quarta-feira, 15 de agosto de 2018

do/don't











(La Piscine, Jacques Deray, 1969)

"Travel Light", Children of Zeus, no ípsilon



No Ípsilon da semana passada (atenção ao artigo sobre/entrevista com as Pussy Riot), escrevo sobre "TRAVEL LIGHT", primeiro LP dos ingleses CHILDREN OF ZEUS, e no qual continuo a tentar rastrear o que de melhor se vem fazendo na música negra britânica (cfr. Loyle Carner, Rejjie Snow).

"(...) conjunto de treze canções cujo grande problema – embora, verdade seja dita, tomara a muitos discos padecerem deste tipo de 'problemas' – reside na sua relativa indiferenciação (...), sem rasgos ou arrojos que puxem o disco da sua palpável zona de conforto (...). Essa zona chama-se (...) neo soul, corrente americana de finais de 90/inícios dos 2000 que, liderada por gente como D’Angelo ou Erykah Badu, fez uma re-leitura da soul clássica dos 60/70 (a da Motown, Stax, etc., ou seja, aquela a que, curiosamente, a 'northern soul' de Manchester de algum modo sempre se opôs) a partir das possibilidades oferecidas pela electrónica, o R&B e, sobretudo, o hip-hop. Dito de outro modo, se Travel Light tivesse surgido por essa altura, com toda a certeza que teria, hoje, o estatuto de clássico; em 2018, soando tudo muito bem, é certo, de uma ponta à outra (arranjos perfeitos, orquestração coesa), fica-se, contudo, por esse travo saudoso (...), por uma fórmula que, não arriscando um milímetro, nos devolve a impressão de que já ouvimos tudo isto noutros discos (...). Isto dito, que o leitor não se engane: se estiver menos familiarizado com essa neo soul que o tempo levou (hoje substituída, de algum modo, por esse genérico carimbo de “contemporary R&B”), Travel Light será, sem sombra de dúvidas, uma agradabilíssima viagem, de que 'Sling Shot Riddim' (...), '360º' (o baixo distorcidíssimo, muito boogie, 'espacial', que tanto traz Amp Fiddler como Dâm-Funk para cima da mesa) e, em especial, 'Daddy’s Car' (comoventíssima rememoração desses momentos familiares que não mais nos deixam ao longo da vida) constituem as curvas mais entusiasmantes".

On-line: https://www.publico.pt/2018/08/13/culturaipsilon/critica/a-soul-de-manchester-continua-viva-1840328

terça-feira, 14 de agosto de 2018

meu querido bafedo

quando ainda nem estradas percorríamos, tu já me dizias amigo se for preciso voltamos antes quando tu quiseres. saberás lá tu. só superado pelas estradas que, então sim, percorremos no carro com demasiados medronhos no sangue tremendo, breu abrasador que cortamos com os braços de fora das janelas jamais fechadas. as copas das árvores todas alinhadas para nós, como se nos recebessem surrealisticamente para o mais materno dos universos paralelos. um corredor vertical, ascendente, pela frente, um silêncio imenso mesmo quando o disco toca, sempre o mesmo disco, e ao meu lado as palavrinhas que sempre cantas, I can't keep on losing you pausa Ei! mas não é Ei! é Wait!, nunca o dizes correctamente e eu nunca te corrijo porque também gosto mais de Ei!. no silêncio, puxas de um cigarro e com bondade dizes queres noras e pois quero, já me sai fumo da boca. quando sopro, aí sim, o silêncio interrompe-se por instantes, tal como quando vejo, do canto do olho, que levantaste o punho e estás à minha espera, pois que eu me apresso e eles se tocam. dizia, também neste momento o silêncio é silenciosamente interrompido, como um segredo se quiseres (desses infantis que tu trazes nos olhos pequeninos traídos pelo corpo forte), ossos que chocam produzindo decibéis maiores que os da música alta, tão alta, que ouvimos. e eu furioso teclando notas e mais notas, inclusivamente a de que meus senhores diz-vos o crítico este é um disco para escutardes em estradas alentejanas pela noite fora mas já sabendo que, na hora da verdade, os meus olhos verão descontexto e ingenuidade nesse trecho

quando tomo o banho que antecipa a camisa branca e as calças beges que me preparam para o regresso, pensamentos indesejados, esses cuja lição vem no manual de sonetos em que não peguei por uma vez quando percorríamos estradas, assomem momentaneamente e eu encara-os com tranquilidade, indolência, até. penso, vejo, desejo o pacotinho de sumo na mesinha de cabeceira que me coloria o ânimo assim que tirava a venda dos olhos, então noras já tomei o pequeno almoço onde estás. olha, estava no quarto mas era como se não estivesse, bebendo já o sumo natural de goiaba enquanto a testa se nos escorre na sombra mais tórrida da vila e tu te debates ao telefone com a mulher da tua vida achas que é mesmo noras
 
eu sei lá, queridíssimo amigo. vamos antes de novo até àquela escuridão total da carrapateira, o passadiço que nos leva à praia ou rio ou o que é isto, a luz do telefone não esclarece. então fumamos e olhamos o céu, antes de voltarmos a percorrer as estradas, as mesmas que nos levarão mais tarde, estranhamente, inevitavelmente, à cidade, na qual, cabisbaixo, com os olhos fixos no salão de bilhar que está fechado para férias, te oiço dizer

meu querido mês de agosto.

