domingo, 27 de dezembro de 2009

gostaria de estudar mais um bocadinho

"- Eu prefiro continuar como simpatizante - o bichinho, a faca, a cobra. - Tenho algumas dúvidas, gostaria de estudar mais um bocadinho antes de me inscrever.
(...)
E se te inscrevesses naquele dia, Zavalita, pensa? O facto de seres militante ter-te-ia arrastado, comprometido cada vez mais, teria varrido as dúvidas e em alguns meses ou anos ter-te-ia transformado num homem de fé, num optimista, num outro obscuro puro heróico?
(...)
- Não foi horror ao dogma, foi um reflexo de menino anarquista que não quer receber ordens - disse Carlitos. - Foi que, no fundo, tinhas medo de romper com pessoas que comem e vestem e cheiram bem.
(...)
- Então foi espírito de contradição, vontade de encontrar três patas no gato sabendo que tem quatro - disse Carlitos. - Devias ter-te dedicado à literatura e não à revolução, Zavalita.
- Eu sabia que se todos se dedicassem a ser inteligentes e a duvidar, o Peru estaria sempre fodido - disse Santiago. - Eu sabia que eram preciso dogmáticos, Carlitos.
- Com dogmáticos ou com inteligentes, o Peru há-de estar sempre fodido - disse Carlitos. - Este país começou mal e acabará mal. Como nós, Zavalita.
- Nós os capitalistas? - perguntou Santiago.
- Nós os cacógrafos - disse Carlitos. - Havemos de rebentar todos deitando espuma, como o Becerrita. À tua saúde, Zavalita.
(...)
- Consola-te, a profecia não se cumpriu - disse Carlitos. - Nem advogado, nem sócio do Club Nacional, nem proletário nem burguês, Zavalita. Uma pobre merdinha entre uma coisa e outra, mais nada".

Conversa na Catedral, Mario Vargas Llosa

sábado, 26 de dezembro de 2009

terça-feira, 15 de dezembro de 2009

businessman



"Play Time", Jacques Tati

segunda-feira, 14 de dezembro de 2009

crer na primeira e segunda pessoa do singular no presente

Crês que o nosso amor é uma onda tal capaz de engolir a mais alta das montanhas? Ou pensas que embora gigantesca sempre há rochedos encavalitados nos trilhos das montanhas que impedem a água de marcar o cume como assinalam as marcas das cheias nas cidades e aldeias que sucessivamente vão superando a admiração de homens e mulheres simples?

Quero crer que um dia lerão Um dia o amor aqui tocou e jamais deixou de ser onda de água, sal e areia inundando todas as pedras e pedregulhos, deles absorvendo todavia as cores os cheiros a rugosidade ou falta dela, a dureza. que um dia lerão Um dia inundou-os e juntou-os à areia fina de especiarias que lhe brilhava na cauda.

quinta-feira, 3 de dezembro de 2009

À volta da mesa
somos todos sensíveis.
Com a luz artificial sob os olhos condoídos
que reclamam cobertores de cinderela,
somos todos sensíveis.
Empenhamos cada um
o seu álibi de carne e pão
e dizemo-nos sensíveis.
Falamos alto, iniciamos
e desistimos das palavras
com a mesma rapidez
com que damos mais uma dentada.
Mantemos, ainda assim, os mesmos
dois ou três tópicos de conversa,
que se vão alterando conforme a luz nos cega
mais ou menos os olhos.
Pagamos a conta dos sensíveis:
cinco pela carne e pelo pão
dois pela água
oito e meio pela tagarelice acossada.
é a mais cara mas aquela pela
qual queremos pagar mais rápido.
No fundo, vendemo-la. Só não
a damos porque ninguém a quer
oferecida.

Têm razão quando dizem que o dinheiro compra algumas coisas.

quarta-feira, 25 de novembro de 2009

A primeira flor chamar-se-á
Flor


em honra à mãe das flores,
sua Mãe.

terça-feira, 24 de novembro de 2009

quinta-feira, 19 de novembro de 2009

sabia demais o que tu
sabias de menos,
pensava eu.

sabias demais o que eu
julgava de menos,
penso eu.

sabemos agora que
sabemos mais
quando eu não penso
e ninguém sabe mais
do que ninguém.
Minha eminência,
quis escrever-lhe uns versos.
O senhor ou a senhora
que sois saberá que
não deve tomar o gesto
como tostão furado
mas apenas como
furado. Para si,
apenas furado. Para mim,
escritor de versos,
o tostão.

sexta-feira, 13 de novembro de 2009

Timeless

Era capaz de ouvir este beat e este piano um dia inteiro. Um dia, dois dias, três, o que fosse... timeless.

Illa J - Timeless


"I spend so much time, just livin in a bubble
I just wanna lay back and stay out of trouble
I think it's time for me to break out the shell
And I can't be afraid to fail
I spend so much time outside my mind
That I can't tell if I'm in or outside my mind"

A propósito: o disco é o Yancey Boys (deste ano ainda), do Illa J, irmão do falecido J Dilla. Está no sangue...


Adenda: Correcção: o álbum Yancey Boys é de 2008 (e não de 2009).

terça-feira, 10 de novembro de 2009

nome e verbo

foi assim
letras
e um hífen
que te fiz
palavra.
a ti, inteira
inteiramente, o verbo.

sexta-feira, 6 de novembro de 2009

CLS

Só soube ontem que Claude Levi-Strauss faleceu. Atordoado aquando da sua leitura pela magnitude de Tristes Trópicos, e a propósito de outras ramas, escrevi um dia isto. E citei também isto, que volto a citar aqui como tributo ao homem que partiu. Poucos me terão atordoado - o termo é mesmo esse - como o fez Levi-Strauss (só Ortega y Gasset, provavelmente).

A etnografia traz-me uma satisfação intelectual: tal como a história, que une os extremos da história do mundo e da minha, assim também ela desvenda ao mesmo tempo a sua razão comum. Ao propor-me estudar o homem, ela liberta-me da dúvida, pois considera nele essas diferenças e modificações que têm sentido para todos os homens, com exclusão daqueles que, peculiares a uma única civilização, se dissolveriam se escolhessemos ficar de fora. Ela tranquiliza, por fim, esse apetite inquieto e destruidor de que falei, garantindo-me uma matéria praticamente inesgotável para a minha reflexão fornecida pela diversidade dos usos, dos costumes e das instituições. Ela reconcilia o meu carácter e a minha vida.

Claude Levi-Strauss, Tristes Trópicos

Quando transcrevi o excerto coloquei como título, como poderão ver pelo link, "comigo é o Direito...".
E embora eventualmente com outras matizes, continua a ser (e gosto de desconfiar que o será sempre?). Para bem do "meu carácter" e da "minha vida". O bom nisto é de nos ser dito por alguém, por outro: sabemos que a experiência pessoal é real, porque afinal não unicamente pessoal. Se dito (ou iluminado) como o faz Levi-Strauss, ainda melhor.

quarta-feira, 4 de novembro de 2009

(e que bom que assim é o) rito

Abrem-se as pernas. Tronco direito. Esticam-se os braços. Gémeos, abdominais, bíceps, tríceps, deltóides e outros que tais. Estirados.
Levantam-se e compõem os fatos. Fraldas para dentro, cinto religiosamente apertado (como é mesmo?, pergunta o mais novo e suspira secretamente o mais velho), peito para fora. Enfileiram-se na tira vermelha com rostos genuinamente sérios. Respiram. Joelho esquerdo, joelho direito. Dedo grande do pé direito sobre o dedo grande do pé esquerdo. Mãos na horizontal sobre os joelhos. Queixo para a frente. A polidez íntima de cada um materializa-se no círculo em que a mão direita repousa na esquerda, os polegares tocando-se.
Mokuso.
Os olhos fecham-se e cada um vai para bem longe. Não se exige nenhuma espiritualidade de ocasião nem tão-pouco reflexões do dia que finda. Os olhos fecham-se e cada um dá, não ao diabo, mas a si próprio, o que sabe. Se quiser. Se não quiser, também não há problema. O silêncio imprimido pela palavra é tudo o que lhes é dado. Façam ou pensem ou meditem ou ignorem o que quiserem. Esse tempo de silêncio é vosso, diz-lhes autoridade nenhuma no interior das suas cabeças.
Mate.
Os olhos abrem-se e voltam ao local de onde nunca saíram. Passou rápido, passou devagar, nunca o sabem. O silêncio não é mensurável quando o suor e a divagação inevitavelmente incipiente se misturam. E que bom que assim o é, pensam, desconfiando sem desconfiança de que sempre farão a pergunta a si próprios. E que bom que assim o é, repetem, admirados e satisfeitos.
Senseni-Rei.
Pausa.
Shomeni-Rei.
Pausa.
Rua daqui p'ra fora!

sexta-feira, 30 de outubro de 2009

A noite é a
maior ilusão de
todas.
e por isso mesmo
é que nós os
desiludidos a fruímos
sempre que podemos.
e o fruir é tanto maior quanto
maior é a supresa com que ela nos abraça
se roça, nebulosa
raposa
em nós.

Deitamo-nos com a boca seca
e damos graças à noite
damos graças
pela noite.

