quarta-feira, 12 de dezembro de 2018

We will never have Paris again




(Ultimo tango a Parigi, 1972, B. Bertolucci / Love, 2015, G. Noé)
 
 
 
[Ontem, ao rever o do Bertolucci, apercebi-me de como o do Noé nele se baseia/inspira livremente. Há muitos, mesmo muitos pontos comunicantes (inclusive uma cena filmada, também em modo "strolling", nesta ponte: não consegui encontrar o still exacto do Love, este foi o mais próximo que encontrei). Aliás, o Love torna-se mesmo outro filme quando lido a partir do do Bertolucci.]

disappear








(Light Sleeper, 1992, P. Schrader)

 
Schrader sempre a "jogar ao cinema", completamente embebido na gramática cinematográfica e na cinefilia. Nesta cena, por exemplo: não sendo um cineasta propriamente casto (de todo; embora o gráfico, o explícito, também não sejam marcas suas), repare-se como, meta-referencialmente, ele resolve a cena. "Let's disappear": forma simultaneamente de 1. elidir a questão visual do sexo; 2. "desaparecerem" no desejo, no prazer, no orgasmo (tal e qual na droga de que ambos tentam escapar); 3. desaparecerem, efectivamente, literalmente, do enquadramento; 4. desaparecerem dos olhos do espectador, porque o êxtase absoluto só a eles lhes pertence e diz respeito - mas também porque, em termos de "indústria", a cinematográfica e a moral, "tem que" se esconder a coisa do espectador... e volta-se a 1.

Cheers!








07-09-2018 / SWIMMING
 
"Wishin' I still had Mac wit' me (Yes Lawd!)
How do you tell a nigga 'slow it down'
When you livin' just as fast as 'em?"

So long, Comrade


 
No Ípsilon da última sexta-feira, despeço-me do nosso bom camarada. Até já
 
“'Memories are the corner of my mind', canta Bradley na sua prisão nostálgica, impasse afectivo de toda uma vida, e na qual apenas durante 6 escassos anos fez aquilo para o que as suas goelas estavam fadadas. Com a sua partida, também ele, velho principezinho de asas abertas na capa desta celebração-despedida (há um raccord interessante entre as capas dos seus discos, rosto sorridente que se vai revelando crescentemente apreensivo), passou a fazer parte dessa perpétua geometria da nossa memória. Fly Little Boy".
 
 

sangue de outro sangue

 
 
Sobre o “Shoplifters” do Kore-eda – que me deixou relativamente indiferente, talvez pela repetição, melhor, redundância do filme no conjunto da sua obra, talvez pelo visível esforço “de efeito” (há uma certa auto-consciência de uma “pose” que está ganha junto do espectador praticamente à partida em virtude do universo humano que é captado: os rostos bondosos, cândidos, as expressões, os gestos), tudo coisas que talvez se condensem simbolicamente na circunstância de, nas prime...iras cenas do filme, o “pai” se queixar constantemente do frio e o espectador, na verdade, nunca o sentir, problema de mise-en-scène, da mais sofisticada (a iluminação, todo um regulador “térmico”) à mais elementar (traduzida no facto de as personagens não estarem por demais agasalhadas ou, simplesmente, não andarem em passo rápido na rua como normalmente se anda quando se tirita de frio, pelo contrário fumando, calmamente, nos passeios) –,
 
[fim deste inadmissivelmente longo parêntesis]
 
o que de mais determinante e poderoso entrevejo é mais ou menos isto que escrevi a propósito de alguns filmes que vi no ano passado em Locarno:
 
"At the end of the day, and after all the contemporary transformations that the notion of “parenthood” has undergone, the surviving theme is that love conquers all. That is what the powerful last scene in the Brazilian horror movie 'The Good Manners' tells us, in which Clara (Isabél Zuaa) tells her son, who is a werewolf, that she will not let him spend another hungry night just when the bloodthirsty mob is already on the other side of the door and ready to violate their family intimacy. Again, at the end of the day, it’s always this: a mother and a son together against the rest of the world. An unbreakable love bond resisting everything.
The fact that the bond which binds this mother and child has no biological nature only proves what is really fundamental here: that any idea of ”family” can only be based on affection and gestures of love, and, for that reason, the blood ties (and there is a lot of blood in “The Good Manners” exchanged between the characters) or other conventional representations of “parenthood” are nothing but artificial barriers that ultimately prevent us from loving others.
From another point of view, it is also to this idea that Travis Wilkerson points out in his impressive documentary “Did You Wonder Who Fired the Gun?,” in which the director himself undertakes an intimate and investigate journey on his racist, tyrannical, misogynist great-grandfather’s killing of a black man in the 1940s, as well as the current role of his aunt in an American white supremacist movement. What binds Wilkerson, a humanist, to his great-grandfather and his aunt? Just pure DNA. There is no love there; they’re his “family” only in the loosest sense".
 
