segunda-feira, 12 de junho de 2017

into the shade


 
 
("All Bad", J.I.D. feat. Mereba, álbum "The Never Story", 2017)
 
 
 
"And if I'm trying to tell the truth, it's all bad
Cause if you looking for the proof, it's all there
(...)
I'm gon' step into the shade, I don't want the sun in my face"

quinta-feira, 1 de junho de 2017

Crítica de cinema

 


No Artes Entre As Letras que saiu ontem, escrevo sobre os novos filmes do Canijo, Jordan Peele, Malick e o novo Alien. Bons filmes.


***


Fátima (2017), João Canijo ★★★
Num percurso que vimos apreciando cada vez menos pela sofreguidão de Canijo em bisbilhotar o “real” e dá-lo a ver com a pretensão de uma absoluta genuinidade (“este é o Portugal profundo que não conhecem, vejam!, impressionem-se!”), eis um filme que, se depende – como habitualmente – dos seus tornados chamados actrizes (repetentes: Blanco, Moreira, Breia, Almeida), não menos vive da forma como, contrariamente ao que acontecia num filme como Sangue do Meu Sangue, se abstém – mesmo que inconscientemente – de carregar na tecla da boçalidade: sim, o calão e os palavrões estão lá, mas são agora apenas um dos elementos de composição das personagens, e já não o centro gravítico, o grande chamariz (“Eis o Portugal feio, porco e mau!”) de todo o filme. Ao contrário de alguns filmes mais recentes de Canijo, as personagens possuem espessura, têm um passado e um futuro (têm, enfim, uma “história” dentro de si), e é na sua convivência durante um momento particular que, pelo meio de várias peripécias (há algo de felliniano naquela cacofonia de mudas de roupa, banhos, refeições) e muito humor (elemento que escasseava nos registos realistas anteriores do cineasta), vem ao de cima o olhar (e não tanto o trabalho de câmara, bem menos habilidosamente ostensivo do que noutros filmes) de Canijo sobre os afectos, os ressentimentos e os egos de 11 mulheres “à beira de um ataque de nervos” enfiadas numa caravana – e, por essa tocante sensibilidade na imersão naquele mundo particular, Fátima é, desde já, um dos grandes road movies do cinema português. Se Canijo se interessa pouco pelo fenómenos religioso em si (pelo menos na versão mais curta do filme que tivemos oportunidade de visionar), não deixa de ser curioso como as noções de “sacrifício”, “devoção”, “culpa”, “arrependimento” ou “milagre” estão sempre latentes naquela dinâmica grupal densa, conflituosa, por vezes mesmo violenta, como se a “peregrinação”, a “viagem” destas mulher fosse até a uma qualquer “interioridade” dentro delas mesmas. Injusto seria também não reconhecer a beleza daquela chegada a Fátima, comovente momento – inclusivamente de um certo misticismo (ainda que involuntário) – em que sentimos no corpo o cansaço, a dor, o alívio (a tal latência dos conceitos religiosos…) ou uma simples brisa que atravessa as personagens nos instantes daquela (im)possível reconciliação (a velha ideia de que um silêncio pode dizer muita coisa). Momento, também, em que Canijo, mais do que se “silenciar” a si mesmo (i.é, a câmara), “desliga”, sabiamente, a voz às personagens, deixando que a coralidade religiosa as envolva, pontos minúsculos numa onda ou força maior que elas, como no Viagem em Itália de Rossellini. Há milagre, não há milagre?... Perguntem a Ingrid Bergman.
 
Foge (2017), Jordan Peele ★★★
Se ainda há pouco tempo referíamos aqui como, actualmente, é no cinema de terror e sci-fi que uma certa ideia de cinema clássico (americano) é possível encontrar com mais nitidez, este aplaudido filme em Sundance é mais uma prova a juntar à colecção, com o plus de Peele revelar uma particularmente elegante noção de mise en scène, simultaneamente arriscando alguns números interessantes (uma câmara à mão mais tremida aqui e ali, alguns enquadramentos menos convencionais, por exemplo) mas sem nunca prejudicar a coerência global da imagem. Filme “transgénero”, entre o thriller, o horror movie e a comédia, o cineasta assegura-lhe solidez do princípio ao fim, sabendo balancear o suspense e o mistério (a sensação de que algo de muito errado se passa naquela mansão quasi hitchockiana) com as questões políticas (raciais) e inúmeros gags (a caricatura extremada imprime um "humor terrorista” e, pontualmente, radical ao filme – exemplo: no final das contas, não há um branco "bom"), nunca permitindo, contudo, que a “mensagem” se transforme em bandeira e apague o interesse intrinsecamente cinematográfico (e, até, meta-cinematográfico) do filme (a importância do olhar, a fotografia como choque psicanalítico/revelação da verdade). E isso muito por culpa do argumento, que, à melhor maneira do tal “classicismo” a que aludimos, se mostra inteligente e subtil em doses iguais, cosendo-se e descosendo-se permanentemente, os elementos narrativos e plásticos em reenvio constante (o veado inicial como aviso e premonição; a mitologia do veado que depois nos será apresentada; os cornos do veado com que o sogro é morto, assim se vingando os “dominados”, os explorados; os negros como potenciais “beasts'”/animais pela sua suposta “genética”…). Enfim, uma primeira (!) longa-metragem auspiciosíssima para Peele.
 
Música a Música (2017), Terrence Malick ★★
Por esta altura, os problemas no cinema de Malick são de duas ordens de razão: a abordagem estética, por um lado, e o facto de os seus últimos três filmes mimetizarem, a um ponto extremo (quando não constrangedor), essa mesma abordagem. Com efeito, desde A Árvore da Vida que se firmaram os processos e tiques do actual "estilo Malick", os mesmos presentes em A Essência do Amor e Cavaleiro de Copas e que aqui se descortinam logo na primeiríssima cena do filme: uma porta entreaberta e um actor de cada lado olhando-se no escuro, a câmara serpenteando de baixo para cima (quase nunca de cima para baixo). Está dado o mote para tudo o que adiante se repisará e que aqui apenas exemplificativamente se enuncia: as discussões filmadas invariavelmente à janela, como se não houvesse outro lugar para as ter (curiosamente, sempre janelas amplíssimas em apartamentos de moderníssima arquitectura); planos aproximados de dois corpos em coreografia do tipo “amor-devoção” (um de pé e o outro, de joelhos, abraçando-o); mãos filmadas a roçar cortinados e outras texturas que tais; pés molhados numa qualquer superfície aquosa; a câmara esvoaçante sempre a tirar partido da contraluz; ou, enfim, as vozes em off, substitutas praticamente em absoluto de qualquer réstia de diálogo – embora este até seja um dos aspectos que permanecem interessantes no cinema de Malick, i.é, a forma como cria um diálogo emocional “subterrâneo” entre as personagens, colocando os pensamentos interiores de cada uma em confronto (ora num sistema de "pergunta e resposta", ora em diálogo puro), um pouco como acontece na vida, em que tantas vezes desconhecemos como, a um nível insondável, aquilo que nos vai na cabeça bem pode estar em "comunicação" com os pensamentos dos outros, todo um mundo "secreto", por isso que poético, a envolver-nos. Isto é o que de genuinamente belo e inventivo vai sobrando dos filmes de Malick, que à replicação de processos soma um argumento paupérrimo (amores e desamores de quatro personagens que habitam vagamente o “mundo da música”) no qual às personagens pouca ou nenhuma profundidade é dada, a ambição filosófica de Malick a redundar, contra a sua vontade, em figuras de papelão. As aparições de Patti Smith e Iggy Pop são confrangedoras (estão lá para quê, exactamente?) pela superficialidade do que se lhes ouve (sobretudo Smith), o que, perversamente, as desvirtua e as faz parecer gurus de auto-ajuda encardidos. Embora de “milagres” esteja o cinema de Malick cheio, a esta altura do campeonato, talvez já não seja de esperar, para nosso desgosto, nenhum volte-face no cinema de Malick (saúde-se, por outro lado, a liberdade e independência do americano para poder fazer os filmes que quer e como quer).
 
Alien: Convenant (2017), Ridley Scott
É caso para dizer que, à terceira, não é de vez: Ridley Scott volta a não conseguir empolgar como em 1979, data do original Alien, desde logo porque o medo, matéria por excelência no primeiro filme da saga (o segundo é Prometheus, 2012), é coisa que praticamente não existe neste filme, que se vulgariza como “filme de acção” sem brilho igual a tantos outros produtos audiovisuais que circulam pelas salas sem glória. Nem é apenas aquela coisa do “mostrar demais” (a máxima “less is more” como fórmula para a criação de atmosferas desconfortáveis para o espectador); nem demais, nem de menos, simplesmente não se vislumbrando nervo ou génio para manipular o espectador e colocá-lo em sentido. De resto, não deixa de ser constrangedor reparar como filmes recentes se revelam ora “mais Alien” do que esta sequela realizada pelo seu criador original, caso de “Vida Inteligente” de Daniel Espinosa; ora desenvolvem determinadas ideias de forma bem mais estimulante do que Scott aqui faz, como acontecia em “Passageiros” (2016, Morten Tyldum), onde o sono criogénico dos colonos a bordo de uma missão espacial também era interrompido a meio do caminho de forma imprevista. Com a excepção de duas ou três sequências de relevo (a do chuveiro, por exemplo), o filme, na sua indecisão em explorar a questão metafísica (os homens e as máquinas, o livre arbítrio e a submissão, a origem da criação) e a matança do bicho (e quanto capital visual aqui se desperdiça…!), estatela-se ao redondo, rapidamente se esfumando da memória do espectador assim que este abandona a sala.


segunda-feira, 29 de maio de 2017

sinais

Tem muitos sinais pelo corpo, uns maiores, outro mais pequenos. No seu rosto negro, debaixo das pálpebras, eles assemelham-se a pequenos grãos de areia, rasos e escuros, dando a ideia de que se podem desprender delicadamente a qualquer momento (nunca se desprenderão, porém). Areia; como se um dia ela tivesse sido rocha numa das muitas terras que lhe correm no sangue (Cabo Verde, Timor, quem sabe Brasil, até...), como se o tempo, o vento e a água tivessem feito com ela o seu trabalho de erosão, sem jamais conseguirem apagar, contudo, as derradeiras origens das suas ancas, dos seus seios, do seu cabelo, dos seus lábios.
 
"Sinais". Grãos de areia como resistência, réstia de memória dos distantes continentes habitados pelo calor e a humidade que te faltam aqui. Tu és um alegre ser do passado, cada movimento do teu corpo carregando séculos de história. Milhões de sóis, suores, sangues, salivas.

Regresso ao Futuro - Pausa temporária

 
 
Como alguns já terão reparado, não houve REGRESSO AO FUTURO no último mês na Antena 3 como habitualmente. De facto, por motivos não-técnicos e que não me são alheios (nomeadamente, necessidade de foco em determinados projectos), o REGRESSO AO FUTURO vai estar suspenso temporariamente, até ao seu “come back” previsivelmente já durante a época de mergulhos.
Até lá, podem ouvir todos todos os podcasts anteriores na descrição do vídeo no YouTube:
 
1.º EPISÓDIO | 26-10-2016
Celebrate!: 10 anos de "Máscara" (2006, Expeão) e o concerto de "encerramento" de "UniVersos" (2012, Virtus).
Podcast: http://www.rtp.pt/play/p442/e256195/rimas-e-batidas (a partir dos 52m50)
 