(talvez o nosso erro seja receá-la e
não a consumir mais vezes)

quarta-feira, 28 de outubro de 2009

aquele que um dia disse
que outro homem
tinha um "amante" foi o homem que
na verdade pecou. Traíu a
palavra.
Os amantes amam-se, permitam-me pôr
alguma ordem no universo.
Boa tarde, eu sou o
mensageiro x e como
as coisas estão tão más nós
devemos perguntar-nos será
que deus existe será que
nos ajuda

Sim... mas olhe eu já
reflicto o suficiente sozinho por isso
obrigado.

É bom sinal então, obrigado
e boa tarde. Boa tarde
obrigado eu.

domingo, 25 de outubro de 2009

tu disseste


Tu disseste: "Quero saborear o infinito"

Eu disse: "A frescura das maçãs matinais
revela-nos segredos insondáveis"

Tu disseste: "Sentir a aragem que balança os dependurados"

Eu disse: "É o medo que nos vem acariciar"

Tu disseste: "Eu também ja tive medo. muito medo;
recusava-me a abrir a janela, a transpor o limiar da porta"

Eu disse: "Acabamos a gostar do medo,
do arrepio que nos suspende a fala"

Tu disseste: "Um dia fiquei sem nada.
Um mundo inteiro por descobrir"

Eu disse: "O que é que isso interessa?"

Tu disseste: "Nada..."

Tu disseste: "Agora procuro o desígnio da vida;
às vezes penso encontrá-lo num bater de asas,
num murmúrio trazido pelo vento, no piscar de um néon;
escrevo páginas e páginas a tentar formaliza-lo.
Depois queimo tudo e prossigo a minha busca.

Eu disse: "Eu não faço nada.
Fico horas a olhar para uma mancha na parede"

Tu disseste: "E nunca sentiste a mancha a alastrar,
as suas formas num palpitar quase imperceptível?"

Eu disse: "Nao. A mancha continua no mesmo sítio,
eu continuo a olhar para ela e não se passa nada"

Tu disseste: "E no entanto a mancha alastra
e toma conta de ti, liberta-te do corpo. Tu é que nao vês"

Eu disse: "O que é que isso interessa?"

Tu disseste: "Nada..."


Mão Morta, "Tu disseste"

sexta-feira, 23 de outubro de 2009

aspas

se sempre fosse
sempre, seria
"sempe"
porque
só assim a
eternidade deslizaria
por entre
o líquido entardecer
das palavras de quem sente.
Mas como sempre sempre
tem um érre, há
sempre quem
ferre o que de
"sempe" sempre
tem.

segunda-feira, 19 de outubro de 2009

isto é muito bonito...



Uma das mais belas odes ao Hip-Hop (musical e filmicamente). Doce, doce, doce...

[Norah Jones:]
Life's filled with graaaay...
But now, it comes clean...
Leaves fall, awaaaaaay...
Hip-hop is playing again
And it's bangin, toooo...
Know it's bangin, for you...
Don't stop this feeling I feel...
I just wanna lay around all day
And feel the breeze upon my knees
I'm so INTO your rich history...
Tell me a story to taaaake me away...
Come and take meeeeee, ooooooh...
Come and take meeeeee with yooooou...

[Chorus x4: Norah Jones]
Life is, better
Now that, now that I found you
Life is, better
Now that, now that I found you

sábado, 17 de outubro de 2009

Deixei a carta selada depois
do inusitado
e apaziguador carteiro
me devolver a vida
que trazia na sacola.
disse-me que havia sido rejeitada
com a indicação de
"buraco desconhecido".
Pôs-me a mão no ombro e
quase me obrigou a lamber, ali mesmo,
o envelope com
o cuspo seco e aflito de
quem conserva cartas
sem ter lugar para as guardar. Não
ripostei e dei-lhe a carta para a sacola.
Nessa tarde, sei bem
que era de tarde,
enviei uma carta e
recebi outra. A primeira chegou,
continua ainda hoje a dizer-me o carteiro, ao seu destino;
a segunda, essa, a devolvida, continuo sem lugar
para a esconder.
mas o carteiro sempre diz:
"já não há nada para esconder!,
confie em mim!", brilhando-lhe
os olhos.
E eu, então, confio e
escrevo cartas e letras e palavras
e linhas
e isto.
Tudo isto
eu escrevi depois da tarde em que
o inusitado
e apaziguador carteiro cedo chegou,
desesperadamente cedo chegou.

sexta-feira, 16 de outubro de 2009

a diferença que afinal é igual hoje e ontem

Ouvi pela primeira vez esta música cantada pelo Jamie Cullum. E lembro-me tão bem de quando foi...
Há dias, ouvi-a cantada por Dinah Washington, no filme Chungking Express.
Coisa bela, hein?:



"Twenty-four little hours
Brought the sun and the flowers
Where there used to be rain

My yesterday was blue, dear
Today I'm part of you, dear
My lonely nights are through, dear
Since you said you were mine

And the difference is you..."

quinta-feira, 15 de outubro de 2009

bota-coisa-nenhuma

Neste país, enquanto autocarros fazem greves e pessoas chegam tarde a casa e às sua famílias, enquanto casais de namorados discutem com olhos de amargura e indigentes passeiam a fome numa mão suja da moeda que nos sai do bolso (a uns mais, a outros menos), há quem se lembre de fazer uma festa de inauguração de um estabelecimento comercial que vende cafeteiras. Neste país, nos poucos autocarros que levam os cúmplices anónimos para os seus lares, os olhares retêm-se na bizarria de uma festa de inauguração onde não falta tapeçaria vermelha, garçons engravatados, focos de luz hollywodescos, muito design muito roxo e muito preto (que é "sóbrio", e muito), música de melodia nenhuma bem alta, mulheres vagamente sencientes de vestidos para ocasião e convidados com uma desgostosa "honra" inscrita algures entre a testa e e o chão que pisam.
Neste país, que uns apelidam de "novo-rico", que outros acusam de um viver "bacoco" e ainda onde muitos resmungam para o lado: "cambada de parolos", neste país, é neste país, que eu vivo. Não tenho outro. Nem quero ter. Gosto dele.
Mas quero escrevê-lo e ser livre para o chamar de novo-rico, bacoco e entrever a cambada de parolos que nele cava uma vala de idiossincrasias plásticas, que nos são estranhas, que não são nossas.
Este país deu-me a liberdade e eu faço por a merecer.

quarta-feira, 7 de outubro de 2009

=

Também nós os dois vivemos à noite, como nos filmes...
Sofremos e sorrimos, de passagem. Sempre de passagem. Tudo é de passagem, aliás... Como eles, como nos filmes.
Deixemo-nos cair no verde, ao menos. Essa sorte ainda eles a tiveram... os dos filmes.

terça-feira, 6 de outubro de 2009

Era nostalgia, era melancolia, era um fim de dia, já pela noite, olhando os rostos dos outros à minha volta, sofrendo por mim e sofrendo por eles, nem eles próprios sabendo de tal.

(...)

Porra!, não... não. Era só eu e mais uma dúzia de pessoas a irem para casa. Só isso. Só.
Podia ser só isso, podia.

terça-feira, 29 de setembro de 2009

"(...) a confissão tornou-se, no Ocidente, uma das técnicas mais altamente valorizadas para produzir o verdadeiro. Tornámo-nos, desde então [Idade Média], uma sociedade singularmente confidente. A confissão difundiu longe os seus efeitos: na justiça, na medicina, na pedagogia, nas relações familiares, nas relações amorosas, na ordem mais quotidiana e nos ritos mais solenes: confessam-se os crimes, confessam-se os pecados, confessam-se os pensamentos e os desejos, confessam-se o passado e os sonhos, confessa-se a infância; confessam-se as doenças e as misérias; as pessoas esforçam-se com a maior exactidão por dizer o que há de mais difícil de dizer; confessam-se em público e privado, aos pais, aos educadores, ao médico, àqueles que amam; a si próprias fazem, nos prazeres e nos desgostos, confissões impossíveis a qualquer outro, e com que se fazem livros. As pessoas confessam - ou são forçadas a confessar. Quando não é espontânea, ou imposta por qualquer imperativo interior, a confissão é extorquida; localizam-na na alma ou arrancam-na ao corpo.
(...)
Daí, sem dúvida, uma metamorfose na literatura: de um prazer de contar e de ouvir, que estava centrado na narração heróica ou maravilhosa das "provas" de bravura ou de santidade, passou-se para uma literatura ordenada à tarefa infinita de fazer erguer do fundo de cada um, entre as palavras, uma verdade de que a própria forma da confissão faz cintilar como sendo o inacessível. Daí também esta outra maneira de filosofar: procurar a relação fundamental com o verdadeiro, não simplesmente em si próprio - em qualquer saber esquecido ou num certo vestígio originário -, mas no exame de si próprio, que revela, através de tantas impressões fugitivas, as certezas fundamentais da consciência.
(...). já não a entendemos [a confissão] como o efeito de um poder que nos constrange; parece-nos, pelo contrário, que a verdade, no mais secreto de nós próprios, não "pede" outra coisa senão fazer-se luz (...).

Michel Foucault, História da Sexualidade I - A Vontade de Saber

(negritos meus)

domingo, 27 de setembro de 2009

I love rap music



originalmente publicado aqui.

sábado, 26 de setembro de 2009

pergunta o Prince:

What was the real reason that Adam never left Eve?

Prince, "The greatest romance ever sold"

sexta-feira, 25 de setembro de 2009

ter fome
durante anos
e nada dizer
nada comer.

ter fome
uma vida inteira
e agonizar
sem eira
nem beira.

ter fome,
comer um pouco.
ter fome,
comer um pouco.

ter fome
e não dizê-lo
ter alimento
e perdê-lo.

ter fome
e lutar estupidamente
por um jejum.
ter fome
e enganar o coração
com um copo de rum.

