Da minha janela vejo o Bósforo todos os dias: divisões e correntes, agitações e marés. Tal como no homem, tal como no mundo.
sexta-feira, 27 de maio de 2011
(Andando, de Hirokazu Koreeda)
Uma tarde quente de domingo, depois do almoço. Em casa da minha avó, da minha tia, de uns amigos dos meus pais? Era só uma tarde quente de domingo, depois do almoço, e isso bastava.
Artigo de opinião publicado no Jornal Tribuna (nº 28/Maio 2011), papel impresso.
Este país não é para velhos nem para novos
Estou um bocado farto deste país. É o que normalmente acontece a quem gosta muito de nele viver. Passei anos da minha juventude a ouvir que os políticos eram “todos iguais”, “vigaristas”, “malandros”. Que só havia políticos “profissionais”, “de carreira”. Políticos que cresciam como cogumelos nessas empresas de outsourcing chamadas “jotas”, que albergam, como é sabido – e com as devidas excepções, que só confirmam a regra – aqueles que nas faculdades são os piores alunos, os que chumbam, os que deixam anos para trás, os que não põe os pés na faculdade, enfim, os que são conhecidos por tudo menos pela capacidade de gestão do tempo, responsabilidade, excelência, brilhantismo. Curiosamente, tudo qualidades que um bom político deve ter. Estou farto porque depois desse tempo todo a zumbirem-me os ouvidos, vejo como toda esta gente consegue ser muito pateta. E hipócrita. Devo fazer, antes de mais, uma primeira declaração de interesses: Fernando Nobre não me diz nada. Bem entendido, não é meu amigo, familiar ou accionista de uma S.A. minha. Nunca trabalhei para a AMI (o que é lamentável, bem vistas as coisas) nem nunca participei em nenhuma campanha eleitoral ao seu lado (nem ao lado de ninguém). Nem quando esteve a apoiar o Bloco de Esquerda, nem quando se candidatou à Presidência da República.
Portanto, depois de anos e anos a ouvir aquela lenga-lenga, eis que surge um não-político a candidato à Presidência da República. E quem é ele? Um “jotinha”? Não. Um empresário com interesses na política? Também não. Uma figura qualquer obscura e manhosa que caiu de pára-quedas (são tantos, credo…)? Não, não e não. Soubemos então (os que ainda não sabiam) que o senhor era formado em Medicina (vá lá, não é Direito), professor universitário e fundador da AMI, organização que, como é sabido (esta ninguém tinha desculpa), se dedica a intervenções diversas no campo da solidariedade social (missões humanitárias no estrangeiro incluídas) e que o faz apelando à livre e voluntária participação de todos – o que hoje se chama de “participação cívica” (que só não está expressamente na Constituição porque já lá está muita coisa que infelizmente não é cumprida). E nós, portuguesinhos sempre duvidosos de sobrancelha erguida, lá nos encolhemos. Caraças, e agora, o que devemos pensar de um homem destes?
O pensamento dá azo a muita coisa, já o sabemos. Mas é verdadeiramente notável que os portugueses, os tais que salivam quando falam dos políticos “profissionais”, tivessem entendido o surgimento de Nobre como um “capricho” ou um “acto irreflectido”. Grande parte dos portugueses viu a entrada de Nobre na vida política (que é vida cívica, no rigor das coisas) como um passo de principiante, como alguém que entrou num domínio que não era o dele e que lhe estava, por qualquer insondável natureza das coisas, vedado. É isto que é obra: Nobre “manchou” o seu percurso, “estragou-se”, “deixou de ser quem era” porque entrou na política. Mas então não eram os políticos maus que estragavam a política? Ou a política é que é vil e estraga os homens, afinal? É melhor não pensarmos mais nisto, assustou-se o povo mirando-se ao espelho. O homem não é “para” a política, pronto. Mas nem todos pensaram assim, felizmente. Alguns entenderam que Nobre era uma lufada de ar fresco e que, ao contrário do que os seus mais cínicos detractores disseram e dizem, tinha ideias para Portugal: na tecnologia e na criação de mercados inovadores, na exploração do nosso potencial marítimo, na lusofonia, na exploração de novos mercados asiáticos e africanos (que serão os de ponta daqui a algumas décadas, se já não o são), etc. Contra isto, os fazedores de cabeças mais mediáticos encarregaram-se de pôr o homem no lugar: Nobre era só uma personagem infantil, naif, “sem um discurso articulado” (sic) e sem “perfil” para Presidente da República. Valha-nos o “perfil” de Cavaco Silva, esse vulto carismático da República. Mas nem todos pensaram assim, dizia, e o pobre homem teve uma percentagem atraente de votos, o que até lhe deu para pagar a campanha e tudo. Foi esgadanhado mas saiu de cabeça levantada.
