quarta-feira, 30 de agosto de 2017

Festival de Locarno - Jornal de Letras




No número do JL - Jornal de Letras que saiu hoje para as bancas, faço a cobertura (a possível, pelo meio de tanta coisa) do Festival de Locarno (e na qual teço rasgados elogios ao Dragonfly Eyes do Xu Bing).
 
Faço também uma entrevista com o Pedro Cabeleira e o Pedro Marujo a propósito do seu Verão Danado (a fotografia foi desenrascada na hora com o meu telemóvel mas acho que ficou bem engraçada). Boas leituras!

Crítica - "Annabelle: The Creation"

 
 
Há um ano atrás, deixava a minha crítica a "Lights Out", a primeira longa de David F. Sandberg. Este tempo volvido e, na quase-rentrée do À pala de Walsh, abro o apetite para o que aí vem com um texto sobre "Annabelle: The Creation", o novo filme de Sandberg. Para ler aqui.
 
"Pistolas, máscaras, fantoches, espantalhos, bonecas (...), brinquedos em geral: tudo seres – aparentemente – inanimados que concorrem para a afirmação desse lado artesanal, manual, do cinema, destapando a artificialidade super-tecnológica da “infra-estrutura” cinematográfica. É semelhante ideia que decorre da parafernália de espelhos, portas, mesas e cadeiras de madeira que ocupa o casarão do filme – aliás, mesmo a cadeira elevatória que cruza os andares da casa (muito gótico, muito argentiano aquele vitral encarnado…) obedece a toda uma engenharia manual de “rodagem”, como uma bobina (cinema) ou o mecanismo rotatório das caixas de música (brinquedos)".

desabamento





(Steamboat Bill Jr., 1928, Buster Keaton / The Family Jewels, 1965, Jerry Lewis)

Entrevistas - Locarno

Duas entrevistas que fiz com o Pedro Cabeleira e o Pedro Marujo (Verão Danado) e com a Valérie Masssadian (Milla) em Locarno, com 31 graus à sombra. Para ouvir aqui:


1. Pedro Cabeleira e Pedro Marujo: http://www.fred.fm/pt/pedro-cabeleira-pedro-marujo-verao-danado-damn-summer-locarno70/

2. Valérie Massadian: http://www.fred.fm/uk/valerie-massadian-milla-locarno70/

CICLO 5 ANOS À PALA DE WALSH



5 ANOS DE À pala de Walsh: ciclo de cinema comemorativo a começar em Setembro no Nimas!

Parabéns a nós, parabéns aos leitores e parabéns a todos os filmes que nos fazem "esculpir sobre teatro e pintar sobre literatura".
 
Em breve novidades para o Porto!
 

novas de Locarno

O perfil da malta com quem passei duas belas semanas e as nossas escolhas para filme-maior do festival (e que bom ver que ninguém alinhou com o júri, eheh):

1) http://www.indiewire.com/2017/08/locarno-critics-academy-2017-survey-film-festival-1201866186/

2) https://pardo.ch/pardo/pardo-live/today-at-festival/2017/day-10/CRITIC-ACADEMY-VERDICT.html

segunda-feira, 21 de agosto de 2017

TU ME CHANGES LE PAYSAGE...




(Pépé le Moko, 1937, Julien Duvivier)

quarta-feira, 16 de agosto de 2017

Teaser #3 UMA NOVA TRIBO / A NEW TRIBE


 
 

NÃO CONSEGUES CRIAR O MUNDO DUAS VEZES, um filme de Catarina David e Francisco Noronha
Uma produção A Bunch of Kids
 

YOU CAN'T CREATE THE WORLD TWICE, a film by Catarina David e Francisco Noronha 

segunda-feira, 14 de agosto de 2017

segunda-feira, 24 de julho de 2017

foi só no fim, mas decidiu(-se)

"Entra no Jaragua, e, do lado esquerdo, soa um brasido: ritmos, vozes, música, as máquinas caça-níqueis e as exclamações do jogadores de roleta.
Quando se encaminha para os elevadores, intercepta-a uma figura masculina. É um turista quarentão, ruivo, com a camisa aos quadrados, calças de cowboy e mocassins, ligeiramente bêbedo:
- May I buy you a drink, dear lady? - diz ele, com uma vénia galante.
- Get out of my way, you dirty drunk - responde-lhe Urania, sem parar, mas tendo... ainda tempo para ver a expressão de desconcerto e susto do imprudente.
No quarto, começa a fazer a mala, mas, passado um instante, vai sentar-se junto à janela, olhando as estrelas que luzem e a espuma das ondas. Sabe que não pregará olho toda a noite e que, por isso, tem todo o tempo do mundo para acabar de fazer a mala.
'Se a Marianita me escrever, respondo-lhe a todas as cartas', decide".

(A Festa do Chibo, M. Vargas Llosa)

ípsilon - The Doppelgangaz



O meu texto no Ípsilon da última sexta também já on-line: https://www.publico.pt/2017/07/21/culturaipsilon/noticia/o-estranho-caso-dos-doppelgangaz-1779391


"(...) como conceber que um grupo de tão aprimorada música, com dez álbuns (alguns exclusivamente de instrumentais) e quatro EP, tudo isto desde 2008, continue, hoje, na sombra, altamente subvalorizado? Como conceber que, num tempo em que o acesso e o consumo de música se fazem em termos radicalmente diferentes de há uns anos atrás (Facebook, YouTube, Spotify, etc.), a circulação da sua música continue a ser coisa quase 'secreta', clandestina, reservada a uns quantos conhecedores, e que a imprensa pouca atenção lhes dedique (queriam música 'underground'? Está aqui…)?"

terça-feira, 18 de julho de 2017

ípsilon - "4:44"

 
 
No Ípsilon de sexta passada, o cameo do Method Man no último filme do Jarmusch também serve para explicar o quanto gosto do novo álbum do JAY-Z. Boas leituras.
 
 
"(…) numa cena de 'Paterson' (…), o personagem principal, (…) atraído pela métrica e pelo ritmo das rimas que ouve pronunciadas por um aspirante a rapper (…), abeira-se-lhe para dizer como gostou do que ouviu. Ambos partilham, no seu processo de escrita, de uma linguagem “realista”, mas tudo o resto os separa (o olhar poético d...e Paterson sobre o quotidiano, o 'ego trippin' do rapper), embora isso não afaste o essencial: o facto de, frequentemente, a 'forma' do rap ser de tal forma fascinante que o 'conteúdo' se pode tornar secundário. Ora, por aqui passa, justamente, um dos mais fascinantes paradoxos da história do hip-hop: o de um rapper como Jay-Z, cujas letras estão frequentemente insufladas de braggadocio (discurso gritantemente auto-engrandecedor, …), poder cativar, pela sua musicalidade e 'coolness', diferentes ouvidos, desde logo aqueles que dispensam o tipo de discurso referido. Tudo isto, reitere-se, não faz dele um rapper menor, apenas tornando ainda mais entusiasmante, isso sim, o momento em que nos pomos à escuta de um álbum no qual assina, inesperadamente, um conjunto de canções altamente introspectivas, não raramente poéticas, tantas vezes confessionais".

quinta-feira, 13 de julho de 2017

quarta-feira, 12 de julho de 2017

My girl / talkin' 'bout my girl



(Surviving Desire, 1992, Hal Hartley)



"A thoughtful gesture, a delicate smile, white slender neck; an earnest, inquisitive and alluring voice. Graceful figure; intelligent, sensuous eyes".

quarta-feira, 28 de junho de 2017

Crítica de cinema - Junho



No Artes Entre As Letras desta semana, escrevo sobre o curioso A Missão e o documentário sobre David Lynch. Bons filmes!

