segunda-feira, 22 de outubro de 2018

do amor, sexo, morte - um pequeno tratado plástico
















(Corte de Cabelo, 1995, Joaquim Sapinho)







(Corte de Cabelo, 1995, Joaquim Sapinho)


Nossa Senhora Aparecida!, que filme mais lindo, mais cheio de graça.

sexta-feira, 19 de outubro de 2018

tutto è sacro

 









(Deste Lado da Ressureição, 2011, Joaquim Sapinho)

Adiamento

Infelizmente, por razões técnicas de última hora que se prendem com o filme (e não com a organização do CLOSE-UP, a quem agradeço, na pessoa do Vítor Ribeiro, o interesse e o entusiasmo pelo filme), o meu novo filme, O DESPISTE, não poderá ser exibido hoje à noite. Novidades sobre exibição futuras deixarei aqui em breve.
 
Não percam a oportunidade, no entanto, de ver as curtas do meu colega walshiano Ricardo Vieira Lisboa à mesma hora, 23h15, no CLOSE-UP Famalicão.

quinta-feira, 18 de outubro de 2018

se me perguntas se
é a suor a que cheiras se
te abraço
a resposta (é sim) só se
primeiro descobrires a língua
despudoradamente
o tempo suficiente para ficar cá fora só,
virgem, desamparada no mundo

se te ris ela voltará
para dentro, mantém-te
séria rir só com as sardas
os olhos
abertos com(o) os meus
e ambos testemunhamos então
como todas as línguas
de amor são ridículas
momento em que as pestanas já não mais sombra fazem
a essa impronunciável órbita de frutos verdes e acastanhados

os olhos
enfim
fechados
por substâncias mais alucinantes
do que todas as outras que adormecem
os que à nossa volta dançam
as mãos, jogo das escondidas
sabotado à partida
as nossas ancas numa estranha
mutação fisionómica que as revistas da especialidade não previram
são quem tem os discos nas mãos
definem que é funaná
que ouvimos quando é vigorosa e repetitiva
a batida e de repente isto não é berlim
muito menos o porto
viemos à ilha de santiago
olha, ilha, não diria melhor
quatro arenosos pés que miro cá de cima
em redor, o oceano
só o atravessaremos quando as luzes nos forçarem
a abrir os olhos

ia haver um furacão
eles bem avisaram nas notícias.
mas tu não te precaveste devidamente
pensavas que podias sair à rua com as sardas
como se nada fosse.
por isso acabarás espantada recusando olhar
para a câmara na entrada de um prédio feio
resgatada por um humilde mas muito posto canteiro
como a dona teresa das cervejinhas frescas pela fresca da manhã
a quem tu tanta estima dispensas.

no fim da caminhada
sentámo-nos na tua caravana e disseste:

já demos umas voltas,
nós

terça-feira, 16 de outubro de 2018

Apparition



















(Deste Lado da Ressureição, 2011, Joaquim Sapinho)

