quinta-feira, 19 de novembro de 2015

 
 
(Mia madre, 2015, Nanni Moretti)

quarta-feira, 18 de novembro de 2015



(Bando de Raparigas, 2014, Céline Sciamma)

circa 1143




"Circa 1143" (não editado, 2015). Baked Donuts.

segunda-feira, 16 de novembro de 2015

Valls está rodeado de seguranças e polícias, um círculo de segurança que o acompanha enquanto se acerca do local dos acontecimentos. Um homem desgraçado, aos gritos, anda em parafuso nas suas imediações, tentando dizer algo não se percebe a quem, tentando dirigir-se não se sabe aonde. Consegue chegar mais perto. É a Valls que se dirige. Está a coisa de um metro do círculo de segurança. Ouve-se uma palavra. "Filha". Agora, mais nitidamente, percebem-se outras duas. "A minha filha". Um estremecimento percorre aquele micro-espaço separado do mundo onde apenas existem Valles, os seguranças e o homem. E uma câmara da televisão que filma tudo isto. S'il vous plaît, diz Valls, rapidamente, aos seguranças, intimando-os a abrir espaço para que o desvairado homem se aproxime. Valls olha-o com ar agastado, irritado, mal disposto, genuinamente lixado. Mas não é com o homem. A minha filha desapareceu no Bataclan e ninguém me diz se ela está na lista dos mortos, isto não é normal neste país. Valls tenta falar com o homem no calor do momento, embora ambos saibam que nenhum esclarecimento realmente útil resultará daquela conversa. Provam da impotência que a rapariga e os restantes sentiram perante os homens que, horas antes, haviam dizimado tudo quanto mexia.

sexta-feira, 13 de novembro de 2015

and after that, we didn't talk



Álbum And After That, We Didn't Talk (2015). GoldLink.
Costuma-se dizer que deitar abaixo um edifício (literal e não literalmente falando) é sempre mais fácil do que o construir. Com Paulo Cunha e Silva, o trabalho de recuperar e erguer a cultura no Porto pareceu, pela primeira vez, negar essa ideia feita. A cidade e o país ficam-lhe com uma dívida gigante, cuja única forma de saldar é cumprir com todo o seu programa para a cidade e aproveitá-lo como modelo a replicar noutros contextos.

quinta-feira, 12 de novembro de 2015

O João Pedro da Costa tem vindo a assinar uma excelente historiografia da presença e importância do videoclip no mundo do hip-hop (e vice-versa), que hoje conheceu o seu oitavo e último capítulo. As escolhas são, obviamente, discutíveis, sê-lo-iam sempre, mas isso é um dos próprios aspectos interessantes deste trabalho. Ainda assim, aquele que é um dos meus videoclips preferidos de sempre (este), realizado pelo Spike Jonze, não podia deixar de lá estar - e está.
 
Para ler, ver e ouvir no Rimas e Batidas (clicar).

quinta-feira, 5 de novembro de 2015

Regresso ao Futuro



Há muitos apontamentos políticos – não chegaria a dizer um “subtexto” político – em Regresso ao Futuro (de que o mais flagrante será a genérica "inimização" da Líbia, enquanto abstracta entidade representativa do Mal - na altura, a Líbia, depois o Iraque, o Afeganistão, o Iraque novamente...), mas talvez os mais interessantes, como tantas vezes acontece, sejam os involuntários, como que deslizes ou um "tropeçar no próprio pé" de que não se deu conta e que revela mais do que aquilo que se quis.

1. No filme, Michael J. Fox, pelo meio de várias desventuras, tem a oportunidade – genericamente desaconselhada pelo cientista interpretado por Christopher Lloyd – de "alterar" o passado para, reflexamente, alterar igualmente o futuro, ou seja, o seu presente. J. Fox fá-lo-á, num primeiro momento, para evitar a morte, no "futuro"/presente, de Lloyd, mas, num segundo, ver-se-á forçado a mexer na h/História de forma a evitar que a sua mãe se apaixone por ele próprio, garantindo, assim, que se apaixone antes pelo seu pai, para que tudo siga o normal "rumo dos acontecimentos". O pai de J. Fox é um adolescente introvertido, "nerd" e débil, gozado e escravizado pelo bully de toda uma vida chamado Biff. O Biff do passado, que o obrigava a fazer por ele os trabalhos de casa, é o Biff que, no presente, é o seu superior hierárquico na empresa, dele usando e abusando, e também com quem, muito provavelmente, a sua mulher (mãe de J. Fox) o trai (há, aqui, um certo trauma da mãe “roubada”).

