sexta-feira, 24 de fevereiro de 2017

Crítica de cinema

 
 
 
No Artes Entre As Letras que saiu esta semana, escrevo sobre os novos filmes do Affleck, Lonergan e Sachs. Resumindo: cada vez gosto mais do Affleck.
 
 
Viver na Noite (2016), Ben Affleck ★★★
O título original (Live by Night) é todo um statement sobre o património cinematográfico americano clássico e, simultaneamente, a declaração de amor de um cineasta actual a filmes, actores e ideias de outros tempos, esses de They Live by Night, noir realizado por Nicholas Ray. A partir daqui, deste fascínio e reverência (nunca “obediente” ou copista, porém), rapidamente se avistam os terrenos pelos quais Affleck tem andado enquanto realizador, ora no filme “de gangsters” ou policial (A Cidade, Vista Pela Última Vez…), ora no filme “político” ou “de investigação” (Argo). O seu último filme, pertencendo ao primeiro grupo e abraçando (celebrando) declaradamente o imaginário noir, confirma o que esses títulos anteriores já deixavam relativamente claro: que se, provavelmente, o californiano nunca virá a ser um cineasta fora-de-série, é, não obstante, um dos mais lúcidos e interessantes a trabalhar dentro de Hollywood, alguém capaz de fazer filmes inteligentes, sérios, e dos quais sobressai todo um modo de os pensar (escrever, encenar, filmar) próprio, individual – numa palavra, autoral. Depois de Aliados (2016), de Zemeckis, este é um mais interessantes filmes da sair de uma major americana nos últimos tempos, no qual Affleck, além de realizar, interpreta um americano (Joe) de ascendência irlandesa traumatizado pela Primeira Grande Guerra que, na sua rotina de pequenos roubos e “encomendas”, se recusa terminantemente a pertencer a uma click de gangsters… até ao dia. Essa rejeição, mais do que moral (embora também o venha a ser a partir do momento em que, claro, se apaixona), é, sobretudo, de razão prática: depois de combater na guerra, Joe não aceita, por nada deste mundo, voltar a depender das ordens e interesses dos outros, e é esse o dilema que o irá acompanhar ao longo do filme numa – sangrenta, passe o paradoxo – demanda pela redenção. Claro que nada disto é novidade (de The Roaring Twenties, de Walsh, a Out of the Past, de Torneur, as alusões são mais que muitas), mas Affleck também não tem a pretensão de o fazer passar por tal, antes jogando competentemente com os códigos de uma época (ou de um cinema) na construção de um filme sólido, enxuto e com personalidade.
 
