terça-feira, 24 de março de 2026


Dou comigo a pensar em como o ballet clássico, na sua vertente narrativa, perdura e resiste; não teve a mesma sorte (a mesma determinação, a mesma coragem, o mesmo amor por parte de quem o fazia?) do cinema mudo, morto e bem morto. O som, os diálogos, fizeram lei; a imagem, vencida. Não assim no ballet, no qual a imagem – entenda-se, a imagem que a acção dramática, através do seu amplo conjunto de recursos performativos, produz – campeia. São o movimento e a expressividade corporal que definem o curso da narrativa e as acções e emoções inerentes. Daí o prazer de, hoje, ser o ballet a – provavelmente – única arte que, fazendo uso de um modelo narrativo (bem convencional, aliás, na sua estruturação dramatúrgica, segmentação em actos, desenrolar do arco dramático), permite ao espectador perder-se, ficar completamente às escuras, não conseguir situar-se, enfim, no exacto lugar da "história" que é contada.

Foi imenso o que o mudo pediu de emprestado ao ballet: a expressividade física e, particularmente para o cinema, facial, a comédia física, o slapstick – o musical, claro. Mas mesmo o mudo do período clássico, em muitos casos (não todos), fazia batota: intertítulos que explicavam a acção e/ou os estados psicológicos da personagens, ou, até mesmo, reproduzindo diálogos ou afirmações das personagens (é possível por vezes detectar a correspondência entre a leitural labial de uma personagem e o intertítulo que se lhe segue). O ballet, creio, nunca o pôde – quis? – fazer.
No campeonato da anacronia – que não em sentido pejorativo; pelo contrário –, não sei quem vence. Nos nossos verborreicos dias, não sei se será mais anacrónica a arte que, contra o seu tempo, sobrevive, ou a que, derrotada, já cá não está para contar.

Marilyn


(Don't bother to knock, Roy Baker, 1952)

quarta-feira, 18 de março de 2026

Goodbye to Romance


(LP Blizzard of Oz, Ozzy Osbourne, 1980)

 

segunda-feira, 16 de março de 2026

Podcast Noites de Cabíria



Iniciamos - o Daniel Marques Pinto, o Pedro Ludgero e eu - uma nova aventura. NOITES DE CABÍRIA é um podcast da Casa Comum da Universidade do Porto dedicado ao cinema, sem outras regras que não o amor pelas imagens em movimento e por tudo o que elas provocam, insinuam, iluminam.

Com especial foco nas estreias em sala, também ciclos, sessões especiais e outras efemérides da história do cinema incluir-se-ão num podcast de "amadores" do cinema - no sentido primordial que Bénard da Costa evocou - para amadores do cinema (e curiosos a caminho de o serem!).

No episódio inaugural, os filmes em foco são a família e suas vicissitudes de Valor Sentimental (Joachim Trier, 2025), bem como a vida, obra e legado de George Orwell em Orwell: 2+2=5 (2025, Raoul Peck). O olhar percorre ainda, de forma mais sintéctica, Sex e Love (Dag Johan Haugerud, 2025), a cópia restaurada pelo aniversário dos 25 anos de Rasganço (Raquel Freire, 2001), Sinners (Ryan Coogler, 2025) e o resistente e vital cinema iraniano de A Semente do Figo Sagrado (Mohammad Rasoulof, 2025).

Oiçam-nos e sigam-nos no nosso website, no Spotify e no Instagram em @noitesdecabiria



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You know, I think that movies are a conspiracy because they set you up from the time you’re a little kid… They set you up to believe in everything, in ideals and strength and good guys and romance – and, of course, love” (Gena Rowlands em Minnie and Moskowitz, 1971).

Noites de Cabíria é um podcast dedicado ao cinema sem outras regras que não o amor pelas imagens em movimento e por tudo o que elas provocam, insinuam, iluminam. Daniel Marques Pinto (professor universitário), Francisco Noronha (crítico, realizador e programador) e Pedro Ludgero (músico e realizador) conversam sobres as mais recentes estreias nas salas portuguesas, assim como ciclos, sessões especiais e outras efemérides da história do cinema.

sábado, 7 de março de 2026

notes to self

Mirroirs no 3 *
Kontinental 25 ****
Die My Love ***
O Bolo do Presidente **
Pai Mãe Irmã Irmão ***
Valor Sentimental ****
Marty Supreme ***
Nino **
A Cronologia da Água ***
Orwell: 2+2=5 *
A Noiva! **
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A Semente do Figo Sagrado ****
Que O Diabo Nos Carregue **
Detour (Hulmer) ****

quinta-feira, 5 de março de 2026

Everything


(LP Doer Of The World, Dan Peek, 1984)

quarta-feira, 4 de março de 2026

Tud Dret


(Chã das Caldeiras, Fogo, Fevereiro 2026)


Era miúdo quando uma equipa de filmagem animou toda a ilha. Estávamos nos anos 90 e a ilha num estado de isolamento que, hoje, já parece mentira. Lembra-se de um senhor a dizer “Acção!” e a repetir a mesma cena vezes sem conta. Uma cena simples: um homem, idoso, sentado à mesa leva lentamente a mão a um copo de sumo e, de forma igualmente vagarosa, bebe-o. Um sumo era uma coisa tão rara por esses dias na ilha que o velho Djilormo não se conseguia controlar e de uma assentada pegava no copo e bebia-o de um trago uma e outra vez! “Devagar, devagar, devagar!”… Mas era muita a sede de Djilormo e a beberagem prolongava-se - e o sumo também! O filme era Casa de Lava e a criança que retém a memória desse feliz episódio é Nezito, nado e criado em Chã das Caldeiras, Ilha do Fogo. É também ele que se prepara para fazer a estreia como actor num filme (já rodado) do Paulo Carneiro…

Subimos juntos há dias os vulcões onde Inês de Medeiros fez de Ingrid Bergman. Tud Dret!