Através de um conjunto de peripécias, na decisiva noite do baile, o seu pai, em vez de se acobardar no momento em que descobre Biff a forçar Linda (a sua futura mulher) a uma coisa que ela não quer (mas que, ironicamente, muito provavelmente não iria recusar com o seu… filho), inesperadamente rebela-se e aplica um competente murro em Biff, para sempre lhe perdendo o medo. Zás, emancipação definitiva, David derrotando Golias.

Com esta freudiana missão cumprida, J. Fox volta ao futuro para o filme poder terminar em beleza. Percebemos, então, como aquela imprevista reviravolta surtiu não menos imprevistos efeitos: tanto a sua mãe como o seu pai estão, ao contrário do que víramos no início do filme (feios, deprimidos, entediados com o casamento, ela gorda e desgrenhada, ele o mesmo "nerd" da juventude), ricos, apaixonados, cool e muito good looking. O pai, agora um escritor renomado, mostra-se particularmente confiante e charmoso. É neste ambiente de autêntico american dream que os pais dizem a J. Fox que poderá ir passar o fim-de-semana com a namorada no seu novo carro (estranhíssimo o facto de agora o dizerem e mesmo incitarem com um enorme à-vontade, por comparação com o início do filme, em que passar a noite fora era, para aqueles mesmos pais, um tabu – o sucesso e a beleza fazem as pessoas mais... liberais?!). O carro, explica o pai, está só a receber as últimas afinações. E de quem? Nem mais nem menos do que Biff, o Biff outrora bully e explorador que é, agora, o desgraçado, saloio e humilde mecânico do pai de J. Fox, o qual zomba, com arrogância e soberba, do idiota que lhe "arranja o carro para o filho" [o pai chega mesmo a comentar com o filho qualquer coisa como "such a character ("personagem") this Biff is..."].

Sim, houve uma alteração no passado com a sublevação do pai frente a Biff - mas por que razão, no futuro, Biff não poderia ter simplesmente desaparecido da vida dos McFly e do próprio filme? Ou ser um tipo qualquer, que "nem aquece nem arrefece" aquela família (ou até, para sermos ingénuos... um amigo da família)? Porque, de facto, é muito americana - e não se veja aqui demonização alguma - essa tendência para medir as interacções humanas por um rígido tipo de padrão, a saber, a relação de forças que se estabelece entre dominadores e dominados, controladores e controlados, entre "gozões" e "gozados", winners e losers. Tudo numa perspectiva vertical, de “altos e baixos”, fortes e fracos, perspectiva "posicional" de resto alimentada, à exaustão, pelo próprio cinema comercial americano – é assim na escola (Harvards e Princetons para uns, tudo-o-resto para outros), na juventude (capitães da equipa de futebol americano e “nerds” informáticos ou intelectuais), na economia e no “empreendorismo” (os Zuckerbergs da Forbes e os "nobodies", os "zés-ninguém"), no “nós” (americanos) e os “outros” (os estrangeiros).

2. E por isso é que – agora talvez não tão inconscientemente assim – Biff estará novamente no olho do furacão em Regresso ao Futuro 2, agora como um velhinho azedo e desgraçado (por ter passado a vida como o bronco que arranja carros à família de J. Fox, precisamente) que, tal como J. Fox no primeiro volume, irá aproveitar a oportunidade de alterar o passado para influir no futuro e fazer-se um homem rico e poderoso, deste modo voltando a inverter, uma vez mais, a relação de forças e a impor a sua lei – a do mais forte, claro, sempre. Assim, o Biff do "futuro" "roubará", novamente, a mãe a J. Fox e, pior, "adoptá-lo-á" - consumação definitiva da referida inversão e da "morte" do pai (também literalmente, já que é  assassinado a tiro, presumivelmente por Biff).
 
