Da minha janela vejo o Bósforo todos os dias: divisões e correntes, agitações e marés. Tal como no homem, tal como no mundo.
terça-feira, 3 de novembro de 2009
sexta-feira, 30 de outubro de 2009
A noite é a
maior ilusão de
todas.
e por isso mesmo
é que nós os
desiludidos a fruímos
sempre que podemos.
e o fruir é tanto maior quanto
maior é a supresa com que ela nos abraça
se roça, nebulosa
raposa
em nós.
Deitamo-nos com a boca seca
e damos graças à noite
damos graças
pela noite.
(talvez o nosso erro seja receá-la e
não a consumir mais vezes)
maior ilusão de
todas.
e por isso mesmo
é que nós os
desiludidos a fruímos
sempre que podemos.
e o fruir é tanto maior quanto
maior é a supresa com que ela nos abraça
se roça, nebulosa
raposa
em nós.
Deitamo-nos com a boca seca
e damos graças à noite
damos graças
pela noite.
(talvez o nosso erro seja receá-la e
não a consumir mais vezes)
quarta-feira, 28 de outubro de 2009
domingo, 25 de outubro de 2009
tu disseste
Tu disseste: "Quero saborear o infinito"
Eu disse: "A frescura das maçãs matinais
revela-nos segredos insondáveis"
Tu disseste: "Sentir a aragem que balança os dependurados"
Eu disse: "É o medo que nos vem acariciar"
Tu disseste: "Eu também ja tive medo. muito medo;
recusava-me a abrir a janela, a transpor o limiar da porta"
Eu disse: "Acabamos a gostar do medo,
do arrepio que nos suspende a fala"
Tu disseste: "Um dia fiquei sem nada.
Um mundo inteiro por descobrir"
Eu disse: "O que é que isso interessa?"
Tu disseste: "Nada..."
Tu disseste: "Agora procuro o desígnio da vida;
às vezes penso encontrá-lo num bater de asas,
num murmúrio trazido pelo vento, no piscar de um néon;
escrevo páginas e páginas a tentar formaliza-lo.
Depois queimo tudo e prossigo a minha busca.
Eu disse: "Eu não faço nada.
Fico horas a olhar para uma mancha na parede"
Tu disseste: "E nunca sentiste a mancha a alastrar,
as suas formas num palpitar quase imperceptível?"
Eu disse: "Nao. A mancha continua no mesmo sítio,
eu continuo a olhar para ela e não se passa nada"
Tu disseste: "E no entanto a mancha alastra
e toma conta de ti, liberta-te do corpo. Tu é que nao vês"
Eu disse: "O que é que isso interessa?"
Tu disseste: "Nada..."
Mão Morta, "Tu disseste"
sexta-feira, 23 de outubro de 2009
aspas
se sempre fosse
sempre, seria
"sempe"
porque
só assim a
eternidade deslizaria
por entre
o líquido entardecer
das palavras de quem sente.
Mas como sempre sempre
tem um érre, há
sempre quem
ferre o que de
"sempe" sempre
tem.
sempre, seria
"sempe"
porque
só assim a
eternidade deslizaria
por entre
o líquido entardecer
das palavras de quem sente.
Mas como sempre sempre
tem um érre, há
sempre quem
ferre o que de
"sempe" sempre
tem.
segunda-feira, 19 de outubro de 2009
isto é muito bonito...
Uma das mais belas odes ao Hip-Hop (musical e filmicamente). Doce, doce, doce...
[Norah Jones:]
Life's filled with graaaay...
But now, it comes clean...
Leaves fall, awaaaaaay...
Hip-hop is playing again
And it's bangin, toooo...
Know it's bangin, for you...
Don't stop this feeling I feel...
I just wanna lay around all day
And feel the breeze upon my knees
I'm so INTO your rich history...
Tell me a story to taaaake me away...
Come and take meeeeee, ooooooh...
Come and take meeeeee with yooooou...
[Chorus x4: Norah Jones]
Life is, better
Now that, now that I found you
Life is, better
Now that, now that I found you
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hip-hop,
Música,
norah jones,
q-tip
sábado, 17 de outubro de 2009
Deixei a carta selada depois
do inusitado
e apaziguador carteiro
me devolver a vida
que trazia na sacola.
disse-me que havia sido rejeitada
com a indicação de
"buraco desconhecido".