vamos antes ficar com os olhos vivíssimos da tua avó, matriarca muito bem sentada de pés na mesinha que nos diz antes de sairmos no seu orgulhoso inglês de Ema

sweet dreams

segunda-feira, 13 de agosto de 2018

Aracy



 

 
(LP Os Golden Boys, 1958)

quarta-feira, 8 de agosto de 2018

um gesto infantil, tão tonto

"(...) o primeiro lugar de Agustina que eu conheci foi a casa em que ela e Alberto Luís se fixaram desde a década de 70, situada na Rua do Gólgota, num dos montes do Porto, mesmo junto aos caminhos do romântico, entre quintas sossegadas que foram de ingleses, por cujas áleas perfumadas meninas pensativas arrastaram as caudas dos vestidos. (...) Numa manhã de aguaceiros, apanho o metro e chego à Póvoa de Varzim. Agustina viveu aqui dos seis aos 12 anos, quando o pai geriu o ne...gócio do jogo, primeiro no Café Chinês, depois no casino novo. (...) Imagino a pequena Agustina, acompanhada pela prima Laura, calcorreando as ruas da vila, entrando nas modistas a pedir retalhos para vestir as bonecas, frequentando as mercearias que vendiam rebuçados irisados em cartuchos pardos, indo à Travessa dos Casinos pedir hóstias ao fabricante, entrando no Cinema Garret para se rir das narrativas dos amores infelizes. Mas sei que continua a ser uma menina algo isolada, que lê muito e inventa histórias que partilha com as colegas durante as aulas de lavores. Não faltariam motivos para a efabulação entre os episódios da Bíblia, de que conhecia passagens de cor, as tiradas sentimentais das fitas a que assistia no cinema, as muitas leituras, mais ousadas do que as que seriam de supor numa menina da sua condição. Mas eu gosto de pensar que Agustina se inspirava também noutras coisas. (...) Se, em qualquer indivíduo, a etapa da adolescência é sempre propícia à introspecção, num adolescente que lê, os livros alimentam esse estado propício ao mergulho profundo no interior do ser. Em tempo de exílio e prostração ('não direi depressão, porque não chegou a tanto'), parece inevitável que Agustina começasse a escrever. Descobrindo nas páginas extraordinárias escritas por outros 'um milagre, uma criação do mundo', aos 15 anos sente o mesmo impulso, mas, em vez de enveredar pela escrita em verso, prática mais usual entre as meninas com aspirações ao cultivo das letras, escreve um romance. (...) Como já se ouviu muitas vezes, nenhum biógrafo consegue pesquisar diariamente o seu biografado sem ser tocado por essa experiência. Contagiada pelo espírito do lugar (...), acerco-me da poltrona das ramagens, sento-me nela, deixo-me fotografar. Um gesto infantil, tão tonto que não deve ser levado à conta de arrogância (...). Sim, Agustina sentava-se aqui. Dir-se-ia que, quando me falta a imagem, a confissão, a evidência, também eu invento a verdade. (...) 'A possibilidade duma realidade é infinita'. E a verdade de uma vida é múltipla e contraditória".
 
("Lugares de Agustina", imperdível texto de Isabel Rio Novo na LER, Primavera 2018, n. 149)

anamnésica

"Ler Platão ou Shakespeare não significa ter acesso a conteúdos cognitivos ou, ainda menos, a valores que eles tenham veiculado. Muitas vezes é reconhecer coisas em que tínhamos pensado, mas ditas por outras pessoas. Wittgenstein disse num prefácio de um dos seus livros que este só seria percebido por pessoas que já tivessem pensado aqueles pensamentos. (...) Há 2500 anos, Platão observou, astutamente, que a experiência principal da aprendizagem é a anamnésica, é uma experiê...ncia de rememoração. Como se disséssemos: 'Ah, estou a lembrar-me de uma coisa que afinal sabia!'. (...) Estamos a lembrar-nos de pensamentos que podíamos ter tido ou já tivemos. Imagine alguém que está a assistir a uma representação do 'Rei Lear'. Logo no início, ouve a Cordélia dizer: 'Eu não consigo içar o coração até à boca'. E pensa: 'É extraordinário como eu já pensei isto'".
 
