exibição nas salas), momento em que também eu me apaixonei (não com o grau de obsessão do meu pai, ainda assim). Não sendo um conhecedor profundo da sua filmografia, a minha relação com Kiarostami é, por isso, e antes de mais, familiar, afectiva e afectuosa, bem condizente, de resto, com a extrema sensibilidade e delicadeza dos seus filmes e das suas personagens. Entre os cinéfilos, há aquele velho lamento/desejo de voltar atrás no tempo para poder ver determinado filme novamente pela primeira vez (para se apaixonar pela primeira vez, tal e qual como no amor por uma mulher); por isso, numa hora triste como esta, um pequeno oásis de alegria lembra-me que ainda há muitos filmes dele que tenho para descobrir".

POETIC JUSTICE


domingo, 10 de julho de 2016

Curtas Vila do Conde #2: Vária


El Edén (2016), Andrés Ramírez Pulido


Escrevi sobre alguns dos filmes que passam hoje para o catálogo do festival, nomeadamente, nas secções Competição Internacional e Panorama Nacional. Bons filmes.

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Accidents, Blunders and Calamities
Talvez La Fontaine nunca tenha imaginado que o registo literário que ajudou a celebrizar – a fábula – se pudesse “virar” contra os humanos, circunstância algo irónica quando estes ratinhos não deixam de possuir características antropomórficas, logo, humanas. E não será também por acaso que sejam os ratinhos os escolhidos para “personagens principais”, não fossem eles os animais historicamente mais utilizados pelos homens como cobaias em experiências científicas. Nesta animação visualmente irrepreensível, os homens são os “piores amigos” dos animais, razão pela qual o pai, na bedtime story que conta aos seus filhotes, os classifica como “the most dangerous of all”, de forma a desincentivá-los a sair da toca. Mas como viver no medo e na ignorância – a toca como a “caverna” platónica – não é solução para nada, o humor negro de James Cunningham, que aqui se inspira na obra ilustrada de Edward Gorey, acaba por veicular, na melhor tradição da fábula, a lição de moral essencial que fecha o filme. 

Retrospective
Podemos falar sobre a nossa vida a partir de determinados objectos? Artista visual multi-facetada (cinema, vídeo, fotografia), Salla Tykkä – cuja obra tem sido frequentemente exibida no Curtas, tendo mesmo sido uma das autoras In Focus em 2009 – ensaia, como o título indica, a retrospectiva de uma mulher tendo como referente cronológico o material fotográfico que esta foi adquirindo, pela sua voz se ouvindo a descrição das características, funcionalidades e outras particularidades e sendo nas dúvidas que tem sobre determinados aspectos que reside uma das dimensões mais interessantes do filme, a do esquecimento e da fragilidade da memória (“foi mesmo assim?”). O registo não é biográfico no sentido convencional do termo, pelo que a narração em off diz mais sobre o material do que sobre a vida pessoal da mulher, se bem que os objectos que estimamos possam, por vezes, revelar muito sobre nós. E depois, claro, há a imagem, não apenas a da mulher a manejar o equipamento mas, sobretudo, aquela que é filmada em diferentes momentos e locais (Patagónia e Terra do Fogo), quase sempre em registo paisagístico, a espaços poético, e cuja acumulação vai, bem assim, construindo toda uma outra paisagem, “memorial” (e neste sentido sim, biográfica), tal e qual as imagens mais ou menos nítidas (o problema da fidelidade da memória, novamente) que conservamos dos locais por que passámos na vida. 

Cabeça de Asno
O último filme de Pedro Bastos – presente na Competição Nacional de 2013 com “Ao Lobo da Madragoa” – tacteia, através do método “socrático”, a origem, o fundamento, enfim, a ontologia da imagem mediante um processo interrogativo no qual as questões colocadas em off, mais do que buscarem respostas ou soluções (ou não as buscando de todo), se consubstanciam em plataformas de compreensão possíveis que, em qualquer caso, sempre levam a novas interrogações e especulações, espécie de work in progress constante e infinito, em espiral, até à origem das origens. Nessa demanda em ritmo diarístico, são utilizados suportes diversos (com especial destaque para a utilização “plástica” da película) e sugeridos outros (o expressionismo pictórico latente na de-formação da casa abandonada), assim se trilhando um percurso poético que, partindo da memória da infância (qual a primeiríssima imagem de que temos recordação?), se dirige “para trás” (e não “para a frente”) em direcção ao ventre materno, não sem o seu quê de escatológico. Destaque, ainda, para o excelente tratamento de som, absolutamente fulcral (desde logo, por exemplo, na captação do “riscar” das paredes), a par da evocação mais literal em off (o bolor, a humidade, o mofo), para a construção do ambiente profundamente sensorial de todo o filme. 

