terça-feira, 12 de setembro de 2017

lembro-te

"Hoje vi um casal a discutir. Lembrei-me de ti".

Hoje vi isto escrito numa parede e lembrei-me de ti.

segunda-feira, 11 de setembro de 2017

lembra-me

Depois de fazermos amor, ela disse que tinha encontrado um homem. Que talvez se apaixonasse, se é que isso já não teria acontecido. Fiquei entusiasmado com essa possibilidade e, num misto de curiosidade e cinismo, perguntei-lhe: "A sério? Conseguiste mesmo voltar a sentir aquilo?".
 
Com as palmas das mãos nas coxas, ela respondeu: "Como é aquilo? Lembra-me...".
 
As luzes e as sombras dos anos que passaram - ou dos que passarão? - concentraram-se no seu rosto naquele momento, todos os princípios e todos os fins. A descrença, o entusiasmo comedido, a ilusão que deixou de o ser, o pragmatismo triste (mas optimista?) de que precisamos como pão para a boca.

domingo, 10 de setembro de 2017

eles comem tudo e não deixam nada



(The Patsy, 1964, Jerry Lewis)

Logo nas primeiras cenas de "THE PATSY”, o “ciclo biológico” processa-se abruptamente: da morte para a morte, sem passagens pelo meio, irónica transição num filme em que tanto se fala do “nascimento”, do “fazer nascer” uma estrela. A morte de um comediante famoso, momento com que o filme se inicia, propicia a reunião de emergência da sua equipa (produtor, argumentista, secretária), corja de interesseiros que, durante o seu sucesso em vida, foi sugando e aproveitando-se da sua fama e riqueza: a casa em Malibu, as viagens à Europa, a mansão em Palm Springs... O seu “plano de sobrevivência” é simples e não menos “vampiresco”: encontrar um zé-ninguém (“nobody” é o termo que usam) e fazer dele, custe o que custar, uma nova estrela, ou seja, um novo corpo de cujo sangue se possam alimentar daí em diante. Quando Jerry, moço de recados (bellboy, novamente; working class heroe, sempre) do hotel, entra em cena no seu estilo desajeitado e inconveniente, a corja imediatamente se apercebe de que está ali o alvo por que ansiavam, a sua nova mina de ouro (não por acaso, os fatos pretos, os tiques físicos e o fumo dos cigarros aproxima-os da figura de gangsters...).

 
Autênticos vampiros, dirigem-se, silenciosos e em passo de zombie, progressivamente até ao seu encontro, rodeando-o, intimidando-o, a sede de dinheiro já a fazer-lhes correr água na boca. E como a sede é tanta, apertam-no de tal forma que Jerry acaba por cair da varanda. A morte do famoso comediante que inicia o filme dá lugar, então - leva a -, à morte daquele que ainda não o chegou a ser e, com isso, ironicamente, à própria morte da "solução financeira" da grupeta. Claro que, no filme, Jerry não morre (aliás, a queda da varanda serve para fazer passar os créditos) e “volta à tona” porque aterra em cima de um trampolim – algo (o “trampolim”) que acabará por rimar com a última cena do filme, na qual Jerry, agora “encostado à parede” (ou à varanda) pela mulher por quem está apaixonado, finge novamente cair no abismo, para voltar, uns segundos depois, a entrar em cena: “It’s just a movie, see? I’m fine. The people in the theatre know I ain’t gonna die. Here, see, it’s a movie set…”.

sexta-feira, 8 de setembro de 2017

terça-feira, 5 de setembro de 2017

CICLO 5 ANOS "À PALA DE WALSH" NO PORTO



 
PORTO: Os 5 anos do site À pala de Walsh também se celebram no TEATRO DO CAMPO ALEGRE!
 
A partir de 3 Outubro e até 14 de Novembro, um filme por semana seguido de conversa com convidado moderada por mim e pelo João Araújo. Anotem já nas vossas agendas... Até já!

segunda-feira, 4 de setembro de 2017

Anybody can miss



(The Ladies Man, 1961, Jerry Lewis)

Cena tão ternurenta quanto melancólica (e cinéfila): George Raft a tentar fazer provar a Jerry que é mesmo ele, George Raft em carne e osso, o actor, o famoso, a "movie star". Jerry não acredita e pede-lhe que repita o número da moeda que Raft celebrizou em "Scarface". Raft levanta-se, velho, pesado, rosto gasto (o tempo a cobrar ao corpo...), e o número sai desastrosamente mal... Ninguém mais a vê, a moeda perde-se no ar. Raft, desesperado, insiste que é ele em pessoa mas que, por vezes, eles - sim, até eles, os "famosos" do outro lado da galáxia, os gangsters implacáveis no ecrã, os galãs insuperáveis - também falham. "Anybody can miss... I'm not infallible", diz com todas as (amarguradas) letras.

sexta-feira, 1 de setembro de 2017

justa distância

 
 
(Les Parapluies de Cherbourg, 1964, JD)
 
 
Se o travelling é uma questão moral, o local onde colocar – neste caso, “deixar” é ainda mais apropriado - a câmara também o pode ser (ou uma questão... "sentimental"?): na despedida, a câmara não vai nem com o comboio, nem fica com Deneuve (em movimento oposto ao do comboio). A meio, Demy deixa a câmara ficar exactamente a meio, sem tomar partidos, decisões, tão-pouco sugerindo eventuais desenvolvimentos para aquele dilacerado casal. No meio - o local justo, a justa distância, para filmar um e outro, sem necessidade alguma de fabricar "drama", porque Demy sabe que ele já existe (o quanto ele já existe…), sem aditivos gratuitos, naquela separação. Também por esta razão, e ao contrário do modo convencional como tantas vezes se filma, Deneuve não fica lá ao fundo imóvel, chorosa, a olhar o comboio partindo inexoravelmente. Não, o comboio vai e Deneuve vai também. Apesar de tudo, a vida segue - tem de seguir, é isso que nos (lhe) dizem... Na estação de comboios como, depois, na estação de gasolina, a vida segue.

quinta-feira, 31 de agosto de 2017

E pronto, é isto que um tipo leva daqui





 
 
(Les Parapluies de Cherbourg, 1964, Jacques Demy)

quarta-feira, 30 de agosto de 2017

Festival de Locarno - Jornal de Letras




No número do JL - Jornal de Letras que saiu hoje para as bancas, faço a cobertura (a possível, pelo meio de tanta coisa) do Festival de Locarno (e na qual teço rasgados elogios ao Dragonfly Eyes do Xu Bing).
 
Faço também uma entrevista com o Pedro Cabeleira e o Pedro Marujo a propósito do seu Verão Danado (a fotografia foi desenrascada na hora com o meu telemóvel mas acho que ficou bem engraçada). Boas leituras!

Crítica - "Annabelle: The Creation"

 
 
Há um ano atrás, deixava a minha crítica a "Lights Out", a primeira longa de David F. Sandberg. Este tempo volvido e, na quase-rentrée do À pala de Walsh, abro o apetite para o que aí vem com um texto sobre "Annabelle: The Creation", o novo filme de Sandberg. Para ler aqui.
 
"Pistolas, máscaras, fantoches, espantalhos, bonecas (...), brinquedos em geral: tudo seres – aparentemente – inanimados que concorrem para a afirmação desse lado artesanal, manual, do cinema, destapando a artificialidade super-tecnológica da “infra-estrutura” cinematográfica. É semelhante ideia que decorre da parafernália de espelhos, portas, mesas e cadeiras de madeira que ocupa o casarão do filme – aliás, mesmo a cadeira elevatória que cruza os andares da casa (muito gótico, muito argentiano aquele vitral encarnado…) obedece a toda uma engenharia manual de “rodagem”, como uma bobina (cinema) ou o mecanismo rotatório das caixas de música (brinquedos)".

desabamento





(Steamboat Bill Jr., 1928, Buster Keaton / The Family Jewels, 1965, Jerry Lewis)

Entrevistas - Locarno

Duas entrevistas que fiz com o Pedro Cabeleira e o Pedro Marujo (Verão Danado) e com a Valérie Masssadian (Milla) em Locarno, com 31 graus à sombra. Para ouvir aqui:


1. Pedro Cabeleira e Pedro Marujo: http://www.fred.fm/pt/pedro-cabeleira-pedro-marujo-verao-danado-damn-summer-locarno70/

2. Valérie Massadian: http://www.fred.fm/uk/valerie-massadian-milla-locarno70/

CICLO 5 ANOS À PALA DE WALSH



5 ANOS DE À pala de Walsh: ciclo de cinema comemorativo a começar em Setembro no Nimas!

Parabéns a nós, parabéns aos leitores e parabéns a todos os filmes que nos fazem "esculpir sobre teatro e pintar sobre literatura".
 
Em breve novidades para o Porto!
 

novas de Locarno

O perfil da malta com quem passei duas belas semanas e as nossas escolhas para filme-maior do festival (e que bom ver que ninguém alinhou com o júri, eheh):

1) http://www.indiewire.com/2017/08/locarno-critics-academy-2017-survey-film-festival-1201866186/

2) https://pardo.ch/pardo/pardo-live/today-at-festival/2017/day-10/CRITIC-ACADEMY-VERDICT.html

segunda-feira, 21 de agosto de 2017

TU ME CHANGES LE PAYSAGE...




(Pépé le Moko, 1937, Julien Duvivier)

quarta-feira, 16 de agosto de 2017

Teaser #3 UMA NOVA TRIBO / A NEW TRIBE


 
 

NÃO CONSEGUES CRIAR O MUNDO DUAS VEZES, um filme de Catarina David e Francisco Noronha
Uma produção A Bunch of Kids
 

YOU CAN'T CREATE THE WORLD TWICE, a film by Catarina David e Francisco Noronha 

segunda-feira, 14 de agosto de 2017