terça-feira, 8 de julho de 2008

new something

Os SubVerso são a dupla formada por Maze (vocal) e Soma (produtor). Para os menos conhecedores do panorama do (bom) hip hop que por cá se faz, sinto-me na obrigação de prestar homenagem a um dos mais brilhantes mc's portugueses. Pensar num Master of Cerimony (no verdadeiro sentido do termo) é pensar em alguém como Maze. Mergulha na felicidade (Dealema, 2003) é para mim um tratado de auto-determinação, auto-estima, sobrevivência psíquica. O hiper-realismo de que alguns acusam o hip hop, nomeadamente o meu querido pai, é talvez assertivo. O que não lhe retira valor, a meu vêr. De qualquer forma, se Maze recolhe alguns louros, é precisamente por saltar essa cerca hiper-realista e transportar-nos para outros recantos. O mesmo fazem grandes nomes como Common, A Tribe Called Quest, Blackalicious, Digable Planets, Kero One, Pete Philly and Perquisite, The Roots, entre outros. Gostaria de dissertar um pouco mais acerca da dialéctica realismo/poesia. Mas fica para uma próxima.
A Maze junta-se Soma, que aos beats boom-bap (lembrando KRS-One) empresta o jazz-flow aqui e ali preenchido com uns baixos muito soul. Assim é o resultado do primeiro single: Dá-me 1 sinal.
Fica aqui o link do myspace dos SubVerso para uma olhadela curiosa.

o meu festival de verão


Depois de Vilar de Mouros, Sudoeste, Superbock e tantos outros, este é o festival onde este ano eu não queria perder um concerto!
Preferidos: Herbie Hancock (!), Caetano Veloso, Mayra Andrade.
Curioso por (vêr e) ouvir: Ana Moura, Lizz Wright, Diana Krall.
Ainda por cima em terrinhas sulistas por mim desconhecidas. Só faltava mesmo um dia de concertos em Sintra!

sábado, 5 de julho de 2008

We The People

mudam os olhos

Neste momento, a moça está junto ao piano a folhear com os dedinhos um calendário. É uma dessas mulheres que causam o espanto geral quando surgem em sociedade. Incrivelmente bonita: alta, cabelo escuro, divinos olhos quase negros, esbelta, seios fortes, maravilhosos. Seus ombros e braços são antiguidade clássica, o pezinho é sedutor, o andar de czarina. Está hoje um pouco pálida; para compensar, os seus lábios pequenos, roliços e escarlates, de contornos admiráveis, entre os quais reluzem como colar de pérolas uns dentes pequenos e regulares, são daqueles que aparecem três noites seguidas nos sonhos - basta olhar para eles uma vez só. A expressão dela é séria e grave. Monsieur Mozgliakov parece ter medo do seu olhar fixo; pelo menos, como que se torce quando se atreve a olhar para ela. Os movimentos de Zina são altivamente desprendidos. Enverga um vestido simples de musselina branca. Fica-lhe bem o branco, tudo lhe fica bem, aliás.
Usa num dedinho um anel entrançado com os cabelos de alguém, e a julgar pela cor não são os da mãezinha; Mozgliakov nunca se atreveu a perguntar-lhe de quem eram os cabelos.


in Um Sonho do Tio, Fiódor Doistoiévski

sexta-feira, 4 de julho de 2008

Porque quem fala no século XXI em "exploração do homem pelo homem" é anacrónico, marxista-leninista ou retrógado


A 2.400 metros acima do nível do mar, sobre a cimeira do vulcão Ijen, a terra é amarela e o ar irrespirável. No meio de uma nuvem tóxica e pestilenta, cerca de 200 trabalhadores lutam todos os dias através da remoção do enxofre das rochas com suas mãos vazias: muitos deles não têm mais do que 30 anos de idade, como resultado dos gases que lhes destroem os pulmões.

A mina de Ijen, na Indonésia, é uma das últimas minas de enxofre a céu aberto existente no planeta. Os gases sulfurosos são expulsos pelo vulcão através de longos tubos e depois do arrefecimento tornam-se um elemento precioso, que os proprietários venderão como combustível ou para fabricar pneus e pesticidas.

Muitos dos homens que trabalham aqui estão descalços e já sofreram todos os tipos de queimaduras, ao longo dos anos. Cinco minutos, neste lugar, são suficientes para uma pessoa normal adoecer. Os proprietários das minas apenas paga a estes homens quatro euros por cada dia útil, e ainda assim consideram ser um bom negócio: é o dobro do que eles podem pagar em qualquer plantação de café na área.

O trabalho da mina é dividida entre os que separam o enxofre da rocha e aqueles que o transportam pela montanha abaixo. Estes últimos carregam com cestas de entre 70 e 100 quilos de rocha e descem quilómetros a pé para a base do vulcão. Muitos deles fazem esta jornada, duas vezes por dia, o limite da sua resistência.