3. Num outro plano, não deixa de ser curioso que, na distopia que é a Hill Valey controlada por esse Biff do futuro, cidade escura de crime e corrupção, J. Fox encontre, na casa que outrora fora a sua, na zona que outrora fora a sua (então idílica mas agora degradada), uma família… negra. Como se, no caos e na anarquia generalizada, os negros ocupassem os lugares dos brancos, é dizer, como se uma distopia negra substituísse (e "estragasse") uma utopia… branca. Reaccionário será dizer pouco.

quarta-feira, 4 de novembro de 2015

my girl, talkin' 'bout my girl (2)

À medida que crescemos e nos vamos tornando cépticos (por vezes cínicos, o que é pior) em relação ao amor, mais nos impressionamos, enternecemos, com as grandes provas ou declarações de amor absoluto. Talvez porque reconheçamos nelas isso mesmo - a prova de que.

my girl, talkin' 'bout my girl


(Thomas Wemyss Fulton, The Sovereignty of the Sea (...), William Blackwood and Sons, Edinburgh and London, 1911)

sexta-feira, 30 de outubro de 2015

Walsh #35 Crítica - "Now, Voyager"

 
 
Este mês, escrevo para o À pala de Walsh uma crítica sobre "Now, Voyager" (1942), filme dito "de mulheres" (weepies, como ficou conhecido o género nos anos 30 e 40) de Irving Rapper, e que, entre outras coisas interessantes (como a insuperável Bette Davis), desafia a lógica convencional de Hollywood do happy ending. O filme passa hoje no Cineclube de Caminha.
 
Para ler aqui (clicar).

carrossel das mentiras




"Carrossel Das Mentiras" (com Ana Alvarez e Vítor Pinto), álbum Árvores, Pássaros e Almofadas (2014). Minus.

quinta-feira, 29 de outubro de 2015

Artes Entre As Letras #4

O segundo número de Outubro do Artes Entre As Letras saiu hoje para as bancas. Na página 17, escrevo sobre os volumes 2 e 3 de As Mil e Uma Noites e o filme de Manuel Mozos sobre João Bénard da Costa. (para ler, clicar na imagem, guardar e ampliar)





quarta-feira, 28 de outubro de 2015

Walsh #34 Ó tu que fumas/A Single Man (Sopa de Planos)


 
A nova sopa de planos é sobre cigarros e o meu contributo a partir da estreia auspiciosa do Tom Ford em 2009; no meu texto (clicar), cito este post (clicar), que, de tão bonito, é impossível não gostar. Boas leituras.
 
Para alguém que contabiliza religiosamente, obsessivamente, os dias que faltam até morrer (no caso, até se matar), a frase “FUMAR MATA” não passa de uma boutade. Fumar matará, sim, mas, no caso de George, é o passado, o que foi e inelutavelmente não volta mais, que o mata todos os dias um pouco mais – até à (auto-)destruição final. Aliás, é a morte do antigo companheiro que o “mata” todos os dias um pouco mais – sim, redundâncias à parte, a morte também… mata. Num dos mais discutidos filmes de 2009 entre os que gostaram e os que odiaram (quanto a nós, encontramo-nos no primeiro grupo), esta cena foi também uma das mais badaladas, concentrando em si o traço estilizado de todo o filme, sem nunca cair, porém, num vazio de ideias ou num decorativismo bacoco. Se o cigarro já foi bengala de muito flirt célebre do cinema (e da vida…) – essa talvez a principal razão, aliás, para toda a iconografia em volta do acto de fumar (muito mais que a dos cowboys da Marlboro!) –, a particularidade, aqui, é a de que se trata de um flirt homossexual, o que, na verdade, se mostra pouco menos que irrelevante, na medida em que, hetero ou gay, o que se retém desta cena é um encontro profundamente sensível (mais do que sensual) entre duas pessoas, filmado por Tom Ford com uma enorme justeza. Sobre o tom rosáceo do céu, provocado pelo fumo da cidade, Carlos dirá que “As veces las cosas más horrorosas tien su punto de encanto”. Não o sabe, mas essa frase não podia ser mais apropriada para o seu interlocutor: mesmo na mais profunda depressão, mesmo neste “serious day” (como George lhe chama), dá-se, inadvertidamente, um encontro como aquele. Depois do cigarro do flirt, fumam um segundo, cigarro pós-tensão, cigarro pós-coito, enquanto conversam sobre meia dúzia de coisas que, na sua simplicidade, condensam as aventuras e desventuras da vida. O que aqui brilhantemente se escreveu a propósito de Tournée (Em Digressão, 2010) vale, na plenitude, para o nosso plano: “Relação fugaz, absoluta, dois ou três minutos a valerem por uma vida inteira lado a lado. Não dizem um ao outro nada de jeito… (…) Passou-se tudo o que interessa, inclusive um grande-plano que dura e dura e dura, dela, alguém que não mais irá aparecer na história, para aparecer com certeza muitas vezes na cabeça e sonhos dele. O sublime à primeira vista invisível porque presente no singelo, no dia-a-dia, entre a padaria e o jardim de família, a revelar-se nas frequências muito baixas ou nos tempos mortos.

