sexta-feira, 24 de fevereiro de 2017

Crítica de cinema

 
 
 
No Artes Entre As Letras que saiu esta semana, escrevo sobre os novos filmes do Affleck, Lonergan e Sachs. Resumindo: cada vez gosto mais do Affleck.
 
 
Viver na Noite (2016), Ben Affleck ★★★
O título original (Live by Night) é todo um statement sobre o património cinematográfico americano clássico e, simultaneamente, a declaração de amor de um cineasta actual a filmes, actores e ideias de outros tempos, esses de They Live by Night, noir realizado por Nicholas Ray. A partir daqui, deste fascínio e reverência (nunca “obediente” ou copista, porém), rapidamente se avistam os terrenos pelos quais Affleck tem andado enquanto realizador, ora no filme “de gangsters” ou policial (A Cidade, Vista Pela Última Vez…), ora no filme “político” ou “de investigação” (Argo). O seu último filme, pertencendo ao primeiro grupo e abraçando (celebrando) declaradamente o imaginário noir, confirma o que esses títulos anteriores já deixavam relativamente claro: que se, provavelmente, o californiano nunca virá a ser um cineasta fora-de-série, é, não obstante, um dos mais lúcidos e interessantes a trabalhar dentro de Hollywood, alguém capaz de fazer filmes inteligentes, sérios, e dos quais sobressai todo um modo de os pensar (escrever, encenar, filmar) próprio, individual – numa palavra, autoral. Depois de Aliados (2016), de Zemeckis, este é um mais interessantes filmes da sair de uma major americana nos últimos tempos, no qual Affleck, além de realizar, interpreta um americano (Joe) de ascendência irlandesa traumatizado pela Primeira Grande Guerra que, na sua rotina de pequenos roubos e “encomendas”, se recusa terminantemente a pertencer a uma click de gangsters… até ao dia. Essa rejeição, mais do que moral (embora também o venha a ser a partir do momento em que, claro, se apaixona), é, sobretudo, de razão prática: depois de combater na guerra, Joe não aceita, por nada deste mundo, voltar a depender das ordens e interesses dos outros, e é esse o dilema que o irá acompanhar ao longo do filme numa – sangrenta, passe o paradoxo – demanda pela redenção. Claro que nada disto é novidade (de The Roaring Twenties, de Walsh, a Out of the Past, de Torneur, as alusões são mais que muitas), mas Affleck também não tem a pretensão de o fazer passar por tal, antes jogando competentemente com os códigos de uma época (ou de um cinema) na construção de um filme sólido, enxuto e com personalidade.
 
