quinta-feira, 8 de janeiro de 2026

Ingenuidade


(Jorge da Capadócia, posteriormente São Jorge, a matar o dragão)


paga-se caro o preço da candidez. aquele que é, de longe, o mais entusiasmante candidato à PR é também o mais ingénuo. o que pode ser – a Ingenuidade – uma Virtude na filosofia moral e política transforma-se, neste lugar, num atestado de óbito. o que jorge pinto propôs é do mais elementarmente sensato: a agregação das esquerdas num só candidato de forma a evitar que um fascista anti-democrata e anti-republicano (passe a redundância), ordinário e mentiroso até à medula, passe à segunda volta. se este não é o momento crítico, antecâmara do trágico (já em pleno andamento em países sobejamente conhecidos), para a agregação, qual será exactamente esse momento? que as esquerdas não aceitem que a mera passagem de tal indivíduo à segunda volta constituirá uma enorme vitória pessoal e um motor de empoderamento adicional (!) para todo o movimento de extrema-direita que ele representa, embora não surpreendendo, só mostra como, de facto, não podemos ser – como o candidato do livre – ingénuos (hélas!): uma parte da esquerda mantém-se, malgré tout, sectária e irresponsável.
é sensivelmente a mesma (neste capítulo partilhando curiosamente, ironicamente!, do mesmo argumentário da direita) que nos promete, depois de anos a atirar o "fascistas!" por tudo e por nada, que isto ainda não é bem o “fascismo”, aguardando pacientemente que ele apareça sob a forma de um tipo muito aprumado, em impecável farda militar, com um lustroso exemplar do “Il manifesto dei fasci italiani di combattimento” ou de um aturadamente anotado Mein Kampf debaixo do braço. podem esperar sentados, contanto que ainda o estejam (sentados), e em bom estado, no momento em que a serpente os enlaçar por completo.
dito isto, pela minha parte, a questão é até anterior e mais aguda: qualquer eleitor genuinamente democrata e republicano que ponha os princípios fundamentais do estado de direito à frente das suas idiossincrasias, colocado perante a hipótese da passagem de um candidato anti-democrata à segunda volta num ambiente global fascista como o que se vive, só pode votar nos candidatos, mesmo que de um espectro político distinto do seu, que possam obstar a tal cenário. o momento é de viragem, os mais basilares valores na berlinda estão – o candidato jorge pinto, ingénuo, não teve pejo em assumi-lo e oferecer-se ao sacrifício (houve um santo, do mesmo nome, que também se sacrificou, ingenuamente, contra os romanos pela crença naquilo que entendia como o fundamental), eventualmente não ponderando os custos de tal audácia (o desprezo, até uma certa fanfarronice, como a sua proposta foi recebida pelos candidatos de esquerda no debate televisivo foram penosos de ver). tem a minha maior consideração por isso.

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