segunda-feira, 31 de agosto de 2026


(Galiza, Agosto de 2026)


The night we met I knew I needed you so
And if I had the chance I'd never let you go
So won't you say you love me?
I'll make you so proud of me
We'll make 'em turn their heads every place we go

A Odisseia


Enquanto espectador que não aprecia (eufemisticamente falando) grande parte dos seus filmes (não digo a totalidade porque teria de rever “Memento” e “Insomnia”), importa dizer o óbvio: o que torna “A Odisseia” o melhor filme de CN em anos, provavelmente décadas (o melhor da sua carreira?), é, ironicamente, o facto de se tratar do seu filme menos… “Nolan”. CN sempre foi um cineasta da narrativa (nada contra isso), mas, curiosamente, um péssimo cineasta da narrativa: raramente logra contar uma simples história de forma cativante e escorreita, invariavelmente a complicando com truques e mecanismos que, sob o pretexto de uma alegada “complexidade”, tornam a acção pesada, estafante, aborrecidíssima (“Tenet”, um dos piores filmes que tive o desprazer de alguma vez ver, talvez seja disso o expoente máximo). Acrescem, naturalmente, a grandiloquência e a solenidade balofas, perfeitamente vazias, frequentemente glicodoces (“Interstellar”), mas que, por diversas razões (que agora não releva desenvolver), criam a aparência de “profundidade” nos seus fãs. CN é, ele sim, o verdadeiro cineasta “Pseudo” – para utilizar o termo de eleição que o fã médio de CN (para quem “os críticos” são um bando de snobes investido na função de denegrir os seus filmes favoritos) dispara contra tudo que não se conforme aos seus homogeneizados gostos.

Mas eis “A Odisseia” – que, tendo tudo para dar errado nas mãos do velho CN, se revela um enxuto trabalho: decididamente mais sóbrio (não só no plano visual, onde desaparecem os gestos exibicionistas, mas, sobretudo, no recuo muito expressivo da banda-sonora demonstrativa) e desprovido de psicologia barata, melhores diálogos (muito menos auto-explicativos), a acção tratada com desenvoltura e fluidez, e, milagre, dotada de algumas cenas realmente excitantes (que valem por si só e deixam lastro, não funcionando na habitual lógica de “trailer” dos seus filmes). Como sempre, tudo isto pode resultar do facto de as expectativas já serem à partida tão diminutas. Mas não creio que seja o caso; creio, na realidade, que CN fez um bom filme. Filme de aventuras sem lugares-comuns e proclamações emocionais de algibeira; filme limpo e concentrado em contar a sua história e a das suas personagens; filme, segundo milagre!, com as suas subtilezas, como é o caso da nada inocente insistência na “lei da hospitalidade” de Zeus (aquilo que alguém como kant adaptou para o seu direito “cosmopolita” e “de hospitalidade”) e nos “povos do mar”, esses ameaçadores moinhos de vento, sem rosto nem nome (são, na verdade, os “da terra” que, auto-fagicamente, traem e destroem, não o Outro, o Estrangeiro).
Dito isto, “A Odisseia”, com todas as suas questionáveis mas absolutamente legítimas opções próprias de uma adaptação (de lamentar, ainda assim, que a dimensão retórica, ardilosa, enfim, mentirosa de Ulisses tenha desaparecido), não deixa de manifestar outros defeitos característicos de CN, caso da gritante falta de imaginação dos décors (na realidade, da direcção de arte em geral) ou do limitado tratamento da luz e da cor (sobretudo esta). Ou, claro, o desfile de actores-estrelas em papéis de espessura e duração reduzidos (Zendaya, a mais sobrevalorizada actriz da sua geração; Charlize Theron, caída de para-quedas, é apenas uma artificialíssima silhueta, o seu corpo nunca está verdadeiramente em Ogígia). E mesmo se merecem mais tempo de antena, caso de Penélope (Tom Holland, o filho, é, no filme de CN, uma figura liminarmente esquecível), os seus contemporâneos tiques de linguagem (discursivos e, sobretudo, físicos, i.e., enquanto falam) retiram plausibilidade à personagem e ao tempo-histórico por ela habitado.
… Mas comovi-me com Eumeu, súbita aparição de um Marlon Brando finalmente, impossivelmente, humilde, sacrificial, ser derrotado não pelo ego mas pelos acontecimentos históricos – e, ainda assim, crente no serviço aos outros e à pátria.

