domingo, 16 de setembro de 2018

"C'est vrai ou c'était un cauchemar? / Je sais pas"























(Week End, 1967, JLG)

yeah, to all the cinephiles and a hundred dollar moviegoers



(LP Recomeçar, 2017)

"E chegou no fim do filme
De volta aonde começou
Um minuto de silêncio
De quem riu, de quem chorou
E quem esqueceu da vida
Volta agora a se lembrar
Vendo os créditos descendo
A hora em cada celular
Vão subindo pra paulista
Caminhando sem falar
Os prédios parecem gigantes
As luzes parecem cegar
E a vida parece mentira
Porque não quer acreditar
Que as histórias do cinema
É que não podem ser reais"

sexta-feira, 14 de setembro de 2018

depois de me barrares
o apetite, o ombro
salivado que voltas a cobrir
dir-me-ás com a mesa posta
e a bondade
toda que nunca te saberei retribuir
 
o mar abre-nos o apetite

ana, mon amour

 
 
Não tenho escrito sobre cinema com a regularidade de que gostaria, mas, à boleia da réentrée do À pala de Walsh, volto a pegar na caneta olhando para "ANA, MON AMOUR", um xanax romântico nos Comprimidos Cinéfilos deste mês, e que, infelizmente, demasiado despercebido passou pelas salas portugueses (a que junto, mais abaixo, o Palatorium de Setembro).
 
 
 
Nunca o nome desta rubrica se adequou com tanta propriedade a um filme como este ao qual agora nos lançamos. Comprimidos, sim: ansiolíticos, tranquilizantes, anti-depressivos, por aí fora. Tudo isto está no campo e no fora-de-campo de Ana, mon amour (Ana, Meu Amor, 2017), a segunda longa do romeno Cãlin Peter Netzer, vencedor do Urso de Ouro na Berlinale 2013 com Pozitia copilului (Mãe e Filho, 2013). Um cerimonial preparatório antes de sair de casa; a desmedida importância que se dá a uma palavra ou a um gesto (tantas vezes lido, porventura erradamente, como insinuação de); a imagem de um rosto ou de um momento que não nos larga o pensamento; enfim, as famigeradas “borboletas no estômago” quando avistamos alguém ao longe… Tudo isto tem um e muitos nomes, e tantas vezes dois deles se confundem num só: amor, ansiedade; ansiedade, amor. Uma das primeiras virtudes do filme de Netzer reside precisamente aí: no modo como, para além da dimensão “clínica”, não deixa nunca que o espectador se esqueça de que o amor (também) é, por natureza… ansiedade; e de que, em toda a ansiedade (mesmo que não a amorosa ou romântica), existe alguma espécie de… “amor”, no sentido de que ela sempre carrega uma qualquer vertigem, fúria, frémito.
 
Uma outra virtude de Netzer está no modo (no ritmo) como monta as “cenas da vida conjugal” de Ana e Toma, ora de modo rápido e cortante, correspondente à “instantaneidade”, imprevisibilidade, dos ataques de pânico de Ana (extraordinário trabalho de representação de Diana Cavallioti); ora filmando-os em cenas longas, demoradas, a câmara à mão relativamente à deriva. Neste último caso, se tal opção, numa leitura mais imediata, “internaliza” os efeitos anestesiantes dos comprimidos de Ana (como se a câmara estivesse “drogada”), também serve um outro resultado, porventura mais belo, que é o de captar o amor nos seus momentos mais cândidos, ingénuos, enfim, felizes: é tudo isso que está nesta nouvellevagueana sequência que vai sendo “decoupada” ao longo dos 125 minutos (espantosa aquela situação, logo na primeira cena, em que Cavallioti passa, muito lenta e genuinamente, de um ataque de pânico para o início daquilo que parece ser um momento de prazer sexual…). 53 anos depois, Ana é o update geracional, cultural, “patológico”, da Giuliana (Monica Vitti) de Il Deserto Rosso (O Deserto Vermelho, 1964): os “ataques” deixam de ser meras (e, de certo modo, estilizadas) petrificações existenciais (o ennui antonioniano) para serem o que, na verdade, sempre foram: problemas médicos reais, carentes de acompanhamento clínico – a ansiedade como “a” doença mental do século XXI, com uma galopante penetração entre os jovens ditos millennials (e é por aqui, aliás, que reside um dos aspectos menos felizes do filme: a psicanálise utilizada como modo forçado para explicar, com um superficialíssimo simbolismo, tudo e mais alguma coisa).
 
