Há muitas noites em que chego à rua de minha casa e, ainda cá em baixo, antes de entrar no prédio, levanto a cabeça e olho para a sala do meu vizinho, pela janela. Está invariavelmente escura e, por isso, apenas vejo reflectidos no tecto em madeira os clarões, brancos e azulados, dos filmes que, àquela hora da noite, por gosto ou por insónia, ele vê, recluso deitado no sofá, como gosto de imaginar. Não foi nestes clarões assombrados, fantasmáticos, carregando o ar de psicadelismo, que nasceu o meu amor pelo cinema, mas gostava de poder dizer que sim.
Da minha janela vejo o Bósforo todos os dias: divisões e correntes, agitações e marés. Tal como no homem, tal como no mundo.
quinta-feira, 24 de julho de 2014
ralenti
Quando o amor dos amigos acaba, o nosso braço já começou a desenhar a trajectória em direcção ao ombro, sem rancores nem cobranças. Numa espécie de ralenti.
segunda-feira, 14 de julho de 2014
that's all you care about
"The Venice conclusion is masquerading as a simplistic ending, and today feels like an outgrowth of what the movie's implying for a lot of its run time: it takes some blinders to love, some dumb luck to make it through middle age, and some willed ignorance to avoid imploding from the realization that things don't get easier when you're older. You never feel that much wiser, and that when something hurts, it just hurts, and that's all you know about it. When it feels good, it feels good, and that’s all you care about".
Nathan Gelgud, "A later look at love: Blume in Love", in New York Film Review, February 23, 2007 (disponível aqui).
Isto é o tipo de coisa em que venho pensando (e sentindo) desde os meus 19, 20 anos.
Nathan Gelgud, "A later look at love: Blume in Love", in New York Film Review, February 23, 2007 (disponível aqui).
Isto é o tipo de coisa em que venho pensando (e sentindo) desde os meus 19, 20 anos.
domingo, 13 de julho de 2014
what the world needs now is love, sweet love
Bob & Carol & Ted & Alice (1973), Paul Mazursky.
É um dos mais belos finais que já vi no Cinema. Ponto. Fez-me acreditar, nem que fosse por momentos, em muitas das coisas que a "idade adulta" e a "sensatez" nos fazem, invariavelmente, perder. É por isso que é preciso voltar sempre atrás, nunca recusar por completo as boas intenções mais utópicas que associamos à nossa juventude mais pueril, por mais ingénuas ou imaturas que se afigurem. Não para as ter necessariamente como padrões de acção, mas, pelo menos, como balizas, firmes, do que somos e do modo como nos queremos relacionar com quem amamos.
Bom, entretanto, aproveito a ocasião para dizer que ando a fazer um ciclo caseiro dos filmes do Paul Mazursky e que o resultado estará visível mais lá para o fim do mês, no meu artigo n'A Pala de Walsh.
a rua é nóiz
"Hino Vira-Lata", álbum O Glorioso Retorno de Quem Nunca Esteve Aqui (2013). Emicida.
Entretanto, o Emicida vem tocar à Casa da Música, esta quarta-feira. A rua é nóiz!
sábado, 12 de julho de 2014
o que há de novo
"Não posso ficar", EP Sem Censura (2014). Grognation.
A falta de tempo obriga-nos, entre outras coisas, a cometer injustiças. É isso que explica que não tenha feito as críticas que gostava de ter feito aos mais recentes trabalhos da Grognation (miúdos com rap para dar e vender, tipo Pro Era portugueses), Alcool Club e Profjam, pese embora dos últimos dois tenha vindo a deixar aqui alguns excertos.
Bom, à falta de tempo importa contrabalançar com os elogios e as recomendações de que oiçam o que de mais excitante se vem fazendo no hip-hop português, que começa, agora sim, a atingir um elevado nível de heterogeneidade, o que nos permite estar a abanar a cabeça com um boom-bap jazzy clássico para, no minuto seguinte, estarmos a salivar com uma traparia preenchida por sintetizadores e por um bass a rebentar pelas costuras. E o mesmo se poderia dizer das letras, oscilando, em igual nível de criatividade e apuro técnico, entre registos ora introspectivos e poéticos, ora festivos e destrutivos (eufemismo para egotrips, bitches, weed e afins).