El Edén
Se os únicos sentidos que, objectivamente, o cinema partilha com o espectador sobre a realidade filmada são a visão e a audição, o filme de Pulido – presente na secção Generation da Berlinale deste ano –, na sua extrema sensorialidade (e sensualidade), vai um passo além, fazendo-nos aceder aos cheiros (das flores, árvores) e sabores (dos frutos) deste “paraíso perdido” (éden, justamente), outrora um hotel, visitado por dois miúdos pobres sem nada para fazer numa tarde de um calor tropical (e é como se também o sentíssemos, ao calor e à humidade, na pele). É neste espaço abandonado e dominado pela natureza, selvagem como os dois miúdos de tronco nu que o tacteiam, que se escondem – e nascem… – vários segredos, do delicioso sabor dos frutos até outros mais sombrios (e há aqui ressonâncias bíblicas, claro, pois aos frutos segue-se um acontecimento marcante). Realismo, sim, mas sempre com qualquer coisa de místico, mágico (não será descabido convocar aqui a tradição do “realismo mágico”, fortemente enraizado na América Latina e cujo maior representante, Gabriel García Márquez, é compatriota do realizador), de que o título do filme é só um indício revelador. A esse Éden/Paraíso da descoberta da natureza, do silêncio, da paz, enfim, da vida, contrapõe-se o “Inferno” da violência e da morte (o simbólico escorpião), e é na sugestão de como ambos estão tão perto um do outro que Pulido, filmando os actores quase sempre em plano aproximado ou em grande plano, deixa uma fortíssima impressão. 

sábado, 9 de julho de 2016

Illa J



Grande concerto ontem do Illa J no Porto. A princípio muito desconfiado se o público conhecia realmente o seu trabalho (conhecíamos, claro!), foi-se depois soltando, exortando o nome do irmão (escusado identificar) por diversas vezes, insistindo, no diálogo com o público, na dimensão soul da sua música, fazendo passar as suas opiáceas vibrações entre a melancolia e o êxtase... Belo, belo.

Dividiu o concerto entre o Yancey Boys (o melhor) e o Cannonball em partes iguais; não tocou, apesar de eu ter pedido ("Oh, you really know my shit... Thank you, I feel happy for that..."), a minha predilecta (esta), mas tocou a "Timeless" e, por isso, eu já pude ir embora em paz.

sexta-feira, 8 de julho de 2016

Curtas Vila do Conde #1: Diamond Island

 
 
O Curtas Vila do Conde (programa completo aqui) inicia-se amanhã e estende-se até ao dia 16 de Julho. Escrevi um pequeno texto sobre o filme de abertura, Diamond Island (2016), de Davy Chou, para o catálogo do festival, filme que dialoga com a sua curta anterior Cambodia 2099 (2014), premiado no Curtas 2014. Bons filmes!
 
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"Seleccionada para a Semaine de la Critique de Cannes 2016, trata-se da primeira longa-metragem de ficção de Chou, cineasta nascido em França mas com raízes familiares no Cambodja e autor do documentário “Le sommeil d’or” sobre a “era dourada” do cinema cambodjiano dos anos 60 e 70 (praticamente varrido do mapa pelos khmers vermelhos). A longa prolonga, quer no plano formal como no material (há cenas inclusivamente filmadas nos mesmos espaços), o olhar da sua curta anterior – “Cambodia 2099”, presente na Quinzaine de Realisateurs de Cannes 2014 e vencedora do Grande Prémio do Curtas no mesmo ano – sobre o Cambodja actual (sobretudo sobre a sua população mais jovem) e suas transformações a um nível transversal: económicas e sociais, sim, mas também culturais (o lugar da família, os movimentos migratórios), urbanísticas, identitárias (extensíveis, de resto, aos restantes países do sudeste asiático). Com a profundidade que a maior duração da longa permite, Chow documenta essas convulsões a partir da história de um rapaz que abandona a sua aldeia para ir construir um empreendimento imobiliário de luxo, novo-riquista e ostentatório, na capital proto-futurista Phnom Penh. É como se, de alguma forma, o “Cambodia 2099”, i.e., a ideia (não o filme) de um Cambodja “do futuro”, se materializasse nesse dream come true do capitalismo consumista mais agressivo chamado “Diamond Island”, cuja insularidade (de “Island”) rima com o elitismo e o exclusivismo do empreendimento.
 
Os sonhos e o desejo de evasão, de um lado, o futuro e a interrogação sobre o porvir, do outro; estes são, programaticamente falando, os eixos por onde passa todo o cinema de Chow, sendo várias as “terras prometidas” a que as personagens se referem, em ambos os casos ilusões frustradas: os EUA, sim (como na curta anterior), mas também a Malásia, por exemplo (e o próprio “Diamond Island” é, metaforicamente, todo ele um “sonho em construção”). Se o pendor realista se faz notar (a pobreza, o trabalho infantil, a degradação habitacional, o choque entre ricos e pobres), no que ecoa um filme como o “Los Olvidados” de Buñuel (sobretudo nos planos dos miúdos inseridos na paisagem de “escombros” da cidade), é o registo melodramático, porém, que interessa a Chow na construção das personagens e do ambiente de “melancolia de metrópole” em que elas giram (poeticamente potenciado pelas cores e neóns nocturnos, a evocar algum do cinema americano dos anos 70 e 80), com destaque para a de Solei, o irmão de Bora que é “financiado” por um ambíguo sponsor americano e de quem uma personagem diz ninguém conhecer realmente bem (no seu mistério e penumbra trazendo à memória o irmão mais velho de “Rumble Fish”…). Se Rithy Panh tem, por todos os motivos, sido o porta-estandarte do melhor cinema cambodjiano que temos visto, Chow é, definitivamente, outro dos nomes que merece um acompanhamento atento daqui em diante".