Pôs-me a mão no ombro e
quase me obrigou a lamber, ali mesmo,
o envelope com
o cuspo seco e aflito de
quem conserva cartas
sem ter lugar para as guardar. Não
ripostei e dei-lhe a carta para a sacola.
Nessa tarde, sei bem
que era de tarde,
enviei uma carta e
recebi outra. A primeira chegou,
continua ainda hoje a dizer-me o carteiro, ao seu destino;
a segunda, essa, a devolvida, continuo sem lugar
para a esconder.
mas o carteiro sempre diz:
"já não há nada para esconder!,
confie em mim!", brilhando-lhe
os olhos.
E eu, então, confio e
escrevo cartas e letras e palavras
e linhas
e isto.
Tudo isto
eu escrevi depois da tarde em que
o inusitado
e apaziguador carteiro cedo chegou,
desesperadamente cedo chegou.
do inusitado
e apaziguador carteiro
me devolver a vida
que trazia na sacola.
disse-me que havia sido rejeitada
com a indicação de
"buraco desconhecido".
Pôs-me a mão no ombro e
quase me obrigou a lamber, ali mesmo,
o envelope com
o cuspo seco e aflito de
quem conserva cartas
sem ter lugar para as guardar. Não
ripostei e dei-lhe a carta para a sacola.
Nessa tarde, sei bem
que era de tarde,
enviei uma carta e
recebi outra. A primeira chegou,
continua ainda hoje a dizer-me o carteiro, ao seu destino;
a segunda, essa, a devolvida, continuo sem lugar
para a esconder.
mas o carteiro sempre diz:
"já não há nada para esconder!,
confie em mim!", brilhando-lhe
os olhos.
E eu, então, confio e
escrevo cartas e letras e palavras
e linhas
e isto.
Tudo isto
eu escrevi depois da tarde em que
o inusitado
e apaziguador carteiro cedo chegou,
desesperadamente cedo chegou.
sexta-feira, 16 de outubro de 2009
a diferença que afinal é igual hoje e ontem
Ouvi pela primeira vez esta música cantada pelo Jamie Cullum. E lembro-me tão bem de quando foi...
Há dias, ouvi-a cantada por Dinah Washington, no filme Chungking Express.
Coisa bela, hein?:
"Twenty-four little hours
Brought the sun and the flowers
Where there used to be rain
My yesterday was blue, dear
Today I'm part of you, dear
My lonely nights are through, dear
Since you said you were mine
And the difference is you..."
Há dias, ouvi-a cantada por Dinah Washington, no filme Chungking Express.
Coisa bela, hein?:
"Twenty-four little hours
Brought the sun and the flowers
Where there used to be rain
My yesterday was blue, dear
Today I'm part of you, dear
My lonely nights are through, dear
Since you said you were mine
And the difference is you..."
quinta-feira, 15 de outubro de 2009
bota-coisa-nenhuma
Neste país, enquanto autocarros fazem greves e pessoas chegam tarde a casa e às sua famílias, enquanto casais de namorados discutem com olhos de amargura e indigentes passeiam a fome numa mão suja da moeda que nos sai do bolso (a uns mais, a outros menos), há quem se lembre de fazer uma festa de inauguração de um estabelecimento comercial que vende cafeteiras. Neste país, nos poucos autocarros que levam os cúmplices anónimos para os seus lares, os olhares retêm-se na bizarria de uma festa de inauguração onde não falta tapeçaria vermelha, garçons engravatados, focos de luz hollywodescos, muito design muito roxo e muito preto (que é "sóbrio", e muito), música de melodia nenhuma bem alta, mulheres vagamente sencientes de vestidos para ocasião e convidados com uma desgostosa "honra" inscrita algures entre a testa e e o chão que pisam.
Neste país, que uns apelidam de "novo-rico", que outros acusam de um viver "bacoco" e ainda onde muitos resmungam para o lado: "cambada de parolos", neste país, é neste país, que eu vivo. Não tenho outro. Nem quero ter. Gosto dele.
Mas quero escrevê-lo e ser livre para o chamar de novo-rico, bacoco e entrever a cambada de parolos que nele cava uma vala de idiossincrasias plásticas, que nos são estranhas, que não são nossas.
Este país deu-me a liberdade e eu faço por a merecer.
Neste país, que uns apelidam de "novo-rico", que outros acusam de um viver "bacoco" e ainda onde muitos resmungam para o lado: "cambada de parolos", neste país, é neste país, que eu vivo. Não tenho outro. Nem quero ter. Gosto dele.
