sábado, 11 de outubro de 2014

Palha, Paus e Pérolas



Enquanto salivamos - há tempo demais, tantos têm sido os adiamentos - pelo anunciado (já quase um mito, por esta altura) Trabalho & Conhaque - ou - A Vida Não Presta & Ninguém Merece a Tua Confiança (sucessor da obra-prima Eu Não das Palavas Troco a Ordem, 2007), Nerve teve a gentileza de nos brindar com uma compilação de sobras, i.e., faixas isoladas e colaborações que não entraram em nenhum dos seus trabalhos oficiais até ao momento. São 30 faixas de ouvir e chorar por mais que encontramos reunidas em Palha, Paus e Pérolas (2014) - e, se estamos a falar de Nerve, sabemos como este choro pode provir das mais diversas fontes: tristeza, alegria, humor, acidez, ironia, morbidez, perversidade, deboche, etc..

É tudo isto e bastante mais - há sempre uma surpresa, uma curiosidade, uma peculiaridade a mais que nos rouba um sorriso  - que podem encontrar nesta compilação (download gratuito aqui) de um dos mais talentosos e idiossincráticos rappers portugueses. "Boa noite, estúpidos!"

segunda-feira, 6 de outubro de 2014

Conferência "20 anos da entrada em vigor da CNUDM: Portugal e os recentes desenvolvimentos no Direito do Mar"

No âmbito do Ciclo de Conferências organizado pelo Instituto Jurídico da Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra, o Centro Interdisciplinar de Investigação Marinha e Ambiental (CIIMAR), em colaboração com o primeiro, realiza, no próximo dia 29 de Outubro (quarta-feira), no Salão Nobre da Faculdade de Direito da Universidade do Porto (FDUP), uma Conferência sobre os recentes desenvolvimentos do Direito do Mar e a nova Lei de Bases do Ordenamento do Espaço Marítimo.

Programa e cartaz no sítio da FDUP.

sábado, 4 de outubro de 2014

crónica de uma nostalgia



Heimat - Crónica de Uma Nostalgia (2013), Edgar Reitz.

terça-feira, 30 de setembro de 2014

Walsh #16 - Sopa de Planos e... novidades

 
 
Este mês, por manifesta falta de tempo, o meu contributo para o À Pala de Walsh resumiu-se à minha habitual participação na Sopa de Planos, não me tendo sido possível escrever, como gostaria, a minha crítica.
 
Bom, sendo assim, o saldo final é a escolha deste plano estupendo d'O Gebo e a Sombra (2012), o penúltimo filme de Manoel de Oliveira e o último que tive oportunidade de ver e amar. No meio desta autêntica "sopa de pedra", falo de estátuas, de Deus, do dinheiro, do Portugal de Raúl Brandão e do nosso (nosso e de Oliveira, por supuesto). Não deixem, então, de ler esta sopa mesmo aqui ao lado (clicar).
 
Entretanto, aproveito para anunciar, em primeira mão e com enorme satisfação, que, a partir de Outubro, as Conversas À Pala de Walsh (cfr. aqui) também se passarão a realizar, com o mesmo formato, no Porto, mais concretamente, no Teatro do Campo Alegre. A estreia acontecerá à boleia do ciclo que a Medeia Filmes dedicará, a partir de 30 de Outubro, ao grande Satyajit Ray. A breve trecho anunciarei aqui mais detalhes. Fiquem atentos.

segunda-feira, 29 de setembro de 2014

mais devagar

Já não via este senhor velhinho há muito tempo, talvez um ano. E, tal como da última vez que o vi, interpelou-me da mesma forma. Sentado no muro da entrada de uma casa, com um certo ar desorientado, olhou-me nos olhos e, com um ar muito sério, exasperado, indignado, até, disse-me: "Olhe lá, ande mais devagar!". Só isto. E eu, já na passada, envergonhado, a disfarçar o sorriso, o meu peito e o meu fato a encolherem. Não quero andar mais devagar, penso, mas, precisamente enquanto penso, enquanto me retenho naquela frase, metafórica até ao tutano, desacelero o passo. Talvez o velho não saiba - tenho quase a certeza que sim, há muita ironia naquela frase -, mas o que disse vai directo ao fundo de mim, provavelmente porque a vida que levo - acelerada - não é, nunca foi, a que imaginei que viveria. Não é coisa que me desagrade, mas sobre a qual não deixo de me interrogar, nem que seja para me confrontar comigo mesmo, para me apalpar e lembrar-me do Francisco que cresceu feliz em Requesende com o Papá e a Mamã, o Tiago Grande e o Senhor Cunha, mais tarde o Lucas.