Olha... tenho fome.
a mesma que a tua
mas como e mastigo
palavras
que tu lês
sozinha,
na tua rua.

domingo, 20 de setembro de 2009

S

Entre o Desenho, o Português ou os Trabalhos Manuais (estes passados a dormir na companhia de um professor acabado de se licenciar em escultura ou pintura), havia também lugar para o Canto Coral.
Nas provas, a rapaziada era avaliada segundo um critério muito óbvio de sonoridade: a afinação. Havia-os, então, afinados e desafinados. Em cada um dos grupos, a virtude ou a deficiência era ainda alvo de graduação: do "desafinado 1" (o menos desafinado) para o "desafinado 3" (o mais desafinado). A moça, virtuosa em tanta coisa do intelecto, havia de ser uma cana rachada merecedora de um injusto "desafinado 3". Injusto porque, digo-vos eu, a haver grau além do 3, ela seria certamente uma das galardoadas.
Já o outro travesso era mais dado ao controlo da voz, que ainda para mais naquela altura começava a ter o seu registo habitual intercalado com umas trovoadas abruptas. Nada que o impedisse, todavia, de pertencer ao grupo dos afinados, embora sem distinção especial - ficava-se pelo "afinado 1" ou 2, na melhor das hipóteses. Diz-se até que terá integrado o coro da igreja das redondezas, mas que a traquinice nunca deixou que por lá ficasse muito tempo. E depois, à outra cana rachada, não a via por lá…
A traquinice, essa, chegava-lhe naturalmente dos amigos e das brincadeiras, mas também da família, especialmente os irmãos mais velhos, cheios de ideias e guerras e sonhos e soluções e revoltas e o mais que os jovens podem ter. Quando a propósito de uma questão que será despertada em linhas mais à frente, lhe perguntei como diabo já tinha naquela idade alguma "consciência política", a resposta veio pronta: por causa dos irmãos, pois claro. Escutava-lhes os entusiasmos e as contestações, retia no seu imaginário as suas bonitas camisas desabotoadas, o cabelo recto e as barbas assumidamente joviais (coisa rara!). E depois eram jovens que trabalhavam, o que lhe fazia crer num misto de seriedade e suor honrado das palavras.
Mas os irmãos, de tanto se entusiasmarem e contestarem, pouco atenção davam ao menino que andava na escola, que tinha trabalhos de casa e que precisava de alguém que lhe comprasse a afia ou o compasso. Por isso ninguém soube quando o rapaz faltou por mais do que uma vez a umas certas chamadas, momentos solenes em que faziam os moços marchar pela escola, bater continência a um superior improvisado e proferir uma catrapada de trissílabos afirmativos ou negativos. E também ninguém teve ideia de que a farda que a escola informara como obrigatória para este tipo de actividades e que os pais - convictamente cumpridores ou não - haviam comprado, era esquecida pelo rapaz nas raras vezes em que se apresentava a estas chamadas. “Os meus pais ainda não ma compraram, Doutor…”; “somos muitos lá em casa, Doutor, sabe como é….”.
Detestava-a desde que lhe passara as mãos pela primeira vez. Mentira. Detestou-a ainda antes, quando a viu nos outros rapazes da sua idade. Detestava-a com o gosto provocador de quem desafia não só o objecto como também a instituição e as pessoas que o pensam. Como quem rejeita desta forma sempre encontra alvos de escárnio e prazer sibilar, especialmente se se tratar de um rapaz de camisa desabotoada, cabelo recto e barba assumidamente por crescer, então rapidamente percebemos como o “S” ao centro da farda o excitava: Sou soldado soviético sem Salazar saber. Quando se apercebeu de como subversivo - nem que só para si próprio - aquele “S” podia ser, é que lá andou uma ou duas vezes com a indumentária. Mas foi sol de pouca dura, pois outras fardas, sem letras, mas com flores, chegariam.
E depois de estas últimas chegarem, jamais alguém teve de usar fardas, nem com letras, nem com flores. (Embora haja por aí quem diga que as letras fazem falta, ou que as flores estão murchas. As fardas, essas, não fazem falta nenhuma, digo-o eu).

sábado, 15 de agosto de 2009

Ausente por uns tempos.

domingo, 19 de julho de 2009

grow

"O sabor do verdadeiro conhecimento está definitivamente associado, na minha mente, ao terreno baldio que havia no fim do bairro para onde fui transplantado quando tinha cerca de 10 anos. (...) o mundo estava repleto de maravilha e mistério e só quando estávamos a tiritar de frio no terreno baldio falávamos a sério e sentíamos uma necessidade de comunicar que era simultaneamente agradável e aterradora.
A maravilha e o mistério da vida, que são sufocadas em nós quando nos tornamos membros responsáveis da sociedade! Até sermos forçados a trabalhar, o mundo era muito pequeno e vivíamos na sua margem, na fronteira, digamos, do desconhecido. Um pequeno mundo grego, ainda assim suficientemente profundo para proporcionar toda a espécie de aventura e especulação. E não era assim tão pequeno, pois reservava as mais imensas possibilidades. Não ganhei nada com o alargamento do meu mundo, pelo contrário, perdi. Quero tornar-me cada vez mais infantil e seguir além da infância, na direcção oposta. Quero seguir exactamente o percurso contrário à linha normal de desenvolvimento, entrar num estado de superinfantilidade que será absolutamente louco e caótico, mas não louco e caótico como o mundo que me rodeia".

Henry Miller, Trópico de Capricórnio

quinta-feira, 16 de julho de 2009

provocando uns e outros

Estou muuuito curioso por este Hip-Hop Sinfónico de amanhã!
Para saber um pouco mais, veja-se a interessante entrevista de Miki, reputado produtor alemão de hip-hop e coordenador de todo o projecto, à revista institucional da Casa da Música. Tinha sublinhado uma série de frases que queria deixar aqui, mas entretanto não sei onde pára a revista. Debruçavam-se sobre as inevitáveis querelas entre puristas, quer de um lado (música clássica), quer do outro (hip-hop). E já todos sabemos onde está a virtude...
Pelos vistos, esta experiência - no mínimo arrojada - já foi levada a cabo pelo mesmo Miki na sua terra natal, quando juntou uma série de rappers alemães e a Orquesta Nacional de Berlim (se não me engano). Os elogios foram muitos... e dos dois lados.
É ver para crer!

Orquestra Nacional do Porto
Rappers portugueses presentes: Sam the Kid, NBC e New Max (embora este último porventura mais conhecido pelos dotes na produção).
Outros: Ono.
Arranjos e coordenação: Miki.

sexta-feira, 10 de julho de 2009

entre escrever uma coisa banalíssima e ser alvo de troça, e escrever a mesma coisa banalíssima e receber aplausos, há um sem-fim de complexos, preconceitos, paranóias, amores-ódios, invejas, egoísmos. E depois, talvez só depois, venha a qualidade como critério. Na verdade, o único critério.
É uma linha... ténue, dizem.

quarta-feira, 8 de julho de 2009

Lo fácil cae ligero

Obrigado pela revelação naquele fim de tarde mal contado.



"Lo fácil cae ligero
lo duro pesa mucho
el tiempo va volando ya que puede tiene que vola
cada uno en su luga
todo esta muy claro
tu origen te marca, tu eliges la charca
donde quieres remar"

Mala Rodriguez, Lo fácil cae ligero

terça-feira, 7 de julho de 2009

relendo

Há tempos, o Tiago deixava aqui um testamento de Miguel Torga sobre a complicada e não raras vezes desesperada relação entre o homem que escreve e as palavras que escreve.
Estendendo o ponto de vista:

"Jamais homem algum escreve o que desejaria escrever: a criação primitiva, que está sempre a acontecer quer se escreva, quer não, pertence ao fluxo primordial: não tem dimensões, nem forma, nem qualquer elemento de tempo.
(...)
Num mundo inteligentemente organizado não haveria necessidade de fazer a tentativa insensata de exprimir por palavras escritas acontecimentos tão miraculosos. Na verdade não faria sentido nenhum, porque, se os homens se detivessem a meditar no assunto, compreenderiam que ninguém se contentaria com a imitação, com o falso, se o real, o genuíno, estivesse ao seu alcance".