Mas quero escrevê-lo e ser livre para o chamar de novo-rico, bacoco e entrever a cambada de parolos que nele cava uma vala de idiossincrasias plásticas, que nos são estranhas, que não são nossas.
Este país deu-me a liberdade e eu faço por a merecer.
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"Só neste país é que se diz "só neste país""
quarta-feira, 7 de outubro de 2009
=
Também nós os dois vivemos à noite, como nos filmes...
Sofremos e sorrimos, de passagem. Sempre de passagem. Tudo é de passagem, aliás... Como eles, como nos filmes.
Deixemo-nos cair no verde, ao menos. Essa sorte ainda eles a tiveram... os dos filmes.
Sofremos e sorrimos, de passagem. Sempre de passagem. Tudo é de passagem, aliás... Como eles, como nos filmes.
Deixemo-nos cair no verde, ao menos. Essa sorte ainda eles a tiveram... os dos filmes.
terça-feira, 6 de outubro de 2009
terça-feira, 29 de setembro de 2009
"(...) a confissão tornou-se, no Ocidente, uma das técnicas mais altamente valorizadas para produzir o verdadeiro. Tornámo-nos, desde então [Idade Média], uma sociedade singularmente confidente. A confissão difundiu longe os seus efeitos: na justiça, na medicina, na pedagogia, nas relações familiares, nas relações amorosas, na ordem mais quotidiana e nos ritos mais solenes: confessam-se os crimes, confessam-se os pecados, confessam-se os pensamentos e os desejos, confessam-se o passado e os sonhos, confessa-se a infância; confessam-se as doenças e as misérias; as pessoas esforçam-se com a maior exactidão por dizer o que há de mais difícil de dizer; confessam-se em público e privado, aos pais, aos educadores, ao médico, àqueles que amam; a si próprias fazem, nos prazeres e nos desgostos, confissões impossíveis a qualquer outro, e com que se fazem livros. As pessoas confessam - ou são forçadas a confessar. Quando não é espontânea, ou imposta por qualquer imperativo interior, a confissão é extorquida; localizam-na na alma ou arrancam-na ao corpo.
(...)
Daí, sem dúvida, uma metamorfose na literatura: de um prazer de contar e de ouvir, que estava centrado na narração heróica ou maravilhosa das "provas" de bravura ou de santidade, passou-se para uma literatura ordenada à tarefa infinita de fazer erguer do fundo de cada um, entre as palavras, uma verdade de que a própria forma da confissão faz cintilar como sendo o inacessível. Daí também esta outra maneira de filosofar: procurar a relação fundamental com o verdadeiro, não simplesmente em si próprio - em qualquer saber esquecido ou num certo vestígio originário -, mas no exame de si próprio, que revela, através de tantas impressões fugitivas, as certezas fundamentais da consciência.
(...). já não a entendemos [a confissão] como o efeito de um poder que nos constrange; parece-nos, pelo contrário, que a verdade, no mais secreto de nós próprios, não "pede" outra coisa senão fazer-se luz (...).
Michel Foucault, História da Sexualidade I - A Vontade de Saber
(negritos meus)
(...)
Daí, sem dúvida, uma metamorfose na literatura: de um prazer de contar e de ouvir, que estava centrado na narração heróica ou maravilhosa das "provas" de bravura ou de santidade, passou-se para uma literatura ordenada à tarefa infinita de fazer erguer do fundo de cada um, entre as palavras, uma verdade de que a própria forma da confissão faz cintilar como sendo o inacessível. Daí também esta outra maneira de filosofar: procurar a relação fundamental com o verdadeiro, não simplesmente em si próprio - em qualquer saber esquecido ou num certo vestígio originário -, mas no exame de si próprio, que revela, através de tantas impressões fugitivas, as certezas fundamentais da consciência.
(...). já não a entendemos [a confissão] como o efeito de um poder que nos constrange; parece-nos, pelo contrário, que a verdade, no mais secreto de nós próprios, não "pede" outra coisa senão fazer-se luz (...).
Michel Foucault, História da Sexualidade I - A Vontade de Saber
(negritos meus)
domingo, 27 de setembro de 2009
sábado, 26 de setembro de 2009
pergunta o Prince:
What was the real reason that Adam never left Eve?