I think I'll give her a call




"Give Her a Call", álbum Spirits (1994). Gil Scott-Heron.


"When I get back to my life
I think I'm gonna give her a call
She's been waiting patiently
For me to get myself together
And it touches something deep inside
When she said she'd wait forever
Because forever's right up on me now
That is, if it ever comes at all
And when I'm back to my life I think I'll give her a call"

domingo, 21 de setembro de 2014

saturday afternoon fever

Sábado, meio da tarde, toca a campainha. Estranho o facto, mas desloco-me para atender. Do outro lado, a senhora apresenta-se como Augusta, que está acompanhada pela Olímpia. Prefiguro duas senhoras nos seus 70 anos. Perguntam-me se podem fazer umas perguntas. Estou quase a a agradecer e a dizer que o produto - não sei sequer qual - não me interessa, mas, por simpatia, digo que sim.

"Acha que os mortos podem voltar a viver?"

Depois do impacto, penso em responder-lhes que sim, que me acontece de presenciar isso mesmo todas as semanas, em salas escuras com um um grande ecrã luminoso. Receio, no entanto, que não haja abertura nesse sentido (quem é o excêntrico, afinal?) e opto por uma resposta mais prosaica. "Olhe, à primeira vista, eu diria que não....". Dou especial ênfase ao à primeira vista. Do outro lado, recebo, como resposta, compreensão e uma citação da Bíblia -  "Mas sabia que, na Bíblia, ...".

quarta-feira, 17 de setembro de 2014

feira do livro (3)

Vamos para a última curta, as cadeiras totalmente ocupadas, gente sentada e deitada nas escadas e nos varandins do auditório, e um dos presentes, numa louvável associação entre as condições térmicas que se fazem sentir e o défice cultural que ainda vitima a cidade, exclama bem alto: "ESTÁ MUITO CALOR! É PRECISO UMA CINEMATECA PARA PÔR ESTA GENTE TODA!". Ouvem-se palmas. Primeiro tímidas, depois um pouco mais exuberantes. Ainda assim, poucas, insuficientes. Uns segundos depois, novo ribombar: "ONDE ESTÁ A MASSA CRÍTICA?". No vai-não vai de novo pregão, e ninguém poderá afirmar que dali não podia nascer uma rebelião que só pararia já de madrugada no governo central, a curta começa. Sentados, siderados. Sai-se, fuma-se um cigarro, duas ou três impressões, casa. O cinema é o ópio do povo.

feira do livro (2)

Enquanto via as curtas do Pasolini, ouvi muita a gente a rir-se como o João Botelho dizia que a maioria das pessoas se ria nos filmes do César Monteiro. A frase torna-se mais inteligível se o "como" do riso for trocado pelo "quando", i.e., o(s) momento(s) em que ele (riso) se manifesta.

feira do livro (1)

Tive um brutal déjà vu enquanto via as curtas do Pasolini. Remeteu-me para outros Pasolinis (o que é normal), para Chaplin [mesmo antes da citação explícita, o que também é normal (não a citação, mas a minha remissão)], para Tati e, como sempre, para a primeiríssima vez que fui, pela mão do meu Pai, ao Nun'Álvares (ao cinema) ver o Jour de Fête. Mas mais do que isso: é a remissão para um certo humor primitivo (não confundir com primário), humilde, "rural" (na paisagem e no desprendimento dos mais simples), de desgraçados e pobretanas a lutar pela sua dignidade (se, como alguém disse, a felicidade não é alegre, a luta pela dignidade triste não é). A provar que a riqueza mais importante é, de facto, a de espírito.

Dizer que o cinema é assombração ou dizer que é déjà vu é uma e a mesma coisa.

quinta-feira, 4 de setembro de 2014

It's all a part of it


"It's All A Part Of Love", álbum It's All A Part Of Love (1970). Jackie Wilson.