segunda-feira, 17 de agosto de 2026

Creta4


(LP A Touch of Spice, Evanthia Reboutsika, 2003)

Creta3


(Anna Vissi, 2025)

Creta2


(Thodoris Voutsikakis, 2019)

Creta1


(LP M'Agapouses Thimame, Dimitra Galani, 1978)


Falei aqui há dias das melancólicas frequências FM dos gregos. Este disco, M’Agapouses Thimame, de Dimitra Galani (uma veterana da música nacional, como percebi entretanto), trouxe eu de lá, “canção popular” at its best: folk abolerado, boleros afolkados, fado, romantismo absoluto (traduzido, o título do disco dá por “Tu amavas-me, eu lembro-me”). Esplêndido. Melhor só ele irromper, longínquo e dorido, da rádio enquanto se conduz por entre escarpas e vales na direcção das jurássicas palmeiras de Preveli, sul de Creta. Saudades do que não vivemos - e pronto, aqui estou eu, como bom português, a ver-me grego.

Ensaio para ciclo de cinema Mel Brooks


Já está disponível para leitura e download o Ensaio (excerto abaixo) que integrou o dossier do ciclo “Rir, apesar de tudo! O cinema politicamente indiscreto de Mel Brooks”, que programei em Julho para a Casa Comum da Universidade do Porto. Boas leituras e bons filmes!


Link: RIR, APESAR DE TUDO! O CINEMA POLITICAMENTE INDISCRETO DE MEL BROOKS | Ciclo de Cinema – Casa Comum


***

Em tempos de filmes “políticos”, “activistas” ou “militantes” falhos, medrosos, completamente inofensivos nas suas certezas e convenções, sem rasgo nem arrojo, eis um filme [BLAZING SADDLES/BALBÚRDIA NO OESTE] que verdadeiramente se atira ao espectador, que não hesita na hora de o perturbar – mais não fazendo, afinal, do que aquilo que Brooks, citando Shakespeare, sempre defendeu, isto é, o papel da arte com sendo o de “To hold the mirror up to nature”. Excessivo, provocador, alguns dirão infame, é um festim cómico de alto grau político, sátira total aos EUA e ao racismo (não se pode falar de um sem o outro, eis o que o filme deixa claríssimo). Sem que em algum momento lhe sintamos a sobranceria daqueles que, nos nossos dias, se arrogam a todo o momento de estarem do “lado certo da História” (não por acaso, esse lado é hoje como a bicicleta da aldeia, usado e abusado por tudo e todos).
É, por isso, e desde logo, um filme que se recusa a ser cúmplice da política dos interditos (correctos ou incorrectos, o leitor que os escolha): a infame palavra “Nigger”, por exemplo, está lá do princípio ao fim (recorde-se que Pryor, como tantos outros afro-americanos, sempre a utiizou abundamente nos seus espectáculos e discos), utilizada quer pelos opressores, quer pelos oprimidos (como, de resto, acontece, goste-se ou não, na vida real). Gesto corajoso que deixaria alguém como Kendrick Lamar (que, há uns anos, quando chamou uma fã ao palco para cantar uma música da sua autoria com a palavra “Nigga”, a impediu, pasme-se, de a verbalizar) corado de vergonha.
Logo nas primeiras cenas, através de um humor desbragado, sem qualquer pretensão de “tese”, Brooks diz tudo sobre como a escravatura, apesar de formalmente abolida, se mantém plenamente em vigor, porque inscrita no ADN dos EUA (“Birth of a Nation”, justamente…). Na construção de um caminho de ferro, os negros (e os asiáticos) continuam a ser explorados e humilhados pelos “cowboys” brancos, que, em vez de cavalos, enviam dois negros para as areias movediças (os afro-americanos em areias movediças ou a América, ela mesma, como uma areia movediça, eis uma poderosa e brilhante metáfora). O reverso, esse, está no modo igualmente cirúrgico, exemplar, como Brooks coloca, de um lado, a cantilena pobre e simplória dos cowboys, e o canto belo e sofisticado dos negros, do outro. Como dizer (ou cantar) muito com tão pouco… Ou na forma como, parodiando os códigos do western, Mel não se fica por aí, indo mais fundo na subversão. Quando a personagem de Gene Wilder, depois de aparentemente romancear (como nos westerns), as qualidades das ditas “pessoas comuns”, acaba enfaticamente a chamá-las de “morons”, está a desmistificar a sua suposta e ancestral bondade e sensatez, sabendo o espectador como, na História, foram frequentemente as “pessoas comuns” a criar ou permitir as maiores tragédias (a começar na escravatura dos afro-americanos nos EUA, passando pela espoliação dos índios ou acabando na “banalidade do mal” nazi). No final do filme, quando Bart, o xerife negro, faz uma daquelas proclamações de princípios (ou de clichês) clássicas dos cowboys íntegros e rectos do western, é agora a população que lhe devolve: “BULLSHIT!”.

Vemo-nos gregos

Terceira vez que ando na Grécia e, mais do que nunca, a certeza: não há povo português como o grego, nem gregos como os portugueses. Escusado procurarmos por afinidades e cumplicidades com brasileiros, cabo-verdianos, espanhóis, italianos, franceses (muito menos!, apesar de ter crescido a achar, ou a desejar, que assim fosse, por causa do cinema que amava); fomos separados à nascença desta gente despretensiosa, simples e agasalhadora, que sabe comer e beber, que não se põe em bicos de pé para nada e gosta de receber. Como se diz num grego perfeito que acabo de traduzir da net, “Chorís malakíes”, i.e., sem merdas. Mesmo se, como nós, neles habite, talvez pelas longevas ruínas que os rodeiam a a cada passo, uma melancolia indefinível (tal como nós, e ao contrário dos italianos/romanos, o seu passado é não uma fonte, mesmo que complexa, de orgulho ou alegria, mas de fracasso, decepção, perda, enfim, “saudade”; Ulisses…). Basta percorrer as suas rádios: frequências e mais frequências de melodias afadunchadas e tristes como a noite. E pur si muove:

domingo, 26 de julho de 2026

notes to self

Uma Mãe e o seu Filho ***
Dois Procuradores **
Backrooms **
Little Troubled Girls **
Obsession **
L'aventura ***
O Convite 
————————————
The Producers ****
Blazing Saddles ****
Silent Movie **
High Anxiety **
Young Frankenstein **
Life Stinks ***
To Be or Not to Be (Alan Johnson) ****
Mean Streets ****
Voyages en Italie (S. Letourneur) ***
The Assassin (Fincher) *

quinta-feira, 2 de julho de 2026

Ciclo Mel Brooks na Casa Comum


Em Julho, voltamos à
Casa Comum da Universidade do Porto com um ciclo dedicado ao cinema cómico de MEL BROOKS (que, em 2026, vivo da silva, celebra 100 anos!), na sua dupla condição de actor e realizador. De 17 a 25 de Julho, com entrada livre!

Todas as sessões serão precedidas de apresentação e acompanhadas de um dossier escrito sobre a obra de Mel Brooks. Debate na sessão de 18 Julho com José Santiago (programador de cinema).

Venham!