Prince, "The greatest romance ever sold"
Prince, "The greatest romance ever sold"
sexta-feira, 25 de setembro de 2009
ter fome
durante anos
e nada dizer
nada comer.
ter fome
uma vida inteira
e agonizar
sem eira
nem beira.
ter fome,
comer um pouco.
ter fome,
comer um pouco.
ter fome
e não dizê-lo
ter alimento
e perdê-lo.
ter fome
e lutar estupidamente
por um jejum.
ter fome
e enganar o coração
com um copo de rum.
Olha... tenho fome.
a mesma que a tua
mas como e mastigo
palavras
que tu lês
sozinha,
na tua rua.
durante anos
e nada dizer
nada comer.
ter fome
uma vida inteira
e agonizar
sem eira
nem beira.
ter fome,
comer um pouco.
ter fome,
comer um pouco.
ter fome
e não dizê-lo
ter alimento
e perdê-lo.
ter fome
e lutar estupidamente
por um jejum.
ter fome
e enganar o coração
com um copo de rum.
Olha... tenho fome.
a mesma que a tua
mas como e mastigo
palavras
que tu lês
sozinha,
na tua rua.
domingo, 20 de setembro de 2009
S
Entre o Desenho, o Português ou os Trabalhos Manuais (estes passados a dormir na companhia de um professor acabado de se licenciar em escultura ou pintura), havia também lugar para o Canto Coral.
Nas provas, a rapaziada era avaliada segundo um critério muito óbvio de sonoridade: a afinação. Havia-os, então, afinados e desafinados. Em cada um dos grupos, a virtude ou a deficiência era ainda alvo de graduação: do "desafinado 1" (o menos desafinado) para o "desafinado 3" (o mais desafinado). A moça, virtuosa em tanta coisa do intelecto, havia de ser uma cana rachada merecedora de um injusto "desafinado 3". Injusto porque, digo-vos eu, a haver grau além do 3, ela seria certamente uma das galardoadas.
Já o outro travesso era mais dado ao controlo da voz, que ainda para mais naquela altura começava a ter o seu registo habitual intercalado com umas trovoadas abruptas. Nada que o impedisse, todavia, de pertencer ao grupo dos afinados, embora sem distinção especial - ficava-se pelo "afinado 1" ou 2, na melhor das hipóteses. Diz-se até que terá integrado o coro da igreja das redondezas, mas que a traquinice nunca deixou que por lá ficasse muito tempo. E depois, à outra cana rachada, não a via por lá…
A traquinice, essa, chegava-lhe naturalmente dos amigos e das brincadeiras, mas também da família, especialmente os irmãos mais velhos, cheios de ideias e guerras e sonhos e soluções e revoltas e o mais que os jovens podem ter. Quando a propósito de uma questão que será despertada em linhas mais à frente, lhe perguntei como diabo já tinha naquela idade alguma "consciência política", a resposta veio pronta: por causa dos irmãos, pois claro. Escutava-lhes os entusiasmos e as contestações, retia no seu imaginário as suas bonitas camisas desabotoadas, o cabelo recto e as barbas assumidamente joviais (coisa rara!). E depois eram jovens que trabalhavam, o que lhe fazia crer num misto de seriedade e suor honrado das palavras.
Mas os irmãos, de tanto se entusiasmarem e contestarem, pouco atenção davam ao menino que andava na escola, que tinha trabalhos de casa e que precisava de alguém que lhe comprasse a afia ou o compasso. Por isso ninguém soube quando o rapaz faltou por mais do que uma vez a umas certas chamadas, momentos solenes em que faziam os moços marchar pela escola, bater continência a um superior improvisado e proferir uma catrapada de trissílabos afirmativos ou negativos. E também ninguém teve ideia de que a farda que a escola informara como obrigatória para este tipo de actividades e que os pais - convictamente cumpridores ou não - haviam comprado, era esquecida pelo rapaz nas raras vezes em que se apresentava a estas chamadas. “Os meus pais ainda não ma compraram, Doutor…”; “somos muitos lá em casa, Doutor, sabe como é….”.
Detestava-a desde que lhe passara as mãos pela primeira vez. Mentira. Detestou-a ainda antes, quando a viu nos outros rapazes da sua idade. Detestava-a com o gosto provocador de quem desafia não só o objecto como também a instituição e as pessoas que o pensam. Como quem rejeita desta forma sempre encontra alvos de escárnio e prazer sibilar, especialmente se se tratar de um rapaz de camisa desabotoada, cabelo recto e barba assumidamente por crescer, então rapidamente percebemos como o “S” ao centro da farda o excitava: Sou soldado soviético sem Salazar saber. Quando se apercebeu de como subversivo - nem que só para si próprio - aquele “S” podia ser, é que lá andou uma ou duas vezes com a indumentária. Mas foi sol de pouca dura, pois outras fardas, sem letras, mas com flores, chegariam.
