quarta-feira, 23 de abril de 2014

O (meu reflexo do) Espelho



"Para dizer a verdade, coloco-me naquela categoria de pessoas que são mais aptas a dar forma às suas ideias através da polémica - coloco-me inteiramente do lado daqueles para quem só se chega à verdade por intermédio do debate. Quando tenho de analisar sozinho uma determinada questão, a minha tendência é cair num estado contemplativo que se ajusta muito bem à tendência metafísica da minha personalidade, mas que não propicia um processo de criação ágil e vigoroso, uma vez que resulta apenas em material emocional para a elaboração - mais ou menos harmoniosa - de um arcabouço para as minhas ideias e concepções".

Andrei Tarkovski, Esculpir o tempo, 3.ª ed., Martins Martins Fontes, São Paulo, 2010, p. 7 (das melhores aquisições feitas no Rio de Janeiro).

segunda-feira, 21 de abril de 2014

Crítica - "5-30"



Como tinha prometido há uns dias, a minha crítica ao álbum dos 5-30 (com título homónimo) foi agora publicada, podendo ser lida aqui ao lado (clicar). Como sempre acontece nestas coisas, já depois de ter o texto pronto, apanhei um sem-número de pormenores deliciosos avulsos ao longo do álbum de que não me tinha apercebido nas - e foram muitas, mesmo assim! - audições anteriores. É o que acontece com os versos do Sam the Kid na "Placas", uns por serem autênticos blocos de pedra que só o tempo ajuda a partir (i.e., versos sobrepostos em que a a métrica, a dicção e a fonética são a tal ponto trabalhadas e sofisticadas que só audições várias e atentas permitem decifrar, em pleno, o texto), outros por serem, digamos, e passe o palavrão, "intra-diegéticos"/auto-referenciais [a um deles faço referência no texto: «(...) e, sobretudo, de “Dou-lhe Com A Alma” (1995) e “3º Capítulo” (1997), este último o tal “álbum da palma” (conferir respectiva artwork) para o qual Sam the Kid diz ter gravado por já então lhe dar “com a alma”, passagem genial (apetece dizer: “intra-diegética”) que se ouve em «Placas», uma das melhores faixas de “5-30″»].

Bom, fica o convite: à música e à crítica (aqui).


No lançamento do recente “G I R L” (2014), Pharrell Williams justificou, repetidamente, a importância do álbum para o rebate da “misoginia” que muitos lhes apontaram pelo vídeo («Blurred Lines») em que, acompanhado de Robin Thicke e T.I., cortejava as maminhas de umas quantas giraças (como se isso fosse algo de novo para esta malta, mas adiante). Os 5-30, num caminho diferente, foram bem mais honestos: como já disseram em entrevistas, este é um álbum de “homens” e não de meninos, pelo que aqui as coisas são ditas como elas são, sem paninhos quentes ou moralismos de conveniência. Isso não faz de 5-30 um álbum misógino, mas sim um álbum que, “chamando os bois pelos nomes”, olha as coisas de frente e fala com verdade (aquela verdade que talvez só o hip-hop, na sua oralidade instantânea e esmagadora, alcança) sobre o que os olhos vêem: drogas, mulheres, homens, dinheiro, amor, sexo, vícios (como muito acertadamente já referiu Carlão em entrevista, em «Pitas Querem Guito», por exemplo, o homem fica tão mal na fotografia como a mulher).

(Excerto)

quinta-feira, 17 de abril de 2014

quem cala não consente






Cronaca di un amore (1950), Michelangelo Antonioni.

Escândalo de amor é o título do filme em português e, como escrevi então na minha crítica (que podem ler aqui), "parece-nos, por uma vez, que a tradução do original se revelou, se bem que não fiel, muitíssimo justa, sendo um destes casos em que, fazendo mais jus ao filme do que o próprio original, permite entreabrir outras portas interpretativas. É que o escândalo, aqui, é não só o do amor em si mesmo (enquanto coisa “escandalosa”, i.é, absoluta, arrebatadora, catártica), mas, outrossim, das suas concretas reverberações – escândalo, portanto, social (o amor entre ricos e pobres) e moral (à parte o facto de Paola ser casada, avulta, sobretudo, a morte de Giovanna como fantasma punitivo desse amour fou)".

