(La Signora Senza Camelie, 1953, M. Antonioni)
Da minha janela vejo o Bósforo todos os dias: divisões e correntes, agitações e marés. Tal como no homem, tal como no mundo.
quarta-feira, 14 de novembro de 2018
terça-feira, 13 de novembro de 2018
segunda-feira, 12 de novembro de 2018
"Não se compreende nada da doença enquanto se lhe não reconhece a estranha semelhança com a guerra e o amor: os seus compromissos, as suas simulações, as suas exigências, esta bizarra e única amálgama produzida pela mistura de um temperamento e de um mal. Estava melhor, mas para enganar o meu corpo, para lhe impor as minhas vontades ou ceder prudentemente às suas empregava tanta arte como outrora para alargar e ordenar o meu universo, para construir a minha pessoa e embelezar a minha vida".
(Memórias de Adriano, M. Yourcenar)
Palatorium
Aqui, para nosso alívio, não temos que escolher entre a democracia e o fascismo. Só entre afectos, gostos e obsessões, taras&manias marcopaulianas, sensibilidades e luzes, cores e vertigens. É o Palatorium deste mês, já um pouco desactualizado no que aos meus olhos diz respeito: falta ali uma pala no En Guerre e outras três no Halloween. Bons filmes!
domingo, 11 de novembro de 2018
não sei do que gosto mais
ou menos
o hospital escuro
as marcas do sangue nas
negras imundas paredes
deixadas pelas garras
do vampiro que a mão esquerda
da minha mãe golpeia enquanto a direita
me passeia assustado
da minha mãe golpeia enquanto a direita
me passeia assustado
se o moderno
monumental
alvo brilhantíssimo
distópico hospital
em que somos
minúsculos, pois que até aqui
no lugar
das curas
insistimos em nos
insistimos em nos
apequenar, matar
paradoxais semideuses
que têm
mas não sabem
onde cair
quero dizer,
quero dizer,
como cair
mortos
vivos
zombies
quarta-feira, 7 de novembro de 2018
John Wayne, yo / 07-09-2018
(LP GO:OD AM, 2015)
"I came for whoever is in charge
I suggest you go and get yourself a weapon and a guard
They need some coffee, everybody’s sleeping on me...
Going around door to door, setting off alarms
All that horse shit, you should have left it at the barn
I suggest you go and get yourself a weapon and a guard
They need some coffee, everybody’s sleeping on me...
Going around door to door, setting off alarms
All that horse shit, you should have left it at the barn
Keep a stallion, tell her gallop to the store and get cigars, yeah
Too many whips, gotta get a new garage made
I might steal one just to drive it in a car chase
Me and my bizarre ways (Lord have mercy)
I moved up from a Private to a Sergeant
You can see it from the scar face
Hidden in a dark place, swimming in the shark tank"
Too many whips, gotta get a new garage made
I might steal one just to drive it in a car chase
Me and my bizarre ways (Lord have mercy)
I moved up from a Private to a Sergeant
You can see it from the scar face
Hidden in a dark place, swimming in the shark tank"
terça-feira, 6 de novembro de 2018
sabes o que não é estranho
e devia ser:
apareceres-me a meio da noite
branquíssima
sem que to peça
não me roubes o sono de que
preciso mais logo para
ir ao cinema, único lugar
onde o pacto, justo, está já celebrado à partida:
apareçam as que aparecerem
imagens apenas
ladras de coisa nenhuma
pelo contrário, vítimas de
usurpação
com elas sim
é para o lado
que durmo melhor
segunda-feira, 5 de novembro de 2018
chorou como um menino quando a avó ficou no hospital. "nem duas palavras lhe conseguia perceber ao telefone", diz com falsa altivez, como se ambos desconhecêssemos que a mão que não larga a minha treme da comoção. mais tarde, repararei na mão dele, do avô, uma imensa mancha violácea que peço para fotografar. dias depois, estarão finalmente juntos nesta casa e, então, como se tudo voltasse ao tempo em que o avô saía de manhã para trabalhar e regressava à hora do almoço preparado pela maria das dores (teve que ir embora, parece que uns fios sumiram, fico agora a saber), vemos, no sofá torrado de nascença e pelo sol dos anos (abre os