E depois de estas últimas chegarem, jamais alguém teve de usar fardas, nem com letras, nem com flores. (Embora haja por aí quem diga que as letras fazem falta, ou que as flores estão murchas. As fardas, essas, não fazem falta nenhuma, digo-o eu).
Nas provas, a rapaziada era avaliada segundo um critério muito óbvio de sonoridade: a afinação. Havia-os, então, afinados e desafinados. Em cada um dos grupos, a virtude ou a deficiência era ainda alvo de graduação: do "desafinado 1" (o menos desafinado) para o "desafinado 3" (o mais desafinado). A moça, virtuosa em tanta coisa do intelecto, havia de ser uma cana rachada merecedora de um injusto "desafinado 3". Injusto porque, digo-vos eu, a haver grau além do 3, ela seria certamente uma das galardoadas.
Já o outro travesso era mais dado ao controlo da voz, que ainda para mais naquela altura começava a ter o seu registo habitual intercalado com umas trovoadas abruptas. Nada que o impedisse, todavia, de pertencer ao grupo dos afinados, embora sem distinção especial - ficava-se pelo "afinado 1" ou 2, na melhor das hipóteses. Diz-se até que terá integrado o coro da igreja das redondezas, mas que a traquinice nunca deixou que por lá ficasse muito tempo. E depois, à outra cana rachada, não a via por lá…
A traquinice, essa, chegava-lhe naturalmente dos amigos e das brincadeiras, mas também da família, especialmente os irmãos mais velhos, cheios de ideias e guerras e sonhos e soluções e revoltas e o mais que os jovens podem ter. Quando a propósito de uma questão que será despertada em linhas mais à frente, lhe perguntei como diabo já tinha naquela idade alguma "consciência política", a resposta veio pronta: por causa dos irmãos, pois claro. Escutava-lhes os entusiasmos e as contestações, retia no seu imaginário as suas bonitas camisas desabotoadas, o cabelo recto e as barbas assumidamente joviais (coisa rara!). E depois eram jovens que trabalhavam, o que lhe fazia crer num misto de seriedade e suor honrado das palavras.
Mas os irmãos, de tanto se entusiasmarem e contestarem, pouco atenção davam ao menino que andava na escola, que tinha trabalhos de casa e que precisava de alguém que lhe comprasse a afia ou o compasso. Por isso ninguém soube quando o rapaz faltou por mais do que uma vez a umas certas chamadas, momentos solenes em que faziam os moços marchar pela escola, bater continência a um superior improvisado e proferir uma catrapada de trissílabos afirmativos ou negativos. E também ninguém teve ideia de que a farda que a escola informara como obrigatória para este tipo de actividades e que os pais - convictamente cumpridores ou não - haviam comprado, era esquecida pelo rapaz nas raras vezes em que se apresentava a estas chamadas. “Os meus pais ainda não ma compraram, Doutor…”; “somos muitos lá em casa, Doutor, sabe como é….”.
Detestava-a desde que lhe passara as mãos pela primeira vez. Mentira. Detestou-a ainda antes, quando a viu nos outros rapazes da sua idade. Detestava-a com o gosto provocador de quem desafia não só o objecto como também a instituição e as pessoas que o pensam. Como quem rejeita desta forma sempre encontra alvos de escárnio e prazer sibilar, especialmente se se tratar de um rapaz de camisa desabotoada, cabelo recto e barba assumidamente por crescer, então rapidamente percebemos como o “S” ao centro da farda o excitava: Sou soldado soviético sem Salazar saber. Quando se apercebeu de como subversivo - nem que só para si próprio - aquele “S” podia ser, é que lá andou uma ou duas vezes com a indumentária. Mas foi sol de pouca dura, pois outras fardas, sem letras, mas com flores, chegariam.
E depois de estas últimas chegarem, jamais alguém teve de usar fardas, nem com letras, nem com flores. (Embora haja por aí quem diga que as letras fazem falta, ou que as flores estão murchas. As fardas, essas, não fazem falta nenhuma, digo-o eu).
sábado, 15 de agosto de 2009
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