quinta-feira, 11 de dezembro de 2014

Didn't I




"Didn't I", álbum Let My People Go (2006). Darondo.

sábado, 6 de dezembro de 2014

Naomi



Passei as últimas noites a tentar acabar Naomi, de Jun'ichirō Tanizaki, como se me estivessem a torturar - aliás, como se Naomi, além de Jōji, me torturasse a mim também. Acabei o livro ontem, no comboio, e a primeira imagem em que pensei depois de o fechar foi neste plano da Rosamund Pike no Gone Girl. Mais do que o perfil psicótico e manipulador de ambas as mulheres (Naomi e Amy), o que verdadeiramente liga o livro com o filme é o seu mórbido, horroroso final: em ambos os casos, a relação do casal não termina, mantém-se, mesmo depois de todas as provas dadas do que de errado, doentio, sinistro, ela comporta. O perverso nesse final é o que de pacificador ele carrega: depois do tumulto (a separação de Naomi e consequente desespero de Jōji; o reaparecimento de Amy), tudo volta ao "normal", que, no caso, significa a conformação, a resignação, a podridão do que algum dia já se pôde chamar amor e a certeza de que, dali para a frente, o inferno é condição tacita e mutuamente aceite.

Num segundo momento, quando visualizei Jōji completamente submisso às mordomias e caprichos (todos e mais alguns) e aos amantes (... todos e mais alguns, também) de Naomi, foi de Martha que me lembrei (escrevi sobre o filme aqui), encarcerada ("entrevada" nunca fez tanto sentido), no final do filme, numa cadeira de rodas, e, por isso, definitivamente presa na masmorra barroca tutelada por Helmut.



Conversas à Pala no Porto #2 Porto Post Doc

A segunda edição das Conversas à Pala, que teve como objecto o festival Porto Post Doc e convidado o Director Dario Oliveira, já pode ser vista e ouvida - ali (clicar). Bom festival.

quarta-feira, 3 de dezembro de 2014

"ir às vistas"

Oiço, de passagem, na RTP Memória, um senhor muito velhinho, médico vetusto, dizer que, no tempo dele (anos 20, 30), ele e os amigos tinham o hábito compulsivo de "ir às vistas". Fico curioso e, quando me aproximo da televisão, vejo umas cenas dos filmes do Chaplin a passar. Ir ao cinema, portanto. Ir às vistas: como se de uma paisagem se tratasse, pela qual o olhar se demora, contempla, perde... Cinefilia em estado puro.

boyhood



Saí do Boyhood como pude. Isto é, queria ficar até ao fim dos créditos, mas, mal começaram a rolar, não quis passar vergonhas, por isso levantei-me como um fósforo e saí, lá está, como pude, cambaleando, canhestro. Mas nem por isso o acaso me foi gentil quando eu mais precisava e, portanto, as portas automáticas do estacionamento não funcionaram. Com uma mão a tapar a cara de uma luz que não existia, pedi ao segurança, de longe, que resolvesse o problema. Meti-me no carro. Mandei mensagens a duas ou três pessoas da minha vida e deitei-me com a certeza de que finalmente tinha percebido o meu Pai quando diz que, às vezes, mais vale não ir ao cinema (a outra certeza, que já não é de agora, é que o Ethan Hawke é o melhor actor do mundo, sobretudo a ser desvalorizado e, culpa do próprio, a escolher alguns dos filmes em que se mete).

terça-feira, 2 de dezembro de 2014

Walsh #19 As escadas que nos descem/Strangers on a Train (Sopa de Planos)



Grande caldeirada, esta, em torno das escadas, topos cinematográfico por excelência. Tive dificuldade em decidir-me (acontece-me sempre isto: lembro-me de uma série de planos, que já abordei em filmes sobre os quais escrevi crítica, sobre o objecto em causa, e faço um esforço olímpico para me aventurar por outras paragens), mas eis Bruno, esse psicopata charmoso que só Hitchcock saberia fabricar. Leiam tudo aqui (clicar).