Fassbinder ficou para a história do cinema, entre outras coisas, pelo modo visceral, violento, incómodo mesmo, como procurou demonstrar que as relações amorosas são, no princípio e no fim, relações de poder, perfeitamente delineadas no que ao binómio explorador-explorado diz respeito. Dir-se-ia, então, que, em Ana, mon amour, os termos são um pouco diferentes – mas talvez nem tanto assim, afinal. O desmedido altruísmo manifestado por Toma para com Ana é, na verdade – compreenderemos na última meia-hora do filme –, a sua forma – quiçá inconsciente, sim, mas o Poder nunca viveu, por natureza, da “boa consciência” – de exercer poder e dominação. Se Ana, durante grande parte dos anos que atravessam aquela relação, depende, inteiramente, de Toma (quão poderosa a cena do suicídio-que-não-é-mas-é-suicídio), o contrário não é mentira. Queremos dizer: Toma é absolutamente dependente da dependência de Ana por si, e, uma vez atenuada a dependência desta última, o chão começar-lhe-á a fugir (a Toma). Quem é dependente de quem, afinal? A aparente solidariedade, disponibilidade total de Toma constitui-se, hélas, numa perversa forma de poder, controlo, enfim, da sua própria sobrevivência. Era precisamente disto – embora com um aporte mais politizado (classista, marxista) – de que falava Fassbinder.

quinta-feira, 13 de setembro de 2018





(La Femme du Boulanger, 1938, Marcel Pagnol)

quarta-feira, 12 de setembro de 2018

lamentamo-nos pelo tom com que frequentemente dizemos - ou, na verdade, pelo facto de simplesmente o dizermos - "é a vida" sem nos apercebermos do luxo que nos abrilhanta os lábios nesse instante. andássemos nós volta e meia a dizer "é a morte" e aí é que eram elas. talvez então os lábios se enlameassem com lixo, por exemplo.

there's another woman


 
 
(Blackboard Jungle, 1955, Richard Brooks)

segunda-feira, 10 de setembro de 2018

SWIMMING




a primeira coisa que imediatamente quis fazer no dia seguinte foi surfar. sábado e acordo às horas a que só tenho por hábito acordar durante a semana. nem de propósito, mar fraco – se não quero arrefecer, nado. para a frente, para trás, esquerda e direita. nadar. na noite anterior, minutos antes, minutos mesmo, de me questionarem sobre se eu já sabia das “novas” (quanta perversidade nisto), tinha acabado de enviar uma mensagem a perguntar: “gostas de mac?”. ia acrescentar o parêntesis “mcdonald’s, de mac miller já sei que sim”, mas acabei por não o fazer. terão sido as batatas fritas menos saborosas que alguma vez provei na vida. e assim permaneci, sentado, sem saber o que fazer com um bilhete para o spike lee nas mãos dali a dez minutos. sentado novamente, então, agora na sala. mas, antes disso, voltar atrás, o transido casaco que ficou esquecido na cadeira. já o primeiro plano no ecrã: um mar de mortos. estes já não nadam, dois dedos que levo à frente dos olhos como o de niro na sala de cinema no taxi driver. vou pensando em como tinha escrito que, no "SWIMMING," a água se volvia em metáfora infinita, que tinha dado o exemplo do videoclip da “Stay”, embora ela já estivesse também presente, muito sintomaticamente, nos da “My Favourite Part” (ele começa quase submergido e termina à superfície) e da “Come Back To Earth” (o bonequito, explorador naval de olhos luminosos, que não pára de descer e descer e descer no fundo de um mar de ruínas…). mas não mais agora: o “memento mori” que se via no videoclip da “Self Care” cumpriu-se. finitude. já não há cá marés altas ou marés baixas, afogamentos, vir à tona e o diabo a quatro. só o diabo, o fundo do mar.

