segunda-feira, 4 de setembro de 2017

Anybody can miss



(The Ladies Man, 1961, Jerry Lewis)

Cena tão ternurenta quanto melancólica (e cinéfila): George Raft a tentar fazer provar a Jerry que é mesmo ele, George Raft em carne e osso, o actor, o famoso, a "movie star". Jerry não acredita e pede-lhe que repita o número da moeda que Raft celebrizou em "Scarface". Raft levanta-se, velho, pesado, rosto gasto (o tempo a cobrar ao corpo...), e o número sai desastrosamente mal... Ninguém mais a vê, a moeda perde-se no ar. Raft, desesperado, insiste que é ele em pessoa mas que, por vezes, eles - sim, até eles, os "famosos" do outro lado da galáxia, os gangsters implacáveis no ecrã, os galãs insuperáveis - também falham. "Anybody can miss... I'm not infallible", diz com todas as (amarguradas) letras.

sexta-feira, 1 de setembro de 2017

justa distância

 
 
(Les Parapluies de Cherbourg, 1964, JD)
 
 
Se o travelling é uma questão moral, o local onde colocar – neste caso, “deixar” é ainda mais apropriado - a câmara também o pode ser (ou uma questão... "sentimental"?): na despedida, a câmara não vai nem com o comboio, nem fica com Deneuve (em movimento oposto ao do comboio). A meio, Demy deixa a câmara ficar exactamente a meio, sem tomar partidos, decisões, tão-pouco sugerindo eventuais desenvolvimentos para aquele dilacerado casal. No meio - o local justo, a justa distância, para filmar um e outro, sem necessidade alguma de fabricar "drama", porque Demy sabe que ele já existe (o quanto ele já existe…), sem aditivos gratuitos, naquela separação. Também por esta razão, e ao contrário do modo convencional como tantas vezes se filma, Deneuve não fica lá ao fundo imóvel, chorosa, a olhar o comboio partindo inexoravelmente. Não, o comboio vai e Deneuve vai também. Apesar de tudo, a vida segue - tem de seguir, é isso que nos (lhe) dizem... Na estação de comboios como, depois, na estação de gasolina, a vida segue.

quinta-feira, 31 de agosto de 2017

E pronto, é isto que um tipo leva daqui





 
 
(Les Parapluies de Cherbourg, 1964, Jacques Demy)

quarta-feira, 30 de agosto de 2017

Festival de Locarno - Jornal de Letras




No número do JL - Jornal de Letras que saiu hoje para as bancas, faço a cobertura (a possível, pelo meio de tanta coisa) do Festival de Locarno (e na qual teço rasgados elogios ao Dragonfly Eyes do Xu Bing).
 
Faço também uma entrevista com o Pedro Cabeleira e o Pedro Marujo a propósito do seu Verão Danado (a fotografia foi desenrascada na hora com o meu telemóvel mas acho que ficou bem engraçada). Boas leituras!

Crítica - "Annabelle: The Creation"

 
 
Há um ano atrás, deixava a minha crítica a "Lights Out", a primeira longa de David F. Sandberg. Este tempo volvido e, na quase-rentrée do À pala de Walsh, abro o apetite para o que aí vem com um texto sobre "Annabelle: The Creation", o novo filme de Sandberg. Para ler aqui.
 
"Pistolas, máscaras, fantoches, espantalhos, bonecas (...), brinquedos em geral: tudo seres – aparentemente – inanimados que concorrem para a afirmação desse lado artesanal, manual, do cinema, destapando a artificialidade super-tecnológica da “infra-estrutura” cinematográfica. É semelhante ideia que decorre da parafernália de espelhos, portas, mesas e cadeiras de madeira que ocupa o casarão do filme – aliás, mesmo a cadeira elevatória que cruza os andares da casa (muito gótico, muito argentiano aquele vitral encarnado…) obedece a toda uma engenharia manual de “rodagem”, como uma bobina (cinema) ou o mecanismo rotatório das caixas de música (brinquedos)".

desabamento





(Steamboat Bill Jr., 1928, Buster Keaton / The Family Jewels, 1965, Jerry Lewis)

Entrevistas - Locarno

Duas entrevistas que fiz com o Pedro Cabeleira e o Pedro Marujo (Verão Danado) e com a Valérie Masssadian (Milla) em Locarno, com 31 graus à sombra. Para ouvir aqui:


1. Pedro Cabeleira e Pedro Marujo: http://www.fred.fm/pt/pedro-cabeleira-pedro-marujo-verao-danado-damn-summer-locarno70/

2. Valérie Massadian: http://www.fred.fm/uk/valerie-massadian-milla-locarno70/

CICLO 5 ANOS À PALA DE WALSH



5 ANOS DE À pala de Walsh: ciclo de cinema comemorativo a começar em Setembro no Nimas!

Parabéns a nós, parabéns aos leitores e parabéns a todos os filmes que nos fazem "esculpir sobre teatro e pintar sobre literatura".
 
Em breve novidades para o Porto!
 

novas de Locarno

O perfil da malta com quem passei duas belas semanas e as nossas escolhas para filme-maior do festival (e que bom ver que ninguém alinhou com o júri, eheh):

1) http://www.indiewire.com/2017/08/locarno-critics-academy-2017-survey-film-festival-1201866186/

2) https://pardo.ch/pardo/pardo-live/today-at-festival/2017/day-10/CRITIC-ACADEMY-VERDICT.html

segunda-feira, 21 de agosto de 2017

TU ME CHANGES LE PAYSAGE...




(Pépé le Moko, 1937, Julien Duvivier)

quarta-feira, 16 de agosto de 2017

Teaser #3 UMA NOVA TRIBO / A NEW TRIBE


 
 

NÃO CONSEGUES CRIAR O MUNDO DUAS VEZES, um filme de Catarina David e Francisco Noronha
Uma produção A Bunch of Kids
 

YOU CAN'T CREATE THE WORLD TWICE, a film by Catarina David e Francisco Noronha 

segunda-feira, 14 de agosto de 2017

segunda-feira, 24 de julho de 2017

foi só no fim, mas decidiu(-se)

"Entra no Jaragua, e, do lado esquerdo, soa um brasido: ritmos, vozes, música, as máquinas caça-níqueis e as exclamações do jogadores de roleta.
Quando se encaminha para os elevadores, intercepta-a uma figura masculina. É um turista quarentão, ruivo, com a camisa aos quadrados, calças de cowboy e mocassins, ligeiramente bêbedo:
- May I buy you a drink, dear lady? - diz ele, com uma vénia galante.
- Get out of my way, you dirty drunk - responde-lhe Urania, sem parar, mas tendo... ainda tempo para ver a expressão de desconcerto e susto do imprudente.
No quarto, começa a fazer a mala, mas, passado um instante, vai sentar-se junto à janela, olhando as estrelas que luzem e a espuma das ondas. Sabe que não pregará olho toda a noite e que, por isso, tem todo o tempo do mundo para acabar de fazer a mala.
'Se a Marianita me escrever, respondo-lhe a todas as cartas', decide".

(A Festa do Chibo, M. Vargas Llosa)

ípsilon - The Doppelgangaz



O meu texto no Ípsilon da última sexta também já on-line: https://www.publico.pt/2017/07/21/culturaipsilon/noticia/o-estranho-caso-dos-doppelgangaz-1779391


"(...) como conceber que um grupo de tão aprimorada música, com dez álbuns (alguns exclusivamente de instrumentais) e quatro EP, tudo isto desde 2008, continue, hoje, na sombra, altamente subvalorizado? Como conceber que, num tempo em que o acesso e o consumo de música se fazem em termos radicalmente diferentes de há uns anos atrás (Facebook, YouTube, Spotify, etc.), a circulação da sua música continue a ser coisa quase 'secreta', clandestina, reservada a uns quantos conhecedores, e que a imprensa pouca atenção lhes dedique (queriam música 'underground'? Está aqui…)?"

terça-feira, 18 de julho de 2017

ípsilon - "4:44"

 
 
No Ípsilon de sexta passada, o cameo do Method Man no último filme do Jarmusch também serve para explicar o quanto gosto do novo álbum do JAY-Z. Boas leituras.
 
 
"(…) numa cena de 'Paterson' (…), o personagem principal, (…) atraído pela métrica e pelo ritmo das rimas que ouve pronunciadas por um aspirante a rapper (…), abeira-se-lhe para dizer como gostou do que ouviu. Ambos partilham, no seu processo de escrita, de uma linguagem “realista”, mas tudo o resto os separa (o olhar poético d...e Paterson sobre o quotidiano, o 'ego trippin' do rapper), embora isso não afaste o essencial: o facto de, frequentemente, a 'forma' do rap ser de tal forma fascinante que o 'conteúdo' se pode tornar secundário. Ora, por aqui passa, justamente, um dos mais fascinantes paradoxos da história do hip-hop: o de um rapper como Jay-Z, cujas letras estão frequentemente insufladas de braggadocio (discurso gritantemente auto-engrandecedor, …), poder cativar, pela sua musicalidade e 'coolness', diferentes ouvidos, desde logo aqueles que dispensam o tipo de discurso referido. Tudo isto, reitere-se, não faz dele um rapper menor, apenas tornando ainda mais entusiasmante, isso sim, o momento em que nos pomos à escuta de um álbum no qual assina, inesperadamente, um conjunto de canções altamente introspectivas, não raramente poéticas, tantas vezes confessionais".

quinta-feira, 13 de julho de 2017

quarta-feira, 12 de julho de 2017

My girl / talkin' 'bout my girl



(Surviving Desire, 1992, Hal Hartley)



"A thoughtful gesture, a delicate smile, white slender neck; an earnest, inquisitive and alluring voice. Graceful figure; intelligent, sensuous eyes".