sábado, 10 de janeiro de 2026

Rythm & Blues


SINNERS: Uma primeira hora magnífica, com a chegada de dois obscuros irmãos (vêm de Chicago, cidade que os seus conterrâneos imaginam como a utopia da igualdade mas que eles rapidamente desmentem, e da companhia de Al Capone) e a sua panorâmica visita à comunidade. Perde-se depois o filme quando aposta tudo no huis clos, que, no caso, significa a desinspirada citação (Tarantino, Rodriguez, etc.). Mas há uma cena que ninguém tira a Ryan Coogler e que só por isso nos deve fazer olhá-lo com a maior das considerações.

Quando Delta Slim, o ancião bluesman, recorda o dia em que, depois de ele e um amigo serem pagos por tocar na casa de uma família branca (à qual foram forçadamente levados pelos polícias criminosos que os tinham encarcerado na noite anterior), Rice (nome do mesmo produto extraído das maiores plantações de escravos), o amigo, decide, com esse dinheiro, apanhar um comboio rumo a Little Rock, para fundar uma igreja (espalhando a fé dos... opressores; ou, simbolicamente, para "fundar" outra "igreja", a de um género musical chamado "Rock"). No comboio - continua a contar -, é apanhado por elementos do Klan, que, inventando no momento a história de que Rice havia assassinado um homem branco e violado a sua mulher na noite anterior, lhe roubam o dinheiro e o lincham ali mesmo, na estação de comboios. Nesse momento, Slim tropeça dolorosamente nas palavras e, finalmente, cala-se fundo. Passados alguns segundos, a dor não mais encontra onde se alojar no corpo e Slim começa, muito baixinho, aflitivamente, a tartamudear algo, um pequeno silvo que vai crescendo timidamente até se transformar num melódico uivo ao qual os os seus dedos, tamborilando no couro do assento, adicionam... ritmo. Rythm... and Blues. E, então, os restantes, juntando-se ao seu uivo, cantam, cantam, cantam - despite all the suffering...
Assim de repente, não me lembro de ver no cinema a radical origem de toda a música afro-americana (dos spirituals ao ragtime, do jazz ao rock e à soul, do hip-hop ao funk e ao house) tão brilhantemente - e tão subtilmente - explicada. Chapeau, Chapeau, Chapeau.

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