(Miguel Tamen em entrevista à LER, Primavera 2018, n. 148)

Não Consegues Criar O Mundo Duas Vezes @ Hip Hop Film Festival NYC


 
 
Yo!
 
Screening of Não Consegues Criar O Mundo Duas Vezes last week at Hip Hop Film Festival NYC (New York city) for y'all brothers and sisters

sexta-feira, 27 de julho de 2018

com excepção dos do ecrã, sempre tive medo dos mortos. corpos ao comprido que miro só de longe. mas talvez por ver os netos, tão miúdos ainda, a olharem o avô como eu olho os do ecrã, os joelhos dos pequenos tocando serenamente a madeira do novo berço, ganhei uma força redobrada para fazer o que, vejo agora, já quis fazer antes, talvez mais com o meu tio eurico do que com o meu avô. no derradeiro momento, aproximo-me e coloco a minha mão sobre as dele, só sinto a pele, sei que um rosário as cobre mas não o sinto. a inês dirá que, curiosamente, estão frias como sempre estiveram, embora nisso nada haja de curioso. o neto mais pequeno é muito dado, abraça-se a mim com os seus bracitos quentes e morenos, jogamos uma coisa qualquer no telemóvel até que, sem eu reparar, o ambiente que, com o passar das horas, já se havia descomprimido volve-se solene novamente, silêncio. e, então, cantamos

os lírios lírios são

mais marés que marinheiros


 
 
(LP More Of The Good Life, 1981)

do you really love me / I love you more



 
(LP René & Angela, 1980)



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(LP Wall To Wall, 1981)

quinta-feira, 26 de julho de 2018

"C" é a letra entre


 
 
(LP Sedução, 1986)
 
 
"Débora lave os olhos"


quarta-feira, 25 de julho de 2018

quando eu era miúdo, nunca gostei do António. aos meus olhos, um enorme e bruto homem, distante lá dos seus dois metros de seriedade que o queixo e a boca proeminentes selavam, e que assim permanecem agora que as flores lhe refrescam os pés. rijíssimo, rigidíssimo (daqui ainda consigo ouvir o padre falar na "firmeza transmontana"), como quando vou no verão passado finalmente ao zoio (que bom que ainda o fiz a tempo de ir com ele, orgulhoso por parar o carro a cada vinte metros para falar com um conhecido da aldeia) e a sua palavra é lei no que respeita às horas das refeições, e nós, coitados, miúdos trintões que apressam os mergulhos no rio para cumprir com o estipulado. alguém que eu associava a uma outra era, tempos de gente dura, impenetrável. tinha sempre um brusquíssimo "pá" no final de cada frase, que tanto podia significar impaciência (como quando não se me acha uma frincha no estômago e ele me obriga a comer mais vitela, a melhor do mundo ou coisa parecida), como desaprovação ou descompostura. alguém, portanto, que me parecia diametralmente oposto ao pai que eu tinha em casa. só muitos anos mais tarde eu compreenderia que, por debaixo dessa armadura, se abrigava um espírito generoso, sensível, carinhoso, bom. uma noite há, também no verão passado, em que uma confusão de gente se transforma num jantar em que o filmo a tocar a guitarra num espanhol granulado (só saberei mais tarde que o namorado de não sei quem filho da prima daqueloutro fez um documentário sobre o paco de lucía) enquanto uns e outros vão comentando, com olhos de espanto, a inesperada comunhão que vai de cascais a israel, dos campos de férias ao pamplona que era de braga mas que já vive no porto há não sei quanto tempo. talvez eu deva essa percepção tardia - ou melhor, essa, enfim, revelação - ao meu encontro com um senhor em cujos filmes moram homens como o António. esse senhor chamava-se John Ford e, tal como me aconteceu com o António, só muito posteriormente é que vim a compreender os seus filmes. não sei se o António os viu, mas, caso o tenha feito, estou certo de que gostaria muito deles, quem sabe não os amasse mesmo de coração. quão estranho, vejo agora, nunca lhe ter perguntado se apreciava esses filmes pelo meio das conversas que, nos últimos anos, fomos tendo com mais frequência, tantas vezes em que me sentia a recuperar um qualquer tempo perdido, enquanto o António insistia - perdoa-me o atrevimento, Eva, mas, nesses momentos, sentia-lhe o orgulho quase de um pai num filho - em fazer-me corar em frente dos presentes, então pá e o teu filme hã, sim senhor belos textos xico já viste ó cathy, sentado muito hirto (sempre) no sofá de magrelas e brancas pernas descobertas pelos calções de banho. e nesse momento é como se a carrinha amarela que o vem pontualmente buscar à nossa rua (e é o ricardo, o antigo segurança da faculdade de direito, quem conduz, rapaz de coração franco, coincidência daquelas) o fosse levar para a praia com os colegas da escola. mas ó pá ó xico tu tens de fazer parágrafos mais curtos já te disse isto pá, pois é eu sei e olhe, António, sabe quem também me diz o mesmo sobre os parágrafos? o meu pai. tenho quase a certeza de que se riria (contidamente) quando, no corredor ao lado da sala onde refresca os pés junto das flores, o meu pai que de inglês só sabe as frases do james bond diz a um amigo seu o mistery para eu não ter ido mais ao coro? olhe é que hã olhe I lost my pio