O pior estava para vir depois. Aberração das aberrações: não é que o senhor teve a “lata”, o “desplante” de voltar a aparecer para nos incomodar? Voltamos à lenga-lenga: não há ninguém “independente”, “sério e honesto”, de fora do “pântano dos partidos”. É então que Nobre, qual enfant terrible, aceita o convite do PSD para fazer parte das listas de deputados para a Assembleia da República. Caíu o Carmo e a Trindade e até o Coppola já tinha material para fazer outro filme de culto. Da direita à esquerda, o povo bolçou sentenças: é um “traidor”, um “vira-casacas”, um “oportunista”. O homem que sempre se disse – e que o foi, de facto – independente, foi assim atacado até não haver mais cartuchos.
O que apetece dizer? Que estou farto, a transbordar de farto. Só um país atávico e mesquinho como este, hipócrita até aos ossos, é que pode censurar o facto de Nobre ter aceite o convite do PSD. Comecemos à esquerda. A razão aqui é mais facilmente visível: entendem que o homem já apoiou listas do Bloco e que, pecado dos pecados, sempre teve uma visão “de esquerda”. Como se, a partir do momento em que temos posições sobre determinados assuntos, isso nos colasse imediatamente a um espectro político do qual não podemos sair. É esquecer, também, que Nobre sempre defendeu uma economia de mercado como a que temos e uma democracia liberal como a que nos governa, posições que, se devidamente consultadas, poderiam evitar muitos mal-entendidos. Embora, como saibamos, estas vozes sejam as mesmas para quem ainda hoje tudo o que foi de extrema-esquerda antes do 25 de Abril e hoje é socialista ou social-democrata é um vira-casacas aburguesado e para quem Fidel Castro é um homem “fiel aos seus princípios”. À direita, a coisa ainda tem mais piada, porque menos previsível. Não o chamam de “vira-casacas” (como à esquerda) porque Nobre é, por muito que lhes custe, um homem sem clubismos ideológicos e que, chatice das chatices, aceita o mercado livre. Então, o que resta? Num passe de mágica, argumenta-se que o homem está “absolutamente impreparado” para a política, que “não tem competências (sic) para estar na política”, enfim, que é um infantil mas cândido cidadão (a quem ninguém nega o exemplo cívico, claro) que cometeu um erro perdoável e que o que tem a fazer é voltar lá para as suas coisas dos ”pobrezinhos”. É um “bom homem”, ninguém dúvida, mas não suficientemente bom para… a política. Bons são os que lá estão, deduz-se. E voltamos ao início.
Os únicos dois aspectos a lamentar nesta nova aparição de Fernando Nobre são dois. Um, culpa do PSD, que é o de o ter convidado para ser Presidente da AR, quando, como se sabe, essa tarefa implica um conhecimento de matérias jurídicas e procedimentais complexo. Outro, culpa de Nobre, é o de ter dito, numa primeira fase, que só iria para a AR se fosse para ser Presidente da AR. O que, além de revelar alguma presunção e falta de dignidade para exercer o cargo de deputado (como se este fosse um cargo “menor”), é também surpreendente, ou não soubéssemos todos como é uma “seca” estar a mandar calar os deputados quando o seu tempo de antena chega ao fim. “Tem 30 segundos para terminar, Senhor Deputado…”.
"Jean Baudrillard, nos seus tempos áureos de cartógrafo e analista do presente, dava este exemplo da “estratégia fatal” dos objetos e da ação que, por excesso, se torna inércia: solicitada a justificar, por suspeita de fraude, as contas anuais que tinha apresentado, uma empresa americana depositou à porta da secção de finanças local um contentor cheio de papéis que, se fossem verificados como estava previsto, entupiriam por longo tempo todos os serviços da secção. A metáfora do entupimento, como sabemos muito bem, aplica-se também a outro exemplo de inércia forçada pelo excesso de mobilidade: as filas de carros parados nas ‘vias rápidas’ para entrar ou sair de uma cidade. Desta forma de entropia, as caixas de comentários dos sites dos jornais são hoje o melhor exemplo: elas foram criadas para alargar a esfera pública mediática, para criar a ágora virtual, apta a realizar as promessas mais amplas da democracia.