Manchester by the Sea (2016), Kenneth Lonergan ★★★★

Uma cena, já quase no final do filme, praticamente define o tom deste enorme – e não apenas no sentido da sua duração – melodrama erigido por Lonergan (que não deixa, alegoricamente, de remeter para O Velho e o Mar de Hemingway…): essa em que Lee e Patrick, enquanto sobem uma rua, param momentaneamente por causa da bola que rola pela rua abaixo. Lee, que se encontrava a brincar com a bola nas mãos, desiste, resignado, e não vai no seu encalço (“Let it go…”, diz ao sobrinho); Patrick, não se conformando, faz questão de ir atrás dela, recuperá-la e – pedra de toque – entregá-la a Lee. É disto que trata, com enorme sensibilidade delicadeza, o filme de Lonergan: a luta interior de um homem que, depois de um evento traumático (sobre o qual o filme só progressivamente vai levantando o véu), vive a reparar canos, ligações e tudo o mais que for preciso, forma de “resolver” os problemas dos outros quando não se consegue resolver a si mesmo (há qualquer coisa de "místico" nestas águas dos canos que Lee repara quando as colocamos ao lado das águas do mar do título, das da chuva e, sobretudo, ao lado do fogo trágico que não lhe sai da cabeça...). Nesta busca impossível pela remissão de pecados que não cometeu, Lee é esse homem “pragmaticamente triste", sobrevivendo num estado profundamente frágil, alguém que já não acredita em "segundas bolas" para a sua vida. Patrick é o sobrinho que, mesmo que inconscientemente, vai contrariar (a tal bola que insiste em recuperar e entregar ao tio), de alguma forma, esse espírito fatalista de Lee, de certo modo o despertando para realidades que ele julgara desaparecidas para sempre (o apego, a sedução, o humor, o carinho que um abraço encerra). Lonergan, que assina igualmente o argumento, não filma, contudo, com mão moralista ou, pior, com aquela tentação de “resolver os problemas” de todos, antes sendo no olhar demorado e respeitador sobre a complexidade e a deriva emocional das personagens que reside o núcleo essencial do filme, forma humilde, aliás, de as tentar compreender. O plano com que o filme termina – o melhor, aliás, com que podia terminar – é reflexo disto mesmo, sendo imediatamente precedido da decisão de Lee (“I can’t beat it...!”, diz pelo meio de um doloroso diálogo com o sobrinho), a qual contrasta (porque, insista-se, ninguém está aqui para resolver os dramas de ninguém, apenas para os compreender) com a de Patrick e a sua obstinação em pagar o arranjo do motor do barco do pai (a ausência deste é, justamente, o “motor” de todo o filme). Inteligente, outrossim, o modo como o cineasta deixa esta “geografia da distância” (Manchester e Boston) sempre latente (aqueles numerosos e belos planos "à janela" nas viagens de carro...), estando o seu valor dramático nesses quilómetros que, não sendo gigantescos, são os suficientes, pelos afectos de uns e pelos traumas de outros, para manter tio e sobrinho fisicamente separados. Nada disto, porém, é tratado com recurso a um dramatismo fácil ou lamechas; ele existe, sim, mas está sempre em estado de latência, só pontualmente vindo ao de cima nos socos bêbedos de Lee (espécie de "pausas" na sua contenção existencial, "explosões controladas" para descomprimir tantas angústia acumulada). Se, ao contrário do que muitos dizem, Casey Affleck nunca foi um actor menor (embora tenha entrado, isso sim, em muitos filmes menores), talvez nunca o tenhamos visto em tão retumbante actuação, e oxalá outros cineastas da estaleca de Lonergan o apanhem para filmes futuros. Quanto a este último, acrescentar apenas que entra definitivamente, com este seu terceiro filme, para a galeria dos mais notáveis cronistas familiares americanos actuais, juntamente com os nomes, por exemplo, de Woody Allen, Noah Baumbach, Linklater, Ira Sachs ou Derek Cianfrance (quem viu Blue Valentine com olhos de ver, reservar-lhe-á sempre aqui um lugar). 
 
Little Men (2016), Ira Sachs ★★★
Se acima elogiámos o final de Manchester by the Sea pela sua justeza, o desfecho do filme de Sachs, um dos grandes retratistas da Nova Iorque dos nossos dias, sendo igualmente "derivativo" e sem intenções conclusivas ou “resolutivas” para o destino das suas personagens, tem o efeito precisamente contrário: o de acabar por sublinhar uma certa desorientação latente no filme, como se Sachs não soubesse muito bem, a certa altura, o que fazer com ele. Se a sensação que se instala a partir do último terço do filme  de que tudo já foi tratado e pouco mais há a dizer não faz de Little Men um mau filme (de todo), o certo é que deixa a descoberto a falta de intensidade e nervo que se pedia ao nova-iorquino num filme que, feitas as contas, pese embora bem contado e bem filmado, acaba por ter o seu quê de inofensivo e esquecível. Filmes há que, aparentemente irrelevantes no momento em que os vemos, ficam connosco por muitos dias (ou até meses e anos); Little Men, pelo contrário, é um desses filmes que, prazeroso de assistir enquanto estamos na sala, rapidamente se nos desvanece da memória assim que vamos às nossas vidas. Ficamos, porque Sachs já nos deu belos motivos para isso, à espera de mais.



Eu, Daniel Blake (K. Loach)
★★★
Little Men (I. Sachs)
★★★
Viver de Noite (B. Affleck)
★★★
Manchester by the Sea (K. Lonergan)
★★★★
Eldorado XXI (S. Lamas)
Silêncio (M. Scorsese)
★★
Fragmentado (M. N. Shyamalan)
★★★
Passageiros (M. Tyldum)
Sala Oculta (D. J. Caruso)

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2017

Entrevista - João Salaviza

 
 
Som e imagem, música e cinema, rap e realismo: do histórico “Rapública (1994), primeiro disco de rap em Portugal, a Kiarostami, dos Jungle Brothers a Pedro Costa, a entrevista que fiz com o João Salaviza, um dos novos cineastas que mais aprecio (e se não escrevo “cineastas portugueses”, é propositado), tem muitos ângulos diferentes por onde olhar.
 