O resto, os que descolam o enxofre da rocha estão equipados com longas hastes de ferro, durante aproximadamente cinco horas, respirando os fumos que saiem do vulcão. No final do dia, os habitantes deste pequeno inferno extraiem cerca de 12 toneladas de enxofre nas montanhas. E alguém, a muitas milhas de distância dali, terá ficado um pouco mais rico.

quinta-feira, 3 de julho de 2008

em estado bruto


Ingrid Bettencourt e 3 militares norte-americanos foram libertados do cativeiro mantido pelas FARC. No caso de Ingrid, já ia em 6 anos. 6 anos. 6 anos. 6 anos. 6 anos.
Uma vida. Não há nem nunca haverá causa alguma que justifique privar-se o homem do seu mais elementar anseio: liberdade. E a Liberdade não se cola a ideologias. Liberdade é liberdade.
Hoje estou emocionado. As águas do Bósforo estão menos turvas. Free Ingrid!

segunda-feira, 30 de junho de 2008

A América onde eu gostava de ir (e a americana que eu gostava de conhecer)

Senhores e Senhoras, o primeiro concerto subaquático de Erykah Badu nas águas do Bósforo:

On & On (do album Baduizm, 1997)

sábado, 28 de junho de 2008

quando o calor aperta...

D'Angelo entra em cena:

Me and those dreamin' eyes of mine (do album Brown Sugar, 1995)

quinta-feira, 26 de junho de 2008

serviço público


Por sugestão de uma leitora do Há Discussão a propósito de um post meu, comprei o recém publicado O Casamento entre pessoas do mesmo sexo. Trata-se de um livro que reúne pareceres de três Professores da Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa. São eles Luís Duarte d’Almeida, Carlos Pamplona Côrte-Real e Isabel Moreira. Note-se que é a primeira vez em Portugal, penso, que é publicado um livro que aborda directamente a questão.
O livro é muito bom, desfazendo qualquer dúvida quanto à validade ou não do casamento homossexual no nosso país. Isto quanto à ordem jurídica em exclusivo, como é óbvio. No plano sociológico e cultural, essa dúvida hoje só pode ser colocada por pessoas com manifestos preconceitos e fobias próprias dessa natural e constante ratio entre os homens: a ignorância. Que, felizmente, os tempos e as mentalidades vão superando.
Para objectivistas ou subjectivistas, historicistas ou actualistas, positivistas ou partidários do direito livre, o parecer dos professores é de tal forma clarividente que a certa altura apenas nos surpreendemos com o facto de esta questão ainda ser hoje em dia... uma questão, passe a redundância.
O livro cristaliza ainda o postulado fundamental da ligação umbilical entre Direito e Sociedade. Ignorar isso é, nas sábias palavras do jurista espanhol Legaz y Lacambra, pecar por cegueira.
São muitos os excertos que me ficaram na retina pelo que seria fastidioso transcrevê-los para aqui. Deixo aqui apenas a nota editorial que vem na contracapa. E leiam o livro (lê-se numa noite)!

As normas expressas pelos artigos 1577.º e 1628.º, alínea e), do Código Civil - que vedam o acesso ao casamento a pessoas que não sejam de-"sexo diferente" - são inconstitucionais. Assentam em juízos acerca de uma pretensa inferioridade "moral" das relações afectivas homossexuais e em preconceitos sobre a qualidade das famílias constituídas por duas pessoas do mesmo sexo. A consequente discriminação é atentatória dos princípios constitucionais de dignidade da pessoa humana e de igualdade, e do direito fundamental a contrair casamento - também na sua dimensão de direito de uma pessoa a escolher com quem casar. É esta a opinião jurídica defendida pêlos autores nos três estudos aqui apresentados.

terça-feira, 24 de junho de 2008

Stop the Violence

Quando em 1988 um jovem foi assassinado num concerto que juntou a Boogie Down Productions (do então jovem KRS-One, hoje uma lenda viva do Hip Hop) e os Public Enemy (outro lenda), KRS-One criou o Stop the Violence Movement, movimento que teve como propósito incentivar o regresso do rap às suas raízes. E que raízes são essas? Aquelas que um dia foram enunciadas por um dos seus fundadores, Afrika Bambaata: Peace, Love and Safely having fun. Esta trilogia sintetiza de facto o que sinto quando oiço um bom beat ou uma beef animada no mic.
Passados 20 anos, KRS-One faz uma retrospectiva e um balanço do movimento. Quando ouvimos este testemunho percebemos o porquê de KRS-one ser apelidado entre a comunidade hip hop americana como "The Theacher".
Quando hoje o Hip Hop MTViano (e os indivíduos que para ele contribuem) difunde erradamente uma imagem excessivamente materialista (porque materialista somos todos, mais ou menos) e violenta de uma arte musical que revolucionou a América nos anos 60, as palavras de KRS-one fazem mais sentido do que nunca.