2.º EPISÓDIO | 30-11-2016
Sunny Los Angeles!: A soul das dulcíssimas The Teens Queens e o rap calmeirão de Kid Frost.
Podcast: http://www.rtp.pt/play/p442/e261895/rimas-e-batidas (a partir dos 53m40)
 
3.º EPISÓDIO | 28-12-2016
A 4 mãos... O conceito de DUPLA no hip-hop: Emanon, Pete Philly & Perquisite e Subverso.
Podcast: http://www.rtp.pt/play/p442/e265580/rimas-e-batidas (a partir dos 53m18s)
 
4.º EPISÓDIO | 25-01-2017
New York's Finest... Mulheres que amamos: Jean Grae, Aaliyah e Kelis.
Podcast: http://www.rtp.pt/play/p442/e270099/rimas-e-batidas (a partir dos 54m54s)
 
5.º EPISÓDIO | 1-03-2017
Hip-hop save the queen! O esquecido hip-hop inglês pelas vozes de Speech Debelle, Funky DL e The Streets.
Podcast: https://www.rtp.pt/play/p442/e275721/rimas-e-batidas (a partir dos 53m34s)
 
6.º EPISÓDIO | 29-03-2017
A primeira e última vez ... Funk e hip-hop portugueses dos anos 2000 pelos Roulote Rockers, Monstro Robot e Merchandising.
Podcast: https://www.rtp.pt/play/p442/e281842/rimas-e-batidas (a partir dos 59m23s)

segunda-feira, 8 de maio de 2017

secando






Sob Águas Claras e Inocentes, 2016, Emiliano Cunha

sexta-feira, 5 de maio de 2017

Artigos - Kendrick Lamar



Para quem não sofre de excitação-esquecimento, sirvo Kendrick Lamar em dose dupla no Rimas e Batidas, primeiro interrogando-me sobre a unanimidade (acrítica? informada?) que se gerou em seu redor, depois na crítica ao seu novo álbum.


Primeira parte: http://www.rimasebatidas.pt/kendrick-lamar-com-um-grande-talento-vem-uma-grande-exigencia/

Segunda parte (crítica): http://www.rimasebatidas.pt/kendrick-lamar-damn/

quinta-feira, 27 de abril de 2017

Crítica de cinema




No Artes Entre As Letras desta semana, escrevo sobre o São Jorge, Aquarius e o Life. Bons filmes!

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São Jorge (2016), Marco Martins ★★★
O filme que deu a Nuno Lopes o prémio de melhor actor em Veneza confirma Marco Martins, depois de Como Desenhar um Círculo Perfeito e Alice, como um dos mais relevantes cineastas portugueses da actualidade. É nas costas de um Nuno Lopes “encostado às cordas”, sempre em passo rápido, que vamos percorrendo as margens de Lisboa, do bairro da Bela Vista ao submundo das empresas de cobranças difíceis, sempre no escuro, sempre de noite – é caso para dizer que “a morte sai à rua”. Ao contrário do que por vezes se vê no cinema nacional, em que a “portugalidade”, a pretexto de um tratamento que se pretende o mais “sociológica” e genuinamente possível, acaba retratada de forma boçal e forçada (caso, por exemplo, de Sangue do Meu Sangue), Martins filma o país e os portugueses de um período terrível (a crise e a presença da Troika) com uma justeza singular, sabendo explorar as histórias e os dramas de uns e outros (a pobreza, a imigração, a luta sindical) com o mesmo respeito e sensibilidade, sem jamais cair, porém, na velha tentação de endeusar as personagens num simplismo ingénuo (José Raposo, em magnífico desempenho, é o mesmo homem que admiramos na luta sindical e repudiamos no que de racista e xenófobo manifesta). Martins demonstra uma grande solidez na câmara (sente-se à distância que sabe e domina perfeitamente os planos e os enquadramentos que imaginou), assim como no trabalho de iluminação, determinante num percurso que se faz sempre – literal e metaforicamente – na sombra, espécie de “descida aos infernos” de um homem bom cuja imagem exterior volumosa não bate certo com a sua natureza profundamente frágil, “lutador” que, para fazer dinheiro, tanto “leva” (no ringue) como “dá” (nos devedores). Nesta “queda de um anjo”, simultaneamente  realista e melodramática, há a apontar de menos bom a previsibilidade do argumento (sequência do tipo contenção-explosão-redenção), patente no modo como o filme termina, final aberto (e “fuga para a frente” quer para a personagem, quer para o próprio filme) que já se pressentia desde, pelo menos, o segundo terço do filme.

Aquarius (2016), Kleber Mendonça Filho ★★
O último filme de Kleber Mendonça é o típico exemplo de uma proposta cheia de boas intenções mas cujo resultado final se revela coxo, quase caricatural. Se o argumento, em si, se mostra pleno de sentido e oportunidade, a forma como Mendonça procura filmar aquela sensação de "aprisionamento" progressivo e silencioso (e carpenteriano, não fosse o americano uma das grandes influências de Mendonça) em torno de Clara (Sónia Braga) nunca convence, desde logo pelo modo como o brasileiro, visivelmente fascinado com a sua actriz (caso clássico de uma "diva" que o é por si só, não carecendo de uma câmara aduladora), a contempla a todo o tempo, fazendo-se notar mais a presença da câmara do que a da actriz, ambas saindo a perder. Mas o problema está também na desarmonia da câmara de Mendonça (muitos e diferentes modos de filmar, de planos gerais abertíssimos a grandes planos irrelevantes, "zoom in" abruptos que lembrando, por exemplo, De Palma, acabam por ser mais evocadores do que outra coisa, inclusivamente ângulos diversos, como aqueles oblíquos que captam Clara a mirar o prédio) e na incapacidade da montagem em dar a fluidez necessária; na fragilidade da mise en scène, visível em cenas que simplesmente não funcionam (as conversas de Clara com o jovem imobiliário, o flirt frustrado com o homem da festa, a tarde com o jovem casal na praia) e, até, do trabalho de representação (se se pretendia algum “naturalismo”, os resultados traíram claramente as intenções); ou, ainda, na música brasileira martelada, tentativa de injectar, sem qualquer subtileza, intensidade e simbolismo à força. Mas até o próprio o argumento se revela, no seu desfecho, assaz frouxo, algo a que nem Sónia Braga, actriz de riquíssimos recursos, consegue dar a volta: não só a ameaça de um escândalo nas notícias (num tempo em que os "escândalos" duram, em virtude da diarreia noticiosa das redes sociais, pouco mais do que 24 horas, se durarem) como aquela ida de Clara à imobiliária onde apresenta a (pobre) prova da malvadez acabam, afinal, na sua inocuidade, por fazer do filme um objecto inofensivo e pouco ou nada subversivo (contra aquilo que, supõe-se, era intenção do cineasta).

Life (2017), Daniel Espinosa ★★
Coisa já vista (Alien, The Thing), é certo, mas nem por isso de deitar fora, o filme de Espinosa reflecte algo que de há uns anos para cá se vem sentindo no cinema americano, a saber, a tendência para ser nos géneros de terror e de ficção científica que hoje encontramos, na sua sobriedade, solidez e economia (da narrativa, não de recursos), algo (um estilo, uma postura) próximo de uma certa ideia de cinema “clássico” (americano). Se as referências cinéfilas são as inicialmente mencionadas (e o filme saia, na comparação, a perder), não deixa de agradar à vista a mão de Espinosa na câmara (aquele longo plano sequência inicial é todo um exercício cinematográfico “exótico” de ver actualmente em filmes deste orçamento e mediatismo), o trabalho competentíssimo dos actores (Jake Gyllenhaal, como quase sempre, excelente, e Rebecca Ferguson a reclamar decididamente voos mais altos) e, enfim, a seriedade do argumento, que, embora faça a questão metafísica ceder ao action movie, não autoriza nunca a presença daqueles momentos pateticamente melodramáticos habituais (os de Gravity ou Interstellar), simultaneamente sabendo sempre manter o suspense no espectador, de que o final, a anunciar uma sequela, é o culminar.

terça-feira, 18 de abril de 2017

Crítica - "All-Amerikkan Bada$$"



A minha crítica All-Amerikkan Bada$$, o novo álbum de Joey Badass, no ípsilon da sexta-feira passada.

segunda-feira, 17 de abril de 2017

sim, até poemas




(Una vita difficile, 1961, Dino Risi)

quinta-feira, 13 de abril de 2017

Texto - Da Weasel

 
 
O meu contributo para a semana em que se celebraram, no Rimas e Batidas, os 10 anos do último álbum dos Da Weasel sai com alguma comoção à mistura – não podia ser de outra maneira.
O Pedro Coelho está nos créditos, o primeiro e único irmão que tive até 97.
 
Para ler aqui (clicar).
 
"Talvez não tenha melhor exemplo (a par do futebol) na minha vida dessa ideia de que o hip-hop, a música, enfim, a Cultura, aproxima as pessoas nas suas diferenças, de que as tornas amigas e benfazejas, do que esses 10 dias na Tocha; numa generosa parte, foram os Da Weasel que me “integraram” naquele território desconhecido, e, só por isso, a minha história e a deles já se misturam a um nível muito íntimo, esse capaz de nos fazer estremecer em qualquer momento das nossas vidas".
 
[Excerto]

segunda-feira, 10 de abril de 2017

a memória que nos ultrapassa


(Il Sorpasso, 1962, Dino Risi)

"Temos todos a memória distorcida da infância. Sabes porque é que dizemos sempre que a infância é a idade mais bela? Porque, na verdade, não nos lembramos de nada".

Andava à procura, há não sei quanto anos, desta ideia. Finalmente encontrei alguém que a verbalizasse - e não sei se isso é propriamente bom, mas agora também não interessa.

Podcast Regresso ao Futuro 29 Março

 
 
 
Veio tarde mas a boas horas: no podcast do REGRESSO AO FUTURO da Antena 3, começámos a dançar ao som do funk dos Roulote Rockers (“Projecto de Sábado à Tarde”, 2009), voámos para o universo paralelo (percursor de toda a Monster Jinx) dos Monstro Robot (“Monstro Robot”, 2009) e acabámos num “film noir” ambientado na Margem Sul realizado pelos Merchandising (“Merchandising”, 2014).
 
Tudo "one single projects" que reflectem a diversidade de estilos, gerações e geografias do hip-hop português e que, estando hoje desaparecidos, redobram o interesse em que os redescubramos.
 
 
 
 

sexta-feira, 7 de abril de 2017

TEASER #2: O NOSSO SANGUE / OUR BLOOD


 
 
NÃO CONSEGUES CRIAR O MUNDO DUAS VEZES
 
um filme de Catarina David e Francisco Noronha
 
Uma produção A Bunch of Kids

sexta-feira, 31 de março de 2017

mares do sul




(Tabu, 1931, F. W. Murnau)

quarta-feira, 29 de março de 2017

Crítica de cinema



No Artes Entre As Letras que saiu hoje para as bancas, escrevo sobre o Personal Shopper, do Assayas, e o belíssimo Alice nas Cidades, do Wenders, um filme para levar para casa e não esquecer nunca mais.