Se pensarmos em escadas e terror no Cinema, rapidamente nos virão à memória cenas óbvias de filmes de Hitchcock, Lang, Brian De Palma, Dario Argento, Kubrick, Polanski. Na grande maioria das vezes, a utilização das escadas serve como uma ferramenta de construção do suspense intra e extradiegeticamente, i.e., de indução de ansiedade nas próprias personagens e no espectador: é o ruído do pisar das escadas (muitas vezes fatal), é o vulto que fugidiamente passa de um patamar para o outro sem que o possamos (nós e as personagens) identificar, é a “subida” que as escadas potenciam para a descoberta de uma verdade, um segredo, um crime cruel, que habitam no topo da casa (mormente, no “sótão”, mito dos mitos habitacionais). Ora, em Strangers on a Train (O Desconhecido do Norte-Expresso, 1951), encontramos aquelas que são das escadas mais assustadoras que nos lembramos de ver no Cinema sem o recurso, curiosamente, a todos esses engenhosos artifícios, porque o efeito, aqui, é outro. A imensidão das escadas (linhas horizontais), conjugada com a monumentalidade das colunas (linhas verticais) sobre elas apoiadas, porque desajustada da escala humana, cria uma perfeita sensação de esmagamento, brutalidade, de “diminuição” ou apagamento do indivíduo (não é por acaso que as grandes ditaduras, sobretudo o fascismo italiano, usaram e abusaram de opções arquitectónicas nesta linha). Mas agora veja-se o paradoxo: nessa realidade desajustada da escala humana, vemos, ao longe, um ponto, um vulto: trata-se de Bruno, com quem Guy, numa “strange” viagem de comboio, acertou um duplo perfect murder. Ao contrário do que seria de supor pelo que escrevemos atrás, a figura de Bruno não está “diminuída”, não é “insignificante”, não é, enfim, um ponto minúsculo na paisagem. Bem ao invés, e porque neste momento do filme Guy se sente já profundamente aterrorizado pela perseguição constante de Bruno, que parece “estar em todo o lado” (ilustra-o, além desta, a cena nas bancadas da partida de ténis), Bruno, pese embora a paisagem colossal em que se encontra enquadrado, parece que “cresce”, que se agiganta, qual stalker omnipresente – “He sticks so close he’s beginning to grow on me – like a fungus”, dirá Guy.

quinta-feira, 27 de novembro de 2014

Walsh #18 Crítica "O Sacrifício" (Noutras Salas)



Corri esse supremo risco que é o de escrever sobre os filmes do Tarkovsky e o resultado está aí, na minha nova crítica para o À pala de Walsh, desta feita em torno de "O Sacrifício" (1986), o último filme do grande realizador russo. Há muito tempo que queria escrever alguma coisa sobre os seus filmes e a verdade é que, pese embora o pouco tempo de que dispus para o efeito, me deu muito gozo poder dedicar-me a pensar sobre este filme e, inevitavelmente, a revisitar os anteriores. Pessoalmente, "O Sacrifício" estimula-me, especialmente, pelo convite que faz à reflexão sobre territórios que nem sempre tenho tido oportunidade de explorar em textos sobre cinema (e, talvez, de explorar no geral...): a espiritualidade, a transcendência, Deus.

O texto podem-no ler aqui (clicar); o filme poderão vê-lo amanhã, no Cineclube Ao Norte (Viana do Castelo), 21h45, pela módica quantia de zero euros.


Alexander deverá fazer amor com Maria (“Maria” – quem mais? –, qual medium divino), revelação que lhe é feita por Otto (um carteiro que traz notícias não é muito diferente, afinal, de um… “anjo mensageiro” gabrielesco) – embora – e não conseguimos ficar em paz com  isto…. – do discurso de Otto não seja absolutamente linear se essa salvação se traduz no fim da guerra e na continuação da vida humana ou, simplesmente, no fim de tudo de uma vez só, para evitar mais sofrimentos. Encare-se ou não com razoabilidade a condição revelada por Otto a Alexander (a plausibilidade nunca foi, de resto, uma preocupação para a espiritualidade, antes sendo o implausível justamente condição e meio de legitimação da sua força e espectacularidade), o certo é que melhor ilustrativo do desligamento espiritual dos homens não podia existir do que a incredulidade com que Alexander acolhe a revelação de Otto – no fundo, e extremando o ponto de vista para nos fazermos entender: se, um dia, o mundo estivesse prestes a acabar e nos revelassem que aquele era o único modo de evitar o fim, cederíamos ou não na sua execução? Teríamos fé?