malditos filmes que insistem em falar por nós






(Sylvia Scarlett, 1935, George Cukor)

segunda-feira, 23 de julho de 2018

O Despiste (2)

"A ficção oficial quer que um imperador romano nasça em Roma, mas foi em Itálica que eu nasci (…). A ficção tem coisas boas: prova que as decisões do espírito e da vontade transcendem as circunstâncias".
 
 Memórias de Adriano, M. Yourcenar.
precipitado no dicionário
dos que caminham com 
os pés cravados
em massas de ar invisíveis
é elogio

donde pensas tu que 
vem a chuva
que realismo há nessa
água que subitamente cai do céu e
te obriga a recolher a uma soleira por 
onde eu ambiciono passar num dia
qualquer em que já não me lembro
do nome do gelado que comeste
quando era sol que fazia e
te digo: olá como vais
como dizemos educadamente àqueles de quem
nunca memorizámos
o gelado de que mais gostam
 
não acreditarás que também
lá em cima
os deuses repetem para
consigo mesmo
(carentes que estão dos confidentes que enviaram aos homens na terra)
é só precipitação
é só precipitação
é só precipitação

quarta-feira, 18 de julho de 2018

há momentos, cheiros, sensações do passado (da minha infância, sobretudo) a que só os filmes me permitem regressar. ou que mo permitem fazer com o maior grau de verosimilhança possível, circunstância irónica quando feitos por terceiros e retratando situações a que sou, biograficamente falando, estranho. são eles, os filmes, que mais perto me re-colocam dessas memórias. talvez porque estas, mesmo convocando outros sentidos que não apenas a visão (o olfacto, o paladar), são, ao fim ao cabo, "imagens" - por mais que nos esforcemos, não nos conseguimos lembrar, subitamente, de um determinador odor, mas a imagem do lugar onde em tempos ele nos entorpeceu conseguimos já produzi-la mentalmente, quase de imediato.
 
o cinema permite-me essa re-constituição. uma re-aproximação ideal a algumas das coisas que me são mais queridas (ou então: violentas, traumáticas), que - justamente por causa do cinema e do efeito (intelectual, sensorial, fantasmagórico, talvez por esta ordem) que foi causando em mim à medida que cresci - estão alojadas, remotamente, miticamente, em mim. se já sentia isto no acto de ver filmes, mais intensamente se me ocorreu no momento em que passei a pegar numa câmara e a ir até determinado sítio filmar este espaço concreto, enquadrar assim e não assado, fixar o chorão (o nome mais bonito de todas as árvores, talvez) do pátio do meu antigo prédio, ou os campos baldios que ficavam nas suas traseiras - se eu filmar lá uns miúdos
com os rostos sujos da
polpa dos figos
a fugirem do camponês solitário que brande uma
espingarda no ar
 
volto a ver (imagens, novamente, uma e outra vez, sempre) ao meu lado o tiago grande, o hugo, o tiago pequeno, a pepi, o pedro, a catarina, o nuno, todos a correrem e a tropeçarem até chegarmos ao muro, momento em que o medo absoluto começa lentamente a serenar, o suor no rosto muito vermelho da pepi que lhe destrambelha os óculos até à pontinha do nariz. se eu filmar, à noite, miúdos acocorados do lado de lá do muro
nos socalcos da quinta do senhor neca
utilizando à vez os binóculos
volto a ver as duas
irmãs de loiríssimos cabelos do terceiro andar que
se despem imaginariamente
para nós

ou os grilos que

sem eu saber colaboram neste filme a que, uns anos antes, um senhor dera o nome the rear window e a que, agora, eu outro vou dar. por isso é que, julgo, a "ficção" é, no princípio e no fim, re-constituição, regresso a. derradeira e compensadora forma de voltarmos - recuperarmos - a uma idade de ouro que não existe mais, que talvez nunca tenha existido. que existiu, sem dúvida.

terça-feira, 17 de julho de 2018