Tudo a propósito de “Altas Cidades de Ossadas”, uma das curtas portuguesas presentes na Berlinale 2017 e na qual Diogo Costa Amarante fez história. A entrevista para ler no Rimas e Batidas (clicar).

Frames - Portuguese Film Festival

 
 
Em nova colaboração do À pala de Walsh com o Frames - Portuguese Film Festival, festival realizado na Suécia, escrevi a folha de sala para o “BALADA DE UM BATRÁQUIO”, de Leonor Teles, esse filme que, paradoxalmente, nos faz querer sair da sala de cinema. Mas há mais filmes e textos para ler ali ao lado (clicar).
 
 
"Pushing the idea of cinema as moving images or, more appropriately, as «images in action» to the limit of literality, Teles is the rebel with a cause that «breaks free» in the political place – and once also a very cinematographic one, in the sense that, together with the films of Chaplin, neo-realism and the Nouvelle Vague, Teles’s film shares a certain idea of «street cinema» – par excellence: the street, the Portuguese streets where prejudice lurks in every store entrance".

terça-feira, 14 de fevereiro de 2017

Existem mulheres tão diferentes entre si, tão afectivamente diferentes. Será que o sabem?

I just call to say I love your films

Creio que a conversa que tive ontem ao telefone com o Salaviza foi das coisas mais valiosas, proveitosas e entusiasmantes que me aconteceu nos últimos tempos. By the way, o seu novo e belo filme, Altas Cidades de Ossadas, está em Berlim e qualquer dia chega ao burgo.

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2017

TARKOVSKY Eterno Retorno - Cine Humberto Mauro




O meu texto para o catálogo da retrospectiva TARKOVSKY Eterno Retorno - 20 janeiro - 9 fevereiro que se encontra a decorrer no Cine Humberto Mauro não podia estar em melhor companhia...

Um catálogo riquíssimo, com textos de gente que admiro. Também uma honra por isso. E até 9 de Fevereiro ainda há filmes e seminários!: http://fcs.mg.gov.br/index.php?option=com_gmg&controller=event&id=2329-tarkovski-eterno-retorno

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2017

pós-apocalipse



Split (2016, M. Night Shyamalan)


 
O Fantasma (2000, João Pedro Rodrigues)
 
 
 
Seres pós-apocalípticos, vindos/indo de/para outro mundo. Ambos carregando em si um projecto transpersonalista, transcendente e ambíguo.


segunda-feira, 6 de fevereiro de 2017

NÃO CONSEGUES CRIAR O MUNDO DUAS VEZES - Entrevistas




Duas entrevistas que demos recentemente sobre o nosso filme Não Consegues Criar O Mundo Duas Vezes:






"O título do filme está explicado no primeiro teaser do filme que podem ver na nossa página de Facebook, onde, com a voz em off do Ace (Mind Da Gap), entramos no antigo Comix, bar mítico do Porto dos anos 90 que ficava na Rua de Cedofeita – hoje, é um estabelecimento completamente diferente, o que reflecte a tal transformação urbana que também queremos tratar – e onde as primeiras festas de hip hop, às quintas e, mais tarde, aos sábados também, começaram a ser dinamizadas pelo Serial e Ace. O Comix foi o autêntico berço de toda a cultura hip hop no Porto, desde o rap ao deejaying, passando pelo graffiti e pelo breakdance… Toda a gente – quer dizer, os poucos que na altura existiam – se juntava lá para experimentar um bocadinho de cada uma das vertentes. Os Mind Da Gap deram lá alguns dos seus primeiros concertos. O Rodas, que foi o proprietário do Comix e um homem da noite e da cultura alternativa no Porto, também está no nosso filme.
 