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A Missão (2016), Walter Hill ★★★
A certa altura, quando um(a) fragilizado(a) Frank Kitchen (Michelle Rodriguez) pergunta a Johnnie, que mal o conhece, se pode ficar uns tempos em sua casa, esta responde-lhe: “Of course… We’re fuck buddies!”; ouvem-se risos de escárnio na sala e a implausibilidade desta súbita hospitalidade parece fazer o filme resvalar para o ridículo. Mas quem ri por último, ri melhor: largos minutos depois, quando o argumento se desenvolve, o espectador percebe que foi inteligentemente manipulado, não através de uma grande “mentira” ou surpresa, mas por ter sido ultrapassado pela subtileza com que Hill desfia a narrativa. Só por isto, pelo facto de manter o espectador em sentido e, sobretudo, por não o tomar por mentecapto e lhe exigir cérebro, o último filme do americano, dos mais objectos mais esquizóides que tivemos oportunidade de ver em sala nos últimos tempos, constitui, desde logo, motivo de interesse.
 
Assentando no género clássico de “thriller de vingança”, A Missão dá igualmente ares de ficção científica filosofante (na questão da criação e da mutação humanas, do bem e do mal ou, ainda, da desviância comportamental como algo “inato”, no que não deixa de respirar tópicos criminológicos, logo políticos, fundos e actuais) e, importante não menosprezar, de comédia, como se o filme nunca se levasse demasiado a sério. Apesar de Rodriguez nunca conseguir sair do overacting (e não é apenas neste filme, antes um problema crónico cristalizado nos "Velocidades Furiosas" que protagoniza), a sua personagem cativa pelo modo como está a meio caminho entre a figura de B.D. e a de videojogo (não é por acaso que ela se “transforma”, que “muda de capa"), quase um “super-vilão” (para desenjoar dos “super-heróis” com que Hollywood tem intoxicado as salas de cinema) que se vai movendo de arma automática em cada mão. Falámos atrás na dimensão política, algo ainda mais patente no modo como a questão de género (masculinidade/virilidade) surge a baralhar as contas (ou seja, a nossa percepção cultural e simbólica) e a jogar ironicamente quer com a androgenia de Rodriguez, quer – et pour cause – com as próprias personagens que esta interpreta noutros filmes (sempre muito masculinizadas).
 
Como num western de que Hill, um veterano a filmar desde os anos 70, é admirador –, as personagens movem-se num espaço com códigos de conduta próprios, onde as normas sociais e morais estão suspensas, tópico de que, por outros caminhos ainda, o filme também se aproxima através da personagem de Sigourney Weaver, a cirurgiã que, citando Poe, define a arte como um domínio estranho a considerações políticas e morais para justificar o seu trabalho como uma obra artística (e, no caso da “cirurgia estética” que inflige a Rodriguez, há aqui ecos do "crime como obra de arte" propalado pelos célebres "estetas" de A Corda, de Hitchcock, não por acaso um filme em que a sexualidade das personagens principais também é problematizada). A B.D. está igualmente latente no próprio dispositivo visual de "apresentação das personagens" (os freeze frames que viram "ilustrações", a lembrar Sin City), talvez o elemento mais dispensável, juntamente com grande parte da banda sonora (demasiado presente e de mau gosto), do filme, mas que nem por isso lhe retira interesse (e perversidade) e impede de ser uma bem-vinda lufada de ar fresco às salas (sobretudo agora, ou não fosse precisamente o Verão o período por excelência dos “super-heróis”).
 
David Lynch: The Art Life (2016), ONeergaard-Holm, Nguyen, Barnes ★★
Não sendo fãs incondicionais da obra de Lynch, mas simpatizando com muito dos seus filmes e temas (e não tendo de todo, portanto, qualquer alergia anti-Lynch), quiçá estaremos em posição privilegiada (i.é, "emocionalmente imparcial", tanto quanto a "imparcialidade" existe nestas coisas) para avaliar um documentário que vive, sobretudo (e em demasia), da aura misteriosa e da gravidade que reserva ao seu objecto central, visível no próprio dispositivo solene montado: Lynch sentado, a fumar ininterruptamente (o fumo a forçar toda uma atmosfera "pensativa") e um microfone para onde vai debitando memórias ou ideias, das mais interessantes (a mulher nua ensanguentada, o vizinho Smith) às mais irrisórias ou irrelevantes.
 