Henry Miller, Sexus

segunda-feira, 6 de julho de 2009

Bate-me sem hesitar
por eu ser frágil
essa dor só vai tornar
tudo mais fácil
Afasta-me
sem pensar se isso me afecta
distância só vai mostrar
que não era a altura certa


Nerve, "Pedragelo"

domingo, 5 de julho de 2009

Eu Não das Palavras Troco A Ordem



Já não comprava um disco de hip-hop português que me desse tanto prazer de escutar como este. Aliás, já não comprava um disco de hip-hop português há bastante tempo.
Nerve é um caso sério. Nos poesia, na métrica cantada da mesma, nos beats, na interpretação pessoalíssima com que modela as palavras e as respirações (quase que o vemos a gesticular mesmo à nossa frente), no negrume cínico e imprevisível (e depressivo, claro) que é transversal a todas as faixas do disco.
Uma vez que antes de ir comprar o disco, já tinha ouvido umas coisas na net, fiquei excitadíssimo quando vi na capa "INCLUI LETRAS DAS MÚSICAS". Excitadíssimo e, ao mesmo tempo, surpreso, pela transparência de alguém que põe na sua música palavras tão cruas.
A surpresa desfez-se. As letras vêm redigidas num complexo sistema de inversão que as tornam ilegíveis. Mesmo agora que já descobri o caminho lógico para as decifrar, acabei por me decidir a não fazê-lo, quase num respeito íntimo para com o autor.
Para mais, esteticamente falando, Nerve salta anarquicamente o campo do hip-hop com uma produção não raras vezes puramente experimental, louca, desconcertante. Para trás e para a frente, dá voltas e voltas numa sonoridade eclética e estranha q.b., sem nunca cair, todavia, nos minimalismos chatos ou monótonos da música experimental mais frequente nos dias de hoje. É rap, é indie, é spoken word, é electrónica, é tudo isto mais os rasgos excêntricos de um jovem da minha idade (creio) com uma caneta endiabrada...
Este é um grande, grande disco e de impacto ainda desconhecido para a música portuguesa, arrisco eu.

"Nunca fales com estranhos!"
Não falo, está prometido!
(...)
Ei, eu sou estranho e ninguém quer falar comigo...






sexta-feira, 3 de julho de 2009

no meio de tanto absurdo

é bem capaz de aparecer alguma associação animal dizendo sentir-se ultrajada pelo "tratamento indigno e vexante" para com a classe taurina, bovina, suína e outros que tais.
Não era a primeira vez.

segunda-feira, 29 de junho de 2009

domingo, 28 de junho de 2009

e ainda

o "Amor em 2 actos".
Muito animado. :)

Hereditário



Este é dos poemas mais ricos do Sam. Um dos meus preferidos, senão o meu predilecto. Provavelmente o poema mais belo que o Hip-hop português conheceu até hoje.

(recomenda-se audição do registo musical original)
(versos
aqui)

"eu sou"



Sam the Kid (filho) e Viriato Ventura (pai) no Festival Silêncio, em Absolut Poetry.

sexta-feira, 26 de junho de 2009

Ele foi uma P.Y.T.

quando apareceu ao mundo, cantando e dançando como só os predestinados.
Foi um dia triste para a Música, para o Espectáculo e para todos aqueles que apreciam a música de Michael Jackson...
Percebo agora que, pela primeira vez, a morte de um artista de massas como Michael Jackson, me deixou cabisbaixo, pensativo.

de luto



e em choque.

segunda-feira, 22 de junho de 2009

Mentiram ao mundo
quando disseram que tudo tem um
fim.

mentiram aos homens,
mentiram-me a mim.

Mentiram ao mundo
quando disseram que tudo é
eterno.

mentiram aos homens e
deram-lhes o inferno.

Mentiram-me a mim
mas eu, fingindo acreditar
no que realmente acreditava,
menti-lhes de volta
pois em minha casa habitam
o fim e a eternidade
e há sempre aberta uma porta.

domingo, 21 de junho de 2009

todos nós precisamos de



This is the number one rule for your set
In order to survive, gotta learn to live with regrets
On the, rise to the top, many drop, don't forget
In order to survive, gotta learn to live with regrets
This is the number one rule for your set
In order to survive, gotta learn to live with regrets
If through our travels we get seperated, never forget
In order to survive, gotta learn to live with regrets

You used to hold me, told me that I was the best
Anything in this world I want I could posess
All that made me want is all that I could get
In order to survive, gotta learn to live with regrets...
(when I was young)



Quando o Jay-Z escrevia boas letras. Quando fazia boa música.

na cama que não é nossa

sexta-feira, 19 de junho de 2009

(ó p'ra ele
pouco elegante pouco
peludo pouco
interessante)

Vai e vem sem
saber
muito bem
o que esperar
e de quem

depois situa-se
de frente para o objecto
vai à frente e vem atrás
pára
e pede
(inca)paz.

Mas é
(também)
culpa de quem
o controla
que se parasse
podia pensar
em impedi-lo de fazer do amor uma mola.

Vai
e
vem
vai mais um pouco;
arrisca
vem para trás;
não petisca.

vai, vai, vai
e mais alta é a queda
E ele que nem é duro nem
mudo nem
pedra...
tem os ossos finos e hesitantes
a serem de pedra
só por lúgubres e falsos instantes.

Flecte
dobra-se
retrai-se
fica tolhido. Como um
homem sem pão e com frio.

Perde o pio e perde
a alegria
é o soturno vaivém
de cada dia.

Oh maria,
sejas tu quem fores
massaja-me lá isto
e cura-me as dores.

Oh mulher,
sejas tu quem fores
põe em minhas penumbras
cheiros e cores
enfeita minhas antigas catacumbas
com música e suados
e morenos torpores.

Oh Mulher,
sendo tu quem és
identifica-te e
opera meus pés.

que querem andar para a frente
sem nunca pisarem
o extinto ou o
pendente.

que querem andar
a ti rente.

Pé ante pé.
ai o silêncio inteligente
que vale mais do que mil palavras

grande tanga.

falar falar falar
preciso de falar.

quinta-feira, 18 de junho de 2009

diz o Stray*:

Já repaste como as mulheres andam sempre a comer maçãs?
Já as viste, de certeza... No autocarro, sentadas num muro, aqui e ali... sempre a comer maçãs.

Achas que é coincidência? Ahahah...

*dos Monstro Robot, cujo disco Monstro Robot, acabadinho de sair, aproveito para publicitar.

terça-feira, 16 de junho de 2009

gestos (coisas sérias)

Que importa o mundo?
importa muito

É nele que nossas bocas
se juntam.

Que importam as palavras?
importam muito

São elas
que dizem a verdade.

Que importam os actos?
importam muito

Para que o amor
não caia no fortuito.

Que importam os factos?
importam muito

É a eles que se agarram
a serenidade e o sabor diário.

Importa tudo,
meu amor.

Liberdade

Na composição sobre "a liberdade" Tânia Catarino, 17 anos, falou sobre “ser livre de escolher com quem se quer casar”. Já Mafalda Férias, 18 anos, dissertou sobre “o regime de Fidel Castro” – “Em Cuba as pessoas não podem aceder livremente aos telemóveis”, contava ontem à porta da Escola Secundária José Gomes Ferreira, em Lisboa. “A liberdade” foi o tema da composição da prova de Português do 12.º ano que esta manhã se realizou em milhares de escolas do país.

Promovam-se mais avaliações como estas!

sexta-feira, 12 de junho de 2009

be my guest

Estarei hoje a passar música no bar Rádio, na ribeira, em frente à Alfândega.
Muito funk, breaks, disco, 70's e 80's.

chill!

domingo, 7 de junho de 2009

o sufoco

Ou tu
Ou eu
um de nós
devia ser louco

Quando dois sensatos se juntam
é cá um sufoco...

E quando um louco chega
é como uma sobremesa
que leva a língua aos lábios
e nos desprende os músculos
debaixo da tábua tesa

Ou então
apenas nos divertimos momentaneamente
com o louco
e a paixão
continua a saber a pouco.

Não sei.
às vezes queria ser mouco
para ignorar as torturantes vozes
que em minha cabeça
lembram que deus dá nozes.

Não tenho boca sequer,
suspeito.
(quando foges)

quinta-feira, 4 de junho de 2009

"Mandei-lhe uma carta em papel perfumado
e com letra bonita disse
ela tinha
um sorriso luminoso tão triste e gaiato
como o Sol de Novembro brincando de artista
nas acácias floridas, na fímbria do mar

Sua pele macia era sumauma
sua pele macia cheirando a rosas
seus seios laranja, laranja do Loje

eu mandei-lhe essa carta e ela disse que não

(...)"

O Namoro, Sérgio Godinho

segunda-feira, 1 de junho de 2009

Recordo-me, aquando dos meus primeiros passos na blogosfera - teria eu 14 ou 15 anos - de lêr um excerto da "Montanha Mágica" do Thomas Mann deixado por uma autora de um blog que hoje já não consigo identificar.
Não me lembro de absolutamente nada.
Apenas do facto de ter chegado ao fim das linhas e ter dito para mim próprio: um dia tenho que lêr este livro. Com muita força o disse, lembro-me agora.
Talvez me lembre, afinal, do mais importante. Adiante.
Ao que parece, o livro é lançado agora em Portugal traduzido pela primeira vez directamente do alemão. O que não deixa de ser para mim uma supresa, apesar de pouco conhecer do autor.*
Mas bem, ficou para mim mais perto o dia.
Engraçado como certas promessas que fazemos a nós próprios não deixam de fazer sentido passado tanto tempo, mesmo sem sabermos grande coisa sobre o que se nos vai deparar. Acontece muitas vezes (porventura em maior número) o invés: o tempo passa, as promessas também. E não é nada que nos entristeça. Ou é pelo menos assim que o percepcionamos, no imediato.

*Li um livro pequenino do Thomas Mann há coisa de um ano. Chama-se "Mário e o Mágico". Seco e enigmático q.b.

quinta-feira, 28 de maio de 2009

à cena

E assim se fizeram à madeira
que não era madeira
mas pedra
perdoem o lirismo de quem vos quer à sua beira.

Fizeram-se à pedra,
portanto
pés dançantes
movimento e canto
s-e-t-e era o número amigo
para o encontro dos teatreiros errantes.

Os ponteiros
nem de pressa nem devagar
andavam
andavam como sempre
como devem andar...

Eles lá iam
por caminhos diferentes
até
à Alegria
dia
após
dia.

Minuto
após
minuto
o espreguiçar sonoro
do recém-nascido fruto.

Segundo
após
segundo
adoptaram caretas e trejeitos
criadores do seu próprio mundo.

tactearam o mundo volátil
do palanque
fácil, o gozo
de um momento sem fosso
lavando e massajando descobertas
nas saliências empedrenidas de um tanque

Sem fosso
Sem quebra
Sem intervalo
a não ser o do fim
o tal do fado.

E agora que o fim chegou
fim mais não há
para a saudade
que o fim cantou

O fim não existe!

A saudade por ele subsiste.
Enquanto houver saudade
ninguém vai crêr
que tu
partiste

Não vou não.

O fim é só uma ilusão triste.

quarta-feira, 27 de maio de 2009

Há coisas na vida que tê-las pela metade é definitivamente pior do que não as ter de todo.
A angústia é maior porque se pensa invariavelmente como é ter as duas metades ou quando as vamos ter.
E, então, sofre-se.

domingo, 24 de maio de 2009

culpado sem saber

É esta própria ignorância que torna os homens passíveis de censura, antes que de desculpa.
Aristóteles

Não se trata o homem de acordo cm a dignidade do seu conceito quando se separa dele o plano do bem e, com ele, a determinação da sua acção má enquanto tal, e se lha não imputa como má.
Hegel

excertos de Direito Penal, Questões Fundamentais, A Doutrina Geral do Crime, Jorge Figueiredo Dias.

quarta-feira, 20 de maio de 2009

Assim se acabaram as híbridas reverências.
não porque o desejo fugiu
mas porque outra coisa surgiu.

Não sei que sinta
os olhares não mais se cruzam
e as palavras
deixaram de ser tinta.

Já não secam.
Pior do que chamar alguém de mal-educado, é chamar de mal-formado.

sexta-feira, 15 de maio de 2009

sexta-feira, 8 de maio de 2009

- Se me deixares, eu morro. - sibilou-lhe ao ouvido.
- Por não me teres nunca mais? - disse num gritinho excitado.
- Não. Por saber que já me tiveste. Ou que eu já te tive.

vagamente inspirado pelo filme (não pelo livro) Amor de Perdição.
Dizem os pombinhos adolescentes:
o que é meu é teu
e o que é teu é meu

E nós rimo-nos, condescendentes
aliados desse estúpido
amor ateu.

Depois falamos na emoção e na razão
sem perceber
que mal não traz ao mundo
o Amor em forma de religião.

Bradarei aos céus convosco,
correligionários do Grande e Imaculado Amor
com todos vós chorarei a dor
e sorrirei por cada nova flor.

De Amor.

quinta-feira, 7 de maio de 2009

Vou ao fundo da minha vontade
e digo o que não diria
há uns tempos
tímido mascarador da verdade.

Não era mais que medo
a falta de sossego
o receio
de caír em desapego

assim me embruteci
numa carapaça
da qual
agora saí

Ela está ainda aí
pousada na areia
eu olho-a
esperando que seja levada pela maré cheia.

terça-feira, 5 de maio de 2009

Eu acordo
e tu estás a chegar

A imagem é quase literal
Porque até o Tempo se move por nós, afinal...

domingo, 3 de maio de 2009

Colhi uma flor para ti
Não ta dei

A dar-te,
tem que ser mais bela que tu.

Tarefa ingrata, a do sol, da chuva e do vento...

sábado, 2 de maio de 2009

O episódio de violência (física e psicológica) com Vital Moreira é uma vergonha. Como disse uma das manifestantes: "vão ser estas as manchetes, acabámos de perder a manifestação".
As pessoas têm que perceber que não somos todos iguais (nas nossas idiossincrasias, claro). Se há uns que pensam pela sua cabeça, reflectem, interrogam-se e tiram as suas conclusões pessoais, estão no seu direito.
Atentar contra o livre-pensamento é atentar contra umas das mais óbvias dimensões da Liberdade. A mesma que estava a ser festejada no grande dia que é o 1º de Maio.

Pessoalmente, e sendo eu apartidário, o candidato às europeias Vital Moreira merece-me toda a consideração. Goste-se ou não do estilo, oxalá fossem mais os académicos sabedores a candidatarem-se a cargos como este. Para fazer bem, é preciso saber. Muito. Vital é dos que sabe mais.

sábado, 25 de abril de 2009

"nosso"
é tão forte
e tão de mais nenhum
que os dois ésses
não se deslaçam
por motivo algum.

Mesmo agora,
que a palavra repetida
soa estranha
as letrinhas se agarram
com ternura tamanha.

O que faz falta passados 35 anos?


O que faz falta - Jose Afonso

Muita coisa, suponho...

Tenho a tentação para fazer um breve ensaio sobre o que penso do 25 de Abril. Se um momento estanque, um ponto de clivagem pertencente ao passado; ou um projecto a realizar, a aperfeiçoar. Consciente, por outro lado, de que o 25 de Abril é de tal forma alvo de tantos e tantos entendimentos, que não pode, afinal, reconduzir-se apenas a estes dois caminhos interpretativos.
Pois é. Não faço então qualquer ensaio. Celebro! Com o misticismo (seria nostalgia se o tivesse vivido) que sempre me arrepia todos o anos nesta data.
Viva!
(e porque)

São vazias as palavras
Que te digo,
Vão sem cor.

Mas não censures,
Nem esqueças,
São de amor.


As palavras são do Tiago. As emoções, essas, são de quem as quiser.

terça-feira, 21 de abril de 2009

o verão da calçada
o açúcar queimando os lábios
o descomprometimento das almas sozinhas
E a cabeça que imagina tudo isto.

segunda-feira, 20 de abril de 2009

smooth

Descobri os The Streets há uns dias. E têm coisas fantásticas como esta:

Has it come to this? (do album Original Pirate Material, 2002)

domingo, 19 de abril de 2009

Um dia disseram-lhe:
Fazer amor de meias é como fazer amor à antiga: de lençol por cima e círculo estrategicamente perfurado.

Ela concordou e deu graças.

sexta-feira, 17 de abril de 2009

Agora tenho um crédito.
Que nunca quis ter. Que nunca pretendi que fosse o reverso da medalha.
Entre outras facetas, este crédito é o Tempo que medeia os impulsos, a atracção, os desejos carnais. É a distância que vai entre um sinal, a acusação da sua recepção e a resposta.
Deste crédito deriva um segundo: o da reacção perante a não-emissão do primeiro sinal. Esse é um verdadeiro super-crédito pois sinto poder dar-lhe uso de uma forma avassaladora.
Simultaneamente, sinto uma enorme angústia por me sentir dono deste segundo crédito. Não o querendo, sinto ter o legítimo poder - legítimo porque herdado pelo esforço, sofrimento e, porque não, por alguma razão - de destruir tudo a qualquer momento. Destruir pedra por pedra, até não restar nada. Insultar, vocifrar, espezinhar. Esmagar a desilusão (uma vez mais) com violência. Mas ninguém imaginará como esta possibilidade me é, ao mesmo tempo, assustadora. Assustadora porque esquizofrénica: em vez de cortar com esse crédito (tristemente) ou de ele me ser cortado (alegremente) de uma só penada, assim acabando com dúvidas e frustrações, mantenho-no, esticando-o e flexibilizando-o conforme o meu estado de espírito esteja mais ou menos positivo. Assim, se naquele dia estiver radiante, sou capaz de me interrogar porque razão escreveria uma coisa como a que estou a escrever; num dia de espírito distinto, desejo ser brutal no suprimento do dito. Desejo deixar uma marca de tal forma funda que me faça sentir que estive certo. Que me faça sentir que o devedor, afinal, enganava-me eu durante tanto tempo, não me devia nada. Se porque nunca soube ou nunca quis, esse continua(rá) a ser um mistério.

terça-feira, 14 de abril de 2009

Acordei trauteando a My Way. Não faço ideia do porquê.
Mas quando pus música, foi isto que ouvi:


Rolling Stones - Miss You - Rolling Stones

segunda-feira, 13 de abril de 2009

Um dia também te quero escrever... metáforas

Meu pai dizia "este filme é muito na onda..." quando o interrompi para dar um gritinho: "muito na onda do Cinema Paradiso!!". E tinha acertado.
Ontem à noite vi O Carteiro de Pablo Neruda. Tal como em Cinema Paradiso - e isto tem, enfim, muito dedo italiano - somos tocados por uma sensibilidade incomum. A fotografia é lindíssima, o carteiro faz um papel fabuloso... e Neruda conserva toda a aura daquele que é Poeta.
Soltei umas lágrimas brutas, rapidamente amarfanhadas pelos meus lábios envergonhados. E a seguir foi uma vontade tremenda de beijar o carteiro como se meu filho fosse, abraçar Neruda como se de meu pai se tratasse, fazer uma festa no cabelo de Beatrice Russo, como fosse ela a metáfora que me pertencesse...
Depois fui ao escritório de meus pais perscrutar o que de Neruda havia. E não tinha mãos para o que encontrei. Aí o filme quase que se me esqueceu por completo e assomou-me outro pensamento central: o privilégio, a sorte que é poder fazer tal. Naqueles 5 minutos que mediaram o momento em que acabei de ver um filme inspirador e fui procurar um testemunho real de uma das suas personagens, compreendi que, infelizmente, este é um daqueles prazeres raros. Ao alcance de poucos. É triste, muito triste. Quem me dera abrir naquele momento o velho escritório a todas as almas que tivessem acabado de vêr O Carteiro de Pablo Neruda e gostassem de saber um pouco mais do poeta... E aos que não tivessem visto, oferecia-lhes a oportunidade de o vêr. Com todo o amor.
Democratização do acesso à cultura, diz-se na Política (a que não corresponde - e pelo menos aqui era bom que correspondesse! - à etimologia...). Pois, está muito bem... mas falta-lhes o amor. O amor de quem dá. Que se transforma no amor de quem recebe.
O amor de Neruda, por exemplo:

(...)
Mas eis que aquela
que passou pelos meus braços
como uma onda,
aquela
que foi somente um sabor
de fruta vespertina,
subitamente
pestanejou como uma estrela,
ardeu como uma pomba
e na minha pele senti que ela
se desatava
como a cabeleira duma fogueira.
Amor, tudo foi mais simples
desde aquele dia.
Obedeci às ordens
que o meu olvidado coração ordenava
e enlacei a sua cintura
e solicitei a sua boca
com toda a força
dos meus beijos,
como um rei que arrebata
com um exército em fúria
uma pequena torre onde cresce
a açucena selvagem da sua infância.