Swamp Dogg no ípsilon



Senhoras e Senhores, no ípsilon da última semana, o O.G. Swamp Dogg e o seu velhíssimo-novíssimo-disco "LOVE, LOSS & AUTO-TUNE"
“'Que estranho caminho percorreste tu para chegar aqui'”, podíamos ter-lhe dito pelo meio das duas horas que durou a conversa entre Porto e Los Angeles. Nós em ameno fim de tarde, ele de manga cava branca acabado de acordar, a fresca a entrar-lhe pela varanda (por onde sairá até ao jardim num dos muitos cacofónicos momentos em que interrompe abruptamente, sem má-educação, a entrevista). Frase de particulares ressonâncias para cinéfilos ('disse-a' Bresson no final de 'Pickpocket', emulou-a César Monteiro em 'As Bodas de Deus') que, em boa verdade, o próprio Swamp Dogg, nascido Jerry Williams Jr., nos poderia ter devolvido: que estranho caminho percorri eu para, em 2018, ter o jornal de um minúsculo país do outro lado do Atlântico com uma área inferior à da Virgínia onde nasci a querer saber de mim. Um caminho que, iniciado nos anos 40 na pequena cidade de Portsmouth, se fez de muitos escolhos e revezes: 'Se um branco viesse pelo passeio na minha direcção, eu tinha de passar para a rua. Felizmente, não havia muito trânsito na cidade naquela altura!', gargalha ele, bem-disposto. 'Portsmouth é uma cidade naval e uma base da marinha militar. Quando um navio atracava, 3000 tipos desciam para se divertir. Aos negros e brancos que eram os melhores amigos durante meses na água diziam-lhes em terra: «Vocês não podem andar juntos!». Havia escolas separadas, bairros separados… Se eu passasse de bicicleta por um bairro branco, as hipóteses de me atirarem pedras eram reduzidas, mas por vezes acontecia'. As mesmas ruas onde 'à medida que eu passava por 10 casas, de pelo menos 5 delas ouvia grandes álbuns de música negra a tocar. Naquele tempo, toda a gente tinha um grande piano em casa e eu ia de casa em casa tocar. No Verão, as pessoas gritavam do alpendre: «Entra, Little Jerry, anda tocar!»'”.

Link para artigo completo: https://www.publico.pt/2018/10/12/culturaipsilon/noticia/as-sete-vidas-do-viralata-swamp-dogg-1846666

segunda-feira, 15 de outubro de 2018

até que a vida nos separe - foi o que pensei quando vi aquela fotografia, dois corpos amortalhados abraçando-se, amando-se de morte.

sexta-feira, 12 de outubro de 2018

smile



(Run On Sentences Volume Two, 2015, Larry Fisherman aka Mac Miller)

quarta-feira, 10 de outubro de 2018

O DESPISTE - 19 Outubro no Close-Up em Famalicão

 
 
O meu novo filme (curta-metragem), O DESPISTE, é exibido dia 19 de Outubro (sexta-feira), 23h15, no CLOSE-UP – Observatório de Cinema, em Famalicão, terra e gentes por quem tenho um carinho especial. O cartaz é da autoria do Eduardo Romão.
 
Fica o convite para virem ver o filme e bebermos um iogurte líquido logo a seguir, comigo e com o Ricardo Vieira Lisboa, meu colega walshiano que também apresentará, na mesma noite, as suas curtas. Até lá!
 
Programa completo do CLOSE-UP aqui: http://closeup.pt/
 
***
 
O DESPISTE (2018), um filme escrito, montado e realizado por Francisco Noronha
câmara e pós-produção de imagem: Catarina David
pós-produção de som: João Almeida
música original: Catarina Sá
grafismo e design: Eduardo Romão
voz: Nuno Sanches
uma produção A Bunch of Kids








(Play Misty for Me, 1971, Clint Eastwood)

segunda-feira, 8 de outubro de 2018

tudo a que tens direito
não é

é... educaste-as tantos
anos para isto
fecharem-te
a boca (já não bastava
teres mau ouvido) abrindo
as suas goelas muito sérias:
Mãezinha, a gorda
não!
mas tu insistes
fazes justíssima birra, a gorda
sim
gordíssima gostosíssima
a melhor parte da carne
de que a tua semana é feita

o teu homem (em quem vejo
beijo o senhor ferreira, ou o contrário já não sei
deus o tenha) quer ver o jogo, chegar a casa
ainda o sol não adormeceu
mas antes disso há o sofá torrado
de nascença e pelo sol dos anos
dispensas que eu te tire os
sapatinhos
nunca foram de cinderela só
lavoura, mãos grossas
gastas grosseiras

aninhas como o rapazito
que num dia quente ficou à tua
guarda enquanto os pais foram
a Marrocos fumar
desertos de tardias tolices
não sabendo que quando voltarem
o rapazito olhá-los-á com estranheza
apontando para o portão as calças sujas
com a areia das galinhas

quem são

enquanto me baixo
e te olho penso eternamente
crescer
é um lugar estranho (tantas vezes o escrevi
adulterando de emprestado o título
de um filme de que nem gosto especialmente)
a partida e a chegada deste caminho
portas que sucessivamente
inevitavelmente
se vão invertendo
velhos novos novos
velhos quem
cuida de quem
quando passamos a ser nós a fazer-lhes as batatas fritas
infindáveis festinhas na barriga
quando
em que momento
local, dia, hora
exactamente?

