quarta-feira, 28 de junho de 2017

Crítica de cinema - Junho



No Artes Entre As Letras desta semana, escrevo sobre o curioso A Missão e o documentário sobre David Lynch. Bons filmes!

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A Missão (2016), Walter Hill ★★★
A certa altura, quando um(a) fragilizado(a) Frank Kitchen (Michelle Rodriguez) pergunta a Johnnie, que mal o conhece, se pode ficar uns tempos em sua casa, esta responde-lhe: “Of course… We’re fuck buddies!”; ouvem-se risos de escárnio na sala e a implausibilidade desta súbita hospitalidade parece fazer o filme resvalar para o ridículo. Mas quem ri por último, ri melhor: largos minutos depois, quando o argumento se desenvolve, o espectador percebe que foi inteligentemente manipulado, não através de uma grande “mentira” ou surpresa, mas por ter sido ultrapassado pela subtileza com que Hill desfia a narrativa. Só por isto, pelo facto de manter o espectador em sentido e, sobretudo, por não o tomar por mentecapto e lhe exigir cérebro, o último filme do americano, dos mais objectos mais esquizóides que tivemos oportunidade de ver em sala nos últimos tempos, constitui, desde logo, motivo de interesse.
 
Assentando no género clássico de “thriller de vingança”, A Missão dá igualmente ares de ficção científica filosofante (na questão da criação e da mutação humanas, do bem e do mal ou, ainda, da desviância comportamental como algo “inato”, no que não deixa de respirar tópicos criminológicos, logo políticos, fundos e actuais) e, importante não menosprezar, de comédia, como se o filme nunca se levasse demasiado a sério. Apesar de Rodriguez nunca conseguir sair do overacting (e não é apenas neste filme, antes um problema crónico cristalizado nos "Velocidades Furiosas" que protagoniza), a sua personagem cativa pelo modo como está a meio caminho entre a figura de B.D. e a de videojogo (não é por acaso que ela se “transforma”, que “muda de capa"), quase um “super-vilão” (para desenjoar dos “super-heróis” com que Hollywood tem intoxicado as salas de cinema) que se vai movendo de arma automática em cada mão. Falámos atrás na dimensão política, algo ainda mais patente no modo como a questão de género (masculinidade/virilidade) surge a baralhar as contas (ou seja, a nossa percepção cultural e simbólica) e a jogar ironicamente quer com a androgenia de Rodriguez, quer – et pour cause – com as próprias personagens que esta interpreta noutros filmes (sempre muito masculinizadas).
 
Como num western de que Hill, um veterano a filmar desde os anos 70, é admirador –, as personagens movem-se num espaço com códigos de conduta próprios, onde as normas sociais e morais estão suspensas, tópico de que, por outros caminhos ainda, o filme também se aproxima através da personagem de Sigourney Weaver, a cirurgiã que, citando Poe, define a arte como um domínio estranho a considerações políticas e morais para justificar o seu trabalho como uma obra artística (e, no caso da “cirurgia estética” que inflige a Rodriguez, há aqui ecos do "crime como obra de arte" propalado pelos célebres "estetas" de A Corda, de Hitchcock, não por acaso um filme em que a sexualidade das personagens principais também é problematizada). A B.D. está igualmente latente no próprio dispositivo visual de "apresentação das personagens" (os freeze frames que viram "ilustrações", a lembrar Sin City), talvez o elemento mais dispensável, juntamente com grande parte da banda sonora (demasiado presente e de mau gosto), do filme, mas que nem por isso lhe retira interesse (e perversidade) e impede de ser uma bem-vinda lufada de ar fresco às salas (sobretudo agora, ou não fosse precisamente o Verão o período por excelência dos “super-heróis”).
 
David Lynch: The Art Life (2016), ONeergaard-Holm, Nguyen, Barnes ★★
Não sendo fãs incondicionais da obra de Lynch, mas simpatizando com muito dos seus filmes e temas (e não tendo de todo, portanto, qualquer alergia anti-Lynch), quiçá estaremos em posição privilegiada (i.é, "emocionalmente imparcial", tanto quanto a "imparcialidade" existe nestas coisas) para avaliar um documentário que vive, sobretudo (e em demasia), da aura misteriosa e da gravidade que reserva ao seu objecto central, visível no próprio dispositivo solene montado: Lynch sentado, a fumar ininterruptamente (o fumo a forçar toda uma atmosfera "pensativa") e um microfone para onde vai debitando memórias ou ideias, das mais interessantes (a mulher nua ensanguentada, o vizinho Smith) às mais irrisórias ou irrelevantes.
 
Incidindo sobre a infância de Lynch até ao momento em que ganha uma bolsa para filmar Eraserhead (poderosa a forma como, salvo erro na última frase que se lhe ouve, explica, sem grandes desenvolvimentos mas com emoção, o que o cativou na personagem interpretada por Henry Spencer), é certo que o filme não retira fascínio à figura de Lynch; diferente disso, porém, é o que se consegue fazer com isso (com esse fascínio), e o filme, certamente pela própria reserva do cineasta, pouco desenvolve sobre a sua "art life", contra o que o título anuncia (justapor algumas frases soltas com imagens de Lynch a pintar ou de quadros seus fica curto).
 
Nada contra a discrição, mas um documentário deste género, para valer como objecto "observacional", exige mais algum tipo de escavação – e evidentemente que não eram "revelações" aquilo que aqui se pedia, bastando constatar, porém, que nenhum tipo de reflexão ou problematização de determinados aspectos artísticos é levado a cabo, tudo se ficando pelo tom monocórdico com que Lynch vai guiando impassivelmente o filme, pouco dedo "ordenador" e criativo sobrando para os realizadores, que parecem demasiado deleitados com o autor da recém-retomada série Twin Peaks. Em resumo: um filme simpático, arrumado mas inofensivo, que por certo agradará aos mais aficionados lynchianos precisamente pelo que apontámos acima: porque confirma (o mito, a aura) sem perturbar (exactamente o contrário do que os filmes do próprio Lynch sempre foram…).

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