Dou comigo a pensar em como o ballet clássico, na sua vertente narrativa, perdura e resiste; não teve a mesma sorte (a mesma determinação, a mesma coragem, o mesmo amor por parte de quem o fazia?) do cinema mudo, morto e bem morto. O som, os diálogos, fizeram lei; a imagem, vencida. Não assim no ballet, no qual a imagem – entenda-se, a imagem que a acção dramática, através do seu amplo conjunto de recursos performativos, produz – campeia. São o movimento e a expressividade corporal que definem o curso da narrativa e as acções e emoções inerentes. Daí o prazer de, hoje, ser o ballet a – provavelmente – única arte que, fazendo uso de um modelo narrativo (bem convencional, aliás, na sua estruturação dramatúrgica, segmentação em actos, desenrolar do arco dramático), permite ao espectador perder-se, ficar completamente às escuras, não conseguir situar-se, enfim, no exacto lugar da "história" que é contada.
Da minha janela vejo o Bósforo todos os dias: divisões e correntes, agitações e marés. Tal como no homem, tal como no mundo.
terça-feira, 24 de março de 2026
Foi imenso o que o mudo pediu de emprestado ao ballet: a expressividade física e, particularmente para o cinema, facial, a comédia física, o slapstick – o musical, claro. Mas mesmo o mudo do período clássico, em muitos casos (não todos), fazia batota: intertítulos que explicavam a acção e/ou os estados psicológicos da personagens, ou, até mesmo, reproduzindo diálogos ou afirmações das personagens (é possível por vezes detectar a correspondência entre a leitural labial de uma personagem e o intertítulo que se lhe segue). O ballet, creio, nunca o pôde – quis? – fazer.
No campeonato da anacronia – que não em sentido pejorativo; pelo contrário –, não sei quem vence. Nos nossos verborreicos dias, não sei se será mais anacrónica a arte que, contra o seu tempo, sobrevive, ou a que, derrotada, já cá não está para contar.
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