O título do filme é sobre isto: a irrepetibilidade das coisas, a impossibilidade de, para o bem e para o mal, podermos voltar atrás, ao início, e refazer o mundo, a história… Isso não é algo necessariamente mau ou triste, pois talvez a beleza maior esteja aí, no facto de os acontecimentos serem únicos, singulares, no tempo exacto em que ocorreram".

sábado, 4 de fevereiro de 2017

ípsilon - Loyle Carner



O rapaz está a sorrir e tem razões para isso: fez um álbum maravilhoso chamado Yesterday's Gone e que, acabadinho de sair, é do mais entusiasmante que vamos poder ouvir em 2017.
No Ípsilon de ontem, escrevo sobre Loyle Carner, uma das melhores coisas que aconteceu à música inglesa (e, particularmente, ao rap inglês) nos últimos tempos.

Artigo on-line: https://www.publico.pt/2017/02/03/culturaipsilon/noticia/decorem-este-nome-loyle-carner-1760427


"É (...) neste relativo estado de anorexia do hip-hop inglês que se saúda entusiasticamente o surgimento de Loyle Carner, rapper londrino que, depois do interessante EP A Little Late (lançado de forma independente em 2014), confirma agora todas as expectativas geradas em seu redor, ele que proporcionou um daqueles felizes encontros entre crítica e público, congregando encómios pelas suas letras introspectivas, poéticas e polidas, sempre apoiadas em instrumentais de sabor soul (que tão bem combina com o timbre da sua voz), cardápio que inclusivamente o levou, logo em 2015, a tocar em Glastonbury".

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2017

Playlist Janeiro - Rimas e Batidas





Muito para ler e ouvir na Playlist de Janeiro (aqui) do Rimas e Batidas.

Atirei-me à “Everything Is Yours”, uma faixa muito recomendável (que podem ouvir ali em baixo) do álbum pouco recomendável no conjunto da Kehlani – “SweetSexySavage”.
 
 *
 
«SweetSexySavage, acabadinho de sair, não é um grande álbum, nem Kehlani tem uma grande voz (e, nos melhores momentos, soa quase sempre a uma versão inferior à de Jhené Aiko, sobretudo em Twenty88, o seu último e excelente álbum colaborativo com Big Sean). Apesar do destaque que tem merecido por parte da imprensa, Kehlani parece ser mais um daqueles casos em que, só pela circunstância de o r&b e o trap estarem hoje na ribalta, qualquer artista que apareça a fazer música nesse registo é de imediato rodeado da maior atenção. Todavia, a californiana consegue, aqui e ali, ir sacando alguns momentos realmente bons, para o que muito contribui a overproduction – aqui até não num sentido negativo, mas no de produções opulentas e bem orquestradas – que a suporta. SweetSexySavage tem muito do r&b contemporâneo mais descartável que se faz actualmente (excepção de primeira água: Alexandria e o seu Rebirth, 2014), e, insisto, noutros tempos (que não nos de endeusamento do R&B em que hoje vivemos), seria rapidamente posta de lado.Ainda assim, a sequência composta por “Personal”, “Not Used To It” e “Everything Is Yours” é um pequeno oásis no meio de tanta chiclet, assegurando 12 minutos realmente prazerosos (vá, “Keep On” também merece louvores).
 
“Everything Is Yours”, em particular, é, talvez, a melhor dessas três canções, um lamento resignado sobre o primeiro amor, esse que doesn’t live here anymore (e que, pormaior decisivo, não é necessariamente o amor ingénuo de juventude, pois pode surgir aos 15 como aos 30). É nessa dualidade, nesse (frágil) balanço entre a saudade por esse amor (“Thinking ’bout things that I shouldn’t be (…) / Missing all that when I shouldn’t be”…) e a aceitação pacífica do seu irremediável fim, visto já à distância, já como “memória”, que reside a força da canção e a sua dimensão semi-trágica – semi porque não há aqui tristeza profunda, nem, porém, optimismo em excesso, apenas conformação. Enfim, apenas a melancolia de lermos, retrospectivamente, uma felicidade extrema nesses momentos idos (que já são “acontecimentos”, “factos” que, numa conversa com alguém, incluiremos nas “relações” que tivemos…) em simultâneo com o reconhecimento de os sabermos já – para o bem e para o mal – definitivamente encerrados. A isto se chama, dizem, “crescer”, “maturidade”, palavras, contudo, que bem poderão, mais tarde, vir a fazer ricochete em nós mesmos: voltaremos algum dia a conseguir dizer a alguém, com o mesmo arrebatamento, com a mesma abnegação… “Everything is Yours”?»

domingo, 29 de janeiro de 2017

It Was All a Dream...


