terça-feira, 8 de outubro de 2019

Isto não é um piquenique

A convite da MICAR - Mostra Internacional de Cinema Anti Racista, estive, na sexta-feira passada, no Rivoli, num debate com Kitty Furtado após a projecção do filme "Black Panthers" (1968), de Agnès Varda. Deixo abaixo o meu texto que foi publicado no catálogo do evento.





ISTO NÃO É UM PIQUENIQUE


First ship 'em dope and let 'em deal to brothers
Give 'em guns, step back, watch 'em kill each other
"It's time to fight back," that's what Huey said
Two shots in the dark, now Huey's dead

(“Changes”, LP Greatest Hits, 1998, Tupac Shakur)


            Está um daqueles dias de Agosto que costumam ficar para os anais de nenhuma história que não a nossa, íntimo repositório das lembranças de infância que nos são mais queridas: uma esplêndida tarde de sol, bravo calor que não chega para afoguear a pele, uma luz, perfeita (também para filmar), que permite a apreensão dos detalhes de cada rosto ou árvore com cristalina nitidez. Para melhorar as coisas, o calendário também foi generoso: Domingo, dia por excelência para o duro cultivo do ócio. Ao sétimo dia, diz-se, Deus descansou; ao sétimo dia, costumava-se dizer, os homens descansam.
Sorrisos, música, dança, cumplicidades. É, de facto, o que parecem fazer estes homens, mulheres e crianças, aparentemente despreocupados, nos primeiros minutos de Black Panthers, um dos primeiros – e menos vistos – filmes da cineasta franco-belga Agnès Varda (falecida em 2019), realizado já depois das longas-metragens (Cléo de 5 à 7, 1962, e Le Bonheur, 1965) que lhe reservam um lugar fundamental (nem sempre devidamente lembrado) na erupção da Nouvelle Vague e que pontua uma sequência de documentários de teor político e antropológico levada a cabo por essa altura (Salut les Cubains, 1964, ou Loin du Vietnam, 1977).
É o que parecem fazer estes homens, mulheres e crianças, dizíamos: a entrega ao ócio, naquele que é (ou era) um dos expoentes máximos simbólicos da sociedade de consumo e de lazer, hedonista, do mundo ocidental branco (o piquenique, justamente). Mas não é o caso. Ou é, em parte. Há poucos motivos para descansar, ainda menos para festejar. Por isso, trabalha-se: grita-se, interpela-se, erguem-se os punhos, discursa-se, ouvindo-se ideias de plena actualidade para os nossos dias, caso da necessidade de se reverem os currículos escolares, perfeitamente mistificadores do passado colonial, por exemplo. Tudo por ocasião do julgamento de Huey Newton (co-fundador, juntamente com Bobby Seale, do Black Panther Party, em 1966), de quem Varda recolhe preciosos testemunhos a partir do interior da prisão onde se encontra detido. Estamos em Oakland, Califórnia, Agosto de 1968, ainda plenamente em cima dos acontecimentos de Maio de 68 ocorridos do outro lado do Atlântico, na Paris onde Varda vivia e viveu até ao fim dos seus dias.
Todavia, no filme de Varda, tal gesto colectivo (político et pour cause) só virá, deliberadamente, num segundo momento. Nos primeiros minutos, o que vemos são esses corpos em comunhão, um jardim do éden que, tal como praticamente toda a iconografia cristã, nos está – foi – plantado no imaginário mental de branco, exclusivamente branco, pintado. Mas… “This is no picnic”: as invisíveis toalhas são retiradas da relva, as arcas imaginárias colocadas ao ombro, a brincadeira, feliz ou infelizmente, acabou.

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Ao registar, através da montagem, estes dois estados de espírito distintos, Varda está, na verdade, a captar o próprio balanço – a força – da cultura afro-americana de todo o século XX, cujo efeito se fez – faz - sentir de forma transversal nas artes e, talvez especialmente, na literatura, na moda e na música (não por acaso o filme abre e fecha com música). Uma cultura dotada de um espírito profundamente resiliente, que nunca abdicou de lutar procurando – ou melhor, conseguindo procurar –, em simultâneo, o prazer e a celebração. Uma atitude combativa e militante que nunca descurou, contra todas as probabilidades (inclusivamente de sobrevivência), o ritmo, a cor, a alegria de existir. “Dançar com o punho erguido”, como ouvimos à cineasta nos primeiros minutos do filme. O que, inesperadamente, se liga, de certo modo, à forma de estar da própria Agnès Varda, cujo epitáfio bem poderia ser uma das suas mais célebres frases, por si pronunciada no auto-biográfico Les plages d'Agnès (2008): “J'essayais de vivre un féminisme joyeux, mais en fait j'étais très en colère” (“Tentei viver como uma feminista feliz, mas, de facto, tinha muita raiva”). E é também enquanto uma feminista feliz, vivaça, que surge a histórica militante Kathleen Cleaver no filme de Varda a postular o orgulho na sua cabeleira afro – “Dig it? Isn’t it beautiful”?
Mas, dizíamos, uma cultura que, constantemente pisada, humilhada, segregada, foi capaz, ainda assim, de oferecer ao mundo algumas das mais extraordinárias obras de arte que a modernidade e a pós-modernidade conhecem. Em tempos sinistros como os nossos, nos quais se volta a ouvir falar, dolosa ou ingenuamente (se a ignorância pode ser atrevida, a ingenuidade, em certos casos, também pode ser hedionda), de “culturas superiores”, nunca é tarde demais para relembrar esse extraordinário feito: uma população que, num país estruturalmente – legalmente, inclusive – organizado para a diminuir (e, por alguns sectores, pura e simplesmente aniquilar), soube, conseguiu, produzir uma tamanha riqueza cultural e humanista. Não é coisa pouca; na verdade, é admirável.
Essa é, com efeito, a primeira virtude do filme de Varda. A de, como outsider (e já lá iremos), saber colher um dos traços essenciais da cultura afro-americana: o seu pathos simultaneamente militante e festivo, combativo e, sempre, celebratório. No matter what. Como acontece, afinal, com toda a música negra americana: os blues, a soul, o funk, o disco, o hip-hop, todos eles a um só tempo hedonistas e políticos, aguerridos e foliões (e, já agora, todos eles base por inteiro da música popular forjada no século XX). Como a cabeleira afro, simultaneamente consciência orgulhosa das raízes e adereço estético de uma suprema coolness e sensualidade – é de lá que Pam Grier retira à socapa, in extremis, o revólver numa das mais icónicas cenas de Foxy Brown (Jack Hill, 1974). Aliás, só numa alegremente idiossincrática cultura como a afro-americana é que o termo “brothers & sisters” poderia passar a ter o mesmo significado do sempre tão solene “comrades”, ou que cânticos tradicionais de igreja, caso do gospel, poderiam ganhar foros de música popular para dançar – ou político-revolucionários, como o final do filme o testemunha.
This is no picnic”. Não é, mas podia ser; ao invés, “This is America”, como diria, agora, Childish Gambino: se os EUA não fossem o país abertamente, institucionalmente, enfim, “legalmente” segregacionista que eram à data do filme de Varda, as primeiras imagens que vemos bem que poderiam ser… “verdadeiras”. Mas não são, aparentam apenas o que as imagens seguintes desmentem. “This is no picnic”. O gesto de Varda é consciente: dá-nos a ver, num primeiro momento, o que não existe, o que é falso; a verdade virá logo a seguir.
Esta opção de montagem, e particular forma de construir a narrativa, tem, ademais, problemáticas imbricações com o modo como a própria Varda apresenta o filme nos créditos: “Reportage réalisé par Agnes Varda”. “Reportage”. Ora, não devemos tomar a utilização deste concreto termo como irrelevante ou não-significativa; por esta altura, Varda era já, como atrás contextualizado, uma cineasta com um percurso firmado, razão pela qual a escolha do designativo “reportagem” (em vez de “filme” ou “documentário”) levanta questões epistemológicas que não devem der subestimadas. Por que razão considerou a francesa este seu objecto como uma (mera) “reportagem” – da ordem, portanto, do jornalismo –, e não como um filme, como, enfim, cinema? Tal poder-se-á justificar pelo curto período de observação de que Varda gozou (durante o período, aliás, em que acompanhou o marido Jacques Demy à Califórnia, onde este rodava, em Hollywood, Model Shop, de 1969) ou por uma eventual intenção primordial em, de facto, informar, já que o filme tinha a televisão como destinatário inicial (e em informar, sobretudo, o público europeu, provavelmente desconhecedor, mesmo o mais instruído, dos contornos da luta afro-americana do outro lado do Atlântico e, em particular, do Black Panther Party). Pois do que se trata, de facto, é de um documento, um registo “dos factos” in real time, “em cima dos acontecimentos”, um apanhado a quente do “What’s Going On” nas ruas.
O certo é que, ao remeter o filme para a ordem do jornalismo e seus dispositivos epistémicos próprios, Varda parece estar deliberadamente a inscrever a narrativa no domínio dos factos e da informação, algo a que a voz off, na sua (pretensão de) objectividade, e a recolha de depoimentos em formato de entrevista ou vox populi, dão sequência (e que, em verdade, retiram força ao filme, porquanto o “arruma” em demasia). Uma opção, portanto, dotada de toda uma nova ressonância na actual era de fake news e “pós-verdade”, na qual uma imagem deixou, decididamente, de valer “mais do que mil palavras”. E dizemo-lo não apenas figuradamente: a imagem, ou a fotografia, como “prova” indesmentível de um facto soçobrou por completo num tempo em que pode ser livremente manipulável por qualquer pessoa de forma simples e rápida (por outras palavras, uma pesquisa criteriosa num qualquer motor de busca pode fornecer-nos a exacta imagem que pretendemos para demonstrarmos uma tese, integramente refutável, porém, por um interlocutor que mude o critério de busca: em vez de colocar “incêndio Amazónia 2019”, basta fazer a pesquisa por “incêndio Amazónia 1998”).
A isto se liga, aliás, por estranhos caminhos, o desfecho do filme de Varda, com aquela tremenda frase cujo eco se mantém na cabeça do espectador já depois de as luzes se acenderem. “Two policemen go to the Panther Party headquarters, shoot the windows, and kill the posters of Newton and Cleaver. One finds in this act the unmistakeable reminder of the magical act of killing an image (…)”. Esta solenidade, espectacularidade – “magia”, como lhe chama a cineasta – do acto de “matar uma imagem” inscreve-se, de facto, numa época em que a imagem conservava essa marca ou reputação de autenticidade, fiabilidade – logo, poder. Hoje, num mundo em que a frase “num mundo saturado de imagens” é, ela mesma, uma saturada frase, as imagens, pelo menos no espaço público e mediático, já não correm o risco de ser “mortas”, pois que elas já nascem mortas: nados-mortos que jazem em “memes”, “tweets”, infindáveis sobreposições por cima de sobreposições.

