sábado, 28 de dezembro de 2013

don't blame me



"Don't blame", álbum Eastern Sounds (1961). Yusef Lateef.

A latere, "don't blame me" é um pouco o que andam todos a dizer uns aos outros na obra-prima do Farhadi (O Passado) que temos o privilégio de ter entre nós nestes chuvosos últimos dias do ano (ainda que involuntariamente, e com as devidas distâncias no plano estético, o Farhadi pega num tema hitchockiano e languiano clássico, o da permutabilidade da culpa). Bom fim de semana.

quinta-feira, 26 de dezembro de 2013

planes, trains and automobiles



"Planes, Trains and Automobiles", EP The BoomBox Diaries Vol. 1 (2012). Nitty Scott.

Os meus últimos dois meses foram assim: aviões, comboios e carros. Resumidamente, graças a Deus. Ou não tão resumidamente assim e não tão graças a Deus assim (ambos), se pensar que talvez tudo isso me tenha insuflado (esperemos que não apenas da forma como um balão se enche de ar) de uma sensação de movimento fundamental para outras coisas menos prosaicas da vida.

o suspeito do costume


A minha admiração para com Antonioni não cessa: a cada novo filme - e faltam-me muitos poucos -, novo maravilhamento, nova interrogação, nova luz, novo abismo profundo comigo mesmo. O resultado segue dentro de momentos (dias) no meu artigo de Dezembro para o À Pala de Walsh.

terça-feira, 24 de dezembro de 2013

2013: as imagens que vimos no escuro


Ferrugem e Osso (2012), Jacques Audiard.
 
 
Os melhores filmes de 2013 para o À pala de Walsh já foram revelados. poderão encontrar quer a lista final (resultante da contabilização das escolhas de todos os Colaboradores), quer as listas individuais. Sobre a minha lista, quero esclarecer, para quem interessar, dois aspectos.

O primeiro é que não tenho, nem de perto nem de longe, a pretensão de pensar que a minha lista tem os melhores filmes de 2013, canonicamente falando. Não, a coisa é bem mais modesta: são os filmes de que mais gostei. Ponto. Por isso é que me dá um certo gozo - e não é pela mera "excentricidade" da coisa, podem crer - ver que o Ferrugem e Osso só figura na minha lista individual. Pois é: pu-lo no lugar que pus (9.º) e, ainda assim, foi dos filmes que mais me tocou nestes (quase) 365 dias. 

O segundo aspecto prende-se com um inevitável exercício desculpabilizante que não consigo deixar de fazer neste tipo de seriações (sempre injustas, não há volta a dar): há alguns filmes que não vi e, que, por esse motivo, não poderiam constar desta lista. Nalguns casos, porque não chegaram às salas do Porto, nos restantes, porque estrearam recentemente e ainda não tive oportunidade de assistir (alguns que inclusivamente já saíram de sala). Alguns exemplos do primeiro tipo: Terra de Ninguém (Salomé Lamas), Tal Pai, Tal Filho (Hirokazu Koreeda), O Som ao Redor (Kléber Mendonça). Do segundo tipo: O Passado (Farhadi), O Desconhecido do Lago (Guiraudie).
Depois, enfim, há outros que simplesmente perdi: A Noiva Prometida (Burshtein), O Profundo Mar Azul (Davies), Não (Larraín), Vénus de Vison (Polanski), 00:30 A Hora Negra (Bigelow).

Explicando melhor o que quis dizer a propósito do Ferrugem e Osso.
Não creio que o que de positivo estas ordenações eventualmente transportem seja o rigor das coisas, a cerebralidade das escolhas. Isso não me interessa, ou não me interessa em grande parte. Fazer uma lista destas só faz algum sentido se nos der prazer, se nos permitir recordar, com gosto, com emoção, com ternura, as imagens que vimos no escuro. Como essa imagem justa em que uma mulher amputada (e tomara que fosse só fisicamente...) faz amor com um bruta-montes (mandemos às urtigas, então, o adágio godardiano: sim, c'est une image juste): a justeza da/na imagem, a justeza da/na captação (precisa, instantânea,  única-no-tempo), num acto tão íntimo como é esse, da doçura e fragilidade de duas lost souls perdidas num corpo que não dominam, que lhes é estranho, que não desejam... O Corpo (também) é um lugar estranho.

E é isto. Voltaremos ao escuro e às imagens, amantes que somos de fantasmas, de ritos caducos, de mitos esquecidos. Feliz Natal.


quinta-feira, 19 de dezembro de 2013

cinefilia (cine- + -filia), substantivo feminino

"O mistério estava na matéria de que eram feitas as imagens e da estranheza que aqueles corpos me despertavam, a sua teatralidade abissal, vinda de um tempo – ou de uma maneira de “dar a experimentar o tempo” – que definitivamente não era o meu. O outro locus do meu fascínio estava nesta ligação que ainda hoje carrego dentro de mim e que não consigo deixar de cultivar: a cinefilia é coisa para noctívagos, coisa para vampiros, coisa para necrófilos, para quem se alimenta da escuridão, do desconhecido, da solidão e, enfim, da morte. O cinéfilo é um amante de fantasmas, do que partiu e não volta mais, do que a sociedade se precipita em enterrar ou considerar caduco. A cinefilia é um acto insurreccional, um voodoo que convoca o Deus-pagão cinema para reanimar as estrelas cadentes e os mitos esquecidos. É, portanto, uma actividade primitiva, um “rito” que pertence, por inteiro, às noites de lua cheia".

Texto obrigatório do Luís Mendonça, no À Pala de Walsh.

terça-feira, 17 de dezembro de 2013

morrer de amor




Rancho Notorious (1952), Fritz Lang.

Mais ou menos como o Lamar morria aqui.

domingo, 15 de dezembro de 2013

qualquer coisa e um pouco de jazz



"QualquerCoisa e Um Pouco DeJazz", álbum Alma & Perfil (2009). Praso.

