Segunda-feira, 13 de Fevereiro de 2012

- E depois disso? - perguntou.
Franziu a testa, semicerrou os olhos com ar agastado e, resignado com o terramoto interior provocado por aquilo que proferiria de seguida, respondeu:
- Depois, nada. Nada de nada. Zero, vazio. Incolor.

encontraram a Bonita Applebum







"Bonita Applebum", People's Instinctive Travels and the Paths of Rhythm (1990), A Tribe Called Quest. Vejam bem aquela singela felicidade nos 2:02-2:06.

Terça-feira, 7 de Fevereiro de 2012

j e s u s



"Jesus", EP j e s u s (2011), Blu.


I didn’t even know was real
I didn’t even know was real
But it was
Love is love, up is up, hell is hell, up and up,
Love is love, love is love...

Domingo, 5 de Fevereiro de 2012

openess


Robert Khoeler, "Great Wide Open", Sight & Sound, August 2011, pp. 44-46:


"What makes L'avventura the greatest of all films, however, is its assertion, exploration and expansion of the concept of the «open film». (...) His early documentaries as The People of the Po (...), and his earliest narrative films, such as the astonishing Story of a Love Affair (...), suggest an artist pulling against what he perceived as the constraints of neorealism towards an openess based on a heightened perception of constant change - a dynamic that was for him the fundamental quality of the post-war world.

(...)

In L'avventura, more than any film before it had ever dared, the centre will not hold. The open film is a fluid thing, pulsating, forever changing, shifting from one centre to another, not quite beginning and not quite ending (or at least beginning something new in its «ending»). Anna, the centre, vanishes, with no visual or verbal clues to trace her by, except rumours of sightings. She was in effect the glue that held the party together, having helped bring Claudia in closer to her circle of friends - and to Sandro. But with Anna's disappearance, the film alters shape in front of us; a sudden absence actually expands the film's eye. Individual shots become more extended and prolonged, the sky and land grow larger, the elements become more tangible (clouds, rain, harsher sun).
What's even more disturbing is that nothing happens - no discovery, no evidence, no detective work, finally, no memory. L'avventura is, in part, the story of how a woman is forgotten. (...)

(...)

But L'avventura marks a new kind of film, not made before, in which the story that launched the film dissolves and gives way to something else - a journey? a wandering? - that points to a host of possible readings beyond what mere narrative allows (...)".

Sábado, 4 de Fevereiro de 2012

chiedo asilo



O Refúgio das Crianças (1979), Marco Ferreri.

É, provavelmente, o mais belo, poético, apoteótico (fiquemo-nos por aqui, senão dá ares de elogio barato) final (1:09-) da história do Cinema.

Sexta-feira, 3 de Fevereiro de 2012

brincar aos avessos

Já que, nos dias que correm, se confere tanta importância e nobreza às aparências, será avisado lembrar que à mulher de César não basta parecer séria, convém também que o seja, já agora.

Quarta-feira, 1 de Fevereiro de 2012

res privata, res publica

Um aspecto curioso dos nossos impolutos concidadãos é o facto de serem incapazes de atirar lixo para os passadiços dos centros comerciais. É que nem coragem há para fazer escorregar o plásticozito da chiclete, ainda que astuciosamente, para o chão dessses nossos santuários modernos. Tudo estaria bem e eu não chatearia ninguém com isto se o gesto de abrir a janelinha do carro e escoar os mais sortidos detritos pela via pública não se tivesse tornado, entretanto, em elemento da paisagem urbana.
Por que raio chegámos a este tipo de absurdos, em que nos preocupamos mais com o espaço que não é de todos, que não nos mobiliza enquanto comunidade, e, ao invés, desprezamos aquilo que é património comum, aquilo que devia ser da responsabilidade colectiva, enfim, a res publica?

