sexta-feira, 20 de março de 2015

"Quando as pessoas dizem que não se importam com o que os outros possam dizer delas, estão quase sempre a enganar-se a si próprias. Geralmente isso apenas quer dizer que fazem o que lhes apetece, confiantes de que ninguém virá a saber das suas excentricidades; ou, quando muito, que só estão dispostas a agir contrariamente à opinião da maioria porque têm o apoio e a aprovação dos que lhe são mais próximos. Não é difícil ser-se original aos olhos do mundo, quando essa originalidade não passa da convencionalidade do grupo a que pertencemos. Isso gera um empolamento desmedido da auto-estima, a auto-satisfação da coragem sem os inconvenientes do perigo. Mas o desejo de aprovação é talvez o instinto mais profundamente enraizado no homem civilizado. Ninguém procura com mais afã a capa da respeitabilidade do que a mulher não convencional que se expôs às pedras e flechadas do decoro ultrajado. Não acredito nos que dizem que não ligam nenhuma à opinião dos seus semelhantes. Não passa de bravata ditada pela ignorância".

Somerset Maugham, A lua e cinco tostões.

segunda-feira, 16 de março de 2015

domingo, 15 de março de 2015




"The Way Life Used To Be", álbum Doggumentary (2011). Snoop Dogg.

estrangulamento


(Leviafan, 2014, Andrey Zvyagintsev)

Quando vão à caçada - a lembrar a do Cimino, claro -, tudo está em tensão: há vodka (muita), armas (muitas), testosterona (muita) e dois amantes clandestinos. A frase do miúdo é um achado: "Mãe, ele está a estrangulá-la", tradução confusa e ingénua para o acto sexual que nunca vemos. Isto vinha a propósito de um outro diálogo - se a memória não me atraiçoa - com o qual a referida frase batia na perfeição, conjugação a partir da qual - lembro-me na altura do meu entusiasmo - se podia fazer uma síntese (oh, as sínteses) muito interessante do filme. Mas dá-se o infeliz caso de não me recordar. 

(All That Heaven Allows, 1955, Douglas Sirk)

quinta-feira, 12 de março de 2015

Qualidade

"Repare, Sotôr, eu sou um apaixonado pelo tema da Gestão da Qualidade!", disse ele.

Gestão. Da. Qualidade. Apaixonado.

Martha



A Milímetro exibe hoje, no Passos Manuel, pelas 22h, Martha (1973). É um dos meus filmes (na origem, um telefilme) preferidos do Fassbinder e sobre o qual escrevi no À pala de Walsh (clicar para ler).
 
Martha (1973), melodrama de sabor sirkiano realizado para televisão – tivéssemos nós, em 2013, telefilmes como estes em vez de fórmulas telenovelescas adaptadas para 90 minutos… –, é um desses filmes onde o “rasto de contaminação” do nazismo aparece à superfície, por força, como habitualmente na obra de Fassbinder, do poder da metáfora. Helmut Salomon (Karlheinz Böhm) é mesmo, podemos dizê-lo, a “metáfora andante” que Fassbinder construiu, com perturbante sagacidade dramática, para representar o ideário pós-nazi e a sua “normalização” (a possível) numa sociedade democrática e tolerante. Helmut, enquanto figura metonímica desse processo normalizador, interessa-nos, pois, a partir da sua psicologia individual, isto é, da forma como se relaciona com os outros (para o caso, com a sua mulher), e na medida em que encarna os tiques que imediatamente associamos, de uma forma ou de outra, ao legado de horror nazi.
 
(Excerto)

domingo, 8 de março de 2015



(Le Samouraï, 1967, Jean-Pierre Melville]

sexta-feira, 6 de março de 2015

trapped



(All That Heaven Allows, 1955, Douglas Sirk)


(Safe, 1995, Todd Haynes)

O "clique" fez-se-me ainda antes de saber da inspiração que Haynes foi colher a Sirk para fazer o Far from Heaven (2002). Há coisas assim. Já estão lá (i.e., em nós) antes de o sabermos.