Incidindo sobre a infância de Lynch até ao momento em que ganha uma bolsa para filmar Eraserhead (poderosa a forma como, salvo erro na última frase que se lhe ouve, explica, sem grandes desenvolvimentos mas com emoção, o que o cativou na personagem interpretada por Henry Spencer), é certo que o filme não retira fascínio à figura de Lynch; diferente disso, porém, é o que se consegue fazer com isso (com esse fascínio), e o filme, certamente pela própria reserva do cineasta, pouco desenvolve sobre a sua "art life", contra o que o título anuncia (justapor algumas frases soltas com imagens de Lynch a pintar ou de quadros seus fica curto).
 
Nada contra a discrição, mas um documentário deste género, para valer como objecto "observacional", exige mais algum tipo de escavação – e evidentemente que não eram "revelações" aquilo que aqui se pedia, bastando constatar, porém, que nenhum tipo de reflexão ou problematização de determinados aspectos artísticos é levado a cabo, tudo se ficando pelo tom monocórdico com que Lynch vai guiando impassivelmente o filme, pouco dedo "ordenador" e criativo sobrando para os realizadores, que parecem demasiado deleitados com o autor da recém-retomada série Twin Peaks. Em resumo: um filme simpático, arrumado mas inofensivo, que por certo agradará aos mais aficionados lynchianos precisamente pelo que apontámos acima: porque confirma (o mito, a aura) sem perturbar (exactamente o contrário do que os filmes do próprio Lynch sempre foram…).

segunda-feira, 12 de junho de 2017

into the shade


 
 
("All Bad", J.I.D. feat. Mereba, álbum "The Never Story", 2017)
 
 
 
"And if I'm trying to tell the truth, it's all bad
Cause if you looking for the proof, it's all there
(...)
I'm gon' step into the shade, I don't want the sun in my face"

quinta-feira, 1 de junho de 2017

Crítica de cinema

 


No Artes Entre As Letras que saiu ontem, escrevo sobre os novos filmes do Canijo, Jordan Peele, Malick e o novo Alien. Bons filmes.