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Personal Shopper (2016), Olivier Assayas ★★★
Se, à primeira vista, o sobrenatural parece algo de inusitado na filmografia de Assayas, a verdade é que o seu último filme não está exclusivamente – ou nem tanto, até – interessado em explorar esse território específico. Na verdade, ele funciona, sobretudo, como ponte para o francês abordar os assuntos bem mais terrenos ou mundanos a que o estamos habituados a associar. Partindo – e girando sempre em volta – da personagem de Kristen Stewart (actriz que o cineasta "repete" depois do seu excelente desempenho em As Nuvens de Sils Maria, e uma das melhores coisas que aconteceu ao cinema americano nos últimos anos, desde que, bem entendido, a mesma foi resgatada do produto juvenil Twilight), uma rapariga que, depois falecimento do irmão gémeo médium, aguarda que este o contacte do outro mundo, o francês enceta uma reflexão sobre como esse espiritual "mundo dos mortos" pode ter o seu reflexo no virtual mundo contemporâneo "em rede", esse em que, de tão aturado de informação e de previsibilidade (todos sabemos o que todos fazem, comem, vêem), umas simples reticências num chat de telemóvel podem constituir o zénite do mistério, do suspense e, até, do terror (isso e todas as demais manifestações tecnológicas: as claustrofóbicas janelas de chat, o “modo avião” como temporária forma de nos conseguirmos “desligar” e a subsequente e sôfrega necessidade de “actualização”, etc.). E é através desse mistério que a virtualidade encerra que Assayas aproxima as relações “em rede” de relações “mediúnicas” – apesar das fotografias, do “likes” e das mais diversas manifestações, quem é, de facto, a pessoa com quem falamos num chat? Até que ponto a comunicação virtual, na forma como distorce a percepção mútua, não faz dos interlocutores corpos habitados por… “espíritos”? São esses os dois planos de observação que Assayas inteligentemente relaciona: um físico, mundano, aludindo à ansiedade, à angústia, inclusivamente ao cansaço físico que o “estar ligado” provoca em nós (o modo como Stewart está permanentemente agarrada ao telemóvel, se também possui uma dimensão humorística, chega mesmo a fatigar e, até, a nausear o espectador); e um “metafísico” ou espiritual, no qual o encontro virtual vira “encontro imediato de 3º grau”. Se, felizmente, já não é vampira, Assayas conserva de Stewart, porém, a palidez, as olheiras, o ar “hibernal” e trashy, ao mesmo tempo que lhe reserva uma certa androgenia (com a qual joga ironicamente na cena do vestido). A grande nódoa é aquele monólogo final de Stewart (que se interroga sobre se tudo o que vê/ouve/pressente é “só na cabeça dela”), semi-twist pouco sério (a sugerir, afinal, um mero delírio psíquico) que imprime uma ambiguidade forçada ao filme.