"Why Aren't You Mine?", álbum Cognitive Dissonance: Part II (2015). Raz Simone.

quinta-feira, 5 de março de 2015

all my love




"All My Love Belongs To You", álbum Eddie My Love (1957). The Teen 

As Teen Queens foram das coisas mais belas que a música já teve. Vem-me uma lágrima aos olhos quando as oiço e nem é (apenas) por aquela emoção mais lamecha que toca a todos; é pela graça, quase divina, que lhes reconheço na voz, por uma pureza inalcançável, por transportarem, a quem as ouve, no tempo, nos sabores e dissabores disto tudo, enfim, nesta vida que para aqui levamos. Ouvimo-las e, ficando a sós com as suas vozes, tudo parece ficar em perspectiva. Isto agora não interessa a ninguém (sobretudo à hora em que o escrevo), mas fica o registo. Se amanhã fizesse um filme, espetava-lhe o repertório todo delas (só ficava bem no filme do P. T. Anderson, a propósito). All my love belongs to you, Betty and Rosie.

terça-feira, 3 de março de 2015

please write me one line




"Eddie My Love", álbum Eddie My Love (1957). Teen Queens.

this girl I met

Sempre gostei da forma como, sobretudo, os americanos, quando se querem referir a alguém em concreto, utilizam o this antes. Por exemplo: "You know, this girl I met (...)". E, com uma palavrinha tão curta assim, como que se puxa essa pessoa para nós, atribui-se-lhe uma proximidade afectiva (que até pode, na verdade, nem existir), sumariza-se, sem explicitar, as suas idiossincrasias. Insinua-se toda uma história que está para trás mas mantém-se reserva sobre a mesma. Alude-se a um enredo que o interlocutor não conhece e que, muito provavelmente, não virá a conhecer. No fundo, uma elipse para continuar a falar a seguir.

segunda-feira, 2 de março de 2015



(Roma, Cidade Aberta, 1945, Roberto Rossellini)

domingo, 22 de fevereiro de 2015

dois tipos de mulheres

Parece-me uma síntese bem burilada. There are only two kinds of woman: the one you love, the one you wish for.

sábado, 21 de fevereiro de 2015

Conversas à Pala no Porto, 26 Fevereiro: Cineclubismo(s)

Cartaz: Sara Campino


Depois de Satyajit Ray e do Porto Post Doc, a terceira Conversa à Pala terá como tema o(s) Cineclubismo(s) e suas expressões, para o que contaremos com a presença de José António Cunha (Cineclube do Porto), Vítor Ribeiro (Cineclube de Joane - Famalicão) e Carlos Mesquita (Cineclube de Guimarães).

A entrada, como não podia deixar de ser, é à pala. Até lá.

Walsh #24 Crítica "The Stranger" (Noutras Salas)



O Cineclube Ao Norte, de Viana do Castelo, exibiu ontem The Stranger (1946), um excelente noir mas um dos filmes menos vistos e comentados de Orson Welles, sobre o qual foi publicada a minha crítica no À pala de Walsh. Para ler aqui (clicar).

"(...) quem é, afinal, o stranger do filme? Por aqui tropeçamos no primeiro – e já tristemente tradicional – equívoco: incrivelmente, a tradução portuguesa do título é “O Estrangeiro”, o que, embora não sendo um atentado à literalidade da língua inglesa (stranger tanto serve “estranho” como “estrangeiro”), fere a deliciosa polissemia do termo no original. Melhor, então, “O Estranho” – que tanto pode ser Franz Kindler (o próprio Welles, em mais um papel demoníaco), por ser (também) um estrangeiro na América mas, essencialmente, por não ser quem todos julgam que é (o Charles Rankin por que se faz passar); como pode ser o nazi Konrad Meinike, cuja libertação e chegada a um vilarejo (Harper) do interior da América despoleta toda a acção do filme; mas pode, ainda, ser Wilson [Edward G. Robinson, num papel aparentado ao do detective de Double Indemnity (1944, Pagos a Dobrar)], o membro da Allied War Crimes Commission que, uma vez em Harper, coloca a cidade em polvorosa (embora com bons propósitos)".

(Excerto)