lutei até à última para que o título do artigo fosse: “Aprende a nadar, companheiro”. ossos do ofício: perdi. ficou: “Aprender a nadar com um falso disco de Verão”. não me interessava tanto a canção do sérgio godinho; o que eu queria, na minha ingenuidade, era dirigir-me a ele, Mac, interpelá-lo, uma palmada nas costas, dar-lhe a mão, contar-lhe que também eu ando para aqui a nadar, que somos muitos os que faltaram às aulas de natação (ninguém nasce ensinado, ou não?). isso, essa interpelação, até podia, de facto, ter acontecido, mas não fui diligente o suficiente; o editor, que me diz também estar apaixonado pelo disco, afirma que, tivesse eu feito a entrevista, e faríamos capa com o disco. e eu, palerma, que entrevistei já tanta boa gente a quem não tenho nenhum interesse particular em dar uma palmada nas costas, nem me lembrei dessa possibilidade. pois que peço para adiarmos o artigo, uma semana, vou conseguir entrevistá-lo – mas já não, timings, agora inês é morta. e morta ficou também a possibilidade de eu testemunhar a doçura, a graça, a simplicidade que todos lhe apontam na hora em que, depois de nos ter dado essa maravilhosa canção chamada “Come back to earth”, ele se decide a voltar lá para cima. “I just wanna go on tour. I wish it started tomorrow”, escreveu ele na sexta-feira; e foi mesmo, mas nem esperou por amanhã. contento-me, então, em citar a entrevista que deu à rolling stone – “Mac Miller Wants You to Know He's OK” é o título (e, enfim, ele parecia mesmo OK). que andamos todos para aqui a nadar, que a natação é, como se costuma dizer, o “mais completo dos desportos” foi o que eu repeti, umas semanas depois, ao meu irmão, antes e depois do pequeno-almoço, dos vómitos, das flocas, do caderno de versos alternativos, do manual de sonetos. disse-lho antes e depois de nadarmos naquelas águas onde eu já não entrava desde 2010, antes e depois de aninharmos com a nadadora-salvadora e ela nos chamar de cachorritos. antes e depois do susto que apanhámos quando a corrente o queria levar não sei para onde e o foram lá buscar. ouvimos o disco, o meu irmão e eu, separados por muitos quilómetros, ou não tanto assim, pois que, neste agosto, também eu viajo com o imperador adriano pela terra onde primeiro se divinizou o amor, a beleza, a mulher. afrodite. “The Divine Feminine”. ou “The Divine Femine”, como invariável e erradamente escrevi ao longo de todo o artigo (foi, provavelmente, da excitação). a partilharmos um quarto como há muitos, muitos anos não o fazíamos, o disco tocará umas quantas vezes ao fim do dia, enquanto nos revezamos nos banhos. mas não assim tantas, como não assim tantas foram as palavras que trocámos sobre ele.

Mac Miller não era, de todo, um músico com uma obra fabulosa: dos muitos álbuns e mixtapes que editou, a esmagadora maioria considero-a francamente mediana e mesmo desinteressante. nos últimos dois anos, porém, deixou dois formidáveis discos (“The Divine Feminine” e “SWIMMING”), os seus dois últimos, obras-primas da música popular americana do século XXI – num rico espectro que abrange o hip-hop, a pop, o funk, a soul, o R&B – que, pelo fundo mapeamento emocional que as insuflava, começavam a fazer de Miller referência para uma geração, como Dylan, Cohen, Bowie, Cobain ou Cave foram e são para outras. curiosamente, uma geração – a minha – que, no início da sua carreira, pouco ou nada lhe ligara (foi o meu caso, também), por nele ver apenas um rapper adolescente histriónico (e que mal há nisso? nenhum, evidentemente, mas, já se sabe, a idade, mesmo involuntariamente, embrutece-nos) como há por aí às dúzias. encontrei-me com o Mac, por isso, já tarde, mas, com toda a certeza, no melhor momento da sua música; isso não impede, porém, que me comova enquanto vou lendo os testemunhos de um sem-fim de miúdos que dizem ter crescido desde os 12, 13 anos com os seus discos (os tais que eu considero desinteressantes) e que nele vêem quase um colega do liceu desde o tempo em que ele, cachopo, se abanava castiçamente naquele footage caseiro do videoclip da “Best Day Ever”. esse mesmo adolescente que dirá alguns (poucos) anos depois: "Overdosing is just not cool. There's no legendary romance. You don't go down in history because you overdose. You just die". you just die. que citará whitney – a houston, quem mais – em “Hurt Feelings”. a sua música estava cheia de vida e de morte, e ele, enfim, parece que quis advinhar a segunda: “Swear the height be too tall so like September I fall”. dois discos que deixam no ouvinte uma alegre e desmedida vontade em lhe ouvir o próximo, testemunhar os caminhos que tomará o seu som (algo que me acontece com muito poucos músicos), tomar o pulso às curvas do seu estado de espírito, avaliar a força das braçadas. mas que também denotam o quanto de prometedor havia ainda para trilhar, como é o caso das actuações ao vivo, nas quais, mal-grado a excelência do naipe de instrumentistas de que se rodeou (sendo, ele próprio, um multi-dotado: guitarra, baterias, teclas, maquinaria digital) e com quem iria entrar em tour, a sua voz – tão magnificamente explorada em “SWIMMING”, como nunca até então havíamos testemunhado – podia ainda ser trabalhada (nos últimos vídeos de concertos que correm na internet, noto-o sempre bastante nervoso, e, no sábado, li alguém, talvez o Thundercat, a confirmar isso mesmo).