Isto dito, fica uma superficialíssima - e peço-vos que dêem crédito ao superlativo - lista de sugestões para cada álbum:
1. Grognation, EP Sem Censura: "Salva de Palmas", "Casa dos 20", "Distante", "Não posso ficar";
2. Alcool Club, CLUB 120.º: "Maçã de Adão", "Sério", "Se o amanhã não chega", "Quando a minha voz", "Atlantis";
3. Profjam, The Big Banger Theory - Full Mixtape: "Frank Einstein", "Matança", "É Nossa", "Money", "Bored", "Cépticos", "Drogas & Bottles", "Fly", "Viciada".
quarta-feira, 9 de julho de 2014
round and round and round and round and round and round
"Round and Round", álbum Nate Dogg (2003). Nate Dogg.
quarta-feira, 2 de julho de 2014
Walsh #13 - O elevador enquanto questão de moral/Her (Sopa de Planos)
Os mais atentos já terão reparado, mas dou agora nota, com algum delay, da nova Sopa de Planos do À Pala de Walsh, desta feita tendo os elevadores como epicentro. O "meu elevador" vem do Her, do Spike Jonze. Subam ou desçam, mas não deixem de ler - ali ao lado (clicar).
Pertence a Werner Herzog, esse perscrutador dos mistérios do humano, uma das sínteses do século XXI: “A solidão humana aumentará em proporção directa ao avanço nas formas de comunicação”. Pertence a Spike Jonze, goste-se ou não do estilo, um dos filmes que melhor corporiza essa terrível promessa. Se chovemos no molhado, não nos importamos – ipad, iphone, twitter, facebook, whatsapp, email, skype: tudo “invenções”, “maravilhas tecnológicas” e “novos descobrimentos” que, mau grado as suas inegáveis vantagens, nos fazem a todos menos curiosos, atentos, interessados (e interessantes…) e – não receio dizê-lo – inteligentes. Antes de ipads e afins, outras invenções fizeram as delícias do Progresso dos séculos XIX-XX e os elevadores foram uma delas. À sua maneira, os elevadores modernos foram um primeiro indutor dessa solidão contemporânea que é a de estar com toda a gente e não estar com ninguém ao mesmo tempo. O elevador força a convivência involuntária, obriga a que olhemos, mesmo que só por segundos, os rostos de outrem (pior se o elevador for todo espelhado, aí não há mesmo saída…), coage-nos a sentir o toque do casaco que, ao de leve, se cruza com o nosso, impõe-nos perfumes alheios, compele-nos à cordialidade de ocasião (“Bom dia/boa tarde/boa noite”) com total desinteresse pelos humores particulares de cada um. Tudo isto não seria necessariamente mau não fosse o artificialismo, a sensação de imposição e a impessoalidade envolvidas num pequeníssimo – por vezes mesmo claustrofóbico – espaço físico. Jonze junta, então, estes dois tipos de “invenções”, uma mais anciã (elevadores) que outra (um personal manager auricular que lê emails, escolhe músicas conforme o nosso estado de espírito e sumaria os gossip mediáticos do dia), para radicalizar essa ideia: todos – todos mesmo, porque a globalização é esse enquadramento (o deste plano), no mesmo espaço, de um asiático e de um ocidental – ouvem, todos conversam (com o personal manager), todos se olham, mas ninguém comunica, ao menos no genuíno sentido que o termo encerra, isto é, gregário, comunitário, enfim… humano.
domingo, 29 de junho de 2014
viciada(o)
"Viciada", The Big Banger Theory - Full Mixtape (2014). Profjam.
A música mais sexy e charrada da mixtape, ou, bem vistas as coisas, talvez mesmo a melhor música. Esqueçam lá os "grandes produtores da electrónica mundial"; este é dos melhores beats que ouvi nos últimos tempos e é produto caseiro.
Adenda: afinal não, não se trata de produto caseiro; voltemos, que remédio, para "os grandes produtores da electrónica mundial".
Adenda: afinal não, não se trata de produto caseiro; voltemos, que remédio, para "os grandes produtores da electrónica mundial".
sábado, 28 de junho de 2014
to whom it may concern (2)
A minha Dissertação de Mestrado, apresentada e defendida, em Janeiro deste ano, na Faculdade de Direito da Universidade do Porto, foi publicada há dias, com o título O Ordenamento do Espaço Marítimo - Para um corte com uma visão terrestrialmente centrada do ordenamento do território. O antedito corte já começou, felizmente, a ser feito, com a Lei n.º 17/2014, de 10 de Abril. A quem interessar, deixo aqui o link (clicar).
quinta-feira, 26 de junho de 2014
deixa eu dizer o que penso dessa vida, preciso demais desabafar
Bom: como diz o outro, foi um dia cheio de emoções fortes.
domingo, 22 de junho de 2014
to whom it may concern
"To Whom It May Concern", álbum Horace Silver And The Jazz Messangers (1956).
