celebrámos a palavra na
cama
como todas as coisas devem ser celebradas
(quase todas)
a luz a entrar demasiado cedo no teu quarto
intrusões que não compões
armados de uma filosofia imbatível, apuradíssima, coada pelos muitos e derrotados dias, celebrámos
Não
(no princípio não era o Verbo, foi
a quietude do substantivo
olhos que dispensam mãos e coxas se tudo
o que queremos
é fixidez
o contrário da
acção, berlindes
que se devoram, imobilizados)
deixámos para amanhã o que podíamos fazer hoje, contrariámos o
universal e absoluto princípio
da eficiência. fora com esses
tecnocratas!
fizemo-nos revolucionários da espera
inaugurámos o comité da paciência
vírgula da
demora
e do
tactear
Pê Dê Tê! Pê Dê Tê! Pê Dê Tê!
prometemos corpos que cantarão amanhãs
mas só cantarão amanhãs
amanhã
hoje,
não
hoje,
Não é
a palavra
amanhã será com certeza
outra
promessas nada vãs para quem
nos quisesse ouvir ou
ver
como esse teimoso e furtivo sol
partículas alienígenas que te doiram a franja
migalhas que não limpo
copo de água que tombo
pelas tuas costas
a enxurrada cobre-me dos pés à cabeça
tu não vês
(o frio não se vê)
e novamente
Não
vai tu primeiro, eu
vou a seguir
separaste assim as águas
sim, Não! claro, Não, Não
e Não
monossílabos crescem orgulhosamente em nós, rebentam em
afirmativas esplendorosas que nos elevam
do chão
literalmente, digo
a já não sei quantos mil pés de altitude de ti
vou ao Nimas fazer tempo
ignorando que me falarás da Marine
(os fantasmas conhecem-se, já devia saber)
seres
teres sido
só
projecção
?
se as sombras do teu quarto não desapareceram
quando a luz
entrou
projector estragado.
bobinas que se emaranham no peito.
larguem-me, deixem-me as veias em paz
sangue quer correr livremente
na cabeça o
botão
ligar
desligar
Da minha janela vejo o Bósforo todos os dias: divisões e correntes, agitações e marés. Tal como no homem, tal como no mundo.
segunda-feira, 4 de junho de 2018
sexta-feira, 1 de junho de 2018
meus pés, onde
(LP Arthur Verocai, 1972)
"Depois de sonhar no sofá
Desfiar minhas contas sem fim
Se nada vai bem ou vai mal
Que mapa estão os meus pés?
A praça, o povo, a fé
O campo, a bola, o café
E nada vai bem ou vai mal
Que mapa estão os meus pés?
A gente, o porto, o cais
O medo, a vida, o revés
E nada vai bem ou vai mal
Que mapa estão os meus pés?
A gente, o porto, o cais
O medo, a vida, o revés
E nada vai bem ou vai mal
Que mapa estão os meus pés?"
Desfiar minhas contas sem fim
Se nada vai bem ou vai mal
Que mapa estão os meus pés?
A praça, o povo, a fé
O campo, a bola, o café
E nada vai bem ou vai mal
Que mapa estão os meus pés?
A gente, o porto, o cais
O medo, a vida, o revés
E nada vai bem ou vai mal
Que mapa estão os meus pés?
A gente, o porto, o cais
O medo, a vida, o revés
E nada vai bem ou vai mal
Que mapa estão os meus pés?"
Entrevista com Black Milk - Público
Tocou a semana passada em Lisboa (Music Box) e no Porto (Plano B) na companhia da extraordinária Nat Turner Band. À conversa com Black Milk no Público:
Artigo que escrevi há umas semanas sobre o seu disco "FEVER":
Entrevista para o Porto Canal
Link para entrevista que demos ao Porto Canal a propósito do nosso filme Não Consegues Criar O Mundo Duas Vezes:
ípsilon - "Deepak Loper"
No Ípsilon de há umas semanas, escrevi sobre Papillon e o seu primeiro LP a solo "Deepak Looper". A liberdade está a passar por aqui.
"À data, Slow realçava como o seu horizonte era a mistura e o dinamitar de espartilhos (...), e Papillon é, neste sentido (nada pejorativo, entenda-se), o 'performer' de que Slow se serve para dar asas à sua profunda imaginação, numa sinergia altamente benéfica para ambos. De ...repente, encontramos Papillon, rapper “de formação”, a puxar da voz, cantando e experimentando entonações e inflexões por cima dos arranjos soberbos (apenas um entre mil exemplos: aquelas duas prodigiosas linhas de sopro sobrepostas no início de “Metamorfose Fase II”) com que Slow não pára de surpreender o ouvinte (...). Notável o modo como, em determinadas letras de Papillon, depois de, num primeiro momento, as palavras e as ideias poderem soar simplistas ou previsíveis, um twist as faz descarrilar (quase sempre com cariz dramático), assim densificando, problematizando, tudo aquilo que o ouvinte captara até aí (ao jeito da parábola) – é o caso de “1 Am”, canção aparentemente colorida e escapista cujo subtexto (negro, na verdade, e subtil na forma como o Pai biográfico se confunde com o Pai “Estado”) vai progredindo (teclas fabulosas, quase de filme mudo cómico, no momento da vertigem) até a um pesadelo-suicídio (há ecos do “sunken place” de 'Foge', o filme de Jordan Peele, também…).