Revisitei esta cena e "escandalizei-me" novamente: com o amor trágico que une estes dois seres, com o permanente e ameaçador fatum que os cobre, com o modo, já tão antoniano (1950, primeira longa), de filmar o espaço e a coreografia elegante, ainda que frágil, dos corpos, enfim, com essa trémula música que impõe a sensação de que as coisas não podem correr bem. 



quarta-feira, 16 de abril de 2014

drowning, sea, tears, water



"Drowning In The Sea of Love", álbum Joe Simon (1972). Joe Simon.

quinta-feira, 10 de abril de 2014

cinema e liberdade em Guimarães


Fugiu um Condenado à Morte (1956), Robert Bresson.

O Cineclube de Guimarães, dos mais activos e interessantes no panorama cineclubístico português, inicia, na próxima semana, 15 de Abril, o Ciclo "Liberdade", por ocasião da celebração da Revolução de 25 de Abril, com o filme Chove em Santiago (1984), de Helvio Soto.

Através de um simpático convite, escrevi a folha de sala do filme com que o ciclo fechará, a 17 de Maio: Fugiu um Condenado à Morte (1956), do Bresson. No tempo devido, publicarei por aqui esse texto; até lá, não há desculpa melhor para visitar o C. C. Vila Flor e, sobretudo, uma cidade tão singular como Guimarães. Bons filmes.

quarta-feira, 9 de abril de 2014

outras coisas

Não tenho por hábito fazer aqui menção das coisas que publico ligadas à minha formação e profissão, isto é, ligadas ao Direito. Abro agora, no entanto, uma excepção, por se tratar de um artigo que, não obstante o seu ponto de vista eminentemente jurídico, possui ressonâncias além-Direito, já que incide sobre os "cortes" sociais (compressão dos chamados "direitos adquiridos") e sua contextualização na actual crise económica, assim como as repercussões desta última no plano jurídico-constitucional, jurídico-obrigacional e jurídico-político. Para os interessados, o artigo intitula-se "A erosão do contrato social e os perigos para o pacta sunt servanda: estaremos dispostos a arcar com todas as consequências?" e está publicado no recentemente editado número nono da Revista de Direito Público, Janeiro-Junho 2013, pela Almedina (v. ali).

sexta-feira, 4 de abril de 2014

o Bresson que há em mim


Au Hasard Balthazar (1966), Robert Bresson.

Nunca tinha pensado nisto, mas agora que ando a escrever - e a recuperar algumas ideias, com o tempo desbotadas - sobre o Bresson, dei-me conta que este meu post é muito bressoniano - ou melhor, que essa coisa da obsessão por um rosto que é uma folha em branco escancarada para as coisas e para as palavras, o mistério e a neutralidade límpida reflectores de serenidade e de um certo desligamento solipsista em relação ao mundo tem muito da filosofia dos "modèles" (curiosamente, certos modelos, entenda-se das passerelle, não deixam de ostentar um rosto rigidamente blanche, neutro, como, creio, o Bresson apreciaria). Não é que seja relevante, mas não sei exactamente o que isso diz de mim.

quinta-feira, 3 de abril de 2014

Darling




"Darlin", álbum E&J (2014). Dag Savage.

Das mãos de um dos mais elegantes produtores (Exile) da actualidade só podia sair uma preciosidade assim. E&J ainda há pouco saiu e já temos a certeza de que é um dos álbuns de hip-hop do ano. Cheers.

segunda-feira, 31 de março de 2014

como se não fosse nada

Acontecia-lhes várias vezes. Conversavam sobre determinado assunto e, quando um deles ficava em suspenso na busca da palavra mais acertada para definir uma pessoa, caracterizar um afecto ou descrever como o sol se tinha posto bonito naquele dia, o outro abria a boca e zás, diziam, sem combinar, sem falsas telepatias de ocasião, a mesma palavra. Calavam-se e fitavam o chão, a cumplicidade tornada culpa infantil, daquela que não pesa mas nos liga, pelas melhores razões, aos outros. Depois, de sobrolho erguido, olhavam, intrigados, um para o outro como se de dois detectives perscrutando pela origem daquele golpe de asa se tratassem. Enquanto o olhar se mantinha, passavam a ser, por breves segundos, dois animais potencialmente rivais que se avaliam antes do confronto físico (ou, se for o caso, do acasalamento), como quem diz, em pensamento, hmmm, o que se passa aqui, quem és tu, o que fazes no meu território, quem te deixou entrar, aqui há gato...
Ficavam-se por este breve jogo teatral e nunca verbalizavam a perturbação que a frequência com que isto acontecia lhes causava. Faziam de conta que não era nada - tinham uma tendência irreprimível para não alardear o belo mas sublimar o banal, como quase todas as pessoas inteligentes, cientes de que as palavras quase sempre dizem mais do que devem e menos do que os sentimentos mais retumbantes e irrepetíveis exigem, em ambos os casos dessacralizando a beleza primordial das imagens e dos gestos. Era, então, nesse silêncio que deitavam a certeza de que algo maior do que eles os habitava - aos dois. Era nesse silêncio que, admirados, retomavam o que estavam a fazer e, como que exaustos com o impacto do que tinha acabado novamente de acontecer, recuperavam, lentamente, as coordenadas respiratórias. Sorriam, então, discretamente, de cabeça baixa, enquanto pensavam não pode ser, como é possível, voltou a acontecer, meu deus. Às vezes, um deles, mais levado pela comoção, meneava a cabeça em negação durante uns segundos enquanto estas frases lhe assaltavam o pensamento. Os segundos suficientes para que, no momento em que o outro olhasse na sua direcção secretamente em busca de uma reacção, a cabeça já estivesse imóvel. Como se não fosse nada.

domingo, 30 de março de 2014

5-30


"A Dúvida" (c/ Sam the Kid), álbum 5-30 (2014). 5-30.

Os 5-30, super-grupo composto por Carlão (aka Pacman, ex-Da Weasel), Regula e Fred (Orelha Negra), têm amanhã, dia 31 de Março, o seu dia D, dia do lançamento do aguardadíssimo álbum de estreia homónimo. A minha crítica será publicada, por isso, nas próximas semanas.
Entretanto, dos cheirinhos que já têm sido postos a circular, destaca-se, desde logo, "A Dúvida", faixa com o grande, grandíssimo, Sam the Kid (que também anda a adiar, há tempo demais, novos lançamentos), e que se abeira do momento em que, numa relação, alguém - ou, não o sabendo, ambos... - se interroga sobre a seriedade da mesma e, no mesmo passo, sente os primeiros ventos do receio em, furada a reciprocidade de intenções, ficar "sem pé". A dúvida, precisamente - a eterna dúvida.

"Eu sei que sou azedo
e retrocedo no fim
eu não cedo assim tão cedo
tenho sido sempre assim"

family business



"Familly Business", álbum The College Dropout (2004). Kanye West.

Quando o "Cánié" nos fazia verter uma, duas, três lágrimas, enchendo-nos o coração de soul e joy. Não deixa de ser desapontante ouvi-lo hoje e perceber como, enfim, há coisas que ficaram mesmo lá atrás. Esta é uma das mais belas músicas que este ainda curto século já nos deu e, musicalmente falando, está lá toda (mesmo toda) a música negra do século anterior. Cheers.