Alice nas Cidades (1974), Wim Wenders ★★★★
Numa excelente cópia restaurada, aquele que será o que Wenders considerou verdadeiramente como o seu “primeiro” filme, e tomo inicial da sua trilogia “road movie” (juntamente com Movimento em Falso e Ao Correr do Tempo), vê-se hoje com o mesmo entusiasmo de à data do seu lançamento, forma de sublinhar como em nada se mostra datado ou ultrapassado. Não é só aquela coisa de “envelhecer bem” – mais do que isso, é um filme intacto na sua juventude, na sua frescura, ao que ajuda, claro, a sua própria natureza de road movie, de filme derivativo, “em andamento”, eternamente em busca de algo (porque é a procura aquilo que interessa, claro, e não a chegada), sendo, neste sentido, um filme “interminável”, como se o Philip do filme ainda hoje andasse por aí, entre estradas e polaroids, talvez até ainda na companhia da pequena Alice (não saberemos nunca se eles chegarão, de facto, a encontrar-se com a mãe…). É, por isso, um filme “sem destino” e que, não por acaso, termina num combóio em andamento, como se o espectador tivesse sido apenas uma estação onde ele parou momentaneamente antes de voltar à marcha. Iniciando Philip – e o próprio Wenders, ele mesmo um fascinado pelos EUA em toda a sua complexidade – a sua jornada na América, viaja depois para a Holanda e daí para a Alemanha, em todos esses lugares se sentindo um “estranho”, alguém “de fora” (inclusivamente no seu próprio país, a Alemanha), um estrangeiro “existencial” à moda de Camus (bem diferente dessa coisa, hoje papagueada por tudo o que é publicidade turística “low-cost”, do “cidadão do mundo”). Avulta, claro está, a habitual costela cinéfila de Wenders, sobretudo através da reflexão sobre as imagens (as fotografias de Philip) e o olhar que sobre elas projectamos – se do Estado das Coisas guardamos, entre outras, a inesquecível afirmação de que o preto-e-branco é sempre mais verdadeiro do que uma imagem a cores, daqui saímos a pensar se, de facto, como se ouve a certa altura, uma fotografia nunca mostra o que realmente vimos inicialmente. Ou essa maravilhosa e abismal sentença, dita por uma personagem a Philip, de que a sua obsessão em fotografar se funda na sua necessidade em se certificar de que viveu aquele instante, de que viu o que fotografou, enfim, de saber que (ainda) existe – a imagem (o cinema, et pour cause…) como derradeira resistência ao esquecimento e à efemeridade, como elemento que nos fixa, a nós e ao nosso redor, para a eternidade, essa que tão bem joga com o carácter “interminável” do road movie. Pelo meio, há ainda essa inesquecível miúda (Yella Rottländer), a qual Wenders, aproveitando-se da sua extrema expressividade (através da qual lhe consegue sacar trejeitos perfeitamente adultos), vai captando de um ângulo progressivamente mais ambíguo, sexualizado, espécie de proto-Lolita (altiva, mimada) que, na praia, pergunta a uma estranha se acha que Philip tem aparência de ser seu pai. É, pois, um desses filmes altamente recomendáveis, pois que fica connosco muito para lá do seu visionamento, à semelhança do modo insistente como as imagens da paisagem americana se passeiam na cabeça de Philip quando, confrontado pelo seu editor com o facto de só ter fotografias e não palavras (texto), lhe responde com uma pergunta: “Não posso escrever com imagens?”. Bom, isso, como diria um certo sujeito chamado Robert Bresson, chama-se cinema.


São Jorge (M. Martins)
★★★
Personal Shopper (O. Assayas)
★★★
Alice nas Cidades (W. Wenders)
★★★★
Moonlight (D. Chazelle)
★★★
Jackie (P. Larraín)
★★★
Paris, Texas (W. Wenders)
★★★★
A Autópsia de Jane Doe (A. Øvredal)
★★★
Aquarius (K. M. Filho)
★★


Crítica - "More Life"




Depois da minha crítica a Views (2016, ler aqui), continuo a acompanhar o singular trajecto de Drake, agora olhando para o seu recém-editado trabalho More Life.

Para ler mesmo ali ao lado no Rimas e Batidas (clicar).


Eppur si muove – apesar da inegável existência de uma “fórmula Drake”, apesar de tudo parecer relativamente idêntico, há neste álbum (…) um movimento qualquer de deslocação, uma tendência para aqui ou para ali que impede a estagnação, que abre sempre, mesmo que timidamente, a porta a algo mais (a um género, a uma geografia, ou, simplesmente, a uma qualquer atmos...fera nova…). (…) A obra de Drake, neste momento, funciona um pouco como o planeta Terra: embora pareça parada, está, na verdade, num lento, profundo (…) e permanente movimento, embora possuindo sempre, também como a Terra, uma centralidade referencial (o hip hop, o R&B). Se essa trajectória se concretizará numa translação e, consequentemente, num retorno ao ponto de partida (o que seria o definitivo atestado do esgotamento criativo de Drizzy) ou se prosseguirá livre e indefinidamente no cosmos, eis o que fica (novamente) por saber”.

segunda-feira, 27 de março de 2017