(Alice Doesn't Live Here Anymore, Martin Scorsese, 1974)
Por falar n'A Odisseia: também Alice tenta infrutiferamente, ao longo de todo o filme, “Go home again”. Mesmo se a sua “Casa”, Monterrey, na Califórnia, é a maior das memórias fabricadas – por isso é que, no único momento em que a vislumbramos (no início do filme), ela (casa) é dada por Scorsese da forma mais artificial (obviamente em estúdio), composta, “cenarizada”, possível. Mas, mais curioso ainda, é que nem sequer corresponde a uma versão idílica do lar ou da infância, nos seus tons vermelho-alaranjados remetendo para um inferno crepuscular. Como num sonho - ou pesadelo.
Como Ulisses, encontrará criaturas (Harvey Keitel, o prestidigitador, é a sua Circe) e obstáculos vários no caminho; como Ulisses, também Alice se move de este (Novo México) para oeste (Califórnia). Nunca saberemos se completará tal trajecto; a última cena, Alice e o miúdo peripatéticos pela rua afora, indicia a sua vontade em afinal permanecer em Tucson, mas nas costas de ambos um gigante painel publicitário com a inscrição “MONTERREY” mantém tudo em aberto.
Apesar de todo este recorte geográfico, o “Here” do título do filme é de uma ordem outra: pessoal, identitária, existencial. Scorsese consegue a proeza de, entre o antes e o pós falecimento do marido (forma de matar simbolicamente um certo tipo, e uma certa era, de homem americano, que, aliás, sucumbe num acidente rodoviário rodeado de garrafas de coca-cola; Godard teria gostado disto), e sem beliscar a verosimilhança, fazer transitar Alice da mulher da América e do cinema clássico dos anos 50 para a mulher moderna e emancipada dos anos 60 em diante (pós-Antonioni, pós-Cassavetes). “Proeza” na medida em que, quando a observamos nas primeiras cenas como a infeliz fada do lar (a casa da família é uma autêntica natureza morta, carregada de réplicas ou aparências de: plantas falsas, quadros baratos com imagens do mar, etc.), jamais concebemos que a sua personagem possa vir a transformar-se, sem forçar a nota, nesta outra “Alice” – ou será que já nem o seu próprio nome, pelo qual foi chamada toda a vida, tem agora razão de existir?...
Alice já não mais habita o seu corpo, psique, mundividência – talvez já nem se trate, então, de “Alice”. Como a viagem de carro, ela é um ser-on-the-road. E, ainda assim, a constatação mais triste, desesperada, do mundo: “Não conseguimos, é impossível, não conseguimos viver sem um homem…”.
Sem comentários:
Enviar um comentário