+ Info:




RIR, APESAR DE TUDO! O CINEMA POLITICAMENTE INDISCRETO DE MEL BROOKS
De 17 a 25 de Julho na Casa Comum
Programador: Francisco Noronha
Programa completo:
17 Julho
18h30: The Producers/O Falhado Amoroso (Mel Brooks, EUA, 1967)
18 Julho
18h30: Blazing Saddles/Balbúrdia no Oeste (Mel Brooks, EUA, 1974) + Debate com José Santiago (programador de cinema)
24 Julho
18h30: Young Frankenstein/Frankenstein Júnior (Mel Brooks, EUA, 1974)
25 Julho
15h: High Anxiety/Alta Ansiedade (Mel Brooks, EUA, 1977)
18h30: Life Stinks/Porca de Vida (Mel Brooks, EUA, 1991)

Quantos ciclos de comédia enquanto género cinematográfico se vêem por aí? Poucos, muito poucos, sintoma de como o humor ainda é visto, redutoramente, como mero “entretenimento” ou forma de alienação (o que em si mesmo nada tem de pernicioso, diga-se em qualquer caso). Num tempo marcado pela incerteza, a escalada militar, a polarização e um sentimento crescente de medo colectivo, fazer comédia nos nossos dias é, de certo ângulo, um acto político; e rir é, podemos dizê-lo, mais do que um gesto profundamente natural e humano, um acto de resistência contra a normalização da violência, do autoritarismo e do desespero.
É neste contexto que se propõe a realização de um ciclo de cinema dedicado a Mel Brooks, de quem se celebram 100 anos em 2026 (ainda vivo!), uma das grandes - mas mal-amadas - figuras da história do cinema cómico. Na dupla condição de realizador e actor dos seus filmes, Brooks construiu uma obra singular que alia o humor desregrado e despretensioso ao comentário e sátira políticos e culturais. Dialogando de forma directa com a história do cinema, através de uma paródia e desmontagem dos códigos do cinema clássico e popular (que o norte-americano, importa sublinhar, ama e admira) e de géneros (musical, western, terror, suspense, policial), Brooks mostra como as imagens moldam o imaginário colectivo e como o humor, ao questioná-lo, pode expor os mecanismos do poder e suas narrativas dominantes. Herdeiro do slapstick e da comédia verbal clássica (dos irmãos Marx à tradição da stand-up comedy), Brooks atualizou esse legado para o cinema moderno, satirizando o totalitarismo, o racismo, a ordem e os mitos que a sustentam, bem como denunciando a ganância e as hierarquias sociais, desta forma continuando os seus filmes a interpelarem, pois, o nosso presente. O humor não banaliza o horror, antes o desarma e destitui-o do seu poder simbólico - ou, nas suas palavras, "A comédia destrói a dignidade do inimigo".
Noutros casos, porém, interessa-lhe a piada pela piada, o chiste pelo chiste, a desfaçatez por si mesma. O seu humor é, por isso, excessivo, provocador e, frequentemente, desconfortável, justamente porque se recusa a ser neutro ou inofensivo, não se coibindo de visar vilões e vítimas, opressores e oprimidos. Revisitar a sua obra é não apenas celebrar o centenário do seu autor, mas, também, reafirmar o valor da liberdade, da inteligência crítica e da capacidade de rirmos dos outros e de nós mesmos. Rir, apesar de tudo.

quinta-feira, 18 de junho de 2026

Everything In Between


(single, Oscar Jerome, 2026)
 

terça-feira, 16 de junho de 2026


De repente, no Pão Quente da praceta, o televisor enche-se de um rosto grave, probo, a preto e branco. Reparo nisto enquanto aguardo pelos meus oito bijous e, secretamente, olho ao redor em busca de reacções a esta inaudita aparição de James Stewart. Mas ninguém reparou nesta intromissão de ordem quase alienígena, nesta suspensão do tempo - sim, porque estes rostos e gestos vêm mesmo de outro mundo. The Man Who Shot Liberty Valance. Penso quanto tempo durará este pequeno cataclismo, janela para uma brevíssima utopia. E zás, com o comando de volta às mãos do empregado, a anomalia é diligentemente corrigida, a ordem restabelecida, as “notícias” de volta ao ecrã. É também disto - embora não apenas sobre isto - que trata aquele maravilhoso, pessimista (mas ambíguo), final do Divina Comédia do Ali Asgari (ainda nas salas; corram se quiserem trocar as - isso - notícias sobre o Irão pela imaginação e o lirismo de quem habita essa formidável terra)

segunda-feira, 8 de junho de 2026

Tell Me Why


(LP On The Inside, Gotts Street Park, 2023)

segunda-feira, 25 de maio de 2026

Dossier Marilyn Monroe


O dossier temático (texto introdutório + folhas de sala) do ciclo QUEM ÉS TU, NORMA JEANE? 100 ANOS DE MARILYN MONROE já está disponível para download e leitura no site da Casa Comum da UP: QUEM ÉS TU, NORMA JEANE?. 100 ANOS DE MARILYN MONROE | Ciclo de Cinema – Casa Comum


De fora ficam - fica sempre algo de fora, já sabemos, raios - duas nótulas que hoje gostaria que lá constassem:
1) A ironia de, em SOMETHING'S GOT TO GIVE (incompleto, e cuja montagem de cerca de 40 minutos está disponível no youtube), o último filme rodado por Marilyn antes de morrer (o da celebérrima nudez na piscina), esta interpretar o papel de uma mulher dada há cinco anos como morta, regressando justamente do mundo dos mortos no momento em que o seu marido se prepara para conseguir legalmente divorciar-se de si e casar de novo. Mais tétrico era impossível.
2) No início de THE MISFITS, depois do - continuamos aqui - divórcio, Marilyn, no meio da ponte (como o "tolo"), hesita se deve ou não atirar a aliança ao rio. Thelma Ritter diz-lhe que, quem o fizer, nunca mais se voltará a divorciar, frase que se, numa primeira leitura, significa benignamente que o próximo casamento será "para sempre", pode também ter outro significado, bem mais sombrio: que, quem voltar a casar, não conseguirá divorciar-se, por mais infeliz que esteja. É muito provável que Marilyn tenha intuído este segundo significado, pois, na via das dúvidas, acaba por... não atirar a aliança ao rio (!).

quinta-feira, 14 de maio de 2026

sobre o ciclo Marilyn Monroe


A minha cinefilia fez-se nos cineclubes universitários, sobretudo no da FDUP, de que fui director e programador. Por isso, programar (como, na verdade, fazer crítica ou realizar), para mim, sempre foi aproximar de, ir ao encontro de, suscitar interesse e curiosidade no outro, aprender com ele, também. Sempre tive aversão ao snobismo na programação, sobretudo quando velado (o mais frequente).