"More than an artist, more than your lyrics, you're a man or a women".

segunda-feira, 23 de junho de 2008

materialismo

Ludwig Feuerbach, em "A Essência do Cristianismo" (1841), deu a explicação e o golpe fatal. Ressuscitando um tema bastante trabalhado, Fuerbach defendia que a razão pela qual os seres humanos se parecem com Deus não é por Deus nos ter criado à sua imagem mas por nós o termos criado à nossa. Embora este argumento fosse conhecido dos gregos antigos, Montesquieu, filósofo do Iluminismo francês e teórico do Direito, desenvolveu-o com graça nas suas satíricas "Cartas Persas" (1721), que são uma descrição fantasiosa de conversas entre viajantes persas e os seus anfitriões franceses. Num passo memorável, um francês conta a história de uma viagem através de África em que ficou chocado por ver que a arte e a escultura africanas representavam Deus como sendo uma mulher, gorda e - valham-nos os céus - preta. (...) O seu amigo faz notar: "diz-se, e bem, que se os triângulos tivessem um Deus, este teria três lados". Esta é, no essencial, a posição de Feuerbach.
Na perspectiva de Feuerbach, nós, seres humanos, pegámos nas capacidades que pertencem aos seres humanos, elevámo-las em pensamento a um nível infinito e depois inventámos um ser exterior a nós que encarna todas estas perfeições. Este Deus, então, é omnisciente, omnipotente e inteiramente bom (diversamente dos seres humanos, que sabem um bocadinho, são um bocadinho poderosos e um bocadinho bons). Mas curvamo-nos perante este produto da nossa imaginação em vez de reconhecermos as nossas qualidades pelo que são e tentarmos gozá-las em nosso proveito. Isto, na perspectiva de Feuerbach, ao desviar a nossa atenção e capacidades criativas, impede-nos de viver uma vida verdadeiramente humana e de criar uma sociedade verdadeiramente humana. Assim, segundo Feuerbach, que vai mais longe do que os pensadores anteriores, devíamos abandonar a religião e substituí-la por um humanismo radical: um entendimento, gozo e celebração das nossas capacidades verdadeiramente humanas, que nos permitirão criar pela primeira vez uma genuína comunidade na terra.


in Porquê ler Marx hoje?, Jonathan Wolff

domingo, 22 de junho de 2008

tudo em família



Aqui vai o meu desejo para a final do Europeu de Futebol 2008: Turquia x Espanha. E que o caneco venha para o Bósforo, pois claro!

sábado, 21 de junho de 2008

a velha raposa


Depois de tantos sucessos e estórias, Al Green voltou. E cheio de pinta. Lay it down (2008, acabadinho de sair) é um album muito aprazível. Muito soul ensolarado por traços de gospel. E, claro, muito, muito love no ar. Destaco as faixas You've got the love I need, Take your time (com a menina bonita Corinne Bailey Rae), Too Much, Lay it down (com o jovem prodígio do neosoul, Anthony Hamilton), Just for me ou I'm wild about you. Esta última, especialmente, transborda de sensualidade e calor.
Sobre os citados Anthony Hamilton e Corinne Bailey Rae, é interessante vêr como Al Green soube voltar juntando a aura própria de quem já muito deu à música com a jovialidade de outros artistas de classe que entretanto vão surgindo. Os bons músicos também se vêm nestas coisas!
Lay it down my people!

sexta-feira, 20 de junho de 2008

Tsunami nas águas do Bósforo


Turquia nas meias finais do Euro 2008! Vamos!!

nudez

Acordo,
Dou graças por mais um dia
Respiro fundo,
Sinto me agarrado à vida
Peço ao universo por dádiva criativa,
Na música e pintura foco no que me cativa
Poesia,
A minha sina é uma terapia
Via iluminada que me afasta da rotina
De madrugada
Em busca de adrenalina que vicia quem pinta a vida mais colorida
É incrível, quando nos sentimos únicos
Nús de preconceitos em momentos lúdicos
E aproveitamos, até aos últimos segundos
Livres sem rumo como nobres vagabundos
Sem algemas do tempo ou grilhetas do medo
A desfrutar o sossego do total desapego
Não há nada como o pôr do sol à beira-mar
Melhor, só tendo alguém ao lado para abraçar


in Talento Clandestino, Maze (Dealema)

domingo, 15 de junho de 2008

Há festa rija no Bósforo!


Turquia nos quartos de final do Euro 2008!!

sábado, 14 de junho de 2008

soberania popular? o que é isso?

Na Irlanda, 53,4% dos votantes disseram democraticamente NÃO ao "Tratado de Lisboa". Coisa que por estes lados não foi permitida. Não obstante este percalço, os líderes europeus já alertaram que nada vai ser alterado.
Quando Chavéz perdeu (felizmente!) no referendo constitucional, os seus mais ferozes detractores profetizaram uma vaga de autoritarismo e perseguição. Além de não se ter gerado vaga alguma, Chavéz respeitou o referendo.
Defendo sem reservas uma União Europeia sucessivamente mais unida, coesa. Defendo até se calhar uma União Europeia federal. Mas, nessa ou noutra qualquer hipótese mais unificada que a que hoje temos, é imprescindível que o seu processo constitutivo seja feito de forma transparente, democrática e consensual. E quando falo em consenso, falo evidentemente, acima de tudo, do consenso do povo.
Com estes líderes (e com estas políticas, mas isso deixo para depois) e com esta forma de actuar, eu estou com os irlandeses: NÃO, NÃO E NÃO.