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Já falámos de Varda como outsider, como uma étrangère – provavelmente, também, uma “white radical” (o termo “radical”, sintomático do zeitgeist de então, vai-se renovando, de facto, em curiosos significados ao longo dos tempos), como ouvimos os militantes do partido referirem-se aos brancos apoiantes da causa negra (e vemos bastantes neste domingo). Por oposição aos, dir-se-ia, “black radicals”, aqueles que ouvimos Kathleen Cleaver descrever como sendo os que “rant and rave and talk about ‘Hate white people! Burn! Kill!’, passo muito importante do filme em que Cleaver empreende uma fundamental distinção entre cidadãos e instituições: “(…) separate the institutions from the citizens, the government from the people, and point out the institutions – in particular, the pigs –, the police department, the education system, the economic system, to be attacked, and do not attack the individuals because of the color of their skin”.
Mas voltemos à Varda-outsider. Que dizer, então, de um branca ocidental, europeia, que se decide a fazer um filme (ou, enfim, uma “reportage”) nos EUA sobre uma cultura que não a sua? Ou de uma mulher, americana mas branca (Kathryn Bigelow), que se propõe a fazer um filme (Detroit, 2017) sobre os trágicos, criminosos, actos perpetrados pela polícia norte-americana durante os riots de Detroit em 1967 (apenas um ano antes dos momentos registados por Varda)? Ou o que dizer de um afro-americano, de um índio norte-americano ou de um indígena brasileiro de Pedra Branca que entende pegar numa câmara (o importante, sim, é que ele lhe possa pegar, i.é, que disponha de condições e oportunidades “originais” para isso) e filmar a segregação de uma comunidade cigana num país da Europa Ocidental ou a reconstituição da tomada da Bastilha?
Nada. Ou melhor, tudo: que nesse gesto reside a essência da fraternidade e do humanismo, da empatia e compreensão do Outro, de uma genuína dinâmica de alteridade – enfim, uma coisa muito antiga (antiquada?), hoje talvez não tão cool de se dizer, chamada “amor ao próximo”. Resta saber se, nos dias que correm, um gesto, uma demanda semelhante como a de Varda seria vista com os mesmos olhos ou se, pelo contrário, seria rapidamente – epidermicamente – hostilizada, “ghettizada”, como uma intrusão “de fora”, não-autorizada, porque proveniente de um sujeito que parte de um “lugar” outro (supõe-se que o facto de ser mulher diminua o atrevimento…) – bom, de forma pouco surpreendente, foi precisamente o que sucedeu, recentemente, com Kathryn Bigelow.
57 anos depois de uma câmara ter captado este importante domingo de Agosto de 1968, em que medida exactamente releva quem a segurou? Ou de que “lugar” partiu? 57 anos depois, o que é que retemos verdadeiramente de Black Panthers, o filme? 58 anos depois, o que é que retemos verdadeiramente de Detroit, o filme? Justamente aí reside o busílis: aquilo que o espectador, o de 1968 como de 2019, retém de Black Panthers ou de Detroit é a luta, o sofrimento, a resistência, enfim, o “lado certo” da História de toda uma população secularmente fustigada pelo poder dominante branco. Não, porém, sem os seus escolhos, como é o caso da teoria legitimadora da luta armada propugnada pelo Black Panther Party – que Varda não deixa corajosamente de captar, pois que elidir esse tópico tornaria tudo bem mais simpático e consensual, sobretudo para a elite intelectual branca europeia. Se bem que teoricamente concebida, importa sublinhar, como um contra-ataque de alvo bem definido, a saber, a polícia e sua violência brutal sobre os afro-americanos (daí o símbolo da pantera, o animal que, não atacando em primeiro lugar, se defende ferozmente).
Ainda sobre a coragem de Varda, anotem-se as palavras que a cineasta não deixa de incluir no filme: “You have to take a gun to be a revolutionary. It is because they are an endangered minority that the Black Panthers have to affirm themselves so violently and declare war on their immediate enemy: the police. (…) We have to put a shotgun in every door! From door to door, from Black to Black, from community to community, from city to city, from state to state, across this racist nation!”. E logo nos vem à memória o footage do debate repescado em I Am Not Your Negro (2016, Raoul Peck) protagonizado por Malcolm X, Luther King e James Baldwin (um debate, diga-se, cuja elevação e sofisticação intelectuais é coisa rara, senão impossível, de assistir na televisão contemporânea). O primeiro acusando o segundo de se comportar como uma espécie de “Uncle Tom” aos olhos dos brancos (numa alusão ao célebre romance Uncle Tom's Cabin, 1853, de Harriet Beecher Stowe, tido como um dos grandes motores teóricos da causa abolicionista) e Luther King retorquindo, num passo extraordinário, comovente mesmo, que a opção não-violenta implica, no limite, estar na disposição de ser receptáculo da violência do Outro (ecos de Gandhi, naturalmente).
 Uma argumentação (a da legitimação da via armada) que por sua vez legitima a concepção de uma espécie de um “estado de guerra”, num dos outros momentos “teóricos” mais marcantes do filme de Varda (juntamente com o da “mind and body theory”) ouvido ao histórico activista Stokely Carmichael: “(…) the United States to this day has not declared war on Vietnam, but they’re in Vietnam. They have not declared war on North Korea, but they fight in North Korea. And they did not declare war on the Indians. They just wipe them out. So we must define our conditions. We are at war, our leader he is in jail, he is a prisoner of war”.
Há uma dimensão, sim, em que as mãos de quem segurou na câmara para realizar Black Panthers ou Detroit releva: o facto de, nessa época, serem poucos ou nenhuns os afro-americanos e os negros com oportunidade e meios para também o poderem fazer (i.é, filmar), vítimas de um sistema calculista e sistemicamente, perpetuamente, opressor. Entretanto, essa realidade, malgré tout, alterou-se, e são cada vez mais, de forma sólida e consistente na indústria, a fazê-lo: depois de Spike Lee, Ava DuVernay, Gordon Parks, Charles Burnett, Julie Dash ou John Singleton, o caminho continua a ser trilhado por Ryan Coogler e Barry Jenkins, Raoul Peck, Steve McQueen ou Jordan Peele.
Que os sujeitos directamente implicados nos processos históricos possam construir as suas narrativas é absolutamente fundamental; que todos os outros que, não tendo passado por tal abismo na primeira pessoa, partilhem do mesmo sentido de revolta e justiça e, por sua iniciativa, se proponham a participar – através do cinema, da música, da literatura – numa luta por mudanças nas quais estão em jogo valores humanistas universais, eis o que não é menos importante, e que só uma visão distraída do essencial pode conceber como indesejado.