Terça-feira, 31 de Janeiro de 2012

espécimes

A senhora, nos seus cinquenta anos, muito penteada e de porte elegante, estabelece a causalidade mágica e, aproximando os olhos e o nariz aguçado do jovem, com aquele jeito de quem tira, com brutalidade e despacho, uma conclusão científica, pergunta:
então, o senhor é cinéfilo, não é assim?
O rapaz pisca os olhos engolindo em seco, afunda-se na cadeira, os chumaços do casaco como dois fantasmas erguendo-se contra si, mas, num repente, num assomo quase infantil, revolta-se e atira:
a senhora é herbívora?

Segunda-feira, 30 de Janeiro de 2012

O Serviço

Ainda a propósito deste artigo que escrevi para a RDB, aqui fica um excelente exemplar de um storytelling: numa atmosfera cinematográfica (a música começa logo com um sample de um diálogo retirado de um filme que não consigo neste momento identificar) tributária de uma Gotham City, suja, corrupta e opressiva, "O Serviço" (que traz à memória, inevitavelmente, a música homóloga dos Da Weasel, do longínquo 3º Capítulo, 1997), de Nerve, é a história de dois marginais que, capturados pela polícia, são incumbidos de realizar um serviço em troca da sua liberdade.
They're crazy... they shoot and run... they're like dogs!





"O Serviço" (com Blasph), Eu Não Das Palavras Troco Ordem (2008), Nerve.

Domingo, 29 de Janeiro de 2012

el pequeño buda



Emociono-me, de súbito, com a faixa, tão singela, tão monumental, que os adeptos do Espanyol de Barcelona dedicaram a De La Peña quando este abandonou os relvados:

"DIREMOS QUE TE VIMOS JUGAR"

Sábado, 28 de Janeiro de 2012

o vazio

Na vidraça de uma agência bancária, leio o seguinte slogan: "Valorize o seu tempo, fazendo render o seu dinheiro".
Após uns breves segundos de meditação, tiro a prova dos 9:

Valorize o seu dinheiro, fazendo render o seu tempo.
Faça render o seu tempo, valorizando o seu dinheiro.
Faça render o seu dinheiro, valorizando o seu tempo.


Apetece responder assim:



"Come parla?! Le parole sone importanti!!"

Sexta-feira, 27 de Janeiro de 2012

recontinuar



A Semente do Homem (1969), Marco Ferreri.

intimidade

A dificuldade destas coisas é o grau de intimidade que, sem se dar por ela, criamos. É um problema dos nossos tempos: acelerados, imediatos, intensos, em que o oculto dos corpos e da alma se desvenda num ápice, ao mesmo tempo que se prescinde dos ancestrais códigos da descoberta mútua, vagarosa e paciente. Depois, a evidência abate-se sobre os homens sem dó nem piedade: quanto maior a intimidade, maior a dor no momento do desenlace.

Terça-feira, 24 de Janeiro de 2012

out in the street they call it murder

Hoje fiz a minha primeira conversão no Lince (mortífera ironia, esta que associa um animal cuja espécie - a ibérica - está em vias de extinção no nosso país a uma língua - a portuguesa - extinta por decreto).

Domingo, 22 de Janeiro de 2012

dúvidas


Palombella Rossa (1989), Nanni Moretti.


Quantas vezes me sinto assim: indeciso em alinhar com o Fiori di Gelati, compreender o Delizia ou reconhecer razão ao Cannavo.

Quinta-feira, 19 de Janeiro de 2012

storytelling

Escrevi um artigo, para a Rua de Baixo, em que me debruço sobre o significado do storytelling - que, como registo literário musicado, digamos assim, é transversal a todos os géneros musicais desde tempos imemoriais - no hip-hop e, mais particularmente, na música do português Sam the Kid (um dos meus heróis de ontem e hoje). O artigo pode ser lido neste espaço.