 

quarta-feira, 5 de dezembro de 2018

ai as "caixas de comentários"



 
 
(LP Skiptracing, 2016)


Quando ouvirem falar mal das "caixas de comentários", mandem-nos ir dar uma volta ao bilhar grande.
 
"This whole album reminds me of my first and only boyfriend i ever had. We grew together so much, it was so fun weather we were being yelled at and called hippies by our favorite tea shop owner or running on the beach naked freezing our toes off. He really woke me up and showed me there was a life beyond the one i was living. I hope your ok Prud. I got our memories forever and ...even though your gone i will never forget the time we spent together and all our stupid inside jokes. Chasing my tail would have been the song we made love to for the first time for both of us. Lol we tried to get into it for like a hour but we couldn't stop laughing. Im glad we didn't but still that song still really special to me. I still find myself staring in the mirror at that mole on my shoulder you were obsessed with lol. I truly hope everyone can find a love like we had, i promise it would change the world. I know you will never see this but felt like i had to say it. The first month after i hear you got married i cried for days but now im just so honored to have felt such love and romance from a man who wanted nothing in return".

segunda-feira, 3 de dezembro de 2018

Hailu Mergia e Anderson .Paak no ípsilon




Muita coisa boa para ler no Ípsilon da última sexta-feira - nomeadamente, à conversa com o etíope Hailu Mergia e o seu regresso, 30 anos depois, com "Lala Belu"; e "Oxnard" de Anderson .Paak. Cheers!


Hailu Mergia: https://www.publico.pt/2018/12/03/culturaipsilon/noticia/taxi-driver-nao-fascista-armas-so-musica-humildade-1852606?fbclid=IwAR2PbTM46SS66oI4FK7gh-oDP9DFE9PHmHU9QOIC4QENHZOpJy5fJRzGEnc

Anderson .Paak: https://www.publico.pt/2018/12/03/culturaipsilon/critica/demasiado-tarde-demasiado-cedo-1852603

domingo, 2 de dezembro de 2018

luck / grace







(Light Sleeper, 1992, P. Schrader)

dançar, dançar













Contra o neo-puritanismo (e outros ismos que, dele se afastando e arrogando-se até de o combaterem, não menos policiantes pretendem ser),

dançar, dançar (Ohio Players, 1972-1988)

quinta-feira, 29 de novembro de 2018

I was number one for a while



 
 
(LP Fragile, 1984)

hard loving man






(LP Glad To Be Here, 1983)




Também conhecido por: "um gajo picuinhas".

quarta-feira, 28 de novembro de 2018

io e te: eu e Bertolucci

 
 
estou ligado a Bertolucci por difusos, transviados caminhos. memórias e afectos de geometria muito variável. ainda adolescente, quando o dito "cinema alternativo” era, julgava eu, “o Tarantino”, o seu nome integrava, juntamente com outros melodiosos apelidos terminados em “-ini”, todo um horizonte que eu sabia existir mas a que, por uma razão ou por outra, ainda não tinha tido a vontade necessária em aceder. mas a consciência da sua existência – pelos VHS dos meus pais que via nas prateleiras, lado a lado com os de um homem qualquer que fazia cinema num longínquo e exótico país chamado "Irão" – era já, para mim, um importante balão de oxigénio. os meus pais “sabiam” (o meu pai ainda hoje se continua a referir ao “1900”, que eu continuo sem ter visto, como uma “obra-prima”; estou para ver isso), logo, eu também poderia vir a saber um dia. em qualquer caso, só viria a ver o famigerado “The Dreamers”, filme obrigatório para as gerações nascidas em 80 e 90 (a par, sei lá, do “Requiem for a Dream” do Aronofsky, outro que continuo sem ver, tudo coisas de que, naquela idade, um tipo ouvia falar como “maradas”), depois de toda a gente, depois, até, creio, de lhe ter visto o “Il Conformista”. e, estou quase certo, também já depois de ter visto os Godards dos 60s (imagine-se, por isso, a minha decepção, a sensação de frouxidão). foi pela mesma altura em que os tais “-inis” já eram sinónimo, para mim, de todo um mítico, belo, passado (do qual faz parte, aliás, o meu cineasta predilecto).
 