"Relaxa
Somos tipo Lego
Encaixa
Mete som na caixa
E se isto é pecado, nenhum dos dois acha..."

sexta-feira, 13 de dezembro de 2013

terça-feira, 10 de dezembro de 2013

abraços desfeitos

Na verdade, o post anterior seria mais justo - a justeza, nestas coisas, vale o que vale, mas... - se o seu título fosse importado de um outro filme de Almodóvar (não interessa, para aqui, o filme em si, mas exclusivamente o seu título): abrazos rotos.

sexta-feira, 6 de dezembro de 2013

amantes passageiros

Olhares que não se cruzam como lixo que se varre para debaixo do tapete.

quarta-feira, 4 de dezembro de 2013

le cinéma est mort

Se as imagens morreram, por que razão haveriam as pessoas de se lhe olharem no metro em vez de curvarem - enforcarem? - as cabeças sobre telemóveis e afins?

segunda-feira, 2 de dezembro de 2013

benção

Não é crente, nunca foi. A palavra "Deus" sai-lhe de boca com a naturalidade ímpia de quem a pronuncia quando pragueja ou se comove profundamente numa sala de cinema. No avião, ao seu lado, uma senhora de idade benze-se circunspectamente. Sabe que o voo que tem pela frente é longo, muita água por baixo de si correndo, água que é força invisível apontando o caminho do retorno, que é, ao mesmo tempo, distância que o separa do destino. Água, ar: coisas que os homens não dominam.
Instintivamente, leva os dedos da mão direita à testa. Benze-se. Discretamente, com vergonha. Se tivesse uma cruz para beijar, beijá-la-ia com a mesma vergonha e determinação. Com igual certeza de que o mistério do divino é o mistério do humano e vice-versa.

domingo, 24 de novembro de 2013

descubra o erro


Livraria Travessa (uma das), Rio de Janeiro.

sábado, 23 de novembro de 2013

faz-me grande como um Deus na Grécia



"O Livro" (c/ Praso), álbum O Mundo é Meu (2011). Beware Jack.

"O meu futuro está escrito
só preciso de encontrar o livro
mudar a capa, o título
e levá-lo comigo
numa longa viagem, numa longa trip
como um caminho no trigo"

quinta-feira, 21 de novembro de 2013

flower child



"Flower Child" (c/ Kendrick Lamar), EP The BoomBox Diaries Vol. 1 (2012). Nitty Scott.

"They say greatness get better with time
They say concrete roses hard to find
Sit inside my room, and let these thoughts bloom
It's a secret garden in my mind
Flower child"

terça-feira, 19 de novembro de 2013

Walsh #4 - Crítica "You and Me" (Noutras Salas)


You and Me (1938), Fritz Lang.

Voltei a Portugal - à pala de Walsh, claro. O meu novo artigo tem por objecto um dos filmes menos vistos e comentados de Fritz Lang - "You and Me", que será exibido, no âmbito da retrospectiva que a Cinemateca vem dedicando a Lang, no próximo dia 21 de Novembro. Na Sala Luís de Pina da Cinemateca, pelas 22h. O artigo pode ser lido aqui.

You and Me imortalizou, entre outros momentos (a lua-de-mel “gastronómica”, por exemplo), dois absolutamente deliciosos, aquele que dá nome ao filme e, sobretudo, essa inesquecível sequência onde sobressai uma subliminar mas vigorosa mensagem de que o amor se sobrepõe aos impulsos meramente carnais: nas escadas rolantes dos armazéns, numa conversa aparentemente – só aparentemente – banal sobre ténis entre Joe e uma atrevida cliente (atente-se na polissemia quase infinita do diálogo e, especialmente, do verbo “to play”…) – que é, a bem dizer, todo um convite sexual –, Joe rapidamente se desliga e, concentrado no olhar de Helen, que sobe em sentido inverso, faz pousar, muito discretamente, a sua mão sobre a dela (só por esta sequência, só por este hands touch, Lang merecia um epíteto semelhante ao de Lubitsch…). Enfim, e para pouparmos nas palavras – embora, para bom cinéfilo, uma imagem não baste, faltando-lhe o movimento… –, é tudo de uma economia de meios, de um estilo (no autêntico sentido do termo, que dispensa “efeitos especiais” e adornos supérfluos), de uma delicadeza, que – para acompanhar, só por momentos, o espírito pessimista de Lang – já não se vê hoje em dia.

(Excerto)


sexta-feira, 15 de novembro de 2013

o olhar de Ulisses

 



Praia da Joatinga, Rio de Janeiro.

domingo, 10 de novembro de 2013

sunset boulevard


Ipanema, Rio de Janeiro. Fim da tarde. Frances Ha à direita.

terça-feira, 5 de novembro de 2013

Vale do Ave

O Pedro deu um salto ainda maior do que aquele que já tinha dado e criou a Vale do Ave, revista literária com lugar para crónicas, ensaios, ficção e poesia. Do the right thing e não deixem de visitar. Aight?

domingo, 3 de novembro de 2013

It's like '06 in your backyard and I'm in love with Jade



"Look What You've Done", álbum Take Care (2011). Drake.

"It’s like ’09 in your basement and I’m in love with Nebby
And I still love her but it fell through because I wasn’t ready
And your back hurt, and your neck hurt, and you smoking heavy
And I sit next to you, and I lecture you because those are deadly
And then you ash it and we argue about spending money on bullshit
And you tell me I’m just like my father, my one button, you push it
Now it's "Fuck you, I hate you, I'll move out in a heartbeat"
And I leave out and you call me, you tell me that you're sorry
You love me, and I love you, and your heart hurts, mine does too
And it's just words and they cut deep but it's our world, it's just us two
I see painkillers on the kitchen counter, I hate to see it all hurt so bad
But maybe I wouldn't have worked as hard 
If you were healthy and it weren't so bad"

quarta-feira, 30 de outubro de 2013

smartphone

Coincidência ou não, deixaram de ser o centro do mundo um do outro a partir do momento em que passaram a ter o mundo no telemóvel. Abjuraram, então, a tecnologia, mas já foram tarde.

terça-feira, 29 de outubro de 2013

it's the melody, stupid



«"I think it's weird if you hear a song and the artist isn't incorporating melody these days", Drake says (...). Drake continues: I understand who the greatest in the world are, at this my time in my life. I know about Bob Marley. I know about the Marvin Gayes, Jimy Hendrix, the Nirvanas. I'm aware of music. Hip-Hop always just seemed so different", explains Drizzy, who explains how rap and its fickle fans have been overly critical about anyone who streches the boundaries. (...)

(...) Melody and sing-songy rap hooks date all the way back to rap's early days. Songs like Grandmaster Flash's "White Lines" and Kurtis Blow's "Basketball" incorporated catchy melodic choruses to help move rap to the top of the charts. (...)

Singing in rap, however, has historically been met with some criticism. (...) But a study of rap will show hit-making MCs getting their R&B on every chance they get. (...) More ofter than not, rappers are singing their rhymes, or all-around just singing. (...)