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Sim, porque os tempos, devemo-lo dizer, não estão para distracções. Quando, no filme de Varda, se ouve falar do homicídio de um miúdo de 17 anos desarmado (Bobby Hutton, militante do Black Panther Party) pela polícia, é impossível não lembrarmos imediatamente de episódios semelhantes recentes: Trayvon Martin, Michael Brown, Eric Garner, Oscar Grant. Quando, em I Am Not Your Negro, observamos as manifestações dos supremacistas brancos em plena luz do dia, com homens, mulheres e crianças brancas a vexarem e a cuspirem em Ruby Bridges, a primeira menina negra a caminho de uma escola mista, está feito o ominoso raccord com o cortejo da morte (“Unite the Right”) ocorrido em Charlottesville em Agosto de 2017.
 Os tempos, dizíamos, não estão para distracções. Até porque elas apenas fazem esfregar as mãos de contente de umas quantas figuras sinistras, criminosas, hoje ao comando de alguns dos mais poderosos países do mundo. Dividir para reinar é um aforismo com barbas e, hélas!, com consequências práticas – no Brasil de hoje, por exemplo, talvez um espaço municipal como o Teatro Rivoli já não fosse cedido para um ciclo de cinema promovido por uma organização como o SOS Racismo. Ou talvez este ciclo nem pudesse, de todo, chegar a ser feito.

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