Mas o que acontece, afinal? Tão aberto e sem controlo é o espaço que os primeiros a aceder a ele são os que se alimentam do combustível mais forte: os enraivecidos, os despeitados, os ressentidos, os voluntariosos, os tagarelas. Esta gente toda a trocar mensagens e insultos, a disseminar ódios e opiniões, a gritar impropérios e calúnias, ocupa a ágora de maneira tão ruidosa e tão avessa ao “agir comunicacional” que afasta quem, com saber ou racionalidade argumentativa, se dispõe a intervir. A “dialética do Iluminismo”, que Adorno e Horkheimer identificaram na reversibilidade da razão moderna, encontrou aqui a sua realização extrema: uma esfera pública totalmente aberta e ilimitada, exatamente por o ser, redunda no seu contrário; a promessa ‘iluminista’ por excelência torna-se o reino das trevas; e os meios que julgávamos poderem cumprir a promessa de uma sociedade racional tornam-se os instrumentos da barbárie".
Por José Couto Nogueira, no jornal "i", 23 de Abril (http://www.ionline.pt/conteudo/118948-otelo-tragedia).
"(...) E lá veio ele [Otelo Saraiva de Carvalho], para celebrar o 37.o ano de la revolución, dizer que está arrependido, uma enormidade. Que se soubesse que dava "nisto" não a teria feito. Falou como falam os que não conheceram o Estado Novo e pensam, ingénuos, que se agora é mau dantes só podia ser bom. Ele, conhecedor do antigamente, devia lembrar-se, como todos os que aturaram o antigo regime, que nada podia ser pior do que aquilo, nem sequer isto.
Não satisfeito, acrescentou que o país precisava era de um homem com a inteligência de Salazar. Que inteligência seria essa? A do retrógrado, pré-Revolução Francesa, que inventou uma economia baseada na miséria, no condicionamento industrial e na fixação dos preços? A do reaccionário, que desdenhava o debate, não suportava a crítica e não preparou a descolonização que se sabia inevitável desde Bandung, 1955?
Cada vez mais, com um despudor cada vez maior, se ouvem vozes a dizer estas coisas. Basicamente, as mesmas queixas que tornaram possível um Salazar - bandalheira, roubalheira, pseudodemocracia, a "ditadura dos partidos", bancarrota, pouca vergonha. E cada vez fica mais difícil, ou apetece menos, retrucar ao motorista de táxi retornado que diz aqueles chavões odiosos sobre a "traição da metrópole".
É verdade que uma constituição cheia de boa vontade, mas também de incongruências, permite esta "ditadura partidária", perniciosa porque os partidos estão plenos de ricardos e miguéis cheios de prosápia e vazios de vergonha, eleitos a martelo em listas enfiadas pelas goelas dos eleitores impotentes.
É verdade que o regime é dos espertos que ganham salários e prebendas pornográficas, ou fazem negócios inimagináveis, enquanto o vulgo oscila entre o desemprego, o precário e o nível salarial mais baixo da Europa.
Mas também é verdade que o analfabetismo recuou formidavelmente, a saúde melhorou astronomicamente e o nível de vida, ameaçado que esteja, não se compara aos níveis da outra senhora.
A justiça não funciona e não há corrupto que pague pelo que continua a fazer impunemente, mas os cidadãos são livres de invasões de domicílio a altas horas, de encontrões brutais por falar fora da cartilha, de prisões e degredos medievais.
Talvez a melhor maneira de apreciar o que temos seja imaginar como seria se não tivesse havido o 25 de Abril. Como estaríamos agora distantes da Europa, com passaportes que só dariam para ir a 12 países, com quatro anos de serviço militar obrigatório, com a indústria retrógrada, o ensino exclusivista e anquilosado, as conversas em família na televisão, a inquisição da moral e dos bons costumes, os livros proibidos, a verdade é só uma, o sr. dr. e a sua Excelência Meritíssima, manda quem pode e obedece quem deve. Os anos de chumbo a cobrir-nos ainda, como uma carapaça lúgubre e tenebrosa. As colónias em guerra permanente há 50 anos com todos os países limítrofes, agora apoiados pela China e pela África do Sul, com núcleos de colonos sitiados a precisar dos contingentes da metrópole para proteger petróleo e diamantes.
Não, Otelo não tem razão. Fez muito bem em fazer a Revolução e a Revolução era uma necessidade imperiosa. Descambou, é verdade. Não cumpriu, certamente. Mas não deve ser repudiada como uma vergonha. Deve, isso sim, é ser refeita, como um direito.
O que precisávamos era que os pequenos salazares se fossem de vez e a inteligência dos humanistas prevalecesse".