Do visionamento a horas poucas recomendáveis do The Revolt of Mamie Stover – e de um fascínio particular com a primeira sequência do filme – sai a minha última crónica I Wish I Had Someone Else's Face no À pala de Walsh, na qual ando à volta de sonhos e mais sonhos: os meus, os da Jane Russell, os da América.

Quanto ao título (“It Was All a Dream…”), não se enganem: é mesmo da "Juicy” do Notorious B.I.G..

Para ler aqui ao lado (clicar).

“Campo: o rosto de Russell. Contra-campo: São Francisco, a cidade que Russell se prepara para abandonar, a enésima cidade de que parte, vexada e vencida (…). São Francisco nocturna com os seus néons coloridos: cidade-promessa, cidade-tentação. Uma supernova sensual e clandestina insinuando o dinheiro, a corrupção e a promiscuidade (moral, sexual) que Russell tão bem conhece. Campo e contra-campo, então, como sujeitos de desejos absolutamente correspondentes: Russell observa a cidade (…) e esta observa-a a ela; Russell deseja a cidade e a cidade deseja-a a ela. Olham-se mutuamente como dois amantes tragicamente pré-destinados, amor proibido e mal visto pelas convenções sociais”.

sexta-feira, 27 de janeiro de 2017

Regresso ao Futuro - 25 Janeiro

 
(Cartaz: Cristovão Carvalheiro)
 
Para quem não apanhou na rádio na passada terça-feira, pode agora ouvir o podcast do REGRESSO AO FUTURO no podcast da Antena 3 a partir dos 54m54s: http://www.rtp.pt/play/p442/e270099/rimas-e-batidas
 
Estivemos na companhia, única e exclusivamente, de mulheres: nova-iorquinas, afro-americanas e que, nos campos do hip-hop, do R&B e do chamado new jack swing dos anos 80/90, deixaram um lastro hoje visível na música e na postura de nomes tão diversos, e simultaneamente tão próximos, como Beyoncé, Rihanna ou Azealia Banks.
 
“Gotham Down Deluxe” (2013), “Age Ain’t Nothing But a Number” (1994) e “Kaleidoscope” (1999), de Jean Grae, Aaliyah e Kelis, respectivamente, foram os álbums que ontem passaram pelo REGRESSO AO FUTURO.
 
Ou resumindo nas palavras da Kelis: “This is the good stuff / You don't know this is that good stuff…”.

quinta-feira, 26 de janeiro de 2017

Artes Entre As Letras - Crítica de cinema



No Artes Entre As Letras que saiu ontem para as bancas, escrevo sobre Allied (é de 2016, mas gostei tanto que quis escrever sobre ele à mesma), O Vendedor e Na Via Láctea.
 
Uma vez que me vi forçado a reduzir substancialmente os textos originais por razões de dimensionamento, deixo aqui agora as versões originais - e mais extensas - dos mesmos.
 
Bons e filmes e boas leituras.
 
 
***


Aliados (2016), Robert Zemeckis ★★★

Sem fazer muito ruído, Zemeckis fechou 2016 com um belo filme que passou, provavelmente, despercebido a muita gente (ou não, atendendo ao chamariz “Pitt-Cotillard” e aos boatos extra-conjugais que rodearam a rodagem do filme). Zemeckis, conhecido por filmes tão diversos como a saga Regresso ao Futuro, Quem Tramou Roger Rabbit? ou Forrest Gump, tem conseguido, a espaços, ir fazendo coisas interessantes dentro da máquina de Hollywood e este seu último filme, sobre uma relação de amor entre espiões durante a ocupação nazi em França, é exemplo disso mesmo.

Aliás, os primeiros planos no deserto são toda uma extravagância para um filme produzido pela Paramount: silenciosos, demorados, “vazios”, planos onde aparentemente “não acontece nada” mas nos quais, na verdade, se joga “tudo” sobre a personagem de Pitt, Max, um homem profundamente solitário, triste (a irmã diz que já não o via alegre há anos) e aparentemente desinteressante (o “porquê” da sua soturnidade não o sabemos e o filme só ganha pontos em manter o véu sobre esse passado). A elegância formal e classicista de Zemeckis nos planos e nos enquadramentos, juntamente com – outra raridade de ver num filme saído de uma major – o tempo que Zemeckis dedica a cada cena, permitem ao espectador ver verdadeiramente o que tem à sua frente, observar, com vagar, as personagens e os ambientes em que elas se movem. E é essa mesma “longa duração” que deixa as próprias personagens respirarem, ganharem espessura, enfim, serem… personagens. Tudo isto tem um nome, um nome esquecido quase em absoluto na linha de montagem actual de Hollywood: cinema, uma coisa que, nessa mesma Hollywood das décadas de 30, 40, 50, efectivamente existia com outros realizadores, ideias e actores (apesar de todos os condicionalismos já então vigentes, desde os mercantis aos legais, i.e., os do Código Hays).

Não menos “extravagante” é, por exemplo, a cena da festa em casa dos Vatan, seguida dos magníficos (e silenciosos, novamente) planos dos convivas a observarem o céu de Londres cruzado pelas bombas nazis, como se de um “fogo-de-artifício” perverso se tratasse, assim se reconstituindo aquele ambiente dreamy de “diversão em tempos de guerra” que sintetiza o trágico da época. Voltando a Max, é a alegria que a entrada de Marianne (enorme presença de Cotillard, tanto ou mais que a sua extraordinária beleza) na sua vida lhe traz que explica o modo como, perto do final, se recusa a ver a verdade dos factos, já depois de voar até ao outro lado da Mancha, de atravessar “rios e mares” para tirar a prova dos nove (solução narrativa muito bem conseguida).

E é neste ponto que o drama está trabalhado a um nível superlativo (virtude do argumento): nada, absolutamente nada nessa “verdade dos factos” invalida a existência de um amor genuíno daquela mulher por aquele homem. Daí o tiro, carregado de culpa, naquela magnífica cena final que cita o Casablanca de Michael Curtiz (o aeroporto, os carros, a chuva, o fog), embora, a bem dizer, Zemeckis passe o filme a emular Curtiz, com a diferença de que, aqui, o percurso seguido é o inverso: começamos em Casablanca e depois vamos para Londres (o lema é, portanto, We will always haveCasablanca). De resto, esse final confirma, de modo paradigmático, o desvio à lógica de estúdio, um sad end que, além de magnificamente filmado, é a solução narrativa mais honesta e credível para o filme no seu conjunto.

 

O Vendedor (2016), Asghar Farhadi ★★★

A sensação com que se fica do último filme do iraniano é a mesma transmitida por O Exame, de Cristian Mungiu: dois realizadores que atingiram o controlo absoluto do seu cinema, da sua “máquina” e respectivas engenharias (especialmente as narrativas), mas que, por isso mesmo, parecem ter cristalizado, encalhado nesse “estado de graça”. Claro que a observação tem o seu quê de injusto, pois fosse algum destes filmes o primeiro das respectivas filmografias e a apreciação seria inevitavelmente outra, mas o certo é que as propostas artísticas também se fazem (e crescem) através das “mudanças de velocidade” que os seus autores lhes imprimem.
 
Tal como nos últimos filmes de Farhadi (o divórcio em Uma Separação; a ameaça do regresso do ex-marido em O Passado), o olhar incide sobre a dinâmica familiar (um casal, novamente) e as repercussões de um concreto acontecimento nos seus afectos e (des)equilíbrios (o passado, uma vez mais, como líquido viscoso sempre a “contaminar” o presente), concluindo-se o filme – naquela que é outra marca registada de Farhadi – num grande “final aberto” em que as certezas sobre os caminhos que as personagens tomarão a partir dali pura e simplesmente não existem. É como se o iraniano, depois de cerzir, meticulosa e “detectivescamente”, o novelo narrativo, depois de juntar, enfim, as peças todas do puzzle (embora nunca as encaixando totalmente, i.e., há sempre actos e motivações que ficam por esclarecer), as atirasse ao ar e incitasse o espectador a tentar saber o que fazer com elas dali em diante.
 