Even the best of them [outros rappers] can afford to pay more attention to Drake's cadence and tonal progression in his verses. It's called songwritting. It's about more than just a rap. It envolves flow, one of the most underrated qualities in the MC argument.
Aside from the hooks on his records, Drake lends an interesting thought to the rap music fabric: the ability to melodically deliver a rhyme with each bar in a way that is musically sound».


Kim Osorio, "The Best of Both Worlds" (entrevista com Drake), in The Source, #249, November 2011, pp. 57-58.

segunda-feira, 28 de outubro de 2013

da sombra

No último artigo que escrevi (acolá) para o À pala de Walsh, sobre o filme Fruta Louca (1956, de Kô Nakahira), procurei focar um aspecto que, sob um prisma estético, se revelou revolucionário para toda a filmografia da Nuberu Bagu japonesa: o clareamento programático da fotografia. A propósito disto, referi-me a Jun’ichirō Tanizaki, para quem - e cito - "toda a estética japonesa se superiorizaria à estética ocidental por via, justamente, do predomínio da sombra na composição, de harmonia com esta visão das coisas se esgrimindo que o belo inerente a um determinado objecto se obtinha sempre por contraste com a sombra, sendo essa candência que conferiria valor estético ao objecto".

É precisamente sobre isto, sobre o Elogio da Somba e Tanizaki, que incide o último artigo do António Pinto Ribeiro para o ipsílon de 25 de Outubro, p. 39. Bom proveito.

the baby bang theory


Gravidade (2013), Alfonso Cuarón. 

domingo, 27 de outubro de 2013

Muitas vezes, a passagem do tempo mede-se nos pormenores mais comezinhos do quotidiano. Com o calor do Verão, antes de adormecer, vira-se o lado da almofada no qual, até aí, apoiámos a cabeça enquanto lemos. Uma última sensação de frescura antes do sono. No Inverno, pelo contrário, mantemos a almofada virada do mesmo lado, quente e amolecido, para fazer frente ao frio.
Também há outros quentes e outros frios, os das alegrias e das tristezas, mas nisso o tempo não corre. Fixa-os, congela-os num sítio próprio, como compassos circunscritos. É a banalidade do quotidiano que faz o tempo correr, para o bem e para o mal. 

I'm still in love with you girl


You and Me (1938), Fritz Lang.

sexta-feira, 25 de outubro de 2013

we still pump Biggie



"Sing Like Bilal" (c/ Joell Ortiz), álbum DJ Premier Presents - Get Used To Us (2010). DJ Premier. 



"New rap is cool but we still pump BIGGIE!"

domingo, 20 de outubro de 2013


O Gosto do Saké (1962), Yasujiro Ozu.


Olhar em frente - para o passado.

domingo, 13 de outubro de 2013

from time



"From time" (c/ Jhené Aiko), álbum Nothing Was The Same (2013). Drake.


"I've been dealing with my dad, speakin' of lack of patience
Just me and my old man gettin' back to basics
We've been talkin' 'bout the future and time that we wasted
When he put that bottle down, girl that nigga's amazin'
Well, fuck it, we had a couple Coronas
We might have rolled a white paper, just somethin' to hold us
We even talked about you and our couple of moments
He said we should hash it out like a couple of grown ups
You a flower child, beautiful child, I'm in your zone
Lookin' like you came from the 70's on your own
My mother is 66 and her favorite line to hit me with is
Who the fuck wants to be 70 and alone?
You don't even know what you want from love anymore
I search for somethin' I'm missing and disappear when I'm bored
But girl, what qualities was I lookin' for before?
Who you settlin' for? Who better for you than the boy, huh?"

sexta-feira, 11 de outubro de 2013

estão à espera de quê?




Nothing Was The Same (2013), Drake.

É, desde já, um dos álbuns do ano: obra praticamente perfeita (retirem-lhe "Hold On, We're Going Home", faixa metida a martelo para tocar no club, e uma coisinha ou outra) onde, além de ecoar o melhor do 808's and Heartbreak (K. West, 2008) e do Channel Orange (F. Ocean, 2012), predomina o talento letrista (não só no "conteúdo" do que é dito, mas, sobretudo, no wordplay com que é dito) de um tipo demasiado aparatoso para não ser julgado pela capa. Acontece aos melhores, Drake, live with that.


terça-feira, 8 de outubro de 2013

Walsh #3 - Crítica "Fruta Louca" (Raridades)



Fruta Louca (1956), de Kô Nakahira.

O meu último artigo para o À pala de Walsh debruça-se sobre o filme Fruta Louca (1956), de Kô Nakahira, e está já disponível para leitura aqui ao lado.
Filme pouco visto e lembrado (daí a sua inclusão na rubrica Raridades) que, a despeito do retrato de uma geração de jovens japoneses idiossincrática (a geração Tayozoku), foi preponderante para toda uma nova forma de fazer e pensar o cinema japonês - a Nuberu Bagu, "vaga" com afinidades com as outras (desde logo a francesa) que, pelos anos 60, varreram o cinema um pouco por todo o globo.

Num dos primeiros planos do filme (um plano americano), Haruji (Masahiko Tsugawa) é filmado, de frente, conduzindo uma lancha: é um rosto desorientado e perturbado o que vemos, próprio de quem – saberemos mais tarde – procura alguém, mas, sobretudo, procura algo: um rumo, um caminho, que, metonimicamente, são os que toda uma geração de jovens japoneses, a bem dizer, perseguia à época. Desse plano americano (que, gradual e claustrofobicamente, se convola num grande plano, espécie de aprisionamento psicológico progressivo da personagem, imerso na sua obsessão) saberemos, também mais adiante, pertencer à sequência final do filme: ou seja, o filme abre e fecha exactamente do mesmo modo, sintoma de que algo de errado perpassa esta geração, no sentido de que aquela perturbação não fica “resolvida” no filme, antes andando em círculo, sem saída. É a utilização da circularidade como factor indiciário da obsessão ou paranóia, sugestão que se repete, “plasticamente”, no final do filme, na cena (de um silêncio aterrorizante) em que Haruji descreve repetidas voltas em torno do barco onde se encontram Eri e o seu irmão, antes do acto final. Foi, assim, com essas voltas infernais, doentias, que Kurutta kajitsu abriu (escancarou…) a porta a pelo menos três dos temas-chave da revolução da Nuberu Bagu, da qual foi um prenúncio: o desejo, a obsessão, a morte.