No próximo dia 26 de Junho, quinta-feira, serei orador no Seminário "A nova Lei de Bases da Política de Ordenamento e de Gestão do Espaço Marítimo Nacional", que terá lugar em Lisboa - todas as informações e mais algumas ali ao lado (clicar). O ordenamento do espaço marítimo tem sido um dos temas em que tenho centrado a minha investigação (até há registo disso neste espaço) e que está, finalmente, a ser tomado a sério pelos agentes políticos.
Isto dito, consegui juntar, num só post, um título útil (o convite para o Seminário estende-se, de facto, to whom it may concern), uma música fabulosa e uma homenagem ao grande Horace Silver, recentemente falecido. My concern.
No próximo dia 26 de Junho, quinta-feira, serei orador no Seminário "A nova Lei de Bases da Política de Ordenamento e de Gestão do Espaço Marítimo Nacional", que terá lugar em Lisboa - todas as informações e mais algumas ali ao lado (clicar). O ordenamento do espaço marítimo tem sido um dos temas em que tenho centrado a minha investigação (até há registo disso neste espaço) e que está, finalmente, a ser tomado a sério pelos agentes políticos.
Isto dito, consegui juntar, num só post, um título útil (o convite para o Seminário estende-se, de facto, to whom it may concern), uma música fabulosa e uma homenagem ao grande Horace Silver, recentemente falecido. My concern.
quinta-feira, 19 de junho de 2014
preto e branco
"1930", álbum CLUB 120º (2014), Alcool Club.
Embora não consiga reconhecer, ao certo, de onde a capa (que se vê acima) de CLUB 120º (2014), o novo álbum dos Alcool Club, é "samplada" (para usar um termo caro ao hip-hop), vi nela, desde o primeiro momento, uma homenagem ao cinema noir dos anos 30 e 40. E é para isso que, nem de propósito, a primeira faixa do álbum, intitulada de "1930", aponta: Eram os tempos da tela branca e preta / extorsão, corrupção, jogo ilegal / lei seca / ruas vestidas de preto e branco / onde a confiança era o mais importante.
Canção-retrato (imaginado/sonhado/mitificado, como estas coisas se querem), portanto, das relações de força, do submundo, da sedução entre homens e mulheres: Cagney, Bogart, Mitchum, Lupino, Jane Greer, Wayworth. É neste mundo que, por coincidência, os meus olhos têm viajado nos últimos tempos; um mundo plasticamente, mas não só, a preto e branco, ou não fossem valores como a lealdade, a honra, o respeito, enfim, o street cred, tudo coisas que não admitiam cinzentos. Ou se tinha ou não se tinha.
segunda-feira, 16 de junho de 2014
visões de Atlantis
"Atlantis", álbum CLUB 120º (2014). Alcool Club.
"Deslizo nas minhas ideias
como sobreviventes de tsunamis
agarrado a corações
e a fragrâncias de anis
Eu tenho visões de Atlantis
que eu tanto quis...
mas tenho uma raíz que me prende
a este país
(...)
Problemas são muitos
e aparecem todos juntos
és puxado pelo sol
ao mesmo tempo pelo mundo
Amor...
é um perfume que eu já não uso
é um cheiro passageiro
que te deixa confuso"
Walsh #12 - Crítica "Un condamné à mort s’est échappé" (Noutras Salas)
Há tempos, anunciei o início do Ciclo de Cinema Liberdade, programado pelo Cineclube de Guimarães. O ciclo fecha amanhã, com Un condamné à mort s’est échappé (1956), de Robert Bresson. O meu texto no À Pala de Walsh é uma versão ligeiramente mais extensa daquele que, a convite da Direcção do Cineclube de Guimarães, escrevi para o ciclo, e que, por isso, mais do que uma crítica convencional - que não é -, procura interrogar-perscrutar o cruzamento da(s) ideia(s) de Liberdade neste filme de Bresson. Teria dado para mais (muito mais), mas o tempo, esse, por estes dias só está "para menos". Para ler n' A Pala (clicar).
