segunda-feira, 17 de agosto de 2026

Ensaio para ciclo de cinema Mel Brooks


Já está disponível para leitura e download o Ensaio (excerto abaixo) que integrou o dossier do ciclo “Rir, apesar de tudo! O cinema politicamente indiscreto de Mel Brooks”, que programei em Julho para a Casa Comum da Universidade do Porto. Boas leituras e bons filmes!


Link: RIR, APESAR DE TUDO! O CINEMA POLITICAMENTE INDISCRETO DE MEL BROOKS | Ciclo de Cinema – Casa Comum


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Em tempos de filmes “políticos”, “activistas” ou “militantes” falhos, medrosos, completamente inofensivos nas suas certezas e convenções, sem rasgo nem arrojo, eis um filme [BLAZING SADDLES/BALBÚRDIA NO OESTE] que verdadeiramente se atira ao espectador, que não hesita na hora de o perturbar – mais não fazendo, afinal, do que aquilo que Brooks, citando Shakespeare, sempre defendeu, isto é, o papel da arte com sendo o de “To hold the mirror up to nature”. Excessivo, provocador, alguns dirão infame, é um festim cómico de alto grau político, sátira total aos EUA e ao racismo (não se pode falar de um sem o outro, eis o que o filme deixa claríssimo). Sem que em algum momento lhe sintamos a sobranceria daqueles que, nos nossos dias, se arrogam a todo o momento de estarem do “lado certo da História” (não por acaso, esse lado é hoje como a bicicleta da aldeia, usado e abusado por tudo e todos).
É, por isso, e desde logo, um filme que se recusa a ser cúmplice da política dos interditos (correctos ou incorrectos, o leitor que os escolha): a infame palavra “Nigger”, por exemplo, está lá do princípio ao fim (recorde-se que Pryor, como tantos outros afro-americanos, sempre a utiizou abundamente nos seus espectáculos e discos), utilizada quer pelos opressores, quer pelos oprimidos (como, de resto, acontece, goste-se ou não, na vida real). Gesto corajoso que deixaria alguém como Kendrick Lamar (que, há uns anos, quando chamou uma fã ao palco para cantar uma música da sua autoria com a palavra “Nigga”, a impediu, pasme-se, de a verbalizar) corado de vergonha.
Logo nas primeiras cenas, através de um humor desbragado, sem qualquer pretensão de “tese”, Brooks diz tudo sobre como a escravatura, apesar de formalmente abolida, se mantém plenamente em vigor, porque inscrita no ADN dos EUA (“Birth of a Nation”, justamente…). Na construção de um caminho de ferro, os negros (e os asiáticos) continuam a ser explorados e humilhados pelos “cowboys” brancos, que, em vez de cavalos, enviam dois negros para as areias movediças (os afro-americanos em areias movediças ou a América, ela mesma, como uma areia movediça, eis uma poderosa e brilhante metáfora). O reverso, esse, está no modo igualmente cirúrgico, exemplar, como Brooks coloca, de um lado, a cantilena pobre e simplória dos cowboys, e o canto belo e sofisticado dos negros, do outro. Como dizer (ou cantar) muito com tão pouco… Ou na forma como, parodiando os códigos do western, Mel não se fica por aí, indo mais fundo na subversão. Quando a personagem de Gene Wilder, depois de aparentemente romancear (como nos westerns), as qualidades das ditas “pessoas comuns”, acaba enfaticamente a chamá-las de “morons”, está a desmistificar a sua suposta e ancestral bondade e sensatez, sabendo o espectador como, na História, foram frequentemente as “pessoas comuns” a criar ou permitir as maiores tragédias (a começar na escravatura dos afro-americanos nos EUA, passando pela espoliação dos índios ou acabando na “banalidade do mal” nazi). No final do filme, quando Bart, o xerife negro, faz uma daquelas proclamações de princípios (ou de clichês) clássicas dos cowboys íntegros e rectos do western, é agora a população que lhe devolve: “BULLSHIT!”.

Vemo-nos gregos

Terceira vez que ando na Grécia e, mais do que nunca, a certeza: não há povo português como o grego, nem gregos como os portugueses. Escusado procurarmos por afinidades e cumplicidades com brasileiros, cabo-verdianos, espanhóis, italianos, franceses (muito menos!, apesar de ter crescido a achar, ou a desejar, que assim fosse, por causa do cinema que amava); fomos separados à nascença desta gente despretensiosa, simples e agasalhadora, que sabe comer e beber, que não se põe em bicos de pé para nada e gosta de receber. Como se diz num grego perfeito que acabo de traduzir da net, “Chorís malakíes”, i.e., sem merdas. Mesmo se, como nós, neles habite, talvez pelas longevas ruínas que os rodeiam a cada passo, uma melancolia indefinível (tal como nós, e ao contrário dos italianos/romanos, o seu passado é não uma fonte, mesmo que complexa, de orgulho ou alegria, mas de fracasso, decepção, perda, enfim, “saudade”). Basta percorrer as suas rádios: frequências e mais frequências de melodias afadunchadas e tristes como a noite. E pur si muove: