sexta-feira, 14 de junho de 2013

Walsh #1

O meu primeiro artigo para o À pala de Walsh já está disponível (ali) e incide sobre a fabulosa sequência do Fassbinder em Martha (1973). A ideia central - uma tentativa de análise, passo a passo, dessa sequência, dela decantando a estética fascizante que ensombra todo o filme - andava na minha cabeça desde que tinha visto o filme (mais ou menos desde aqui), tanto é que a apontei em papel. Felizmente, tive, agora, a oportunidade e a motivação para a consolidar num texto.

Martha (1973), melodrama de sabor sirkiano realizado para televisão – tivéssemos nós, em 2013, telefilmes como estes em vez de fórmulas telenovelescas adaptadas para 90 minutos… –, é um desses filmes onde o “rasto de contaminação” do nazismo aparece à superfície, por força, como habitualmente na obra de Fassbinder, do poder da metáfora. Helmut Salomon (Karlheinz Böhm) é mesmo, podemos dizê-lo, a “metáfora andante” que Fassbinder construiu, com perturbante sagacidade dramática, para representar o ideário pós-nazi e a sua “normalização” (a possível) numa sociedade democrática e tolerante. Helmut, enquanto figura metonímica desse processo normalizador, interessa-nos, pois, a partir da sua psicologia individual, isto é, da forma como se relaciona com os outros (para o caso, com a sua mulher), e na medida em que encarna os tiques que imediatamente associamos, de uma forma ou de outra, ao legado de horror nazi.


quinta-feira, 13 de junho de 2013

coincidências



Noutro País (2012), de Hong Sang-soo.

A coincidência não está só no facto de haver - como aqui se escreveu - muito do Kaurismäki de Le Havre (2011) no lindíssimo Noutro País, de Hong Sang-oo; está, igualmente, na crítica esplêndida que LMO lhe dedica (deliciosa a precisão do três vezes “o mesmo filme” dentro do “mesmo filme”...), tal-qualmente o tinha feito antes com o filme do finlandês. Coincidência que, involuntariamente, reflecte o cinema de coincidências, de acasos, dos "pequenos nadas" que constituem a força de dois filmes tão economicistas (palavra perigosa, nestes tempos) quanto mágicos.

tendências



"Tendências", álbum Em Nosso Nome (2012). Sir Scratch.

"Tendências" (homenagem, musicalmente falando, a estes respeitáveis senhores), uma das melhores (e mais divertidas) faixas de Em Nosso Nome (2012) - um disco fabuloso de que fiquei de escrever a crítica, mas que, infelizmente, por contingências de tempo, assim não aconteceu - tem agora um belo tele-disco, o qual evidencia nova homenagem de Sir Scratch ao Cinema. Trata-se de um fascínio que já vinha de um outro tele-disco, mas, sobretudo, do título do seu primeiro álbum - Cinema: Entre o Coração e o Realismo (2005), obra fundamental no percurso histórico do hip-hop em Portugal.

O tele-disco de "Tendências" fixa, com imensa doçura, toda a mitologia classicista do cinema que normalmente associamos à sala escura (não é pleonasmo - as salas dos multiplex actuais não o são, tantas as escadas e respectivos focos coloridos a identificá-las que se contam), ao preto e branco do filme, às intermitências da película, ao som da bobine,  às pipocas (em pacote vintage, comme il faut) e, mais do que isso tudo, ao fascínio-obsessão cultivado pelo indivíduo que se senta em frente da tela e dela absorve todas as tramas, os twist, os amour fou. Mitologia, portanto, correspondente aos tempos em que o prazer - algo solitário (não é por acaso que Scratch "vai sozinho" ao cinema) -  de ir ao cinema estava no acto de rendição perante o contar de uma história e sua interpretação pelos actores (e não é preciso ser militantemente cinéfilo para degustar as coisas desta forma), e não no gesto puramente consumista, "de entretenimento", em modo chiclete-deita-fora, que é hoje. Enfim (e precisamente)... "tendências".

sábado, 8 de junho de 2013

Capital STEEZ


"Like Water" (Capital STEEZ, Joey Bada$$ e CJ Fly), mixtape Peep the Aprocalypse (2013). Pro Era.