(Excerto)


Soweto Kinch

Senhoras e Senhores, o estupendo Soweto Kinch - de quem neste local entretanto tornado ermo falei em 2008 (!) - toca, esta sexta-feira, na Casa da Música. Go with the flow:




domingo, 6 de outubro de 2013

os suspeitos do costume

O Cineclube FDUP voltou e não fez a coisa por menos: ele é Lubitsch, ele é Dreyer, Pabst, etc.. Nem é bom pensar. Confiram por vocês mesmos - right there.

o último grande junkie



"O Último Grande Junkie" (produção de Kilú), álbum Coisas de 1 Porco (2013). Beware Jack.

Coisas de 1 Porco é uma das melhores coisas que aconteceu nos últimos tempos ao hip-hop português - "fresh como o Prince em Bel-Air!", como se ouve na faixa acima. Por falta de tempo, não cheguei a escrever sobre o álbum, mas fica agora um cheirinho. Download gratuito ali.


quinta-feira, 3 de outubro de 2013

o princípio da ocupação


As Amigas (1955), Michelangelo Antonioni.

Repare-se na sombra (de resignação, de conformismo, do "pragmatismo triste" - feliz malgré tout) que pende sobre a Eleonora R. Drago.

sábado, 21 de setembro de 2013

il bacio


As Amigas (1955), Michelangelo Antonioni.

sexta-feira, 13 de setembro de 2013



"I'm the One Who LovesYou", álbum The Impressions (1963). The Impressions.

terça-feira, 10 de setembro de 2013

Walsh #2 - Crítica "Deep End" (Recuperados)


Deep End (1970), Jerzy Solimowski.

O meu segundo artigo (ali o primeiro) para o À Pala de Walsh já está on-line na rubrica Recuperados, onde tentei, de alguma forma, desempoeirar um filme tão singular como esquecido: Deep End (1970), do polaco Jerzy Skolimowski. Filme que, situado a meio caminho entre o fascínio e a interrogação crítica sobre o que foi isso dos anos 60 (a revolução sexual, a liberdade, a música dos Beatles e companhia, etc.), envelheceu só mesmo no passar dos anos.

Nesse olhar sobre a Inglaterra dos swinging sixties, há uma sequência que talvez simbolize, derradeiramente, a lente interrogadora e crítica do pintor Skolimowski (e se dizemos pintor não é por acaso, tamanha a importância da cor e das “pinceladas”, literalmente falando, que são dadas no filme, mas já lá iremos). Falamos da sequência – já perto do final do filme – em que Susan procura, desabridamente, com a ajuda de Mike, o anel de noivado que deixou cair num chão coberto de neve (um anel perdido na neve – só a imagem mental é arrebatadora). A ansiedade e o desespero de Susan em encontrar o anel chocam, com estrondo, nos ares dos tempos que Susan, de modo especialmente flagrante, encarna e se orgulha de transmitir aos homens (e são vários) com quem se relaciona: a libertação sexual, o amor livre, a libertinagem, enfim, o “why not?” elevado a novo santo-e-senha das relações sexuais.

(Excerto)

sexta-feira, 6 de setembro de 2013

apontamentos ébrios sobre a noção de Arte (sobre o que deve ser)



Husbands (1970), John Cassavetes.


"Terrible, terrible, terrible... terrible, unreal, unreal! No passion! (...)
Honestly, with soul! (...)
No feeling... no feeling! A little feeling! (...)
No, too cute... too cute! No cute, real, from the heart! From the heart! From the heart! (...)
You're not speaking to us! (...)
Where is the warm? Where is the warm? Where is the warm at your heart?"

quarta-feira, 4 de setembro de 2013

e pronto, é isto



"Nuvens Cinzentas" (c/ Vinil e Beware Jack), álbum Frankie Diluvio Vol 1 (2013). Blasph.

"Às vezes um gajo ri, às vezes um gajo chora
Dizem-me isto a toda a hora..."

sexta-feira, 30 de agosto de 2013

super rich kids


O Gangue de Hollywood (2013), Sofia Coppola.

O melhor do filme da Sofia Coppola é a selecção musical dotada de um notável significado intradiegético, de que é o melhor exemplo o Frank Ocean que fecha o filme: Super rich kids with nothing but fake friends (outra grandiloquente passagem é aquela em que se ouve o Kanye West a berrar, na cena do fotograma acima, Stop trippin' I'm trippin off the pow[d]er / Till then, fuck that the world's ours / 21st Century Schizoid Man).

Quanto ao resto, trata-se de um retrato, a princípio prometedor, de uma juventude que descamba numa reportagem inofensiva, distante e... desinteressante - vale, a este propósito, o que escreveu o Jorge Leitão Ramos: como podia deixar de ser inofensivo se foi a própria Paris Hilton a ceder a sua casa na vida real para fazer o filme?...

segunda-feira, 26 de agosto de 2013

isso do "realismo"


Até Ver a Luz (2013), Basil da Cunha.


Em 2013, encontramos precisamente o inverso do filme de Canijo: Até Ver a Luz é um olhar nu e honesto sobre a mesma realidade (a marginalidade do ghetto), mas agora sem bandeiras nem etiquetas - sem estereótipos, portanto (curiosíssimo notar como o combate aos estereótipos pode descambar no seu reforço...). Acresce o que de poético - e é muito! - o novo filme de Basil da Cunha transporta consigo (quase apetece falar, não fossemos traídos pelo conceptualismo, em "realismo poético"...), coisa perfeitamente ausente de Sangue do Meu Sangue, que, reclamando a bandeira do realismo, resvala para uma pornografia (que é ficção, que é simulacro, para chamar Jean Baudrillad) do real (alguém falou em "pornografia da tortura" para se referir a Só Deus Perdoa, pois permitam-me agora a adaptação).

Filme belíssimo para ver na noite que é a sala de cinema, nessa penumbra por onde (sobre)vivem os Sombras de todos os dias.

domingo, 25 de agosto de 2013

Crítica - "Frankie Diluvio Vol 1"



Novamente com mais tempo, voltei a escrever sobre música. A minha crítica sobre o primeiro disco de originais de Blasph, Frankie Diluvio Vol. 1, acabadinho de sair, já está disponível na RDB, aqui ao lado.

“Frankie Diluvio” notabiliza-se, sobretudo, para além da mestria na punchline (há coisas que só mesmo Blasph sabe cuspir com obscenidade e classe em doses iguais), na recuperação, em termos sónicos, do G-Funk com que Dr. Dre, nos idos de 90, revolucionou o hip-hop a partir da California, dando à luz a sonoridade com selo west coast (e que Dâm-Funk tem vindo a reciclar com o seu sedutor electro-boogie): samplagem do funk endiabrado tocado por gente como os Parliament e os Funkadelic (igualmente audíveis nos álbuns de alguns dos seu mais famosos membros, com George Clinton e Bootsy Collins à cabeça) acompanhada de baixos a rebentar pelas costuras (fat bass, não há melhor forma de o dizer) e, como pedra de toque, finas linhas melódicas tecidas pelos então inovadores – ao menos no mundo do hip-hop em sentido estrito (a bem dizer, os Kraftwerk já lhes tinham dado bom uso antes) – sintetizadores (a que Timbaland e companhia deu novos contornos, quase sempre de mau gosto, no hip-hop da primeira década dos anos 2000).

quarta-feira, 21 de agosto de 2013

histoire(s) du cinéma

Sabemos que andamos a ver filmes a mais quando, para avaliar se determinada conversa ou situação nos causaria, a nós e aos restantes presentes, embaraço ou desconforto, imaginamos a cena - o que é dito, quem o diz, quem está presente para além dos interlocutores e suas reacções - num filme. No meu caso, situei a cena - uma conversa "adulta" com a minha Mãe sobre um assunto que abananou a minha meninice dos dez anos - no Verão do Skylab, da Delpy (um filme de que nem gostei particularmente, mas não interessa). Supus que toda a gente à mesa (olha o filme a meter-se, olha) se riria entre umas copadas de vinho - e fiquei mais aliviado.

terça-feira, 13 de agosto de 2013

those were times of splendor in the grass


Esplendor na Relva (1961), Elia Kazan.

Sim, é aquela coisa toda do "cinema poder mais que a vida".

sábado, 10 de agosto de 2013

O que é que não ardeu em mim?



À Flor do Mar (1986), João César Monteiro.

"Um destes dias, vou ter de arranjar coragem para esgravatar nos escombros. O que é que não ardeu em mim? Essa é a questão essencial. Todos os sobreviventes têm de lhe dar resposta". 

sexta-feira, 9 de agosto de 2013

contemporary

Um senhor chamado Giorgio Agamben resume, em parcas e cristalinas linhas, uma série de coisas que eu penso sobre os tempos que correm:

"For if the speed of change is increasingly yet again, we will constantly be told that only people at the forefront of those technological changes can really comment on them. I would like to refuse that idea by quoting the Italian philosopher Giorgio Agamben: «Those who coincide too well with the epoch, those who are perfectly tied to it in very respect, are not contemporaries precisely because they do not manage to see it... The ones who can call themselves contemporary are only those who do not allow themselves to be blinded»".

Nick James, "Children of the evolution" (Editorial), in Sight & Sound, Volume 23, Issue 8, BFI, August 2013, p. 5.

terça-feira, 6 de agosto de 2013

Mãe, meti-me nos modelos

Num inocente excurso pelo mundo dos modelos do Blogger, fiz esta borrada com as minhas mãozinhas: mudei, sem querer, o modelo do blog e agora não consigo voltar atrás (ao modelo original, idêntico, por ex., a este, que não encontro nos actualmente oferecidos pelo Blogger). Alguém ajuda? (o meu email no perfil pessoal, à direita)

segunda-feira, 5 de agosto de 2013

telepatia



"Telepatia" (instrumental), Sam the Kid (2009, não editado).

Grande ingenuidade, a de acreditar que a comunicação em pensamento, cega e silenciosa, é o último reduto da compreensão (mútua). Se não é precisamente no pensamento que começam todas as desavenças...

agora em movimento



Vai e Vem (2003), João César Monteiro.

É uma cena - além do filme (o último) propriamente dito - com espírito de síntese da obra de J. C. Monteiro: a bizarrice, o humor, a erudição, a ternura, a melancolia - enfim, a mestria dos diálogos, de uma fineza absoluta. Ah, e, visualmente, podem esquecer aquelas cenas "tão lindas" do Woody Allen com a Diane Keaton junto ao rio. Sim, esqueçam Nova Iorque. Isto é Lisboa, é o Tejo, "é o atavismo" mais belo do mundo.

sábado, 3 de agosto de 2013

fica-se português


Vai e Vem (2003), João César Monteiro.

Não ouvia uma frase tão acertada - tão franca, tão triste, tão bela - há uma data de tempo.

sexta-feira, 2 de agosto de 2013

killing me softly


O Desconhecido do Norte Expresso (1951), Alfred Hitchcock.

terça-feira, 30 de julho de 2013

Time to meet the devil




Só Deus Perdoa (2013), Nicolas Winding Refn.

Em Só Deus Perdoa, sentimentos interiores de violência extrema permanecem recalcados na grande maioria das personagens (sobretudo Julian e Chang), como se todas elas fossem sanguinárias em potência, pelas mais diversas razões. Como se essa violência, de certo modo "natural" nos homens (e não só na sua primitiva existência animal, pois mesmo a Razão não impediu nem impede que a guerra, enquanto violência organizada, continue a ser uma realidade), fosse reprimida pelas convenções, de que o acto de Billy poderá ser visto como a radical e provocatória emancipação (com toda a gratuitidade que "time to meet the devil", dito por Billy antes da chacina, comporta). Esse recalcamento generalizado, essa base do icebergue (foi Freud quem situou as motivações violentas do lado inconsciente da mente humana), contrasta com o seu cume, ou seja, com aquilo que mais transparece à superfície: a aparente normalidade de todos (o polícia que garante a ordem; o dono que gere um clube de boxe) e mesmo a bondade ou "humanidade" dos seus afectos/gestos (o polícia "bom" que conta histórias à filha; o Julian que não consegue matar uma criança ou que aceita a "justiça" do assassínio do seu irmão).

Figuração perfeita desta violência em estado latente (adormecida mas capaz de acordar a qualquer instante) é a fornecida pelos numerosos planos das mãos de Julian. Muitas vezes filmadas em close picados, as mãos sobre as quais Julian silenciosamente medita acentuam a sua incapacidade e inquietação em domar o seu instinto de violência (daí a oscilação entre deixar vivo o assassino do seu irmão e a agressão inexplicável, sem mais, de dois homens num bar). Mãos estendidas e cheias de nada - mãos suplicantes, dirigidas a Deus, pedindo misericórdia (o forgiveness do título do filme) e rumo espiritual na vida terrena - que, volta e meia, se fecham em punhos simbolizadores de violência (de que o boxe é o produto "normalizado" socialmente aceite).

Mas, mais importante, são essas mãos que, outrora, se pintaram de vermelho-sangue, no crime edipidiano cometido por Julian ("he killed his father with his own hands", revelará a sua mãe), não sendo este um pormenor de somenos: são essas mesmas mãos, afinal, com que, ao longo de todo o filme, Julian tem alucinações/sonhos/delírios em as ver serem cortadas, como que se de um acto de justiça - "familiar" - se tratasse: são mãos que pecaram (que não estritamente no sentido religioso) e que, por isso, devem ser cortadas. Nesses delírios, é Chang que, amiúde, surge a cortá-las, assim se montando um intrincado e ambíguo sistema de "compensações": Julian, que deveria honrar a morte do seu irmão matando Chang, serve-se, afinal, deste último para sofrer a justa paga pela morte que provocou a seu pai. 

quinta-feira, 25 de julho de 2013

Na hora do terror, tentava consolá-la. Eis senão quando, estupidamente, depois de improvisar alguns conselhos - genuínos mas a que a ocasião sempre atribui um tom de conveniência barata -, digo, como forma de mitigar o que de ingénuo eles eventualmente transpareçam: "mas, claro, tu sabes bem mais da vida do que eu...". Nesse preciso momento, vi o estranhamento um tanto revoltado nos seus olhos surpresos: que lhe interessava ouvir ou saber, naquela hora, que eu era menos vivido do que ela e que, por isso, os meus conselhos eventualmente teriam o seu quê de ingénuo ou fossem mesmo ineficazes? Que lhe interessava, naquela hora, saber mais da vida do que eu? Há maturidade que valha ante a dor extrema que sentimos por alguém que parte definitivamente? Não há: somos todos virgens, homens e mulheres desamparadas que se aconselham ao primeiro abraço.

quarta-feira, 24 de julho de 2013




Camille Claudel, 1915 (2013), Bruno Dumont.

segunda-feira, 22 de julho de 2013

Cineclube FDUP

A minha despedida do Cineclube FDUP está aqui ao lado. Muita coisa ficou por dizer, mas, para além desse amor pessoal pelo Cinema, retenho, com muita claridade, o indeclinável papel cultural que um Cineclube pode e deve desempenhar em qualquer comunidade, enquanto lugar de reflexão e debate sobre a Arte e a cidadania (para quem, como eu, acredita em cidadãos, e não em assépticos "consumidores") - sobretudo em tempos como os nossos, em que a cinética (para usar um temo caro ao Peter Sloterdijk) acelerada das redes sociais e afins obnubilou a fundamentalidade do pensar sobre o que nos rodeia (e somos muitos os que estão preocupados com isto, por mais que a massificação do gosto e da "informação" o tente apagar) . Até sempre, meu querido Cineclube.

quinta-feira, 18 de julho de 2013

anúncio para a morte


Paixão (2012), Brian de Palma.

Magistral plano, este (v. melhor aqui): o anúncio publicitário que, acima de Christine (como uma nuvem premonitória), e que, jogando com a altura dos edifícios em seu redor, ensombra a sua pequena silhueta (a pequenez dos homens ante a morte), prenuncia - ou, melhor dizendo, "anuncia", para isso se servindo dos suportes audio-visuais próprios da lógica televisiva e publicitária - o seu destino fatal. Ao que ajuda a disposição "angular" do enquadramento, que, afunilando Christine no vértice do ângulo agudo formado pelas "semi-rectas" traçadas pelas linhas inferiores dos dois edifícios, a inserem num espaço claustrofóbico, sem saída, como que um beco suis generis.

Na verdade, é o espectáculo ali anunciado que, mais à frente, será mostrado ao espectador em split screen paralelamente à cena do seu homicídio, servindo de álibi a Isabelle, que, alega ela em sua defesa, a ele (espectáculo) assistiu. Irresistível, por isso, convocar Hitchcock - referência tutorial, de resto, neste e noutros filmes de de Palma - para, recriando o título do seu filme Chamada para a morte (1954), falar, aqui, num anúncio para a morte, nem de propósito figurado de modo perversamente gracioso (o par executando o bailado Prélude à l’aprés-midi d’un faune, de Debussy), como que sugerindo o "crime perfeito" como obra de arte, como "obra-prima" mesmo. Ou, ainda, se quisermos, a encenação de um crime e respectivo álibi como performance artística.

terça-feira, 16 de julho de 2013

the last picture show


The Last Picture Show (1971), Peter Bogdanovich.

Um dos filmes da minha vida - e uma das mulheres "cinematográficas" (para quem acreditar que uma coisa é a vida e outra são os filmes...) da minha vida (a Cybill Shepherd) - vai passar, esta quinta-feira, no Passos Manuel, cortesia do Cineclube do Porto. Se ainda não viram, não percam a oportunidade. A minha crítica - muito apaixonada e, por isso, demasiado extensa -, nos idos de 2010, aqui.

domingo, 14 de julho de 2013

a suspensão


Os Quatrocentos Golpes (1959), François Truffaut.

"(...) surge então a pergunta: o que está exactamente a ser produzido enquanto diferença que ateste o trabalho específico das imagens da arte sobre as formas da imagética social? Era esta a questão que inspirava as considerações desencantadas de Serge Daney: as formas de crítica, de jogo e de ironia que pretendem perturbar a vulgar circulação de imagens não terão sido, todas elas, anexadas por essa mesma circulação? O cinema moderno e crítico pretendeu interromper o fluxo das imagens mediáticas e publicitárias ao suspender as conexões da narração e do sentido. A paragem na imagem que conclui o filme Os Quatrocentos Golpes, de Truffaut, foi emblemática no que toca a esta suspensão. Mas a marca assim posta na imagem serve afinal a causa da imagem de marca. Os procedimentos do corte e do humor tornaram-se eles próprios a vulgata da publicidade, o meio pelo qual esta, simultaneamente, produz a adoração dos seus ícones e a boa disposição que nasce a seu respeito a partir da própria possibilidade de ser ironizada.