Manchester by the Sea (2016), Kenneth Lonergan ★★★★

Uma cena, já quase no final do filme, praticamente define o tom deste enorme – e não apenas no sentido da sua duração – melodrama erigido por Lonergan (que não deixa, alegoricamente, de remeter para O Velho e o Mar de Hemingway…): essa em que Lee e Patrick, enquanto sobem uma rua, param momentaneamente por causa da bola que rola pela rua abaixo. Lee, que se encontrava a brincar com a bola nas mãos, desiste, resignado, e não vai no seu encalço (“Let it go…”, diz ao sobrinho); Patrick, não se conformando, faz questão de ir atrás dela, recuperá-la e – pedra de toque – entregá-la a Lee. É disto que trata, com enorme sensibilidade delicadeza, o filme de Lonergan: a luta interior de um homem que, depois de um evento traumático (sobre o qual o filme só progressivamente vai levantando o véu), vive a reparar canos, ligações e tudo o mais que for preciso, forma de “resolver” os problemas dos outros quando não se consegue resolver a si mesmo (há qualquer coisa de "místico" nestas águas dos canos que Lee repara quando as colocamos ao lado das águas do mar do título, das da chuva e, sobretudo, ao lado do fogo trágico que não lhe sai da cabeça...). Nesta busca impossível pela remissão de pecados que não cometeu, Lee é esse homem “pragmaticamente triste", sobrevivendo num estado profundamente frágil, alguém que já não acredita em "segundas bolas" para a sua vida. Patrick é o sobrinho que, mesmo que inconscientemente, vai contrariar (a tal bola que insiste em recuperar e entregar ao tio), de alguma forma, esse espírito fatalista de Lee, de certo modo o despertando para realidades que ele julgara desaparecidas para sempre (o apego, a sedução, o humor, o carinho que um abraço encerra). Lonergan, que assina igualmente o argumento, não filma, contudo, com mão moralista ou, pior, com aquela tentação de “resolver os problemas” de todos, antes sendo no olhar demorado e respeitador sobre a complexidade e a deriva emocional das personagens que reside o núcleo essencial do filme, forma humilde, aliás, de as tentar compreender. O plano com que o filme termina – o melhor, aliás, com que podia terminar – é reflexo disto mesmo, sendo imediatamente precedido da decisão de Lee (“I can’t beat it...!”, diz pelo meio de um doloroso diálogo com o sobrinho), a qual contrasta (porque, insista-se, ninguém está aqui para resolver os dramas de ninguém, apenas para os compreender) com a de Patrick e a sua obstinação em pagar o arranjo do motor do barco do pai (a ausência deste é, justamente, o “motor” de todo o filme). Inteligente, outrossim, o modo como o cineasta deixa esta “geografia da distância” (Manchester e Boston) sempre latente (aqueles numerosos e belos planos "à janela" nas viagens de carro...), estando o seu valor dramático nesses quilómetros que, não sendo gigantescos, são os suficientes, pelos afectos de uns e pelos traumas de outros, para manter tio e sobrinho fisicamente separados. Nada disto, porém, é tratado com recurso a um dramatismo fácil ou lamechas; ele existe, sim, mas está sempre em estado de latência, só pontualmente vindo ao de cima nos socos bêbedos de Lee (espécie de "pausas" na sua contenção existencial, "explosões controladas" para descomprimir tantas angústia acumulada). Se, ao contrário do que muitos dizem, Casey Affleck nunca foi um actor menor (embora tenha entrado, isso sim, em muitos filmes menores), talvez nunca o tenhamos visto em tão retumbante actuação, e oxalá outros cineastas da estaleca de Lonergan o apanhem para filmes futuros. Quanto a este último, acrescentar apenas que entra definitivamente, com este seu terceiro filme, para a galeria dos mais notáveis cronistas familiares americanos actuais, juntamente com os nomes, por exemplo, de Woody Allen, Noah Baumbach, Linklater, Ira Sachs ou Derek Cianfrance (quem viu Blue Valentine com olhos de ver, reservar-lhe-á sempre aqui um lugar). 
 
Little Men (2016), Ira Sachs ★★★
Se acima elogiámos o final de Manchester by the Sea pela sua justeza, o desfecho do filme de Sachs, um dos grandes retratistas da Nova Iorque dos nossos dias, sendo igualmente "derivativo" e sem intenções conclusivas ou “resolutivas” para o destino das suas personagens, tem o efeito precisamente contrário: o de acabar por sublinhar uma certa desorientação latente no filme, como se Sachs não soubesse muito bem, a certa altura, o que fazer com ele. Se a sensação que se instala a partir do último terço do filme  de que tudo já foi tratado e pouco mais há a dizer não faz de Little Men um mau filme (de todo), o certo é que deixa a descoberto a falta de intensidade e nervo que se pedia ao nova-iorquino num filme que, feitas as contas, pese embora bem contado e bem filmado, acaba por ter o seu quê de inofensivo e esquecível. Filmes há que, aparentemente irrelevantes no momento em que os vemos, ficam connosco por muitos dias (ou até meses e anos); Little Men, pelo contrário, é um desses filmes que, prazeroso de assistir enquanto estamos na sala, rapidamente se nos desvanece da memória assim que vamos às nossas vidas. Ficamos, porque Sachs já nos deu belos motivos para isso, à espera de mais.



Eu, Daniel Blake (K. Loach)
★★★
Little Men (I. Sachs)
★★★
Viver de Noite (B. Affleck)
★★★
Manchester by the Sea (K. Lonergan)
★★★★
Eldorado XXI (S. Lamas)
Silêncio (M. Scorsese)
★★
Fragmentado (M. N. Shyamalan)
★★★
Passageiros (M. Tyldum)
Sala Oculta (D. J. Caruso)

Sem comentários: