chego e fico imediatamente surpreendido com o corrupio de gente, bilhetes e moedas, tripass e onde é o multibanco mais próximo, só nos aliados, que chatice, uma azáfama tal que, ia eu para dar dois beijinhos à Cristina e congratulá-la por aquela programação impossível (parece que existem cinco ou seis salas no Trindade, mas não, são só duas), eis senão quando um senhor se coloca no meio de nós e, como é isso do tripass
por esta altura, eu ainda não me tinha apercebido completamente do que agora escrevo, só uns minutos mais tarde, quando entro numa sala que, longe de estar cheia, era como se estivesse. homens, mulheres, velhos, novos, estudantes, casais, amigos em grupo, tipos sozinhos, gente cuja aparência indicia proveniências relativamente diversas. e depois, bom, e depois o Garell preto e branco, aquele título-grafismo de um classicismo absoluto a invadir o ecrã no mais apaixonado dos silêncios (só no cinema, e no amor com alguém, o silêncio nos surge tão sagrado, magnetizante, tão, afinal, reconfortante – aliás, é também disto que fala “L'Amant D'un Jour”).
as salas de cinema morreram, e mortas continuarão; não, não tive um súbito momento de dúvida nostálgico – até porque, neste capítulo, não alimento nostalgias, a minha cinefilia fez-se praticamente toda assim, em salas defuntas, com excepção dos filmes que vi, pela mão dos meus pais, quando era miúdo (o Tati, o Chaplin, o Star Wars no Brasília com a minha tia Teresa em que, premonição das premonições, dormi o filme todo). para o bem e para o mal – para o bem do meu espírito demasiado nostálgico por natureza, para o mal dos filmes, que precisam de público para existirem –, vivo em paz com estas salas de ossadas, mas um momento como o de ontem deu-me o vislumbre de uma coisa outra, de um tempo que praticamente não vivi mas do qual oiço os mais velhos recordarem. intermitências da morte. o filme termina, ficamos uns quantos até ao fim dos créditos (a tempo de ver que o Houellebecq compôs a letra de uma canção), saio e eis o mesmo frenesim no hall, bilhetes para trás e para a frente, não abrandou, o que vais ver o Woody Allen, gostaste do Amante, sim, olha, no próximo sábado às cinco apresentamos o nosso livro, ai é, sim, se quiseres vir
chama-se
“O Cinema Não Morreu”







