É certo que o argumento não tem um valor decisivo. Por definição, o indecidível deixa-se interpretar em dois sentidos. É então também necessário recorrer discretamente aos recursos da lógica inversa. Para que a montagem ambígua suscite a liberdade do olhar crítico ou lúdico, é preciso organizar o encontro segundo a lógica do face-a-face ostensivo, re-(a)presentar as imagens publicitárias, sons disco ou séries televisivas, no espaço do museu, isoladas por trás de uma cortina em pequenas cabines escuras, que, ao deterem os fluxos da comunicação, lhes conferem a aura da obra. Ainda assim, o efeito nunca está garantido, já que é necessário colocar uma legenda à entrada que explicite ao espectador que, no espaço em que está prestes a entrar, irá reaprender a percepcionar e a distanciar-se do fluxo das mensagens mediáticas que habitualmente o subjugam".

Jacques Rancière, O destino das imagens, Orfeu Negro, 2011, pp. 41-42.

quinta-feira, 11 de julho de 2013

magna capa


Álbum Magna Carta... Holy Grail (2013), Jay-Z.

Podemos não estar de acordo quanto aos méritos do mais recente álbum de Jay-Z; mas que a capa com que vem à boleia se arrisca a ser a capa do ano, tenho poucas dúvidas. Alusão ao casal Jay-Beyoncé (sleeping every night next to Mona Lisa, como se ouve em "Picasso Baby"), é um portento artístico que, sob uma gravitas mitológica e austera, remete, metaforicamente, para o reinado mediático, discográfico e comercial de dois "deuses" planetários da era em que vivemos.

sexta-feira, 5 de julho de 2013

don't marry him, don't marry him



"Take a Fall For Me" (com RZA, dos Wu-Tang Clan), álbum Overgrown (2013). James Blake.

"Sex shapes the body,
Truth shapes the mind"

quinta-feira, 27 de junho de 2013

condenado à morte



Até à Eternidade (1953), Fred Zinnemann.

Um amor condenado à morte: é isso que nos diz este plano, que, mostrando o retrato de Deborah Kerr num momento em que esta ainda não se envolveu com Burt Lancaster, já prenuncia, na iconografia elegíaca e "memorialística" que o retrato carrega, o destino de uma relação proibida. A morte de um amor que ainda nem o é.

sábado, 22 de junho de 2013

ah, o youtube

A discussão fenomenal a dois que aqui vai (v. comentários), com todos os condimentos (intelectualidade, erudição, elitismo, emoção, humildade, pieguice and so on) que fazem uma discussão youtube do século XXI. Delicioso. 

LOG IN



"LOG IN" (não editado) (2013). Chullage.

Ei-lo: o "FMI" (J. M. Branco) da era da globalização, dos Iphones, dos Facebooks, dos Farmvilles. Não deixem de ouvir isto.

sexta-feira, 21 de junho de 2013

time goes by




"1989", álbum Beatz Vol. 2 (2006). Large Professor.

esta cara diz tudo


Até à Eternidade (1953), de Fred Zinnemann.

quarta-feira, 19 de junho de 2013

"Both MSP [Ordenamento do Espaço Marítimo] and TSP [Ordenamento do Espaço Terrestre] can also be seen to be attempts at managing resource conflicts by using forms of technical rationality which support, rather than challenge the dominant economic interests in the respective fields - often the ones that have given rise to the need for interventions in the first place. For example, in the nineteenth century, Ebenezer Howard stressed how planning was a "peaceful path to real form" (...) and those on the left have highlighted how it can be used as means of neutralizing dissent and managing urban development within the logic of a capitalist system (...). Similarly, one could draw parallels with how MSP, born in an era where neo-liberalism rather than class-interests is the dominant organizing principle, has been justified within a discourse of ecological modernization, that facilitates reform of environmental governance while leaving many of the dominant unsustainable practices to continue. Indeed ecological concerns have led the way in putting MSP on the political agenda, with marine scientists being proeminent in shapin the early development of MSP. Interestingly, this disciplinary starting point differs markedly from that of TSP (which essential grew out of a movement for social reform) and this has had distinct implications for the development of debate around MSP, which has beem dominated by a rationalist paradigm focusing on the ecological health of marine areas and the epistemic discussion of appropriate management approaches".

Sue Kidd e Geraint Ellis, “From the Land to Sea and Back Again? Using Terrestrial Planning to Understand the Process of Marine Spatial Planning”, in Journal of Environmental Policy & Planning, Vol. 14, No. 1, Taylor & Francis Online, March 2012, p. 52.

para lá de Deus


Para lá das Colinas (2012), Cristian Mungiu. (Podia ser um quadro do Caspar D. Friedrich, mas não é)

Para lá das colinas, existe Deus. Existe? Ou: o que existe para lá de Deus?
Talvez o melhor filme (estreias) que vi este ano em sala.

MAOI



"MAOI" (não editado). ProfJam.

segunda-feira, 17 de junho de 2013

solteiro



"Solteiro" (Sam the Kid, Regula, Hebert & Roulet), Mixtape II (Deluxe Edition) (2013). Orelha Negra.

Aí está o tele-disco de uma das melhores faixas da mixtape que recria o álbum Orelha Negra (2012).

domingo, 16 de junho de 2013

Bósforo

Por conta de outros afazeres, andava a adiá-lo. No Bósforo, aliás, num Bósforo que não aquele pelo qual me apaixonei, passam-se coisas terríveis. O Estado, através das suas longa manus, agride cidadãos indiscriminadamente. A crónica do Paulo Moura é daquelas coisas que nos encosta à parede, que nos deixa a garganta em seco, que interpela no mais íntimo de nós a pergunta: como é possível?. A liberdade - sempre ela, rainha das rainhas - está em risco. Estou profundamente revoltado com o que se passa no Bósforo. O regresso de uma amiga minha turca para Istambul e a sensação de revolta e tristeza que, horas antes de partir, ela partilhou comigo por ver, à distância, amigos e familiares violentados pelas autoridades em plena luz do dia só aumentou o meu pesar.

Deixo aqui um pequeno texto da Elif Mendos (publicado, originalmente, no Jornal Tribuna), de quem a última recordação que tenho era um cartaz, na sua sala de estar portuguesa, com a inscrição To live as a tree alone and like a forest in brotherhood #resistanbul.


"By now, many things have been told about what is going on in Turkey. Referring to Arab spring, “Turkish Spring” they said or a clash of Islamic identity versus secular identity, or as in government supported media tried to show violent attacks to police by a bunch of “provocateurs”. Whatever has been trying to be labeled, the core claim of Turkish people in fact revolve more around increasingly authoritarian government pursued by Prime Minister Erdoğan's AKP (Justice and Development Party).

In brief it all started with a peaceful sit-in to prevent the last green piece of Istanbul in the center of Taksim Square, where the biggest historical, economical and cultural meeting point is. People wanted to prevent the destruction of Gezi Park and its transformation into a shopping mall. The redevelopment of Taksim Square, including the destruction of where the movement all started in -Gezi Park, was another capitalist urban development project. It run through unaccountable processes and was only in favor of the AKP. This project, like many others, leaved no voice for the citizens although it was shaping the urban environment they live in. This redevelopment project included demolishing of a symbol of local business Inci Pastry House in December 2012, followed by a destruction of Emek Theater (an independent cinema operation since 1924 and home to Istanbul Film Festival). Also the destruction of port areas of Karaköy, Beşiktaş, Kadıköy; the uprooting of up to 2.5 million trees for the construction of a widely unpopular third bridge across the Bosphoros are other “fall out from the sky” projects. In fact, over the past decades, as part of its urban modernization program, the AKP has been ripping down almost all historic and green sites while serving this places in the interest of domestic and foreign businessmen.

These all leaded us to todays. Now it was the turn of Gezi Park. Another public space had to be turned into an arena for private profit. On May 28, the day that municipal officers responsible for destruction arrived, people started a peaceful sit-in to not to give up on what left as an only green space, were in the park There were only a group of fifty protesters. On May 31 many people including journalists, parlimanters joined this peaceful sit-in in the park. They were reading books, camping, singing the Beatles underneath that tree they were protecting. And in the early hours of 31th of May the police attacked, burning the tents, using tear gas bombs, water cannons...This was a milestone when the protest crossed the political barriers. You do not have to be a leftist, rightist, secularist, Islamist to care about the environment, to care about the future generation. And yet, this is not just about uprroting of trees. It is about privatization of public space, turning the urban center a depoliticized and desocialized place. So by means of changing the urban place, forcing people to change themselves to a depolitic, desocialized rabble never opposing to the government.

The resistance that has spreaded to whole country was an accumulation of incidents. In the general elections of 2011 the AKP was reelected and this was stated as a “victory”. However from the time they were first elected in 2002 their records has been filled up with jailing of journalists, academics and students untill today. Their other governmental policies caused mass destructions on Turkey's democratic standards. Many journalists have been fired from the media companies wheneever they questioned the actions of the government. A book by Ahmet Şık, who was injured in the head by the excessive use of force by the police during #occupygezi resistance, was collected before its publication and the electronic copy of the draft was destroyed. The list continues to the Turkish Air Force's mass slaughter thirty-four villagers in Uludere/Roboski region of Turkey in December 2010, attacks in the southern town of Reyhanlı in which 52 people died, lipstick ban for stewardness in Turkish Airlines, a new strict alcohol law.... With all of these incidents, it was becoming clearer that the toleration of democratic mechanisms is not well developed. PM Erdoğan's and ruling party's view of democracy is a majoritarian dictatorship validated with election in every five years. For its 11 year old governance, the AKP has lacked of any tolerance to opposed ideas. As on May 29, the statement by PM Erdoğan referring to #occupygezi resistance “we have made our decision and we will implement it; you cannot do anything about it”, was the cause of this lack of tolerance.

As I wrote this, in 5th of June, the resistance is in its 9th day. People in Turkey got used to the tear gas that has been covering the sky lately. They now become professionals on how to fit the effects of tear gas, how to paralyze the water cannon. Most importantly people resisted with only flesh and bones, holding on the human dignity and their rights. Many videos and photos that taken by those unarmed people in the streets are the evidence of the massive violence. The more the police used excessive force, the more people marched in the streets in all country to support the resistance. Unlike what PM Erdoğan calls as “provocatuers”, those people are unarmed civilians. With this movement people not only overcome their fear to the authority and also to the “other”. It has been a long issue of the AKP government to polarised the public as “activist”, “terrorists”, “alcoholics”, “nationalist”. But now everyone is regardless of who they are, struggling arm to arm for the sake of freedom, democracy and to stop the ignorance of the AKP for 11 years. Tragically, the mass media in Turkey are all controlled by the government. This oppression by the government is the main reason of media censorship. The media companies are hiding this public masses in Turkey. While mass violence by the police was occuring outside, they showed gourmet programmes, documentaries about penguins or even ironically a documentary about Hitler. Since they only broadcast to serve the government, they mention this civil unrest as a violence against police and the demonstrators as violators. As the mass media keeps to be blindfolded to what has been going on in the streets, the only communication source is the social media. The useful tactical informations can only be exchanged via Facebook or Twitter.

This is not a movement of political parties or institutions. This is a movement of people. Also this is not about religion, not for a name of god. People are protesting throughout Turkey for the sake of freedom, humanity, existence and green places. Gezi Park is a symbol of government's understanding of power. We are not looters or extremists. We are students, teachers, workers, mothers, fathers. We represent various etnicities and creeds, religions and ideologies. We are now united because of our mutual concern for Turkey's future. We demand an end to police violence. We demand a free and unbiased media. We demand an open dialogue. 

At the rock bottom this resistance is all for “To live! As a tree alone and like a forest in brotherhood.” (Nazım Hikmet Ran)"

sexta-feira, 14 de junho de 2013

Walsh #1

O meu primeiro artigo para o À pala de Walsh já está disponível (ali) e incide sobre a fabulosa sequência do Fassbinder em Martha (1973). A ideia central - uma tentativa de análise, passo a passo, dessa sequência, dela decantando a estética fascizante que ensombra todo o filme - andava na minha cabeça desde que tinha visto o filme (mais ou menos desde aqui), tanto é que a apontei em papel. Felizmente, tive, agora, a oportunidade e a motivação para a consolidar num texto.

Martha (1973), melodrama de sabor sirkiano realizado para televisão – tivéssemos nós, em 2013, telefilmes como estes em vez de fórmulas telenovelescas adaptadas para 90 minutos… –, é um desses filmes onde o “rasto de contaminação” do nazismo aparece à superfície, por força, como habitualmente na obra de Fassbinder, do poder da metáfora. Helmut Salomon (Karlheinz Böhm) é mesmo, podemos dizê-lo, a “metáfora andante” que Fassbinder construiu, com perturbante sagacidade dramática, para representar o ideário pós-nazi e a sua “normalização” (a possível) numa sociedade democrática e tolerante. Helmut, enquanto figura metonímica desse processo normalizador, interessa-nos, pois, a partir da sua psicologia individual, isto é, da forma como se relaciona com os outros (para o caso, com a sua mulher), e na medida em que encarna os tiques que imediatamente associamos, de uma forma ou de outra, ao legado de horror nazi.