(LP The Fall-Off, J. Cole, 2026)
Da minha janela vejo o Bósforo todos os dias: divisões e correntes, agitações e marés. Tal como no homem, tal como no mundo.
(Detour, Edgar G. Ulmer, 1945)
Por detrás desta porta giratória, está uma cama (porque por detrás do poder está sempre o... sexo). É um raro, subtilíssimo, apontamento cómico, completamente screwball, no negrume de Detour. Desde ontem que estive bastante tempo a tentar compreender um diálogo. Apontando para a cama, Vera pergunta-lhe autoritariamente: "You know how to work it?". Depois de girar a cama (fechando-a, ou seja, encerrando qualquer possibilidade carnal), Al retorque: "I invented it". O idiomático da expressão escapou-me por completo e há boas razões para isso: é quiçá o único momento de todo o filme em que Al, homem frágil, acossado, totalmente dominado, como uma criança, por Vera, denota alguma força ou confiança. Resposta que a deixa - também pela única vez - congelada, sem resposta. Aliás, essa - a sexualidade, o desejo - é a única reserva de Poder que este homem conserva em relação a ela: por três vezes nega a carnalidade que Vera, ostensiva e despudoradamente, e mandando as convenções machistas às urtigas, lhe exige. A única coisa que Al consegue salvaguardar da autoridade desta mulher está no meio das suas pernas. E não lha dá - ao mesmo tempo que alardeia a sua potência nesse campo. A inversão total, portanto, das relações de poder de género que o cinema clássico americano tão magnificamente contou. Que os censores da cartilha Hays tenham fechado os olhos a isto espanta-me.
Pensar no Petzold de Barbara, Jerichow, Phoenix, etc. e ver agora um objecto como Miroirs no. 3 é uma experiência da ordem do sofrível: quanto esquematismo (realismo vs sobrenatural, plano inicial de rosto vs plano final de rosto, revelação narrativa vs explosão da máquina de lavar, o doppelgänger e "a mulher que viveu duas vezes" tratados sem ponta de rasgo), quanta desinspiração, quanto, enfim, academismo. Quando o filme já vai no seu terço final e o filho grita a Laura "Tu não és minha irmã!" - eis a definição de anti-clímax. Que cansado está o cinema de Petzold.
SINNERS: Uma primeira hora magnífica, com a chegada de dois obscuros irmãos (vêm de Chicago, cidade que os seus conterrâneos imaginam como a utopia da igualdade mas que eles rapidamente desmentem, e da companhia de Al Capone) e a sua panorâmica visita à comunidade. Perde-se depois o filme quando aposta tudo no huis clos, que, no caso, significa a desinspirada citação (Tarantino, Rodriguez, etc.). Mas há uma cena que ninguém tira a Ryan Coogler e que só por isso nos deve fazer olhá-lo com a maior das considerações.