Por isso, Amor, eu creio
que emaranhado e cruel
pode ser o teu caminho,
mas que regressas
da tua caçada
e quando acendes
novamente o fogo,
como o pão sobre a mesa,
assim, singelamente,
deve estar o que amamos.
Amor, isso me deste.
Quando pela primeira vez
ela veio a meus braços
passou como as águas
numa despenhada primavera.
Hoje
dou-lhe guarida.
São estreitas as minhas mãos e pequenas
as órbitas os meus olhos
para que elas possam receber
o seu tesouro,
a cascata
da infindável luz, o fio de ouro,
o pão da sua fragrância
que são singelamente, Amor, a minha vida.

excerto de Ode ao Amor, Pablo Neruda

domingo, 12 de abril de 2009

Admiro aqueles que, escrevendo com mais ou menos qualidade, se conseguem abrir no seu blog. Que soltam os seus medos, que descrevem as suas frustrações, que deixam transparecer o mais fundo de suas almas.
Eu não consigo. E, na maioria das vezes, também não quero. Sentir-me-ia nu. Desprotegido, frágil. E isto independentemente de ser lido por muita ou pouca gente, coisa de que, na verdade, sou totalmente desconhecedor.
Todavia, quanto mais aprisiono os meus fantasmas, mais sinto que me isolo na negritude. Mais fundo desço no poço.
E parece que quanto mais leio os ditos blogs, mais aversão sinto à possibilidade de me expôr. Parece que já foi tudo dito. Que já tudo foi sentido e sofrido. E não é verdade! O que sinto é singular. Como o de qualquer um, suponho.
Mas, afinal de contas, que estou eu a fazer agora senão aquilo que disse até aqui não conseguir fazer? Só tomei outro caminho...

terça-feira, 7 de abril de 2009

(te)

sóquandotiveraliberdadededizerqueamovoupoderamardaformaquequeroamar

segunda-feira, 6 de abril de 2009

Traz
de novo, meu amor,
a transparência da água
dá ocupação à minha ternura vadia
mergulha os teus dedos
no feitiço do meu peito
e espanta na gruta funda de mim
os animais que atormentam o meu sono


Outubro 1979

Mia Couto

quinta-feira, 2 de abril de 2009

Hm?


Are You Lonesome Tonight? - Elvis Presley
No nickname de um contacto meu no Messenger:
Trabalhos ou artigos sobre a CRISE ECONÓMICA alguém tem???

Não sei o que dizer, pelo que me rio tristemente.

sexta-feira, 27 de março de 2009

Azul,

uma vez mais, pensei eu enquanto davas novamente à costa.
Onde estiveste? Naufragaste? Antes tivesses naufragado e voltasses agora para empreender uma nova navegação. O mal é esse. É não saber em que águas andaste, que sal engoliste, que sustos te fizeram pensar. É não saber se houve tempestade e depois bonança ou apenas meia dúzia de ondas indiferentemente turbulentas que não viraram a navegação mas tão-só a balancearam.
Que naufragaste; que regelaste de tão fria era a água que te martirizava a carne; que morrias com o oceano nas goelas. Era isso que queria ouvir: a bonança depois da tempestade. O novo dia depois da tormenta. As ondas vagarosas e douradas pelo sol e o barco partido, desfeito. Abandonado, de vez.

Em terra, de vez. Ó tu!

quarta-feira, 25 de março de 2009

A morte

de um homem começa com a morte de seu pai.

A frase é do Orhan Pamuk no livro Outras Cores. Penso tantas vezes nisto... demasiadas, talvez.
Nesta noite a 1ª Linha terá o prazer de apresentar um concerto das 1as bandas de reggae do norte do país “SATIVA” (roots reggae, Dub, Ska, ragga) onde serão transmitidas boas vibrações, harmonia, paz e amor universal.

Porra... e eu que pensava que transmitir apenas uma destas coisas já era difícil por si só!

segunda-feira, 23 de março de 2009

Ontem, no P2

Por que será que, quando falamos com Deus, dizem que estamos a rezar e, quando Deus fala connosco, dizem que somos esquizofrénicos?

Eu não diria esquizofrénicos. Antes loucos.

aditamento: Não quero com isto dizer que quando alguém diz que Deus fala consigo, é porque é louco. Não é nada disso. Apenas substitui adjectivos, pois assim me parece mais de acordo com aquilo que as pessoas pensam e dizem. O interessante da questão não é a qualificação do indivíduo como esquizofrénico (ou louco) por dizer que Deus fala consigo, mas sim a dualidade de critério.
Popper diz que para uma sociedade democrática em constante e incessante aperfeiçoamento é fundamental uma "discussão critíca e racional" (são palavras dele) permanente. Pois é desta discussão, do debate, do conflito de ideias que se aprofunda a democracia e suas instituições. Aqui até é engraçada a visível reminiscência da dialéctica hegeliana como motor filosófico do desenvolvimento (latíssimo sensu).
Mas voltemos a Popper. Acrescenta ele então que, tendo nós em conta a importância desta discussão como caminho para uma "sociedade mais sensata" (novamente palavras do próprio), percebemos então como a Utopia (como fim, suponho eu), enquanto estádio alcançado e, a partir daí, estático, não promove esta discussão, este conflito de ideias. Não avança, não desenvolve. Não se supera.
Eu concordo com isto.
Mas se não alumiarmos o caminho com Utopias, não caíremos também em situacionismos estáticos onde a discussão - sempre ela - fica também amorfa, desprezada, esquecida?Não são afinal as Utopias grandes fomentadoras da discussão e do confronto (que se querem racionais e críticos)?
A esta questão acho que se responde com o argumento utilizado por um meu amigo com quem partilhei estas dúvidas: utopia (qualquer que ela seja no sentido do progresso do Homem) sim, sempre. Mas como caminho e isntrumentos de discussão e nunca como fim. Porque enquanto fim é estática e eliminadora da supracitada discussão. E, por isso, do progresso do Homem.
Eu também concordo com isto.

sábado, 21 de março de 2009

Grande máquina esta, hein?
Ah pois...
Um 190, não é isso?
É... Já não se fabricam.
Ai não?
Pois... A Mercedes acabou com eles. Eram muito bons. Nunca davam problemas.

sexta-feira, 20 de março de 2009

Há uma escola básica dos 2.º e 3.º ciclos na freguesia de Aldoar que é comummente conhecida como "a escola de Aldoar". Poucos saberão que o seu verdadeiro nome é "Escola Manoel de Oliveira". Em homenagem ao cineasta, pois.
Constatava este pormaior com minha mãe quando me apercebi do grandioso, senão insuperável, tributo que é dar o nome de alguém a uma escola. É que a escola, quando livre e aberta, é um dos locais mais belos e fraternos no crescimento de qualquer homem ou mulher.
Que valor tem dar o nome de uma personalidade pública a uma rua? Ao contrário da escola, esta até vai ser sempre conhecida pelo nome. Mas não será mais do que esse mero conhecimento: afinal de contas, a rua será tão-só uma calçada ladeada por prédios, pisada e repisada, umas vezes mais limpa, outras vezes mais suja.
Agora uma Escola? Que edíficio tão belo e inspirador poderá haver como este? Talvez o Hospital. Será o único, creio, porque também aqui encontramos o humanismo, a ciência e o progresso de mãos dadas como leitmotiv para a sua edificação.
Se um dia algum tolo se lembrasse de me prestar uma homenagem póstuma, eu comover-me-ia se soubesse da existência de uma Escola com o meu nome. Um local onde homens e mulheres se formariam para construir coisas boas no futuro. Como melhores escolas, por exemplo.

quarta-feira, 18 de março de 2009

um dia de calor



Te querer
Viver mais pra ser exacto
Te seguir
E poder chegar
Onde tudo é só meu
Te encontrar
Dar a cara pro teu beijo
Correr atrás de ti
Feito cigano, cigano, cigano
Me jogar sem medir

Viajar
Entre pernas e delícias
Conhecer pra notícias dar
Devassar sua vida
Resistir
Ao que pode o pensamento
Saber chegar no seu melhor
Momento, momento, momento
Pra ficar e ficar

Juntos, dentro, horas
Tudo ali às claras
Deixar crescer
Até romper
A manhã
Como o mar está sereno
Olha lá
As gaivotas já
Vão deixar suas ilhas
Veja o sol
É demais essa cidade!
A gente vai ter
Um dia de calor...