A grande novidade aqui é o dispositivo teatral (a peça Death of a Salesman, de Arthur Miller, que o casal, ambos actores, está a estrear) que o iraniano “põe em cena” paralelamente com a narrativa, numa tentativa – já muito vista e à qual, verdade seja dita, Farhadi não acrescenta nada de novo – de ilustrar como arte e vida, ficção e realidade, se imitam mutuamente, nomeadamente, através do modo como as emoções da “vida real” começam a prolongar-se, a “estalar” em palco e a forçar os actores à improvisação. Enfim, a velha ideia de que viver é, por definição, “improvisar” (ainda o ano passado se viu isto feito, com mais brilho, em As Nuvens de Sils Maria de Assayas).

O mais interessante do filme ainda está na metáfora – que, ainda assim, podia estar trabalhada, reconheça-se, com outra subtileza – sobre um mundo (o Irão, social e moralmente falando) e um casal prestes a desabar, algo que desde a primeira cena, em que um prédio é evacuado sob ameaça de derrocada, é explorado. Repare-se, então, no percurso trilhado: desse apartamento prestes a ruir, o casal muda-se para outro que, parecendo “estável” ou “sólido”, se revelará definitivamente “esburacado”; tudo para, no final, se voltar, pela obstinação vingativa do marido (por oposição ao perdão manifestado pela mulher) ao apartamento inicial, no qual as marcas da derrocada iminente estão mais visíveis do que nunca, autênticas “fracturas expostas” a ameaçar a unidade daquele casal. E, então, a dúvida: cicatrizarão?

 

Na Via Láctea (2016), Emir Kusturica ★★★

Não será certamente o Kusturica dos tempos – ou do nível – de Underground e Gato Preto, Gato Branco, mas é, indubitavelmente, um belo filme aquele que marca o seu regresso após alguns filmes menores. A frase com que o sérvio abre o filme (“Based on three true stories and many fantasies”) é todo um statement sobre o filme e a sua própria obra, uma amálgama de realismo, fantasia, bizarria, cacofonia e humor, sendo na recuperação dessa marca que o cineasta transmite novamente a sua visão da paisagem dos Balcãs e suas estórias.

Todavia, pelo seu carácter fortemente impressivo, essa mesma marca foi sempre  um pau de dois bicos, na medida em que não é fácil conservar a genuinidade dos ambientes “kusturicanianos” de filme para filme, e as cenas festivas delirantes que aqui vemos, por exemplo, acabam invariavelmente por perder, a pretexto de uma certa artificialidade, para as que já conhecemos dos seus trabalhos anteriores. Pelo meio das bombas e das tréguas, sobressai uma enternecedora história de amor entre um homem tristíssimo (interpretado pelo próprio Kusturica) e uma mulher fugida e desterrada (Monica Belluci), os quais, de obstáculo em obstáculo, e ajudados pela natureza e pelos animais (o filme grita “fábula” por todos os cantos), vão, enfim, tentar ser felizes.

O tom caricatural, como se todo o filme fosse uma “brincadeira”, é, obviamente, propositado, espécie de “filme de aventuras” em que o (anti-)herói impede a todo o custo os vilões de roubarem a sua donzela, algo que se, por vezes, deixa o filme no limite do risível, é o que lhe dá a sua graça e candura.



quarta-feira, 25 de janeiro de 2017

modo de vida



(O Estado das Coisas, 1982, Wim Wenders)

sexta-feira, 20 de janeiro de 2017

Era uma carta terrível, escrita por uma mulher doente vencida pela burocracia, uma mulher no limite das suas forças - ou seja, no limite da sua dignidade. Apesar de tudo, não pedia que a ajudassem a sobreviver. Terminava assim: "por favor, ajudem-me a nascer de novo".

quinta-feira, 19 de janeiro de 2017

cardiologia

Falou-me em genética, que tinha herdado da família da parte do pai "problemas do coração".
 
Mal ele sabia que a genética nada pode nesse departamento. Quem não os tem?

quarta-feira, 18 de janeiro de 2017

I was only tryin'...



("Love You", EP Nocturnal, 2016, Roy Woods)

domingo, 15 de janeiro de 2017

onde todos os caminhos vão dar



(Através das Oliveiras, 1994, Kiarostami)