segunda-feira, 26 de outubro de 2015

Há tempos, na ressaca de uns petardos de adeptos benfiquistas que fizeram feridos no Vicente Calderón, e quando questionado sobre a possibilidade de tal se voltar a repetir e implicar sanções para o clube, Rui Vitória foi categórico, utilizando uma frase invulgar no contexto das sempre paupérrimas "conferências de imprensa" futebolísticas: "Quem ama tanto algo ou alguém não lhe quer mal". Mas todos sabemos que não é verdade - e não é só no futebol.

sexta-feira, 23 de outubro de 2015

Desculpe, a senhora importa-se de voltar a passar por mim? Ou pode ficar no mesmo lugar e passo eu por si uma segunda vez? O seu perfume lembra-me alguma coisa ou alguém e gostava de o precisar com mais nitidez.

quinta-feira, 22 de outubro de 2015

like father, like son




O The Game nunca foi um dos meus rappers preferidos (longe disso), nem mesmo quando assinou o The Documentary (estreia, 2005), mas isso não me impediu de ir acompanhando o seu percurso, reconhecendo-lhe talento aqui e ali. Uma das mais bonitas faixas dessa estreia era "Like Father, Like Son", que o Game dedicava ao filho acabado de nascer (e onde o Busta Rhymes fazia um refrão que deixou muita gente a pensar em como se tinha perdido um grande cantor de jazz). Agora, 10 anos depois, em Documentary 2 (díptico lançado há dias), "Like Father, Like Son 2" (novamente com o vozeirão do Busta) surge novamente, mas os destinatários, entretanto, já são dois filhotes. Em ambas as músicas, separadas por dez anos, o mesmo pavor, o mesmo desejo: que os miúdos se portem bem, que sejam tipos decentes, enfim, que não conheçam as mesmas ruas e as mesmas actividades que o pai conheceu para se safar em Compton (e de lá sair). A mesma consciência de que eles são a única coisa que lhe permite ter algum juízo e não se meter em mais chatices (cinco chumbos que aquele cabedal na foto já albergou). De que há rumos decisivos na vida e que ele, que aprendeu com o próprio pai os primeiros truques na arte do traficanço, pode ter uma palavra importante nos dos seus pequerruchos.  E foi isto, belo e simples como todas as coisas que realmente importam, que me arrancou um estremecimento a caminho de casa enquanto reparava no Outono anunciado pelas folhas caídas no passeio.

I hope you grow up to become that everything you can be
That's all I wanted for you young'n, like father, like son
But in the end I hope you'll only turn out better than me
I hope you know I love you young'n, like father, like son

My little man your day is coming

Coming, your day is coming

I tell ya, and when it comes just keep it running
Running, just keep it running, I tell you



sexta-feira, 16 de outubro de 2015

show you a hero



(Catherine Keener interpretando Mary Dorman, em Show Me a Hero, Paul Haggis, 2015)