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Fátima (2017), João Canijo ★★★
Num percurso que vimos apreciando cada vez menos pela sofreguidão de Canijo em bisbilhotar o “real” e dá-lo a ver com a pretensão de uma absoluta genuinidade (“este é o Portugal profundo que não conhecem, vejam!, impressionem-se!”), eis um filme que, se depende – como habitualmente – dos seus tornados chamados actrizes (repetentes: Blanco, Moreira, Breia, Almeida), não menos vive da forma como, contrariamente ao que acontecia num filme como Sangue do Meu Sangue, se abstém – mesmo que inconscientemente – de carregar na tecla da boçalidade: sim, o calão e os palavrões estão lá, mas são agora apenas um dos elementos de composição das personagens, e já não o centro gravítico, o grande chamariz (“Eis o Portugal feio, porco e mau!”) de todo o filme. Ao contrário de alguns filmes mais recentes de Canijo, as personagens possuem espessura, têm um passado e um futuro (têm, enfim, uma “história” dentro de si), e é na sua convivência durante um momento particular que, pelo meio de várias peripécias (há algo de felliniano naquela cacofonia de mudas de roupa, banhos, refeições) e muito humor (elemento que escasseava nos registos realistas anteriores do cineasta), vem ao de cima o olhar (e não tanto o trabalho de câmara, bem menos habilidosamente ostensivo do que noutros filmes) de Canijo sobre os afectos, os ressentimentos e os egos de 11 mulheres “à beira de um ataque de nervos” enfiadas numa caravana – e, por essa tocante sensibilidade na imersão naquele mundo particular, Fátima é, desde já, um dos grandes road movies do cinema português. Se Canijo se interessa pouco pelo fenómenos religioso em si (pelo menos na versão mais curta do filme que tivemos oportunidade de visionar), não deixa de ser curioso como as noções de “sacrifício”, “devoção”, “culpa”, “arrependimento” ou “milagre” estão sempre latentes naquela dinâmica grupal densa, conflituosa, por vezes mesmo violenta, como se a “peregrinação”, a “viagem” destas mulher fosse até a uma qualquer “interioridade” dentro delas mesmas. Injusto seria também não reconhecer a beleza daquela chegada a Fátima, comovente momento – inclusivamente de um certo misticismo (ainda que involuntário) – em que sentimos no corpo o cansaço, a dor, o alívio (a tal latência dos conceitos religiosos…) ou uma simples brisa que atravessa as personagens nos instantes daquela (im)possível reconciliação (a velha ideia de que um silêncio pode dizer muita coisa). Momento, também, em que Canijo, mais do que se “silenciar” a si mesmo (i.é, a câmara), “desliga”, sabiamente, a voz às personagens, deixando que a coralidade religiosa as envolva, pontos minúsculos numa onda ou força maior que elas, como no Viagem em Itália de Rossellini. Há milagre, não há milagre?... Perguntem a Ingrid Bergman.
 
Foge (2017), Jordan Peele ★★★
Se ainda há pouco tempo referíamos aqui como, actualmente, é no cinema de terror e sci-fi que uma certa ideia de cinema clássico (americano) é possível encontrar com mais nitidez, este aplaudido filme em Sundance é mais uma prova a juntar à colecção, com o plus de Peele revelar uma particularmente elegante noção de mise en scène, simultaneamente arriscando alguns números interessantes (uma câmara à mão mais tremida aqui e ali, alguns enquadramentos menos convencionais, por exemplo) mas sem nunca prejudicar a coerência global da imagem. Filme “transgénero”, entre o thriller, o horror movie e a comédia, o cineasta assegura-lhe solidez do princípio ao fim, sabendo balancear o suspense e o mistério (a sensação de que algo de muito errado se passa naquela mansão quasi hitchockiana) com as questões políticas (raciais) e inúmeros gags (a caricatura extremada imprime um "humor terrorista” e, pontualmente, radical ao filme – exemplo: no final das contas, não há um branco "bom"), nunca permitindo, contudo, que a “mensagem” se transforme em bandeira e apague o interesse intrinsecamente cinematográfico (e, até, meta-cinematográfico) do filme (a importância do olhar, a fotografia como choque psicanalítico/revelação da verdade). E isso muito por culpa do argumento, que, à melhor maneira do tal “classicismo” a que aludimos, se mostra inteligente e subtil em doses iguais, cosendo-se e descosendo-se permanentemente, os elementos narrativos e plásticos em reenvio constante (o veado inicial como aviso e premonição; a mitologia do veado que depois nos será apresentada; os cornos do veado com que o sogro é morto, assim se vingando os “dominados”, os explorados; os negros como potenciais “beasts'”/animais pela sua suposta “genética”…). Enfim, uma primeira (!) longa-metragem auspiciosíssima para Peele.
 