Em resumo: uma bela, resignada e clarividente canção sobre it.

domingo, 31 de agosto de 2014

o excesso e o banal

"(...) é preciso pôr em questão a opinião adquirida, segundo a qual este sistema nos submerge debaixo de uma torrente de imagens em geral - e de imagens de horror em particular -, tornando-nos assim insensíveis à realidade banalizada desses horrores. Tal opinião é amplamente aceite porque confirma a tese tradicional que diz que o mal das imagens é afinal o seu número, a sua profusão que invade sem remédio o olhar fascinado e o cérebro amolecido da multidão dos consumidores democráticos de mercadorias e de imagens. Esta visão pretende ser crítica, mas encontra-se em perfeito acordo com o funcionamento do sistema. Porque os media dominantes estão longe de nos submergir com uma torrente de imagens testemunhando massacres, deslocações maciças de populações e outros horrores que constituem o presente do nosso planeta.

Bem pelo contrário, reduzem o número de tais imagens, tomam todo o cuidado para as seleccionar e dar-lhes uma determinada ordenação. Eliminam das imagens tudo o que pudesse exceder a simples ilustração redundante da respectiva significação. O que vemos, sobretudo nos ecrãs da informação televisiva, é o rosto dos governantes, dos especialistas e dos jornalistas que comentam as imagens, que dizem o que elas mostram e o que sobre elas devemos pensar. Se o horror se banalizou, não é porque dele vejamos demasiadas imagens. Não vemos no ecrã demasiados corpos em sofrimento. Mas vemos, isso sim, demasiados corpos sem nome, demasiados corpos incapazes de nos devolver o olhar que lhes dirigimos, corpos que são objecto de palavra sem terem eles mesmos direito à palavra. O sistema da Informação não funciona pelo excesso das imagens; funciona seleccionando os seres falantes e raciocinantes capazes de «desencriptar» o fluxo de informação que diz respeito às multidões anónimas. A política própria destas imagens consiste em ensinar-nos que não é qualquer um que é capaz de ver e falar. É esta lição que é confirmada muito servilmente por aqueles que pretendem criticar a explosão televisiva das imagens".

Jacques Rancière, O espectador emancipado, Orfeu Negro, 2010, pp. 141-143.

segunda-feira, 25 de agosto de 2014

she was amorous




"Amorous", álbum The Beauty Created (2009). Jesse Boykins III.

último acto



O Apicultor (1986), Theo Angelopoulos.

terça-feira, 19 de agosto de 2014

you and me




"The Dark End Of The Street", álbum Greatest Hits. Percy Sledge.

domingo, 10 de agosto de 2014

Ida



O Carlos Melo Ferreira assinalou que o Night Moves (2013), da Kelly Reichardt, era o filme mais bressoniano de que hoje o cinema americano é capaz (do que me inclino para discordar, porque nem sequer bressoniano o filme, americano ou não, me parece), mas, mais importante, que a personagem de Josh (Jesse Eisenberg) era, também ela, bressoniana - do que também tenho as minhas dúvidas, sobretudo depois de ver o Ida (2013, Pawel Pawlikowski), onde, aqui sim, temos uma mulher bressoniana dos pés à cabeça. Aliás, esclarecimento mais evidente disto mesmo não podia haver: depois de fazerem amor, quando o jovem músico lhe pergunta em que é que pensa, Ida responde: "não penso em nada". Pressentimos (sabemos), neste exacto momento, que este "não penso em nada" não é circunstancial ou de ocasião; pelo contrário, é precisamente o seu traço identitário fundamental: Ida "não pensa em nada" sempre. E juro pelas alminhas que tudo isto me ocorreu antes de ler este artigo. Notável actriz, notável filme.

daydream


Charulata (1964), Satyajit Ray.

Falta a legenda, que, aqui, é essencial: é através da letra da canção que Charu confirma o seu amor pelo primo do marido. No fundo, uma declaração de amor encapotada. Uma vénia, Senhor Ray.

sexta-feira, 8 de agosto de 2014

distância

No fim, vai sempre, de facto, dar a isto: things don't get easier when you're older. You never feel that much wiser, and that when something hurts, it just hurts, and that's all you know about it. When it feels good, it feels good, and that’s all you care about. Queremos acreditar que não, que "aprendemos", que "crescemos", que coisa que o valha. É nesse momento que percebemos como a solução está numa animalidade muito própria - não a social, mas, precisamente pelo contrário, a que partilhamos com os animais mas que, pelo facto de vivermos em comunidade, temos tendência para esquecer: fecharmos-nos para nos protegermos.