And look, you tell me you ain't did it, then you ain't did it
And if you did... then that's family business.

domingo, 23 de março de 2014

uma hipótese

O tempo fê-lo perceber que o amor era, para si, a obsessão por um rosto. A obsessão infinita, abismal, pelo rosto de uma mulher e, sobretudo, a convicção, do tipo da que um homem sente apenas duas ou três vezes na vida como um raio que o racha ao meio, de que esse rosto, por mais vezes que fosse olhado, manteria a sua qualidade mais radical ("pura", outros dirão): a sua inesgotabilidade, a capacidade de ser uma porta permanentemente aberta para o mundo, para os sentidos, para o desejo. O amor era um rosto, uma folha em branco (e a candidez na alvura da pele de uma mulher condiz com a metáfora) escancarada para as coisas e para as palavras. O mistério e a neutralidade límpida que, numa mulher bonita, significam a serenidade e um certo desligamento solipsista em relação ao mundo.
Nestes casos, o amor não deixa de traduzir um certo egoísmo, pois que é, ou também é, para quem assim olha, uma hipótese: a hipótese de nunca nos cansarmos de um rosto. Só que esse rosto (a pessoa amada) não sabe dessa condição, não o pode saber, pelo que, para os que amam rostos (ou que começam por amar rostos), o amor se joga nessa fina aleatoriedade, nessa possibilidade futura de nunca se dar por encerrado um rosto, de nunca o ter por inteiramente conhecido, apreendido, controlado. Por isso, para si, a banalização que o passar do tempo costuma infligir no amor não partia tanto do olhar subjectivo de quem olha como da perda da expressividade desse rosto, e era nesse pressuposto que afastava o peso da consciência que de tempos a tempos se manifestava. A culpa era sempre desse rosto que se esgotava. Que secava.

segunda-feira, 17 de março de 2014

the problems of a 20 something




"Heavenly Father", EP Cilvia Demo (2014). Isaiah Rashad.

domingo, 16 de março de 2014

close (up)



Mónica e o Desejo (1953), Ingmar Bergman.

domingo, 9 de março de 2014

swanging



"Connect", álbum Nothing Was The Same (2013). Drake.


Swanging, eyes closed just swanging...

quinta-feira, 6 de março de 2014

Agustina

Era uma mulher extremamente calculista. Quando o conheceu, não gostou da sua aparência, sobretudo do cabelo curto. Aproveitou uma pedra da calçada fora do sítio para ficar um pouco mais para trás no caminho e, em silêncio, confirmou que o cabelo não lhe ficava bem com aquela forma. No entanto, aceitou o convite, pois sabia que, dali a uns tempos, com o cabelo um pouco maior, aquele seria um homem que gostaria de apresentar às suas amigas.

domingo, 2 de março de 2014

Alain Resnais


Ervas Daninhas (2009), Alain Resnais.
 
Foi um domingo triste, este. Com Resnais, um dos acontecimentos mais trágicos da humanidade ganhou, numa complexa e irónica inversão, uma coloração um pouco mais bela e optimista: we will always have Hiroshima. Até sempre.

quinta-feira, 27 de fevereiro de 2014

a coragem vai ao cabaret

 
 
Tournée (2010), Mathieu Amalric.
 
Depois da Amizade (podem ver o meu contributo aqui), o Caminho Largo renovou-me o convite para participar numa rubrica onde a Coragem foi definida como caleidoscópio temático de uma selecção de 3 filmes e um realizador. As minhas escolhas, essas, encontram-nas ali (clicar).
Nem sempre este tipo de escolhas merece "justificações", muito menos quando o tema é tão amplo - demasiado, em minha modesta opinião - como no caso presente. Perante a amplitude da coisa, decidi ser pragmático e optar por três filmes com muitos (mesmo muitos) pontos de contacto e, mais importante, onde os corajosos (homens, nos três casos)  se - como dizem os brasileiros - "viram" (no sentido de superar as adversidades da vida) no mesmo tipo de espaço (clubes nocturnos, cabarets) e rodeados das mesmas "companhias" (mulheres, álcool, cigarros  e cobradores de dívidas). Mais concretamente, sobre os três filmes que escolhi, reproduzo, abaixo, o que, há uns anos, escrevi sobre dois deles (Ferrara e Amalric) e o porquê de os considerar um excelente ilustrativo do tema proposto (não é por acaso que a palavra "coragem" expressamente lá aparece...), importando acrescentar que essa mesma explicação se estende, na plenitude, ao filme do Cassavetes.
 
Quanto ao realizador eleito, que dizer? Pensei em Godard, Antonioni, no próprio Cassavetes, nos japoneses, no César Monteiro, e mais uns quantos. Acabei por me deter no Pasolini, exemplo da coragem feita homem, porque transversal: no plano pessoal (afirmação, sem rodeios, da sua homossexualidade, num tempo em que isso ainda era uma "excentricidade" de circo), no plano político (comunista numa Itália pós-fascista, "esquerdisticamente" fragmentada e  pré-Berlusconi, com as perseguições que se sabem, culminadas na morte às mãos da direita), no plano estético (um desbravador das fronteiras entre literatura, poesia, cinema, teatro) e, last but no least, no plano cinematográfico (artisticamente selvagem e desprendido de cinematografias "de programa", como Mamma Romma,  a sua primeira longa, logo indicia pelo descolamento sofisticado em relação ao neo-realismo). Enfim, tudo aspectos que Saló ou os 120 dias de Sodoma, que vi recentemente, condensa numa afirmação de singularidade e iconoclastia.
 
 
 
Há um mundo de semelhanças entre o Ray Ruby (Willem Dafoe) de Go Go Tales (2007, Abel Ferrara) e o Joachim Zend (Mathieu Amalric) de Tournée (2010, Mathieu Amalric). De um lado, a mesma paixão, irreverência e obstinação. O optimismo inquebrantável, contra tudo e contra todos (the show must go on), que mexe em tudo por que passa, mesmo quando a tragédia parece estar iminente. Por outro lado, a mesma infantilidade (ambos sonhadores e indomáveis - síndrome "Peter Pan") e solidão (Ray dormindo sozinho no seu escritório enquanto mil coisas acontecem no seu clube; Joachim viajando sozinho de carro pela noite dentro enquanto a sua companhia de new burlesque actua). E, porque não dizê-lo, a mesma decadência e sensação de nostalgia pelos good old days, não só no que ao dinheiro propriamente dito diz respeito (dois businessman falidos), mas também no que toca ao seu percurso dentro do mundo do espectáculo (o clube Ray's Paradise já viveu melhores dias e Joachim, por seu turno, era um tipo famoso em França antes de se chatear com a indústria e se exilar nos EUA).

Mas, ainda mais marcante, é a mesma fragilidade emocional e necessidade de se agarrarem aos seus mais próximos, que não são, note-se, num caso e noutro, a família (como seria habitual), mas sim as pessoas com quem trabalham diariamente. Ray trata as suas go go girls quase como filhas, referindo-se ainda numerosas vezes ao pessoal do Ray's Paradise como uma "grande família", onde todos olham por todos (veja-se a cena excelente em que uma striper lhe diz que está grávida ou aquela outra em que Ray canta sozinho em palco - a canção parece ser, na verdade, dirigida ao clube). Joachim, por sua vez, parece só estar bem quando rodeado das suas strippers, procurando fazer tudo para que se sintam bem, ainda que por isso durma pouco ou nada.
 
Flagrante, também, o espaço em que ambas as personagens se movem: o mundo do espectáculo e, mais concretamente, o mundo do striptease, das mulheres, da carne e da sensualidade. É neste mundo que ambas as personagens se encontram permanentemente à beira do colapso, do fim, embora haja sempre algo que as mantém à tona. Apetece acreditar que esse "algo" não é fruto do acaso ou da fortuna, mas como que uma recompensa pela coragem e determinação de dois seres vertiginosos que correm todos os riscos por amor à arte. E por aqui se vê o grito pela independência - no cinema, mas também na arte, em geral - que é comum a crítica apontar a Amalric e Ferrara por estes dois filmes.