Já está disponível para leitura e download o Ensaio (excerto abaixo) que integrou o dossier do ciclo “Rir, apesar de tudo! O cinema politicamente indiscreto de Mel Brooks”, que programei em Julho para a Casa Comum da Universidade do Porto. Boas leituras e bons filmes!
Link: RIR, APESAR DE TUDO! O CINEMA POLITICAMENTE INDISCRETO DE MEL BROOKS | Ciclo de Cinema – Casa Comum
Em tempos de filmes “políticos”, “activistas” ou “militantes” falhos, medrosos, completamente inofensivos nas suas certezas e convenções, sem rasgo nem arrojo, eis um filme [BLAZING SADDLES/BALBÚRDIA NO OESTE] que verdadeiramente se atira ao espectador, que não hesita na hora de o perturbar – mais não fazendo, afinal, do que aquilo que Brooks, citando Shakespeare, sempre defendeu, isto é, o papel da arte com sendo o de “To hold the mirror up to nature”. Excessivo, provocador, alguns dirão infame, é um festim cómico de alto grau político, sátira total aos EUA e ao racismo (não se pode falar de um sem o outro, eis o que o filme deixa claríssimo). Sem que em algum momento lhe sintamos a sobranceria daqueles que, nos nossos dias, se arrogam a todo o momento de estarem do “lado certo da História” (não por acaso, esse lado é hoje como a bicicleta da aldeia, usado e abusado por tudo e todos).
É, por isso, e desde logo, um filme que se recusa a ser cúmplice da política dos interditos (correctos ou incorrectos, o leitor que os escolha): a infame palavra “Nigger”, por exemplo, está lá do princípio ao fim (recorde-se que Pryor, como tantos outros afro-americanos, sempre a utiizou abundamente nos seus espectáculos e discos), utilizada quer pelos opressores, quer pelos oprimidos (como, de resto, acontece, goste-se ou não, na vida real). Gesto corajoso que deixaria alguém como Kendrick Lamar (que, há uns anos, quando chamou uma fã ao palco para cantar uma música da sua autoria com a palavra “Nigga”, a impediu, pasme-se, de a verbalizar) corado de vergonha.
Logo nas primeiras cenas, através de um humor desbragado, sem qualquer pretensão de “tese”, Brooks diz tudo sobre como a escravatura, apesar de formalmente abolida, se mantém plenamente em vigor, porque inscrita no ADN dos EUA (“Birth of a Nation”, justamente…). Na construção de um caminho de ferro, os negros (e os asiáticos) continuam a ser explorados e humilhados pelos “cowboys” brancos, que, em vez de cavalos, enviam dois negros para as areias movediças (os afro-americanos em areias movediças ou a América, ela mesma, como uma areia movediça, eis uma poderosa e brilhante metáfora). O reverso, esse, está no modo igualmente cirúrgico, exemplar, como Brooks coloca, de um lado, a cantilena pobre e simplória dos cowboys, e o canto belo e sofisticado dos negros, do outro. Como dizer (ou cantar) muito com tão pouco… Ou na forma como, parodiando os códigos do western, Mel não se fica por aí, indo mais fundo na subversão. Quando a personagem de Gene Wilder, depois de aparentemente romancear (como nos westerns), as qualidades das ditas “pessoas comuns”, acaba enfaticamente a chamá-las de “morons”, está a desmistificar a sua suposta e ancestral bondade e sensatez, sabendo o espectador como, na História, foram frequentemente as “pessoas comuns” a criar ou permitir as maiores tragédias (a começar na escravatura dos afro-americanos nos EUA, passando pela espoliação dos índios ou acabando na “banalidade do mal” nazi). No final do filme, quando Bart, o xerife negro, faz uma daquelas proclamações de princípios (ou de clichês) clássicas dos cowboys íntegros e rectos do western, é agora a população que lhe devolve: “BULLSHIT!”.