(Excerto)



please




"Please Forgive My Heart", álbum The Bravest Man in the Universe (2012). Bobby Womack.


sábado, 22 de novembro de 2014

l'art d'aimer

Num livro emprestado e esquecido, encontro um bilhete de cinema perdido. L'art d'aimer, o título do filme. Muito (ou nada) ironicamente, nunca cheguei a ir ver o filme. A tira de papel que é suposto ser cortada à entrada está intacta. Por curiosidade, dou uma olhadela no que se escreveu sobre o filme e vejo que não perdi nada. E é isso: não perdi nada.

sexta-feira, 21 de novembro de 2014

Árvores, Pássaros e Almofadas (2)



"Gestos cinematográficos", álbum Árvores, Pássaros e Almofadas (2014). Minus.

O aguardadíssimo novo álbum de Minus (clicar) será apresentado este sábado, dia 22 Novembro, no Plano B. Como aperitivo, fica o teledisco de "Gestos cinematográficos", o segundo single (depois de "Marionetas") colocado a rodar.

Sobre "Gestos cinematogáficos" e respectivo teledisco haveria um monte de coisas para dizer e efabular (começando no "cinema" que se "ouve" na letra, passando pelo cinema mudo do teledisco e, sobretudo, de quem o "interpreta", terminando, enfim, no cinema, i.e., na representação, que é a vida/o amor e vice-versa). Guardarei-me para a crítica que escreverei ao álbum, que em breve publicarei e divulgarei por aqui.

sábado, 15 de novembro de 2014

"Conversas à Pala": Porto Post Doc, 19 Novembro, 21h, Cinema Passos Manuel


Cartaz: Lisa Marques

A próxima  "Conversa à Pala" prossegue já no próximo dia 19 de Novembro (quarta-feira), com encontro marcado para as 21h, no Cinema Passos Manuel (antes da exibição do filme "Uivo", de Eduardo Morais, pelas 22h). Os meus colegas João Araújo e Sabrina Marques terão como convidado Dario Oliveira (Director do Porto Post Doc e Co-Director do Curtas Vila do Conde), numa conversa que se centrará no novíssismo Festival Porto Post Doc (apesar das sessões avulsas que vêm sido realizadas no Passos Manuel), que promete agitar com a cidade e com a cinefilia. A não perder.

Entrada gratuita.

terça-feira, 11 de novembro de 2014

I call your name




"I call your name", álbum Switch II (1979). Switch.


I used to think about immature things
You know like, do you love me? Do you want me?
Are you gonna call me like you said you would?
Is this really your real phone number?

segunda-feira, 10 de novembro de 2014

Conversas à Pala no Porto #1 Satyajit Ray



Já está disponível on-line o vídeo da primeira Conversa à Pala no Porto, no Teatro Municipal do Campo Alegre, dedicada ao cinema do realizador Satyajit Ray. Vejam tudo aqui (clicar).

sexta-feira, 7 de novembro de 2014

uma noite do caraças



Há muito tempo que oiço, leio e escrevo sobre hip-hop (é só dar uma vista de olhos rápidas pela barra lateral do blog). Há muito tempo, também, que percebi que o moralismo é, quase sempre, um mau ângulo de análise das coisas - ao menos como princípio de análise. Nunca embarquei, por isso, na onda de que o hip-hop "pedagógico", o "verdadeiro" hip-hop (a "verdade" nas coisas da arte vale sempre o mesmo, independentemente da vertente ou corrente: nada ou perto disso), o hip-hop que "ensinava valores" morreu. Não porque não acredite que esse tipo de hip-hop existe - porque existe (e não morreu!) -, mas porque sempre rejeitei ortodoxias e purismos que, como se sabe, à mínima fragilidade, sucumbem, por incoerência, irrealismo ou, simplesmente, estupidez. O hip-hop, como qualquer outro género músical, como qualquer arte, pode e deve ser o que quiser ser, melhor dizendo, o que os seus intépretes quiserem fazer dele. Sem que isso isso signifique que tudo o que daí resulte seja bom e sem que me impeça de ter gostos e visões orientadas do hip-hop que creio ser o que, hoje e, especialmente, hoje visto daqui a 50 anos, é o mais interessante, talentoso, audacioso. Enfim, que, de alguma forma, contribua para a formação de certos "cânones", que, não sendo, decisivos, não deixam de ter o seu peso.