Cigano, Djavan

terça-feira, 17 de março de 2009

Estou numa conversa a três. Na verdade, a conversa é a dois, porque eu calo-me e escuto.
Falam dois entendidos na matéria. A pressão para se mostrar que se é entendido é grande. Atropelam as palavras num discurso surdo em que quem compete pelo primeiro lugar é a altivez. Naturalmente não se ouvem. Um fala, o outro olha para o lado. Ou então para mim. Corta-lhe o discurso, e fala por cima do outro. O outro, por sua vez, olha para o lado. Ou então para mim. Confundido em saber quem é o outro? É propositado. Nem os intervenientes sabem já quem é o outro. Só existe o seu ego e pouco mais (eu, porventura). Sinto-me tentado, num desespero interior imenso, a interrompê-los e perguntar: ainda estão a falar? Ou, para tentar ser mais claro: sabem que isto se iniciou numa conversa mas que entretanto nenhum de vocês conversou? Provavelmente olhar-me-iam como um tolo. Permaneço calado, pois.
É assustador. É uma incomunicação aterradora. Perto do autismo. Sinto-me constrangido e sem saber o que fazer. Involuntariamente, o meu olhar torna-se no centro das atenções. É agora o verdadeiro ponto de interesse para aquele que não quer ouvir o outro que fala. Como que uma legítima distracção para não ter que escutar o outro até ao momento em que possa novamente interrompê-lo sem pedir licença. Chega a parecer um jogo a ver quem interrompe e fala mais e quem escuta e apreende menos.
Naturalmente não dou qualquer opinião. Embora tenha a presunção, confesso, de que, no caso, seria ouvido.
Pensei em gravar o momento para que alguém pudesse ter alguma noção do sucedido. E dizer-me que também já presenciou momentos como este, caso contrário receio ser uma paranóia assustadora da minha cabeça.
Sinto-me incomodado e saio. Considero-os tolos. Peço para não voltar a estar numa situação destas muitas mais vezes nos próximos tempos. Perturba-me tanto...
que raio de amor é esse.
Contido, calculista. Atento e matemático nos minutos.
Estupidamente recíproco na suposta indiferença, nos carinhos devidos, nos estados de graça e noutros não tão bons.
então e a liberdade?
Que se lixe o equilíbrio e a reciprocidade. Isso não faz bem a ninguém.
E já estou chateado comigo mesmo por ter demorado tanto tempo a escrever e reescrever este textinho de merda. Tudo por causa do equilíbrio.
A verdade é que também não gosto da vaga loucura. Parece-me infantil.
então e a liberdade?

segunda-feira, 16 de março de 2009

Não tinha pão nem água. E a pouca roupa que tinha estava esfarrapada.
Tinha uma pele amarelecida pela sujidade, muita barba e uns olhos sem expressão.
E tinha um mp3. Uns fiozinhos pelo pescoço acima com duas bolinhas pretas nos ouvidos.

domingo, 15 de março de 2009

o azul, de novo


Intimacy Of My Womans Beautiful Eyes - James Carter
Sim, gosto de ti.
Sim, penso em ti a toda a hora.

Não, não quero estar contigo.

(Sim, quero.)

domingo, 8 de março de 2009

aditamento

O meu pai está na cozinha a fazer o almoço e a minha mãe no escritório a estudar.
Viva! :)
Vasculhei a minha memória em busca de um livro, de uma música ou de um poema para celebrar o dia internacional da Mulher. Como não encontrei nenhum que me satisfizesse plenamente, resta-me dizer que este dia é, para mim, mais do que o Dia da Mulher, um dia da Humanidade.
Talvez porque fui criado e educado por uma mulher guerreira e inteligente, a Luta da Mulher me desperte particular sensibilidade.
Que todos os dias do ano sejam dias da mulher e, portanto, dias da Humanidade. Este é o meu desejo.
E que belo dia de sol está... Viva!

sábado, 7 de março de 2009

falta a letra

... que, não sei porquê, não consigo encontrar. A música é linda.

The first time, the last time
The first rhyme, the last rhyme
The first love...



First Love - Stereo MCs

sexta-feira, 6 de março de 2009

comunicações via Noruega

O meu amigo Nuno, arquitecto paisagista (e ele faz questão de sublinhar o paisagista, pois a maioria das pessoas pensará, como eu pensava, que a paisagista era o patinho feio da Arquitectura), foi já há uns tempos para a Noruega trabalhar. E agora partilha um pouco do seu trabalho connosco no numunicações. As fotografias são belíssimas. E já aprendi algumas lições de democracia participada... Vale a pena dar lá um salto!

O Nuno, que provavelmente nem vai sequer saber destes elogios que lhe faço, é um gajo super dinâmico, inteligente e disponível. Do que guardo das minhas passagens por terras nórdicas, resta-me pois dizer que na Noruega, o Nuno está como um peixe na água.

domingo, 1 de março de 2009

O Acossado



Eu não sei quem é este senhor, mas já tenho pena dele. É que de todas as vezes que o Público online faz uma notícia sobre a energia nuclear iraniana, aparece a fotografia do pobre do senhor.

sábado, 28 de fevereiro de 2009

"gostos são gostos" e este texto deixa de fazer sentido

Uma das grandes marcas da música contemporânea é, sem dúvida, a electrónica. A popularizada música electrónica está hoje em todo o lado e é alvo dos mais especializados e aprofundados estudos e dissertações. Basta lermos uma crítica do ipsílon do Público para vermos como meia dúzia de bpms (beats per minute) repetidamente tocados podem ser intelectualizados e transformados num texto de tal forma erudito que nos pode fazer interrogar a nós mesmos se o problema é nosso em não conseguir apreciar a música.
Alto! Digo isto, mas tal não se passa comigo. Há muita música electrónica por aí que eu adoro e de quem sou um ávido consumidor. E frequentemente vou a espaços nocturnos para ouvir concretamente música electrónica. Não obstante tudo isto, e por conversas que tenho com outras pessoas (com os meus pais, especialmente), conheço e compreendo as dúvidas que assaltam aqueles para quem techno ou minimal são um pum pum um atrás do outro, sem musicalidade, originalidade e qualidade.
Não é sobre isto que me vou debruçar agora. Eu gosto de música electrónica, ponto.

Mas não deixo de pensar em como esta música electrónica pode dizer muito das pessoas que a ouvem acriticamente. Estava há uns dias numa discoteca onde os djs tocavam qualquer coisa entre o techno e o progressive. Não estava a gostar porque as batidas, de tão vigorosas, não deixavam espaço para mais nada: não havia melodia, não havia sintetizadores, quebras rítmicas, vocais, nada. Nada de nada. Olhava à minha volta e via jovens e não-tão-jovens a dançar de olhos fechados e rostos sérios. Mas a expressão não era de prazer ou fascínio. Dançava-se porque sim, assim me parecia. De 4 em 4 minutos, chegava do dj uma curta quebra no beat e ouvia-se como que um vento revitalizante... e rapidamente a nova batida, em quase nada diferente da anterior, voltava a ser o metrónomo do movimento corporal dos presentes.
Entre os que dançavam e os que tocavam gerava-se uma relação quase de indiferença. Porque os segundos tocavam aquilo que lhes aprazia, sem mostrar grande preocupação pela receptividade dos ouvintes; para os primeiros, o que ouviam era aquilo e pronto; comiam e calavam.
Por outro lado, vendo as coisas exclusivamente na perspectiva da relação dos ouvintes com a sonoridade, também há algo que gostaria de dizer: quando a música é brutalmente repetitiva - não me estou a referir à repetição da batida em sim mas à repetição em que mais nada se oiça - isso não dirá alguma coisa daquilo que um indivíduo espera, quase inconscientemente, para essa noite (e eventualmente para outras noites e mesmo dias)? A falta de expectativas, a ausência de um desejo em ser surpreendido, a passividade acrítica parece que se tornam um estado cómodo e normal para os indíviduos. E pensando eu nisto e ouvindo ao mesmo tempo a música num espaço empedrado ao estilo das raves de Berlim dos anos 80 e 90 - assim me diz o meu imaginário - a coisa ganhou uma certa dimensão noir...
Umas vezes na música, noutras em certas dimensões cívicas e comunitárias, o indivíduo parece estar a dançar ao som do techno mais pobre e reducionista. Move-se para acompanhar o ritmo, sem expectativas ou surpresas... mas move-se para não ficar parado, o que na vida quotidiana significa "ficar para trás". E para trás é que ninguém quer ficar...
Fica-se então ali, naquele espaço de paredes cruas, de olhos fechados e gestos, tal como as paredes, empredrados. Se o dj quiser surpreender com algo fresco e colorido, tanto melhor; caso contrário, ninguém vai deixar de dançar. À falta de melhor, dança-se porque sim. Está tudo escuro...