lancei-me a “SWIMMING” tremelicante, quase com o cínico medo de ver as minhas expectativas defraudadas depois do “The Divine Feminine”. o disco sai quando estou para fora, de férias, mas corro para a minha casa temporária para o ter no ipod, o qual, a partir desse momento, outra coisa não tocará nas longas e curtas viagens de carro, nocturnas e diurnas, com o sal na pele ou os medronhos no sangue. já percebi, afinal, a razão para a entrevista que nunca aconteceu: estava a meio de férias, não havia tempo, logística, meios. timings, novamente. escrevo então, em forma de elogio, que “SWIMMING” não é o típico disco de “superação”, com isso pretendendo fazer notar a maturidade do discurso (“uma reflexão descomprometida com metas” foi o que saiu…). olha, a maturidade para as malvas, antes tivesse sido a superação. mas também escrevi que era um disco perfeito. e é, embora eu nunca tenha querido que o fosse pelos mesmos motivos que yourcenar o insinuou nas memórias do tal imperador, mas que ele, o Mac, teimosamente o confirmou na sexta-feira passada – “Foi então que uma melancolia momentânea me apertou o coração: pensei que as palavras acabamento, perfeição, contêm em si a palavra fim: talvez eu tivesse somente oferecido mais uma presa ao tempo devorador”. quando tento descrever o último minuto do disco, o último de “So It Goes”, digo que fecho os olhos para aquele maravilhoso final de sintetizadores oníricos a ecoarem no êxtase total. omito, no entanto, o que, na altura, também me passou pela cabeça: que era um final muito… final, tom angelical de despedida; omito porque não o quis puxar para baixo (ainda a interpelação…), a tal palmada nas costas, vamos lá ser optimistas com isto, pronto. outra forma de omissão foi a que ele nos deixou na “2009” (“It ain't 2009 no more / Yeah, I know what's behind that door”): para o quê (o céu? o mar?) ou para quem dá a porta a que ele se refere, perguntava eu no texto tomando de referência a janelinha (escotilha?) da capa do disco. continuo sem saber. como acontece com tanta gente, para escrever sobre qualquer coisa (elogiosamente ou não, é irrelevante), ela tem de, por alguma forma, me espicaçar, provocar (isso, interpelar, como eu gostava de ter feito com ele); nessas viagens de carro, estes termos tornam-se, porém, ridículas minudências, pois que de um sobressalto permanente se tratou. escreverei poemas sobre o disco ouvido nessas viagens que guardo para mim, inclusivamente um verso nestes brutos termos: e eu furioso teclando notas e mais notas, inclusivamente a de que meus senhores diz-vos o crítico este é um disco para escutardes em estradas alentejanas pela noite fora mas já sabendo que, na hora da verdade, os meus olhos verão descontexto e ingenuidade nesse trecho

e viram, pois claro.