"(...) eres Ópera y Flamenco, eres todo lo que tengo y te amo, mientras brotas entre las notas de un piano. Y me desintegras pintando estas noches negras, me alegras, me invades, me evades, alejas las tinieblas y me resucitas siempre, nunca me mientes eres el recipiente donde lágrimas se vierten. Eres Tango y eres ritmo vives en do, re, mi, fa impredecible compás cuando te vistes de Jazz, llegas y me das ógixeno, mi único somnífero si el mortífero estrés tensa mis músculos, discípulo de tu inmensa maestría cuando no te conocía, como podía vivir sin percibir tu melodía fuiste mía y solo mía en mis horas de miseria, compones la banda sonora de esta tragicomedia. Tú reina entre mil reyes, cumbre de mis valles, me levitas y asi evitas que tanto odio me ametralle tú, si eres Hip-Hop muestras denuncia y carisma, pero te vistes de clásica y sigues siendo la misma. Eres tú, mi suerte, eres tú, tan fuerte, eres tú, tú, tan diferente surges y de repente la vida olvida a la muerte. Imposible de tenerte si naces de un pentagrama, si el drama yace en mi cama me abres enormes ventanas, tu llama jamás se apaga, luz de eterna juventud cuando lloras punteando una guitarra de Blues. Eres tú, la rabia sucia y rasgada de Kurt Cobain el compromiso sincero de Marvin Gaye, la grandeza de John Coltrane improvisando con el saxo, la mirada niñada en los ojos de Michael Jackson. Y es que tu son me sedujo, tu luz me dejo perplejo y caí, reviví como el sol en forma de Soul aren be bebí de tí el elixir y resistí los golpes, si fui torpe encontre por fin mi norte, mi soporte. Entre acordes de Mark Knopfler redobles de Hanckock Herbi, de Vivaldi hasta Elvis, desde Verdi hasta Jack Berry. Inmortales piezas musicales hacen que el tiempo se pare, estallan como bombas provocando ondas letales de esperanza, de aliento y vida, mi gran amiga solo tu haces eficaces todas las frases que diga, mi balanza, mi paz, mi druida, en la fatiga solo tu haces realidad los sueños que yo persiga. Y es que sin ti no hay destino, solo piedra y mil caminos, sin ti, soy un mimo temblando en el camerino. Pero tu acojes mis voces si me ves desorientado, y bailas conmigo un Vals igual que dos enamorados. Eres la llave inmortal que abre este mental presidio, desde Tiste-tutanclan hasta el ójala de Silvion. Envidio el poder que impones en canciones despiertas mis emociones, con creaciones de Ennio Morricone. Sensaciones sin control cuando eres Rock n Roll, el erotismo de un bemol en la voz de Diana Krall el solo de guitarra eléctrica que el silencio rompe, la armónica que esconden las manos de Steve Wonder. Te vi dónde todo acaba y Nada Sira con Black Sabbath respiras vida con la calma que inspira Bob Dylan, oscilas y posees a James Brown mueves su cuerpo, junto a Freddy Mercury, Ray Charles jamás habrán muerto. Y es cierto da igual que suenes con un arpa o un acai, con la clase de Frank Sinatra o de Barry White. Eres la métrica enigmática que envuelve mi ser y lo salva, el idioma con el que los dioses hablan, eres música"
sábado, 26 de março de 2011
Todas as pessoas são assustadoras... menos as crianças.
Onde quer que isto vá dar - admitindo que pretende ir dar a algum lado... -, e o que quer que esteja por detrás deste enorme mistério (non sense? ficção? (sur)real?), a verdade é que esta esta serie começa a ganhar paulatinamente o estatuto de série de culto, sobretudo porque nunca este país tinha visto alguém fazer humor (?) de uma forma tao desconcertante como esta.
O melhor jogador de futebol que vi a pisar um relvado.
O meu ídolo e o de todos os miúdos da minha altura, que desde 1996 sonham em passar no meio de dois jogadores à velocidade da luz com uma bola colada nos pés.
Não fossem as lesões e hoje ninguém teria dúvidas em o colocar um patamar acima de todos, Pelés e Maradonas incluídos.
"Mac ficou sentado no teatro abafado e escuro a tarde inteira. Não viu os números nem os filmes entre os números. Não falou com Maisie. Ficou sentado com um nó na boca do estômago. Os rapazes devem estar a montar uma campanha pelo direito de expressão cá na cidade. De vez em quando olhava para a cara de Maisie à escassa luz vinda do palco. Tinha engordado um pouco em curvas satisfeitas como um gato instalado junto a um fogão quente, mas continuava bonita. Já tinha esquecido tudo e estava perfeitamente feliz a ver o espectáculo, lábios entreabertos, olhos brilhantes, como uma rapariguinha numa festa. «Acho que me vendi mesmo aos filhos da mãe, isso é que foi», repetia Mac para consigo".