Da minha janela vejo o Bósforo todos os dias: divisões e correntes, agitações e marés. Tal como no homem, tal como no mundo.
sexta-feira, 17 de setembro de 2010
esperança*
* É a ideia que sempre me assoma quando diante destas palavras (pequeno tesouro que releio de tempos em tempos...). Esperança nos homens, na comunicação, no existir necessariamente com o outro.
segunda-feira, 13 de setembro de 2010
uma mão na cabeça
L' Avventura (1960), Michelangelo Antonioni
Toda esta cena é de uma beleza que me deixa atónito: a paisagem, o silêncio, a representação (e expressão) de Monica Vitti e, por fim, naquele gesto fatal (tão maternal, tão redentor) acompanhado pelo único momento musical da cena, zás!, coraçãozinho onde estás?.
E um segundo zás!: acaba o filme.
sábado, 24 de julho de 2010
sexta-feira, 28 de maio de 2010
labor
(...)
De que valeria a obstinação do saber se ela assegurasse apenas a aquisição de conhecimentos e não, de um certo modo, e tanto quanto for possível, o descaminho daquele que conhece? Momentos há na vida em que a questão de saber se é possível pensar de modo diferente daquele que se pensa e perceber de modo diferente daquele que se vê é indispensável para continuar a observar ou a reflectir. Dir-me-ão talvez que esses jogos consigo mesmo devem permanecer nos bastidores e que na melhor das hipóteses fazem parte desses trabalhos de preparação que se extinguem por si quando produzem os seus efeitos. Mas o que é afinal a filosofia actualmente - refiro-me à actividade filosófica - senão o trabalho crítico do pensamento sobre si próprio? (...) O «ensaio» - que é preciso entender como uma experiência modificadora de si próprio no jogo da verdade e não como apropriação simplificadora dos outros com fins de comunicação - é o corpo vivo da filosofia, pelo menos se ela for ainda hoje o que era outrora, quer dizer, uma «ascese», um exercício de si, no pensamento".
História da Sexualidade - II: O Uso dos Prazeres, Michel Foucault
terça-feira, 25 de maio de 2010
give you my love
Orelha Negra - M.I.R.I.A.M. from Hidde de Vries on Vimeo.
Orelha Negra (quem é que ainda não ouviu este super grupo?) - "M.I.R.I.A.M." Depois desta música e, sobretudo, deste videoclip, não há desculpa...sexta-feira, 7 de maio de 2010
"These streets hold my deepest days
This hood taught me golden ways
Made me, truly this is what made me
Break me, not a thing's gonna break me
Ohh, I'm that history I'm that block
I'm that lifestyle I'm that spot
I'm that kid by the number spot
That's my past that made me hot
Here's my life long anthem
Can't forget about you
(Can't forget about, Can't forget about you)"
"Can't forget about you", Nas.
terça-feira, 4 de maio de 2010
ela diz mas tu pensas que quê, que fizeram esta guerra de sexos para ficar tudo na mesma?
ele diz não ficou, não. Hás-de ter razão, pois o que vejo é que além de eu já não ser o homem nesta relação, que além de tu já não seres a mulher, já não somos coisa nenhuma. Não te queria bater, não queria que cozinhasses para mim; repugnam-me essas merdas. Mas agora que este caos toma conta dos homens e das mulheres, ai isso toma, e não vejo o que de bom isso tem.
ela diz como? Que dizes?
ele diz sim. É que o amor também tem regras, hierarquias, códigos ancestrais de sedução e convivência. Vivermos sem esses códigos é o primeiro passo para o extinguir.
ela diz velho, retrógado, anacrónico.
ele diz sim, admito que o sou: como o amor.
sábado, 24 de abril de 2010
Gifted Unlimited Rhymes Universal

Morreu Guru, um dos meus músicos de sempre e sobre quem escrevi algumas (poucas) vezes por estas lides (aqui, ali, acolá e outra vez aqui). E também um dos maiores responsáveis pelo meu mergulho na música negra norte-americana, com tudo o que isso implica - não só o hip-hop, mas o jazz, a soul, o funk, etc., e que pode ser apreciado nas sua magnífica colecção Jazzmatazz (sobretudo os primeiros dois volumes). Também por esse abrir de portas, o meu profundo obrigado.
Até sempre.
"Actions have reactions, don't be quick to judge
You may not know the harships people don't speak of
It's best to step back, and observe with couth
For we all must meet our moment of truth
Sometimes you gotta dig deep, when problems come near
Don't fear things get severe for everybody everywhere
Why do bad things happen, to good people?