Terça-feira, 17 de Janeiro de 2012

o jazz, o hip-hop

Publiquei, no P3, um artigo sobre a forma distinta como, hoje, o jazz e o hip-hop - tão similares na origem, do ponto de vista histórico-social - são sentidos e (mais ou menos) consumidos. A imagem que encabeça o artigo não foi por mim seleccionada, mas pelos responsáveis do P3, que, ao acaso ou não, não podiam ter feito melhor escolha: a dupla Pete Philly & Perquisite (os jovens da fotografia) formaram uma das duplas, entretanto desfeita, mais brilhantes e prolíficas no que à mistura de jazz (e soul, funk, etc.) e hip-hop diz respeito. Se tiverem interesse nestas coisas, podem ler o artigo ali ao lado.





(é, note-se bem, a segunda vez que aqui deixo esta música, cujo único defeito é o de ser de uma melancolia perniciosa para os sentidos)

Domingo, 15 de Janeiro de 2012

o descontrolo



La Peau Douce (1964), François Truffaut.


Talvez que nunca o ímpeto sexual, o desejo libidinoso descontrolado, tenham ficado tão evidentes no cinema como em La Peau Douce (1964, François Truffaut), mais concretamente, na cena em que Pierre (Jean Desailly) leva Nicole (Françoise Dorléac), a sua amante, a jantar a um restaurante onde, como ela lhe pediu, também se dance.

Terminado o jantar, Nicole está com o diabo no corpo e quer dançar. Pede que Pierre a acompanhe, mas este confessa-lhe que nunca soube dar um passo de dança. É um retrato duro, ainda que típico, da figura do intelectual (Pierre publica livros e gere uma revista literária): o tipo cerebral, imerso no mundo da razão e da lógica, incapaz, por isso, de estimular os sentidos através de uma coisa tão radical (ou simples, conforme as perspectivas) como abanar o corpo ao som da música. O tolhimento de Pierre é confrangedor, e ele, sabendo disso mesmo, diz uma das coisas mais estúpidas e desajeitadas que um homem pode dizer a uma mulher. Quando Nicole lamenta que, se ele não a acompanhar, ficará sozinho na mesa, Pierre afirma, com um sorriso aparvalhado, qualquer coisa como “eu fico a ver-te, dá-me prazer”. Ela ri-se despreocupadamente e, numa cena de uma sensualidade extraordinária, dança freneticamente, cheia de graça, na pista. Pierre examina-a obcecadamente, e é nesse preciso momento que se faz luz: Nicole representa, numa mulher, tudo aquilo que Pierre nunca foi – a emoção, a carnalidade, a volúpia. Pierre faz parte daqueles que pensam o mundo; Nicole, dos que o vivem e transgridem. Entre um e outro está um universo, e se compreendemos o que nela lhe agrada, o contrário já não se afigura tão evidente (a não ser a estabilidade burguesa, coisa que literalmente falta a uma hospedeira de bordo, sempre “cá e lá”).
No momento em que Truffaut filma a lindíssima Françoise Dorléac, de perfil, no meio da pista – como se esta fosse só sua – arranjando, com lascívia, o cabelo, Pierre atinge o zénite: incapaz de se controlar, de ficar, ali, “a ver”, mas incompetente, ao mesmo tempo, para se abeirar de Nicole, saca de um prospecto do bolso onde procura o número de telefone de um hotel para os dois passarem a noite. O modo como Truffaut monta toda esta cena – vaivém entre os planos de Nicole, dançando (movimento, leveza), e Pierre, sentado e impotente (rigidez, calculismo) – é de uma tensão extrema e, arrisco dizer, quase sexual. Ao vê-la dançar, Pierre está num estado de excitação intenso e, desejoso de avançar para Nicole, de a possuir, toma as medidas necessárias para o efeito, já que esse passo não pode ser dado no local em que se encontram. A forma como Pierre recorre ao prospecto, impaciente e nervoso, é demonstradora do desejo, incontido, que o atravessa e, simultaneamente, da sua incapacidade para possuir uma mulher de outra forma que não pelo acto sexual propriamente dito. É, permitam-me a falta de solidariedade masculina (isto existe ou é só entre as mulheres?), toda uma falta de charme.