Música a Música (2017), Terrence Malick ★★
Por esta altura, os problemas no cinema de Malick são de duas ordens de razão: a abordagem estética, por um lado, e o facto de os seus últimos três filmes mimetizarem, a um ponto extremo (quando não constrangedor), essa mesma abordagem. Com efeito, desde A Árvore da Vida que se firmaram os processos e tiques do actual "estilo Malick", os mesmos presentes em A Essência do Amor e Cavaleiro de Copas e que aqui se descortinam logo na primeiríssima cena do filme: uma porta entreaberta e um actor de cada lado olhando-se no escuro, a câmara serpenteando de baixo para cima (quase nunca de cima para baixo). Está dado o mote para tudo o que adiante se repisará e que aqui apenas exemplificativamente se enuncia: as discussões filmadas invariavelmente à janela, como se não houvesse outro lugar para as ter (curiosamente, sempre janelas amplíssimas em apartamentos de moderníssima arquitectura); planos aproximados de dois corpos em coreografia do tipo “amor-devoção” (um de pé e o outro, de joelhos, abraçando-o); mãos filmadas a roçar cortinados e outras texturas que tais; pés molhados numa qualquer superfície aquosa; a câmara esvoaçante sempre a tirar partido da contraluz; ou, enfim, as vozes em off, substitutas praticamente em absoluto de qualquer réstia de diálogo – embora este até seja um dos aspectos que permanecem interessantes no cinema de Malick, i.é, a forma como cria um diálogo emocional “subterrâneo” entre as personagens, colocando os pensamentos interiores de cada uma em confronto (ora num sistema de "pergunta e resposta", ora em diálogo puro), um pouco como acontece na vida, em que tantas vezes desconhecemos como, a um nível insondável, aquilo que nos vai na cabeça bem pode estar em "comunicação" com os pensamentos dos outros, todo um mundo "secreto", por isso que poético, a envolver-nos. Isto é o que de genuinamente belo e inventivo vai sobrando dos filmes de Malick, que à replicação de processos soma um argumento paupérrimo (amores e desamores de quatro personagens que habitam vagamente o “mundo da música”) no qual às personagens pouca ou nenhuma profundidade é dada, a ambição filosófica de Malick a redundar, contra a sua vontade, em figuras de papelão. As aparições de Patti Smith e Iggy Pop são confrangedoras (estão lá para quê, exactamente?) pela superficialidade do que se lhes ouve (sobretudo Smith), o que, perversamente, as desvirtua e as faz parecer gurus de auto-ajuda encardidos. Embora de “milagres” esteja o cinema de Malick cheio, a esta altura do campeonato, talvez já não seja de esperar, para nosso desgosto, nenhum volte-face no cinema de Malick (saúde-se, por outro lado, a liberdade e independência do americano para poder fazer os filmes que quer e como quer).
 
Alien: Convenant (2017), Ridley Scott
É caso para dizer que, à terceira, não é de vez: Ridley Scott volta a não conseguir empolgar como em 1979, data do original Alien, desde logo porque o medo, matéria por excelência no primeiro filme da saga (o segundo é Prometheus, 2012), é coisa que praticamente não existe neste filme, que se vulgariza como “filme de acção” sem brilho igual a tantos outros produtos audiovisuais que circulam pelas salas sem glória. Nem é apenas aquela coisa do “mostrar demais” (a máxima “less is more” como fórmula para a criação de atmosferas desconfortáveis para o espectador); nem demais, nem de menos, simplesmente não se vislumbrando nervo ou génio para manipular o espectador e colocá-lo em sentido. De resto, não deixa de ser constrangedor reparar como filmes recentes se revelam ora “mais Alien” do que esta sequela realizada pelo seu criador original, caso de “Vida Inteligente” de Daniel Espinosa; ora desenvolvem determinadas ideias de forma bem mais estimulante do que Scott aqui faz, como acontecia em “Passageiros” (2016, Morten Tyldum), onde o sono criogénico dos colonos a bordo de uma missão espacial também era interrompido a meio do caminho de forma imprevista. Com a excepção de duas ou três sequências de relevo (a do chuveiro, por exemplo), o filme, na sua indecisão em explorar a questão metafísica (os homens e as máquinas, o livre arbítrio e a submissão, a origem da criação) e a matança do bicho (e quanto capital visual aqui se desperdiça…!), estatela-se ao redondo, rapidamente se esfumando da memória do espectador assim que este abandona a sala.