Tendo em conta tudo isto, e apesar de tudo isto, e também porque já levo algum tempo a escrever e a pensar sobre um género que acompanho quase desde que me lembro de gostar de música, chegou o momento de dizer "alto!" e traçar uma linha divisória: uma linha clara, linear e sem relativismos de conveniência.

O videoclip de "Hell Of A Night" (clicar), faixa de Oxymoron (que, de resto, rodou durante algum tempo nos meus ouvidos, mas que é significatimente inferior aos dois álbuns anteriores do senhor que a seguir enuncio), álbum lançado este ano por Schoolboy Q (elemento da Black Hippy, crew de Los Angeles editada pela Top Dawg Entertainment), é um apelo gratuito, grave e agressivíssimo ao consumo de drogas - e não estamos a falar de drogas leves. Estamos a falar de cocaínas, ectasys, cristais, anfetaminas, enfim, you name it - tudo o que conseguirmos entrever naquela recambolesca pasta, e que, de uma só assentada, é depositado numa batedora, donde sai, voilà, um super cocktail tóxico de fácil e imediata ingestão, e que Schoolboy Q não dispensa de tomar bem nos nossos olhos (para não haver dúvidas). Isto já seria mau, mas, durante o videoclip, Schoolboy Q insiste - talvez pensando que nós ainda não percebemos completamente a ideia - em dar-nos a ver como uma "noite do caraças" ("hell of a night") passa pelo consumo de todas aquelas substâncias uma por uma (além do coktail!). O modo sedutor, fascinante - em registo publicitário, como é típico de 80% dos videoclips do hip-hop (e não só) contemporâneo, com a montagem de planos muito apressada a fazer jus ao "You Only Live Once", adágio da adolescência facebookiana (Horácio, carpe diem, voltem!) - com que tudo é filmado não tem outro fim senão o de enaltecer, engrandecer, glorificar a solução para uma "noite do caraças": drogas e mais drogas. Estou completamente seguro de que não é preciso ser um maluquinho do tipo "War on drugs" - que não é o meu caso - para ver o que eu vi neste videoclip.

Mas se tudo ficasse por aqui, ainda estávamos só no campo das teorias chatas. Contudo, da mesma forma que eu, enquanto adolescente, me quis vestir como os Mind da Gap ou os Gangstarr, grafitar paredes, dançar e ser desinibido como os Pharcyde eram no videoclip da "Drop", os miúdos de hoje irão querer ter "noites do caraças" (quem é que não quer, afinal?) como aquela que podem ver (e tornar a ver, aguçando o apetite) no videoclip de "Hell Of A Night". Para isso, saberão, fascinados com o psicadelismo sexy do que viram, que tudo do que precisarão - basta isso! - é de uma mala como a que lhes Schoolboy Q lhes mostrou (que cita a mala do Fear and Loathing in Las Vegas do Terry Gilliam, mas, aí, a trip era outra e bem mais interessante). Try this at home, diz-lhes, despreocupadamente, o videoclip, depois de exibir um tipo, em notória hell of a trip, a remover um órgão de outro à facada. Hell of a night.

Não vale a pena vir com o velho do truque de "ah, mas o que ele está a fazer, na verdade, é criticar" ou citar a cruz luminosa que se vê no meio da festa como sinal de redenção e, tão artisticamente conveniente, do tal "oxímoro" que dá título ao álbum. Bullshit. Não vale a pena contra-argumentar, também, com os video-jogos violentos, os filmes, etc.: isso só prova a desorientação de quem, pretendendo-se de anti-moralista, rejeita compreender e enfrentar as grandes questões, preferindo refugiar-se no confortável relativismo do "que se lixe, já existe tanta porcaria, porque é que agora vêm falar nisto?". Que se lixe, sim, porque este texto não vai (nem tem tal pretensão!) contribuir em e para nada, mas, pelo menos, enquanto ouvinte e amante de uma cultura que partilhei com tantos amigos (alguns deles inclusivamente músicos de hip-hop) e que me esforço por divulgar e transmitir aos mais novos que me são próximos, tenho que dizer que música desta não honra o hip-hop e, sobretudo, incentiva comportamentos que, se é certo que acontecem todos os dias (e faz parte da vida que aconteçam!), não têm de ser estimulados desta forma agressiva, luxuriosa e estupidificante.