Deste modo, pergunta-se, será que a filosofia que insufla Un condamné casa bem com a ideia de Liberdade (de auto-determinação e auto-responsabilidade), ou, pelo menos, com uma certa ideia moderna (existencialista, em grande parte) de Liberdade? Quando ao homem não chega a sua auto-determinação, antes carecendo do tal plus transcendental, de que Liberdade falamos ao certo? E a que Liberdade podem (se é que podem) aspirar aqueles a quem a Graça não é concedida, isto é, os “pecadores”?
(Excerto)
domingo, 15 de junho de 2014
"Keep him spinning!"
Na senda daquilo que noticiei aqui há tempos, deixo agora link para esse enciclopédico trabalho organizado pelo À Pala de Walsh: a tradução, para 9 (!) línguas, da crítica do filme predilecto de João Bénard da Costa pelo próprio, Johny Guitar (1954), do grande Nicholas Ray. Para ler e divulgar - ali.
sábado, 14 de junho de 2014
motion
High Sierra (1941), Raoul Walsh.
You know, sometimes, when you're out at night, you look up at the stars and you can almost feel the motion of the earth... Bogart refere-se às estrelas, mas nós sabemos que é do amor, do movimento ("motion") que o amor imprime em nós, que fala.
sexta-feira, 6 de junho de 2014
João Bénard da Costa
O À Pala de Walsh iniciou esta semana um importantíssimo dossier sobre a vida e obra de João Bénard da Costa, homem do e de cinema em cujas críticas aprendi muito a ver cinema (porque se aprende, de facto, a ver cinema; na verdade, o olhar é uma função vital cujo desenvolvimento exige treino como qualquer outra, com a agravante de, qual pecado original, estar poluído e maculado pela avalanche, por um lado, de imagens que, paradoxalmente, ninguém sabe ler no mundo actual, e, por outro, pela velocidade dos tempos, cujo reflexo mais pernicioso é o da intolerância das pessoas à reflexão e à contemplação: é um triunfante e perigoso tempo anti-intelectual o que vivemos, em que o gosto está mais padronizado do que nunca e todos os que nele não se enquadram ou que, enquadrando, vão mais além, são "pseudo-intelectuais"; é o que acontece no cinema, mas não só).
O primeiro texto é do Carlos Natálio e o mais recente é do Manuel S. Fonseca, cronista e crítico com quem JBC comandou, durante muitos anos, os destinos da Cinemateca. Não deixem de acompanhar este dossier in-progress.
"Belo é o paradoxo pelo qual o maior crítico português de todos os tempos precisa das aspas para entrar nessa função. Bénard considerava-se “crítico”. A explicação dá-a ele melhor do que ninguém. O trecho é grande mas mais esclarecedor não podia ser: Nunca serei eu a rejeitar a famosa definição baudelairiana de crítica, quando lhe exigia parcialidade e paixão. Nunca serei eu a anateminar terrorismos por estas bandas. Nunca serei eu a defender os jogos perigosos da transparência. Mas precisamente porque sei donde se fala – quando se fala com paixão crítica (dois termos que só não são antagónicos quando são um pelo outros envolvidos) – sempre me afastarei de um texto crítico quando esse secundarizar a elucidação do que critica (a sua plena iluminação) ou a formação do gosto de quem eu quero que goste tanto como eu gosto e que, se possível, goste como eu gosto. Talvez por isso aplique sempre “aspas” ao crítico que outros vêem em mim. Certamente por isso, não desculpo aos críticos o abastardamento do gosto, de que começaram por ser vítimas e acabaram por se fautores. E sobretudo por isso não perdoo que se seja crítico sem gosto, a contragosto ou com desgosto. Com nenhum desgosto aprendi nada. E a aprender a gostar é tudo quanto pedi e peço aos críticos de quem gosto.
(...)
No meio de tudo isto perdia-se o essencial da crítica para Bénard, a formação do gosto que no seu caso começou com a revista Vértice, a Telé-Ciné, mais tarde dos Cahiers claro está. Essa formação ganha requintes platónicos: Aprender para gostar. E até lhes devo [aos críticos] – já noutro nível – que me tenha confirmado o que pressentia, muito antes, noutras dimensões: que é preciso que exista o gosto para haver conhecimento e que se começa sempre por gostar do que não se percebe até se perceber que se gostava porque já se percebia".
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