"À data, Slow realçava como o seu horizonte era a mistura e o dinamitar de espartilhos (...), e Papillon é, neste sentido (nada pejorativo, entenda-se), o 'performer' de que Slow se serve para dar asas à sua profunda imaginação, numa sinergia altamente benéfica para ambos. De ...repente, encontramos Papillon, rapper “de formação”, a puxar da voz, cantando e experimentando entonações e inflexões por cima dos arranjos soberbos (apenas um entre mil exemplos: aquelas duas prodigiosas linhas de sopro sobrepostas no início de “Metamorfose Fase II”) com que Slow não pára de surpreender o ouvinte (...). Notável o modo como, em determinadas letras de Papillon, depois de, num primeiro momento, as palavras e as ideias poderem soar simplistas ou previsíveis, um twist as faz descarrilar (quase sempre com cariz dramático), assim densificando, problematizando, tudo aquilo que o ouvinte captara até aí (ao jeito da parábola) – é o caso de “1 Am”, canção aparentemente colorida e escapista cujo subtexto (negro, na verdade, e subtil na forma como o Pai biográfico se confunde com o Pai “Estado”) vai progredindo (teclas fabulosas, quase de filme mudo cómico, no momento da vertigem) até a um pesadelo-suicídio (há ecos do “sunken place” de 'Foge', o filme de Jordan Peele, também…).
sexta-feira, 25 de maio de 2018
NÃO CONSEGUES CRIAR O MUNDO DUAS VEZES - HOJE NO PASSOS MANUEL, 21H
Cartaz: José Vaz
Hoje voltamos ao Porto. Às 21h, no Passos Panuel, no âmbito do 5.º aniversário do ciclo HáFilmesNaBaixa!
Até já
quarta-feira, 9 de maio de 2018
"Não Consegues Criar O Mundo Duas Vezes" no IndieLisboa e no Festival Telheiras
Foi muito bonita a exibição do nosso documentário "Não Consegues Criar O Mundo Duas Vezes" no IndieLisboa International Film Festival! Obrigado a todos os que vieram e também aos que ficaram no fim para o Q&A...
E grande festa que foi no dia seguinte, na Casa Independente, com o histórico José Mariño e o DarkSunn...
E agora mais boas notícias: se são de Lisboa e arredores e não conseguiram verna semana passada,o filme volta a passar ESTE SÁBADO (12 MAIO) no Festival de Telheiras, com a presença dos realizadores para apresentação e Q&A no final. Às 21H, no Auditório da Biblioteca Municipal Orlando Ribeiro (Telheiras)!
Até já
Nota: em cima, artigo saído no Jornal de Notícias de 3 de maio de 2018.
https://www.facebook.com/NaoConseguesCriarOMundoDuasVezes/
terça-feira, 24 de abril de 2018
sexta-feira, 20 de abril de 2018
sábado, 14 de abril de 2018
choses secrètes
("Man with a Movie Camera", 1929, Dziga Vertov)
ainda bem que só ontem vi, pela primeira vez, este Vertov. ainda bem porque, se o tivesse visto há 10 anos atrás, não teria compreendido como ele é o mais cinéfilo dos filmes cinéfilos – com o pormaior de o ser sem o pretender ser, inconscientemente (ou "infantilmente", diria até), sem “meta-referencialidades” deliberadas. não me vou estender sobre como aquilo que ali vemos, filmado nos anos 20, é do que de mais moderno já se fez no cinema (nem sequer é “prenúncio”, é moderno em si mesmo, ponto, consolida ou ultrapassa, até, os "modernistas" dos anos 60 em diante). entretanto, o cineclube do porto celebra hoje o seu 73.º aniversário com um Bresson, Au Hasard Balthazar (curioso cineasta para celebrar um aniversário). e, amanhã, há Bande à part, às 18h… isso: Vertov – Bresson – Godard (esse, o do grupo Dziga-coiso)… Sexta-feira 13, sábado 14, domingo 15, segunda 16, vingt-quatre fois la vérité par seconde…
ontem como hoje, no Vertov e no Hitchcock, o cinema é “a vida dos outros”, a janela, o destapar (o possível) do oculto. o segredo inexorável.
"FEVER" no ípsilon
"FEVER": Black Milk, um dos mais virtuosos mas também subvalorizados rappers e produtores americanos, começou por querer fazer um álbum em tom feel-good, mas o mundo, a realidade, meteram-se-lhe pelo caminho. Um dos discos americanos do ano no ípsilon da última semana.
Link: https://www.publico.pt/2018/04/09/culturaipsilon/noticia/o-termometro-diz-que-o-mundo-esta-com-febre-1808790
terça-feira, 3 de abril de 2018
no ípsilon - "Auto-Sabotagem"
Tragicomédia no Ípsilon da última sexta-feira... NERVE e "AUTO-SABOTAGEM".
Link para artigo on-line: https://www.publico.pt/2018/03/31/culturaipsilon/noticia/a-vida-tambem-e-isso-uma-tragicomedia-1808038
quinta-feira, 29 de março de 2018
quarta-feira, 14 de março de 2018
O Despiste
("If You Wanna Be My Man", álbum Lady, 2013, Lady)
"All this time we thought you and me together
I always thought that we would be this thing forever
But you changed, and I changed
What it used to be"
I always thought that we would be this thing forever
But you changed, and I changed
What it used to be"
segunda-feira, 12 de março de 2018
"Weather or Not" e "Dear Annie" no ípsilon

Um tem 41 anos, veterano da cena alternativa do hip-hop americano, é de Los Angeles e comoveu-me profundamente na primeira vez que o ouvi a rimar na “By My Side Too”, canção do seu novo e fabuloso disco. O outro tem 24 primaveras, é da mesma cidade de Joyce e traz a chanson (entre outras coisas) para o seu primeiro LP.
Evidence e Rejjie Snow e os seus novíssimos álbuns - "Weather or Not" e "Dear Annie", para guardar já nas colheitas de 2018 - no Ípsilon da última sexta.
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