mas a Bertolucci ligo também a faculdade de direito, um professor em particular que, de par com o Visconti, invariavelmente o evocava nas aulas, quase sempre sem sentido algum que não o prazer de falarmos daquilo ou daqueles que amamos (claro que tantos não percebem isto e, então, acto contínuo, toca a chamar o professor de “snob” porque está a falar de uma coisa que um gajo não conhece; está bem, pá), no final de cada aula se despedindo, de juridicamente ilícito cigarro fumegante na mão, com um “Ci vediamo!”. também na faculdade, no cineclube de direito mais concretamente, o “Prima della rivoluzione” foi, por um motivo de que agora não me recordo, um dos pouquíssimos filmes que programámos que não pude ver (ou em que tive de sair a meio). Foi numa sessão especial, vejo agora, com bolo e tudo o mais (nomeadamente, ingenuidade e romantismo): https://cineclubefdup.blogspot.com/2012/12/sessao-dupla-amor-e-revolucao.html?fbclid=IwAR1dWMs4gk4QA69-Xh1o6Cg3hkBAOG4xcHdEiTLU-mmlFBFhoDDoeIPYEIA
 
mas a mais espectacular ligação que tenho com Bertolucci é, enfim, da ordem da fixação: tinha-me apaixonado pela Tea Falco (que nome, este, nossa senhora) no “Io e Te” (por falar em ingenuidade e romantismo) e, em 2014, num dos 365 dias mais felizes dos meus últimos anos, no chuvoso dia em que me despedia da I. para apanhar a camioneta para o aeroporto, ela, a Tea, estava ali a 3 metros de mim, cigarro na boca, botifarras e vermelhíssimos lábios. zombie, punk e vampira como no filme do Bertolucci (foi nas mesmas férias em que, ao passar na rua, vi da janela a Stacy Martin num restaurante, mas, neste caso, não me pareceu tão ninfomaníaca como no filme). 10, 15 segundos e oupa, já um pé (o esquerdo, só pode) a subir para a camioneta e olha, adeus Londres. Ci vediamo!
 
 
(Fevereiro de 2014, o eterno retorno...: http://obosforo.blogspot.com/2014/02/londres.html)
Não tenho por hábito publicar/partilhar este tipo de artigos, mas é a primeira vez que oiço alguém a falar desta forma sobre algo que me preocupa ("angustia" será a palavra mais apropriada) e para o qual tenho ideias semelhantes (e digo-o tendo já pensado/pesado as questões jurídicas que estão em cima da mesa, por defeito - dos grandes - profissional). É por aqui o caminho.
 
"Google e Facebook têm presença tão relevante que quase criam novas formas de se viver socialmente. São... responsáveis por isso e precisam se abrir à regulação. E não apenas do Judiciário, mas com estruturas próprias, para que não se tornem um ambiente descontrolado. E teremos de caminhar para uma solução em termos de direitos de conteúdo (...). Na medida em que esses ambientes se tornam mais relevantes para a vida social e dos negócios, eles não podem se eximir dos efeitos colaterais que causam nessas esferas. Uma das discussões que emergiram é a de desmembrar o Google em várias empresas, para que o poder não fique tão concentrado. Isso já ocorreu no passado, com a Standard Oil e com a AT&T. Seria algo saudável para a economia, as agências de propaganda e a sociedade".
 
 
Artigo completo:
 


(Hardcore, 1979, Paul Schrader)

terça-feira, 20 de novembro de 2018

move and groove together



 
 
(LP Sweet Southern Soul, 1969)

O Sangue


 
 
 
(Mauvais Sang, 86, L. Carax / Três Irmãos, 94, T. Villaverde)

segunda-feira, 19 de novembro de 2018

mutação


 
(Os Mutantes, 1998, Teresa Villaverde)


Como, provavelmente, muita gente da minha geração, foi um dos primeiros filmes do "cinema português" que vi - no computador, claro, infelizmente. Todos estes anos depois, a revisão (agora sim, em tela; louvável retrospectiva em Serralves) não decepciona - pelo contrário, o filme cresce, força que é essa que os rostos destes actores carregam, tanto mais impressionante sendo eles debutantes (e não-profissionais, em todo o caso) que, em tantos e longos planos, aguentam a câmara em close, só pele e olhos exprimindo o indizível. Chapeau, TV.

 

Ao cuidado de 2018 e dos anos que aí vêm:



 (Blue Collar, 1978, Paul Schrader)

 
"They pit the lifers against the new boy and the young against the old. The black against the white. Everything they do is to keep us in our place".