Para aqueles que não apreciam música electrónica, fica o apelo de que ouçam o som (um clássico dos Booka Shade), pelo menos, a partir do minuto 1.30:

Mandarine girl (album version) - Booka Shade

comodismo convencional

Há uns dias, Ester Mucznik (EM) assinou uma coluna no Público onde, abordando os julgamentos das atrocidades cometidas por dirigentes do regime de Pol Pot no Cambodja, se interroga 1) sobre a legitimidade desses homens em dispor de um julgamento justo; 2) sobre a idoneidade e capacidade ético-moral de um advogado em defender um criminoso (nem era preciso dizer que qualquer homem, qualquer, é inocente até prova em contrário - o senso comum, por vezes, também é valioso).
Ests duas interrogações são de tal forma espantosas que o leitor poderá ficar na dúvida, como eu fiquei, se EM estará a falar a sério. Prefiro pensar que não, e que tudo não passou de um grito de revolta a quente contra um regime mórbido e homicida.
Fico mais descansado comigo mesmo. E com EM.

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2009

Por vezes assusto-me com a incoerência de que sou capaz comigo mesmo. Numa determinada circunstância consigo estar a dizer que é preciso fazer ou mudar isto e aquilo, e no minuto seguinte, se ouço alguém muito exaltado, sem grande bom-senso a dizer que é preciso fazer ou mudar esse mesmo isto e aquilo, já lhe vou recomendar reflexão, prudência e uma outra visão das coisas.
E aí tenho medo de caír num imobilismo para a vida.

fraseologia ou algo mais

Quando se fala em "lei do mais forte", queremos dizer que há uma lei do mais fraco e uma lei do mais forte e que vinga a segunda?; ou que entre mais fortes e mais fracos, por circunstâncias derivadas de tal dialética, se gera uma e só uma lei, propriedade nem de fortes nem de fracos, mas que beneficia os fortes e oprime os fracos?
Os fracos também têm uma lei? É imaginável um status em que vigore uma "lei do mais fraco"? É ela inexoravelmente opressora do mais forte? Mas... sendo a lei do mais fraco que mais impera, faz sentido continuar a falar no fraco? E no forte?
Por favor, se alguém pensar nisto, que o faça não se limitando a algo próximo da luta de classes marxista.

terça-feira, 24 de fevereiro de 2009

Erice

A vila (não estou certo do qualificativo) de Erice foi, na minha curta existência - penso poder dizê-lo - um dos lugares mais bonitos onde já estive.
Valendo fundamentalmente pelas suas espantosas landscape (chega-se a avistar África), Erice é um vilória simpática no cume de um grande monte.
Lá de cima vemos uma imensidão assustadora de montanhas, mar, ilhas, casas. Quase como que num avião. Quando lá estive, o nevoeiro que persistia acrescentava um certo espiritualismo ao azul, verde e castanho que se espraia defronte dos nossos minúsculos olhos.
Penso em Erice e penso em muita coisa... interrogações, medos... alguns sorrisos também. Não estava num momento particularmente positivo. A vista que tinha à minha frente, de tão poderosa que era, creio ter engolido algumas das coisas más que me passavam pela cabeça. Aliás, isso é uma das coisas que nos últimos tempos tenho aprendido. Espantarmo-nos e apreciarmos algo (uma paisagem, um fenómeno, um ser,...) brutal da Natureza é um antídoto para pensamentos depressivos. Porque, pela sua força e beleza, pela ligação umbilical que com ela temos, nos impede de alienar do lugar onde vivemos. Dá mais sentido a esse mesmo lugar e à nossa existência nele mesmo. Não sei se me fiz entender da melhor forma - aliás, acho que nem eu me fiz entender bem a mim próprio quanto a esta experiência...
Em poucas palavras: este sítio ganhou um sentido muito especial na minha vida...













segunda-feira, 23 de fevereiro de 2009

quando ser diferente é ser igual

No Público da passada sexta-feira, dia 20 Fevereiro, nas últimas páginas inseridas no espaço de opinião, António Vilarigues assina uma coluna com o título "O meu Marx é diferente".
No primeiro parágrafo temos isto:
A propósito da actual crise económica e financeira do sistema capitalista, a obra de Karl Marx ganhou um novo relevo. Mas muito do que se escreve e diz revela um desconhecimento (ou ignorância) atroz. Falam de Marx, mas aparentemente nunca o leram. Quanto mais estudarem-no. O resultado é uma deturpação objectiva do seu pensamento. Uma caricatura ridícula da realidade da sua acção.

Ora eu não podia estar mais de acordo com estas palavras de Vilarigues. Fiquei logo entusiasmado.
O pior vem depois.

É que depois deste aviso à navegação, fiquei eu numa grandíssima expectativa sobre o Marx de Vilarigues. Aguardando então por uma abordagem profunda, sapiente e quiçá singular (talvez já estivesse a exigir demais) do pensamento marxista. O primeiro parágrafo justificava toda esta água na boca.
Mas foi sol de pouca dura. Até ao fim do texto, Vilarigues fala de todos os lugares-comuns do marxismo, de todas as tiradas célebres já batidas e rebatidas, de todas as leis (supostamente) ciêntíficas já vistas e revistas. Não diz nada de novo, não cria nada original. Acaba por, paradoxalmente, vulgarizar o Marx que tanto queria re-originalizar.
No último parágrafo, diz ainda Vilarigues, num último suspiro, que espera "ter demonstrado que o meu Karl Marx (e Friedrich Engels) é efectivamente diferente das vulgatas que por aí se vão vendendo". E ele, qual dinâmico burguês mercantilista, que não fez outra coisa senão vender-nos vulgatas...
Repare-se até na vulgaridade e no reducionismo que é falar de Marx apenas tendo em conta Engels. Chega a parecer um sofrido trabalho de grupo do secundário...
É caso para dizer que o feitiço se vira contra o feitiçeiro quando alguém vulgariza e nada de traz de novo ao pensamento de que ele próprio se diz ser um conhecedor de fundo, alheio às superficialidades dos outros que o citam.
O Marx de Vilarigues não é diferente. É que neste momento eu acho que nem sequer ortodoxo é. É sim tão comum como o de qualquer um que nunca sobre ele reflectiu, estudou. Descomprometidamente, claro.
É que no caso de um marxista ortodoxo sabedor, por mais sectária que fosse a sua posição, poderíamos ficar a saber novas coisas de que nunca tinhamos ouvido falar, novas abordagens ou interpretações inovadoras.
Vilarigues não traz nada disto, acabando por perder uma oportunidade de ficar calado em vez de contribuir para o punhado hermético de lugares-comuns que hoje existe quando se fala em Marx. É pena.

sábado, 21 de fevereiro de 2009

janelas

Palavras de Karl Popper:

O que é que eu considero como características de uma sociedade aberta? Gostaria de apontar dois aspectos: primeiro, que seja possível a discussão livre numa sociedade e que esta discussão tenha influência sobre a política. Segundo, que existam instituições para a protecção da liberdade e dos mais fracos. (...)
O Estado protege os seus cidadãos contra a violência bruta, mediante instituições jurídicas e sociais, e pode também protegê-las contra os abusos por parte da violência económica. Tudo isto já se faz actualmente e pode ser melhorado.
Temos simplesmente de construir instituições sociais que protegam o indivíduo economicamente débil contra o forte, isto é, instituições destinadas à protecção contra a exploração. O poder político pode controlar o poder económico. Os marxistas menosprezam as possibilidades da política e, particularmente, daquilo a que chamam de "liberdade formal".
Sublinho, portanto, o papel nuclear das insituições políticas no que diz respeito à reforma social. (...)
(...) as sociedades abertas não são muito estáveis, justamente porque estão expostas à discussão crítica. As ditaduras são mais estáveis e, naturalmente, ainda mais as utopias, que são sempre apresentadas como estáticas.
(...)
Considero portanto que o maior valor numa democracia reside na possibilidade da livre disucssão racional e na influência desta discussão crítica sobre a política. Nesse ponto, encontro-me em franca oposição com os que acreditam na violência, particularmente os fascistas. Tanto os marxistas revolucionários como os neomarxistas afirmam que não existe discussão "objectiva": antes de se entrar em diálogo com alguém, é preciso saber que ele tem uma posição marxista revolucionária relativamente à sociedade, isto é, que recusa radicalmente a chamada sociedade "capitalista" actual. Isto significa que se torna impossível uma discussão sobre os problemas fundamentais.
(...) Lembremos, contudo, o significado desta negação. Equivale à repressão de toda e qualquer opsição, quando se chega ao poder. Equivale à rejeição da sociedade aberta, à rejeição da liberdade e à adopção de uma filosofia de violência.
(...)


sobre a dita "sociedade aberta" (construção do próprio Popper):
Penso que é tanto realidade como ideal. Existem efectivamente diferentes graus de abertura. Em determinada democracia, a sociedade está mais madura, mais desenvolvida e mais aberta do que noutra democracia qualquer. O seu estado de maior ou menor perfeição depende de diferentes factores: da sua História, das suas tradições, das instituições políticas, dos métodos educativos e, finalmente, dos seres humanos que são aqueles que tornam vivas as instituições. (...) O que é necessário é trabalhar para uma sociedade mais sensata, na qual os conflitos sejam resolvidos de forma cada vez mais racional. Digo "mais sensata"! - porque não existe nenhuma sociedade sensata, mas há sempre uma sociedade mais sensata do que a que já existe, e que devemos portanto ambicionar. (...)

in Revolução ou Reforma? uma confrontação entre Herbert Marcuse e Karl Popper, entrevista guiada por Franz Starck

O único apontamento que faço é o tom demasiado situacionista, para não dizer fatalista, com que Popper fala de indivíduos economicamente débeis e fortes. Mas pode também ser uma interpretação errada da minha parte.