cubro-te com a mantinha que não
é azul nem improvisadamente
estrategicamente foi
dividida em duas
porque o lucas hoje nem veio, ficou a
crescer (precisamente)

beijo-te muito sem saber
piscar os olhos como fazias
antes de teres os joelhos
ancas
empedernidos
apalpo-te os veios carnudos do
rosto mas

nada dizes, os olhos
acordados não
abres.
que pensarás agora que
finges dormir como o rapazito
embaraçado
escondendo segredos
(este segredo foi a tua filha quem mo disse)

MICAR - Texto "12 Angry Men"

 
 
Decorreu na semana passada a 5ªedição da MICAR – Mostra Internacional de Cinema Anti-Racista, para cujo catálogo escrevi um texto sobre “12 Angry Men”, que foi também publicado on-line no À pala de Walsh. O título original do texto é “AS ASAS DOS JUSTOS” e o filme, esse, um tratado de todos os tempos, certamente fundamental numa época como a nossa em que todos têm sempre muita pressa em disparar acusações e denúncias nas “redes sociais”.
 
 
"Sobre a personagem de Fonda, dizíamos, apenas viremos a saber, numa rápida conversa de quarto-de-banho (literalmente), que é arquitecto. E assim voltamos, então, à referência bíblica que insinuámos nas primeiras linhas – e voltamos também, repare-se, a Bresson e à Graça. Talvez que Fonda, esse corpo alado disfarçado num alvo fato, não seja, afinal, um “arquitecto” qualquer, e esta “última reunião” de doze homens – que lembra uma outra que Leonardo Da Vinci um dia imortalizou – não seja, também ela, uma reunião qualquer (Fonda como um Judas “invertido”). Quiçá Fonda seja um qualquer “grande arquitecto” ou um enviado seu que, tal qual o anjo de James Stewart no 'It’s a Wonderful Life' de Capra, uma vez cumprida a sua missão na terra dos homens – a de “fazer o bem” (Do The Right Thing, diria Spike Lee), pois que, como se lê na placa cimeira do tribunal (de imponentíssimas colunas que um dia Mussolini recuperou para o espaço público italiano, e que Lumet apanha no travelling que abre o filme), “Administration of Justice is the Firmest Pillar of Good” –, parte, batendo as asas, daquela escadaria outrora uma via-sacra. A chuva parou. Oxalá que por cada anjo (ou justiceiro) exterminador houvesse um anjo salvador".

domingo, 7 de outubro de 2018

07-09-2018





companheiro: os discos já cá cantam. perdi a cabeça, eu que nem sou destas coisas, e agora também te trago ao peito e nas costas. não é metáfora, mas podia ser. fica tranquilo.

terça-feira, 2 de outubro de 2018

in my résumé


(LP Cuffed, Collared & Tagged, 1972)


"In my résumé
What will I say
About games I had to play
To try to get my way
In my résumé?

Shall I write about
How long my existence was in doubt?
Or do the things
I was ashamed to shout about
In my résumé?

Will I sing
‘Oh at last
My future’s become my past?’
I’ve seen the rocks of Alcatraz
In my résumé

I’m thinking as I’m writing
I’m sketching as I go
Trying to put into perspective
Things my children oughtta know
Gotta be so careful
I don’t lead minds astray
It’s how you read what’s written in the past
That makes the future style its way
In my résumé"

segunda-feira, 1 de outubro de 2018

only lovers left alive (2)






(La Piscine, 1969, J. Deray)