estores, a avó quer luz), as cobras na televisão. a voz do locutor ainda é a mesma, quem sabe não se tratará de uma reposição, aí é que seria a volta completa. é desde esse tempo que lhes guardo pavor e fascínio extremos, os mesmos que me revolveram a cabeça de menino quando, sozinho em casa, vi um programa em que um rapazito como eu, australiano talvez, encontra uma enorme e esfíngica aba de dois minúsculos olhos à saída da sanita quando se prepara para o xixi-cama. anos, muitos, que passarei atemorizado pelo bicho que subirá secretamente pelos canos. é pela mesma altura que verei da janela do carro a pele seca de uma delas pendurada num poste no meio da neve a caminho da serra da estrela como aviso para não sei, afinal, exactamente o quê. ou julgo que vi. a avó, de olho guloso (como se também colocasse a língua de fora), fixa o ecrã e depois, subitamente, passa a mão por debaixo das minhas pernicas
olha
olha aqui uma
bichebichebiche
também está aqui uma
como faz com os gatos lá fora, junto ao tanque, cobras e gatos, galinhas, lesmas, para ela tudo seres pertencentes à mesmíssima ordem, como um prolongamento dos seus dedos, unhas, da sua pele, saliva. uma tarde haverá - algo que me estava perfeitamente predestinado, cosmicamente marcado - em que uma dessas cobras salta do televisor para a bouça. nem a verei com olhos de ver, corro para dentro, grito, o Jorge descerá negligentemente do seu clandestino sótão onde ainda hoje encontro tesouros (discos, mapas, porta-chaves…) no seu habitual espírito gozão e, de uma machadada só, zás, não mais a vi. deixa aí nas cobras que eu gosto, pede agora. e eu, fora do seu ângulo de visão, levanto-me e dou dois passos só para ver outra vez aqueles dois berlindes rutilantes. o olhar só se desviará no momento de se ir aliviar, dou-lhe o meu braço e andamos lenta, mesmo muito lentamente, até ao momento em que terá de optar por baixar as calças à minha frente ou fechar a porta, as duas ao mesmo tempo não consegue. eu fecho a porta, chame-me quando terminar, sim? cha me me quando ter mi nar, sim? e sento-me novamente, uma cadeira bem rectangular para me amparar das circunvalações.
domingo, 4 de novembro de 2018
sábado, 3 de novembro de 2018
quinta-feira, 1 de novembro de 2018
but I, I love youuuuuu
(LP This Old Heart Of Mine, 1966)
"This old heart of mine been broke a thousand times
Each time you break away, I fear you've gone to stay
Lonely nights that come, memories that flow, bringing you back again
Hurting me more and more
Each time you break away, I fear you've gone to stay
Lonely nights that come, memories that flow, bringing you back again
Hurting me more and more
Maybe it's my mistake to show this love I feel inside
'Cause each day that passes by you got me
I love you, yes, I do
These old arms of mine miss having you around"
'Cause each day that passes by you got me
Never knowing if I'm coming or going
but I, I love you
This old heart darling, is weak for youI love you, yes, I do
These old arms of mine miss having you around"
quarta-feira, 31 de outubro de 2018
Folha de S. Paulo
Car@s Amig@s,
Perante as graves e permanentes ameaças e ataques (para já, apenas verbais) à liberdade de imprensa e de expressão no Brasil, e, em particular, ao jornal Folha de S.Paulo, decidi fazer a assinatura do jornal. Proponho, a quem entender por bem, fazer o mesmo. Assim, além do acto simbólico através do qual ajudam à preservação da liberdade e da democracia no Brasil, passam também a beneficiar do acesso irrestrito a conteúdos de excelente nível (política, nacional e... internacional; cultura; investigação).
Em Portugal, e uma vez que, como já se percebeu, o fenómeno está aí ao virar da esquina, apelo também à assinatura do jornal Público, não porque lá escreva, mas porque muitos anos antes de o fazer, era já um leitor indefectível. O Público é, não preciso de o desenvolver, um dos mais importantes pilares do nosso jornalismo e, por conseguinte, da nossa democracia.
Os links abaixo. Boas leituras!
Folha de S. Paulo:
Público:
terça-feira, 30 de outubro de 2018
Wah Wah Watson
com excepção do hip-hop, que já vinha muito, muito de trás, foi quando entrei na faculdade que o meu mergulho a sério na música negra americana se iniciou – e não tanto por ecos de casa (os meus pais tinham muitos LP de música brasileira, zeca e sérgio godinho, música clássica, mas, de black music, só os obrigatórios: James Brown, um Barry White aqui e acolá, pouco mais) quanto, como acontece com tanta boa gente, pelo rastrear dos samples originais dos beats que eu amava. nesse salto para aquelas que continuam a ser, todos estes anos depois, as minhas águas predilectas, houve uma revista fundamental para eu aprender a poda: não apenas os músicos e os discos, mas, também, como só viria a perceber mais tarde, a escrever (sobre música; cinema são outros quinhentos).
essa revista chamava-se (chama-se?) Wax Poetics e, num dos primeiros exemplares que comprei na Princesinha, a papelaria em Cedofeita onde a passei a encomendar mensalmente (eles tinham encomendado uma vez, à experiência, um número e, por milagrosa coincidência, eu passei nessa semana à porta; provavelmente fascinado pelo rosto do Sly Stone na capa, relativamente ao qual não fazia a mais pálida ideia de quem se tratava, decidi comprar), descobri o Wah Wah Watson, que morreu na quarta-feira passada. um side-man, génio na sombra, que fez apenas um álbum a solo (“Elementary”, 76) e tocou em centenas (literalmente) de discos de outros grandes nomes, todos bem mais reconhecíveis ao ouvido do que ele. o seu desaparecimento, mais do que me entristecer, remete-me para esse tempo outro no qual me maravilhava com todos aqueles nomes, discos, capas (da WP e dos discos que cada número abordava), referências, comparações, caminho livre, escancarado, privilegiado, para a minha curiosidade (nunca percebi aquelas pessoas que mal-dizem os críticos pelo facto de os seus textos estarem cheios de “referências", embora sempre me tenham parecido bastante preguiçosas e choninhas; pela minha parte, dominando mais ou menos um assunto, elas sempre foram bem-vindas, era da maneira que ia descobrindo mais e mais).
um tempo, também, em que as revistas de música eram realmente valiosas para um leitor com olhos-de-pensar; para evitar a nostalgia fácil, fui ler outra vez o artigo (assinado por Kurt Iveson) sobre o Wah Wah Watson de cabo a rabo e, confirma-se, é mesmo uma excelente peça, dessas que desapareceram das Pitchforks, New Musical Expresses e afins. triste, bastante triste, tanto como, movido pelo ímpeto de me re-conectar à WP (que deixei de subscrever, à data, pelo preço e indisponibilidade de tempo para a ler devidamente), ficar a saber que o mais recente número (sobre o Prince, de uma ponta à outra) terá sido, muito provavelmente, o último. para contrariar o fatalismo, um artigo que sugere que eu estou absolutamente errado e que a coisa está de óptima saúde (acreditar, como diz a outra, é livre): https://www.theguardian.com/…/the-crisis-in-music-journalis…
se este meu post servir de alguma coisa, que seja, pelo menos, para convencer alguém a assinar (e a não permitir o assassinar) da Wax Poetics. sobre o Wah Wah Watson, que as palavras do Kurt Iveson lhe façam a merecida justiça (WP n.º 37, Oct/Nov, 2009):
“Watson’s career has bubbled away under the surface of industry fame like the bubbles that are one of his signature sounds. (…) Watson wants to talk about what he does, not what he’s done. As far as he’s concerned, he says, ‘I’m fifty-six, I’m having fun, and I haven’t even touched the surface of my creativity’. (…) As he puts it, ‘Old-school musicians have an identifiable sound… Plenty of musicians today, they can play great, but they don’t have a sound’. (…) It’s one thing to have a musical vocaculary, it’s another thing to know how to use it. This brings us to a third elemento of Wah Wah’s sound – his approach to execution. Finding just the right niche of his guitar, for him, is a matter of developing an overview of a track’s conceptual foundation. Playing the right part is not just a matter of technical ability; it’s also fundamentally about listening skills and arrangement. This is a key part of Wah Wah’s formula for successful musical collaboration, especially when it comes to funky music: ‘Listen to people like Jimmy Smith, James Brown – the funk is in the arrangements’. (…) Of course, being a great player is not enough to make a career as successful as Watsons’s. This brings us to element number five – business. Wah Wah summed up his strategy like this: ‘I’m the bone looking for the dog, not the dog looking for the bone’. To illustrate, Wah Wah gave me some dating tips, for free. ‘It’s like, if you see someone you like, don’t rush in there. You gotta be real casual, dog… That way, you’ll make her want to come to you. Are you with me?’”.
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