Seems that life is just a constant war between good and evil
The situation that I'm facin, is mad amazin
To think such problems can arise from minor confrontations
Now I'm contemplatin in my bedroom pacin
Dark clouds over my head, my heart's racin
Suicide? nah, I'm not a foolish guy
Don't even feel like drinking, or even gettin high
Cause all that's gonna do really, is accelerate
The anxieties that I wish I could alleviate
But wait, I've been through a whole lot of other shit, before
So I oughta be able, to withstand some more
But I'm sweatin though, my eyes are turnin red and yo
I'm ready to lose my mind but instead I use my mind
I put down the knife, and take the bullets out my nine
My only crime, was that I'm too damn kind
And now some skanless motherfuckers wanna take what's mine
But they can't take the respect, that I've earned in my lifetime
And you know they'll never stop the furious force of my rhymes
So like they say, every dog has it's day
And like they say, God works in a mysterious way
So I pray, remembering the days of my youth
As I prepare to meet my moment of truth"
"Moment of Truth", Gangstarr.
I'm ready to lose my mind but instead I use my mind
segunda-feira, 12 de abril de 2010
Mãe,
"Dear momma let me start off with you
I know there ain't a thing you wouldn't do,
to try and pull me through.
And if there's anything good to be said about me,
Than it's true that I owe it all to you".
"Greateful", Pete Philly and Perquisite.
terça-feira, 30 de março de 2010
segunda-feira, 29 de março de 2010
quarta-feira, 24 de março de 2010
É que não durmo, senhor.
Passas as noites em claro?
Pior, senhor.
Acordas e adormeces acordas e adormeces?
Antes fosse, senhor.
Então? São as costas que te doem?
Também, senhor, mas com as costas já posso eu bem… já me acostumei.
É a cabeça latejando?
Sim! Sim, senhor, sim o raio da meloa.
Passa-lhe um pano molhado com água fria, verás que a noite será mais fácil.
Mas não é isso, senhor…
Não é isso o quê? Ousas dizer-me que é mais, que eventualmente terás pecado?
Não, senhor… até costumam dizer que não faço mal a uma formiga.
A uma mosca, rapaz.
Ou isso, senhor. Acredite-me que nem moscas nem formigas.
Vejo que sim. Pois bem, rapaz.
mas caralho do velho que não vê que não percebe, que eu aqui à rasca, um palmo e meio de respiração em suspenso e o caralho do velho que não vê que não percebe, mas como se a sotaina ondula de cada vez que o ar entrecortado me sai dos pulmões, até tusso, mas então não me ia ajudar o cabrão do velho, está bem que é tarde e não venho a calhar mas quer dizer, a calhar também não me vêm as costas e bem que ando com elas, não sei quantos ossos não sei quanta carne a cair-me em cima
Senhor…
Diz-me, rapaz.
Não durmo, senhor… são
Sim? São?
São
Fala, rapaz!
São dias em claro, senhor.
sábado, 20 de março de 2010
superlativo
“até aos vinte anos não se pode dizer que o homem conhece a infelicidade”
podia ser tão bela e universal como a frase
“durante toda a sua vida, desde o primeiro dia em que sacode os pezinhos e encolhe o luzidio pescoço, o homem conhece a tristeza mais profunda”.
Quando o percebeu, o escritor reteu a invencível maleabilidade de um poema, de um verso, de um aforismo. Abriu as mãos e contemplou a densidade brutal de um estado de espírito vertido em palavras, observou a volta que uma máxima literária universal - o mesmo é dizer, uma sentença humana (aparentemente) absoluta - pode sofrer quando as palavras e as sensações são outras, e a forma como aparecem, se articulam e formam um sentido, são diferentes das que até então em nós se impunham de um modo insuperável pela profundidade do seu alcance e beleza.
