A minha cinefilia fez-se nos cineclubes universitários, sobretudo no da FDUP, de que fui director e programador. Por isso, programar (como, na verdade, fazer crítica ou realizar), para mim, sempre foi aproximar de, ir ao encontro de, suscitar interesse e curiosidade no outro, aprender com ele, também. Sempre tive aversão ao snobismo na programação, sobretudo quando velado (o mais frequente).
Isto para dizer que fiquei muito feliz quando, no final do intenso ciclo Marilyn Monroe (6 filmes, 6 apresentações, seis debates, 12 convidados, dossier escrito com texto introdutório e 6 folhas de sala) que programei na semana passada na Casa Comum da UP, um dos elementos do público, que esteve presente em absolutamente todas (!) as sessões - um senhor de meia-idade que vim a a saber ser psicólogo na área penal (família, violência doméstica, tudo coisas, de resto, familiares a Monroe) -, partilhou com os presentes como tinha gostado do ciclo pelas tertúlias que ali se fizeram, de como isso era algo que, no seu entender, hoje rareia. Também para mim, isso é o melhor de tudo. E a prova de que se "dá" tanto quanto se "recebe" (muitas vezes de gente teoricamente menos "equipada" para pensar o cinema) foi visível em dois momentos muito concretos.
Num caso, um jovem, de mãos dadas com o seu companheiro, destacou, a propósito de "Niagara", como, no final do filme, a personagem de Joseph Cotton mata a "puta" (Monroe) e salva a "santa" (Jean Peters), ou seja, um esforço moralizante, muito Código Hays, de enterrar uma América (feminina, independente, emancipada, transgressora) e manter a vigente (algo que, depois de ouvido, parece muito óbvio, mas que, até aquele momento, ninguém na sala referira).
Noutro caso, o próprio senhor acima referido que, no debate acerca de "Bus Stop", ofereceu uma chave de leitura rompedora para o filme, ao lembrar como a transformação moral do protagonista masculino (Bo) se dá não por qualquer via racional ou consciente, mas, simplesmente, através da violência (agressão física) que ele próprio sofre às mãos de outro homem. Ou seja, a violência de Bo só é sublimada através de uma segunda ordem de violência (e já conhecemos os resultados de tudo o que é sujeito à "cura" pela violência: não duram e a violência ressurgirá no futuro a dobrar).
O meu sincero agradecimento à Casa Comum, aos convidados e a todos os que vieram ver, conversar, pensar, rir também! Marilyn foi mesmo "one of a kind", figura semi-humana, semi-divina, tocada pela transcendência. Em Julho, voltamos, now for something completely different, com... MEL BROOKS.
Até já!



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