Isto para dizer que fiquei muito feliz quando, no final do intenso ciclo Marilyn Monroe (6 filmes, 6 apresentações, seis debates, 12 convidados, dossier escrito com texto introdutório e 6 folhas de sala) que programei na semana passada na Casa Comum da UP, um dos elementos do público, que esteve presente em absolutamente todas (!) as sessões - um senhor de meia-idade que vim a a saber ser psicólogo na área penal (família, violência doméstica, tudo coisas, de resto, familiares a Monroe) -, partilhou com os presentes como tinha gostado do ciclo pelas tertúlias que ali se fizeram, de como isso era algo que, no seu entender, hoje rareia. Também para mim, isso é o melhor de tudo. E a prova de que se "dá" tanto quanto se "recebe" (muitas vezes de gente teoricamente menos "equipada" para pensar o cinema) foi visível em dois momentos muito concretos.
Num caso, um jovem, de mãos dadas com o seu companheiro, destacou, a propósito de "Niagara", como, no final do filme, a personagem de Joseph Cotton mata a "puta" (Monroe) e salva a "santa" (Jean Peters), ou seja, um esforço moralizante, muito Código Hays, de enterrar uma América (feminina, independente, emancipada, transgressora) e manter a vigente (algo que, depois de ouvido, parece muito óbvio, mas que, até aquele momento, ninguém na sala referira).
Noutro caso, o próprio senhor acima referido que, no debate acerca de "Bus Stop", ofereceu uma chave de leitura rompedora para o filme, ao lembrar como a transformação moral do protagonista masculino (Bo) se dá não por qualquer via racional ou consciente, mas, simplesmente, através da violência (agressão física) que ele próprio sofre às mãos de outro homem. Ou seja, a violência de Bo só é sublimada através de uma segunda ordem de violência (e já conhecemos os resultados de tudo o que é sujeito à "cura" pela violência: não duram e a violência ressurgirá no futuro a dobrar).
O meu sincero agradecimento à Casa Comum, aos convidados e a todos os que vieram ver, conversar, pensar, rir também! Marilyn foi mesmo "one of a kind", figura semi-humana, semi-divina, tocada pela transcendência. Em Julho, voltamos, now for something completely different, com... MEL BROOKS.

Até já!

notes to self

Blue Moon ***
Balane 3 ***
O Estrangeiro ***
Riefenstahl ***
Mektoub, Meu Amor: Canto Segundo ***
Os Domingos **
Romaria ***
Projecto Global ****
Nino **
Entroncamento **
Divina Comédia ***
-------------------------------------
Ladies of the Chorus ***
Don't Bother To Knock ****
Niagara ****
River of No Return ***
Bus Stop ****
The Prince and The Showgirl **
Let's Make Love ***
The Misfits *****
Blonde *
My Week With Marilyn **
The Legend of Marilyn Monroe **
--------------------------------------------
[séries]
Breaking Bad ****

quinta-feira, 7 de maio de 2026

I'm In Love Again


(LP PH Factor, Phil Hurtt, 1979)

 

segunda-feira, 4 de maio de 2026

Ciclo Marilyn Monroe a partir de amanhã na Casa Comum



Começamos já amanhã a celebrar e a pensar os 100 ANOS DE MARILYN MONROE com filmes e debates. A acompanhar o programa, será disponibilizado um dossier escrito com texto do ciclo + folhas de sala. Entrada livre!



QUEM ÉS TU, NORMA JEANE? 100 ANOS DE MARILYN MONROE
Programador: Francisco Noronha

5 Maio
18h00: Don’t Bother to Knock/Os Meus Lábios Queimam (Roy Baker, 1952)
Convidados: Manuela Hargreaves (historiadora de arte) e Marina Leonardo (actriz e realizadora)
21h30: Niagara (Henry Hathaway, 1953)
Convidados: Daniela Rôla (crítica de cinema) e Cláudia Coimbra (investigadora)

6 Maio
18h00: River of No Return/Rio Sem Regresso (Otto Preminger, 1954)
Convidados: Vítor Ribeiro (director do Cineclube de Joane) e Ana Carneiro (directora do Cineclube do Porto)
21h30: Bus Stop/Paragem de Autocarro (Joshua Logan, 1956)
Convidados: Daniel Marques Pinto (professor universitário) e Pedro Ludgero (músico e realizador) [Podcast Noites de Cabíria @noitesdecabiria]

8 Maio
21h30 Let’s Make Love/Vamo-nos Amar (George Cukor, 1960)
Convidados: Miguel Ramalhete Gomes (professor universitário) e José Reis (professor universitário)

9 Maio
21h30 The Misfits/Os Inadaptados (John Huston, 1961)
Convidado: António Roma Torres (psiquiatra e crítico de cinema) e Bernardo Pinto de Almeida (historiador de arte e ensaísta)