Nisto, o escritor apercebeu-se que havia chegado a uma conclusão gigantesca, talvez a maior de todas, e por isso sentiu medo em continuar a escrever. Por algum tempo ficou suspenso no tempo, mirando as folhas e a caneta ao de longe, como se de objectos mágicos flutuando no ar se tratassem; ou como camisas, calças, meias, presas por molas a um cordão fantasmagórico; ou ainda como fotografias penduradas no escuro, revelando mais uma cor, mais uma sombra, à medida que secam. Só lhes voltou a tocar quando aceitou, ainda que sem grande agrado, como que convencido por uma força opressiva, a tal maleabilidade de que se faz a carne dos mais poderosos pensamentos e frases. Algo derrotado, inconformadamente conformado, e interiorizando para si que uma vez lhe revelada aquela conclusão, havia feito enfim uma espécie de pacto de anuência – Sim, Eu declaro aceitar as complexas contingências das palavras -, decidiu que a única forma de se resolver consigo próprio e com elas, era nada mais nada menos que fazer isso mesmo: moldá-las, trocá-las, contradizê-las, virá-las ao contrário. Compreendeu finalmente que teria que viver com esse paradoxo, pois que a inversão das coisas, o sim e o não, o branco e o preto, o feliz e o infeliz, sempre foi o motor da palavra escrita e o motor da sobrevivência para quando um homem sente estar fatalmente, exclusivamente, num não, num preto, num infeliz. Ou para quando um homem se ilude perigosamente, docemente, com o pensamento de que tudo é vontade afirmativa, de que tudo é luz, de que tudo é feliz.
sábado, 27 de fevereiro de 2010
domingo, 21 de fevereiro de 2010
"ai amor, e este braço aqui, vou cortá-lo"
L'Eclisse (1962), Antonioni.
(o francês não é o original, mas sim o italiano. infelizmente, foi a única versão que encontrei.)
sábado, 20 de fevereiro de 2010
e se fosse dar uma volta
e o homem vai dar uma volta. Abre a porta e três corredores, cinzentos e azulados como as quatro paredes de há pouco, deparam-se-lhe à esquerda, à direita e ao centro. O homem pensa
e se fosse pelo do meio
e o homem vai pelo do meio. Ao fundo vislumbra uma janela na qual a noite da cidade é uma mera sucessão da luz do dia,
agora há luzes à noite, só isso mudou,
estranha o homem. Abaixo do parapeito, uma mesinha e uma planta vagamente cuidada: o misericordioso verde vagamente regado, o misericordioso verde como último reduto orgânico. O homem repara nos quartos que se abrem nas laterais,
quem é aquela velha ali gemendo, quem é aquele jarreta de óculos vendo televisão com o som tão alto.
O homem vira-se e à sua direita um novo quarto,
quem é aquele preto, é novo este preto aqui, nunca o vi por cá, estranho.
O homem volta para trás e no entroncamento atrás descrito, opta agora pela sua direita. Torna novamente à direita e abre-se-lhe a sala comum,
só eu e as janelas,
diz o homem, ou pensa o homem, só para confirmar que é só ele e as janelas. O homem está parado, suspenso, os braços pendentes as costas voltadas para o corredor, de frente para a janela. Não lhe vemos o rosto mas podemos concordar em como o imaginamos: um rosto de pijama e travesseiros, um rosto por dormir, um rosto farto de dormir farto de estar deitado ou sentado, um rosto desgarrado.
Então, já a levanta?
Han o quê, estarei louco quem falou ou sou eu que já oiço coisas
Então, se já conseguiu levantar entretanto?
O homem vira-se estremunhado, e o preto, atrás de si o preto.
Han, sim,
estremece o homem, sorri agora o homem por cordialidade,
quem é que já se levantou?,
não percebendo o quem e o quê a que ele próprio se refere enquanto pergunta.
Não, se tu já levantas a pila, senhor!
Ah, han o quê,
Ris-te, que nervoso estás tu, ris-te mais e mais,
ahh sim,
ris-te ainda,
ahh sim,
os olhos semicerrados acompanhando a comoção profunda.
O preto ri-se e diz ainda bem, eu vou amanhã.
O preto é o Simão, foi assim que o conheci, estou-te a contar isto porque isto me tocou, gosto de pensar nestas coisas percebes?
Sorrio, sim.
É que, pá, o preto desarmou-me, disse-me que me perguntou se eu já a levantava porque quando eu tinha olhado para o seu quarto ele achou que eu tinha uma cara boa. Uma cara boa disse o preto, e perguntou-me se eu já a levantava. Nunca aqui ninguém fala com ninguém a não ser quando eu, nunca aqui ninguém me tinha dito isto, dois homens estás a perceber, dois homens eu e ele, e ele homem de uma terra longínqua, quase do outro lado do mundo, homem do sol da sede pergunta-me se ela já levanta. Gosto de pensar nestas coisas sabes, tocam-me muito.
Sorrio, sim.
Pronto foi assim, hoje sinto-me mesmo bem disposto, o Simão vai amanhã, espero ainda poder despedir-me dele. E tu como foi o teu dia, eu quero é saber como foi o teu dia.
Sorrio, toco-me, aperto-me nas coxas e nas costelas com os dedos que estão dentro dos bolsos do casaco e começo a falar.