E o Kanye West que me permita a adulteração: I'm NOT just sayin'.

quarta-feira, 5 de novembro de 2014

"Alex from Target"



Leio esta notícia e só me lembro do Benigni do To Rome with Love, do Woody Allen. Já não é só aquela coisa da ficção virar realidade; o próprio real é uma ficção. Entendamo-nos: Alex - não o rapaz, coitado, mas o fenómeno-Alex - é, em si, uma ficção, algo que não existe, um não-acontecimento. Alex é... nada. É talvez esse o destino de todos os processos de decadência por que encarreira uma civilização: o nada.

terça-feira, 4 de novembro de 2014

claro que está tudo bem

Dois casais de idade encontram-se na sala de cinema. São afáveis e têm gosto em se verem, o que me toca momentaneamente. Quando uma das mulheres lhes pergunta se está tudo bem, a outra responde toda despachada: "Claro que está tudo bem, estamos no cinema!". Santa tautologia.

sexta-feira, 31 de outubro de 2014

Walsh #17 - O fumo diz, o fumo cala/O Deserto Vermelho (Sopa de Planos)



Decorreram ontem as primeiras Conversas À Pala no Porto, no Teatro do Campo Alegre. Foi um momento de debate e convívio em torno do cinema de Satyajit Ray e das linhas de força, cinematográficas e não só, que ele convoca: a Índia, o exotismo, o "realismo" (e o neorealismo italiano, por inerência), o melodrama, a "universalidade" e a "particularidade", etc..

Muito em breve, o video da Conversa estará disponível on-line. Até lá, aproveito para dar conta da última Sopa de Planos, na qual participei com um apontamento sobre O Deserto Vermelho, do Mestre Antonioni. Fumem tudo aqui (clicar).


Il deserto rosso  (O Deserto Vermelho, 1964) é um filme, em si mesmo, a transbordar de fumo de uma ponta à outra (e, quando não é fumo, é… nevoeiro), um pensativo cigarro de Antonioni sobre a vida moderna mas, também, sobre o próprio cinema (sobretudo a partir da cor enquanto recurso fílmico). Curiosamente, um filme fumarento em que, ao contrário de tantos outros de Antonioni, o fumo provém não tanto dos cigarros como dessas fábricas que, parafraseando Antonioni, também podem ser belas. O fumo do progresso, com certeza, mas também o fumo etéreo que dissolve/no qual se dissolve Monica Vitti, que a aliena da realidade – não por acaso a ouvimos a dizer, não sem o seu quê de mórbido, que “C’è qualcosa di terribile nella realtà, e io non so cosa sia” (tradução livre: “Há qualquer coisa de terrível na realidade, mas eu não sei o que é”). Naquele que foi o primeiro filme a cores (e se muitas delas foram pintadas artificialmente, quem pode dizer, com segurança, que o que vemos no ecrã não são já as cores induzidas pela distorção mental de Vitti?) do Mestre italiano, o fumo ora contrasta (como uma reminiscência do preto e branco) ora se harmoniza (como neste plano) com as cores e respectivas temperaturas da Ravenna industrial por que Vitti, como em todos os filmes da “Trilogia do Silêncio”, deambula insatisfeita, entediada, neurótica. Para um realizador que fez da relação entre a paisagem e a psicologia dos personagens uma das traves-mestras da sua arte, o fumo é o primeiríssimo indício do tal mundo novo (o do progresso, da indústria, da tecnologia), da tal nova natureza ou nova harmonia (como escreveu Manuel S. Fonseca n’As Folhas da Cinemateca Portuguesa) que Vitti (Antonioni?) encara, nisso vendo alguns uma mera necessidade de adaptação (caso do crítico que citámos), outros uma autêntica opressão visualmente representada através do “esmagamento” dos personagens pelos colossais edifícios e máquinas fabris, bandeiras, por sua vez, de todo um regime de produção metódico, frio e utilitarista. Troque-se “produção” por “existência” e eis aquilo para que Antonioni chama (somos tentados a escrever “chamou”…) a nossa atenção.


quarta-feira, 29 de outubro de 2014

Ida, no Passos Manuel

A Milímetro exibe, hoje, Ida (2013, Pawel Pawlikowski), aquele que foi, para mim, um dos filmes do ano. Não percam. Às 22h, no Passos Manuel.