a minha listinha do para fazer tem escrito a tinta azul comprar discos mac miller desde o dia três de agosto; tem, também, uma chaveta com vectores: o The Divine Feminine e o SWIMMING para mim, e outro SWIMMING para o tiago, que tanto me aturou a ouvi-lo (não há mais música nesse ipod, noras?). nesse mesmo dia em que vou ver o spike lee, passo, umas horas antes, pela lavandaria perto de casa. quando me chego ao balcão e o rosto esbaforido da empregada, que vejo apenas de costas à medida que me aproximo, se vira completamente para mim, imediatamente pressinto que a conheço bem – quero dizer, evidentemente que não a conheço, mas rapidamente nos conheceríamos e entrosaríamos se trocássemos dois dedos de conversa, é a ideia com que fico (rara, mas muito raramente, me engano). e se são precisos dedos, então eu tiro as mãos dos bolsos ainda antes de dizer ao que venho: como estamos? bem, mal? assim assim? é, assim assim, estamos assim assim, o vapor fumegante que lhe realça o brilho das verrugas suadas. pois, é aquele fado, não é?, atiro, longe ainda de saber que, nesse mesmo dia, provarei das batatas fritas menos saborosas da minha vida. qual fado, senhor, é música de baile, carago, é preciso é abanar o esqueleto. isso: baile, abanar, continuar. SWIMMING.

sexta-feira, 7 de setembro de 2018



(Le crime de Monsieur Lange, 1936, Jean Renoir)




(An Unfinished Piece for Mechanical Piano, 1977, Nikita Mikhalkov)

quinta-feira, 6 de setembro de 2018

nunca
te poderias chamar
maria vinagre
o nome na placa da estrada
de que tanto
gostas, tamanha
a doçura que
os veios azuis dos teus
seios arenosos
carreiam, rodelas alaranjadas (como as de
um tronco rachado a meio)
de que um dia a minha boca
se socorreu sem delas nunca ter
sabido levedar o
seu fluído vital
(ou, pelo menos, conservá-lo,
já não teria sido mau)

grãos que noutros
seios braços
pernas entupiriam o normal
funcionamento do trânsito exigindo
a sirene que obriga a que todos se atolem nos passeios
ou as seringas periodicamente
cravadas na pele
mas
que em ti
constituem a sanguínea sacarina
que a eterna, humilde dificuldade em amorenar
teimosamente realça

por outras
palavras que ingenuamente julgo
menos complicadas
tento-to explicar
ao jantar em
mil fontes mil razões
para eu ter endurecido
enrijecido, horas antes
de te fotografar na costa lunar
os dois braços no ar
como quando o Wenders filmou aquela rapariguita
a gritar para a câmara vou para lisboa!

destas rodelas alaranjadas como as de
um tronco rachado a meio
me socorri
a vida inteira e se
alguma vez mordi foi por ainda
não ter aprendido a pegar
nos talheres
colocar o guardanapo no colo
por levar o prato até à travessa e não
o inverso
é põe que se diz
não é mete, advertes

socorrer-te-ei com as minhas
duas mãos
pois dentes
só os que a almofada um dia
fantasiou numa manhã como
as outras em que acordas mais cedo
do que todos e munida
de varinhas de açúcar
vais socorrer
os que não são teus filhos.



 
(Through the Olive Trees, 1994, A. Kiarostami / Robin Hood, 1973, W. Reitherman)

floca-a-mina, meu mano querido.







Do meu irmão Lucas - ou Luca Maluka, como um dia a nossa Tia Lena o baptizou com a água benta de Água Longa.

levar-nos-á



 
O Vento Levar-nos-á Através das Oliveiras
 (Pai, Mãe, Lucas / Aljezur, Setembro de 2018)

re-aproximação ao vivido

"O cinema é dizer do vivido, falar do vivido; dizê-lo fazendo de conta que se vive seria muito bizarro".

Valérie Massadian, em entrevista ao ípsilon de 31-08-18 - com ligação (pelo menos na minha cabeça) para isto que aqui escrevi há uns tempos.

ossessione









 
 
 
(Jeune & Jolie, 2013, F. Ozon)
 
 
"Cada um de nós tem mais virtudes que os outros supõem, mas só o êxito as torna notórias, talvez porque se espera então que deixemos de as praticar. Os seres humanos confessam estupidamente as suas piores fraquezas quando se espantam de que um senhor do mundo não seja indolente, presunçoso ou cruel".
 
 "Memórias de Adriano", M. Yourcenar

Marcos Valle + Azymuth no ípsilon


 
 
No passado dia 30 de Agosto, Marcos Valle e os Azymuth celebram uma amizade de décadas no palco do B.Leza. Oportunidade não só para assistir a uma noite garantidamente de festa e calor, mas, também, para recuperar o rasto a uma parte mais vasta e esquecida da música brasileira: a black music dos anos 70 e 80.
 

resumindo e concluindo




(La signora senza camelie, 1953, Senhor-Mestre Antonioni)