Depois da tristeza, a homenagem que se impunha, embora o tributo maior ainda seja mesmo essa grande mixtape Peep The Aprocalypse, cortesia da Pro Era, colectivo de Nova Iorque liderado por este miúdo.

domingo, 2 de junho de 2013

birds and the beez



"Birds and tHe Beez" (c/ Kendrick Lamar), álbum Setbacks (2011). Schoolboy Q.

sexta-feira, 31 de maio de 2013

À Pala de Walsh

Através de um convite que muito me honra, passei a ser um dos Colaboradores daquele que é, provavelmente, o melhor site, no país, a divulgar e a pensar o cinema, fruto da reunião de algumas das melhores cabeças a escrever sobre o assunto. Críticas, ensaios, delírios cinéfilos e outros que tais são tudo coisas que podem encontrar, com elevadíssima qualidade, no À Pala de Walsh (que já por aqui referenciei amiúde - ali e acolá, por exemplo). Por contingências de tempo, não publicarei, no imediato, nenhum artigo, mas, de futuro, sempre que o fizer, farei a devida ligação walshiana a partir do blog.

domingo, 26 de maio de 2013

ideias

Por estes dias, em que vivemos sob a ditadura do "like" (cujo reflexo mais imediato é este), pelo simples facto de se ter ideias próprias sobre determinado assunto, corre-se o risco de ser chamado de alguém "com ideias fixas" (um "teimoso", "casmurro"). Confusão que não é inocente, antes reflectindo o modus operandi daqueles que desprezam, têm alergia, à actividade de pensar. Enfim, os mesmos que, inconscientemente ou não, atribuem carácter normativo ao gosto da maioria (à qual pertencem, et pour cause), como se a estatística quantitativa fosse padrão de validade de coisa alguma.

sábado, 25 de maio de 2013

Tempelhof


A Noite Sem Fim (1962/3), Will Tremper.

"Tempelhof Airport appear as the epitome of metropolitan life, with its grand halls, modern design, and big-city atmosphere. An aircraft's graceful landing, the opening of the plane door, the descent from the gangway to the tarmac, the flashing cameras and cheering fans – when set against the austerity of West Berlin daily life, arrivals at Tempelhof helped to revive the long-lost “glamour” of a world city.

What most captured the public's attention were the prominent film stars and directors who travelled to Berlin to take part in the annual Berlinale festival. With the motto, “Showcase of the Free World”, the West Berlin film festival was founded in 1951 on the initiative of and with the support of U.S. Allied Forces, and from 1954 on had reached a status approaching that of the Cannes or Venice film festivals. In the 1950s, summer festival days implanted an image of the city with jubilant crowds at the airport, at hotels and at performance venues, and of parades and film billboards. The photos of stars arriving at Tempelhof in those years are like a Who's Who of the Western film world. The same was true for the leading lights of the fashion world. (...) These visits, as well as those from top rock and pop music acts, such as the Rolling Stones when they played at the Waldbühne in 1965, have helped preserve a picture of the airport in people's memories to this day.

And finally, Tempelhof served as a cinematic backdrop of the Cold War. Billy Wilder's film, “A Foreign Affair” (1948), which begins with the arrival of a young congressman at Tempelhof Airport, as well as Wilder's Berlin satire, “One, Two, Three” (1961), provided images of “Berlin's Gateway to the World” for all the world to see. Will Tremper's film, “The Endless Night” (1962), made ​​the architecture of the airport into a timeless, existential transit-room, the real-life model for which West Berliners took leave of only reluctantly in September 1975".

Daqui (é verdade, nunca pensei transcrever excertos do sítio oficial de um aeroporto).

segunda-feira, 20 de maio de 2013

What lies beyond the beach?



Spring Breakers (2012), Harmony Korine.

"(...) there is a suprising deficit of actual carnality. Spring Breakers is mostly about sexual display. (...) But apart from Archie's blowjob threesome [embora sem relevância para aqui, trata-se de uma gralha do crítico: não é um blowjob, mas uma cena de sexo], there's just one actual sex act. (Gomez, notably, has exited the storyline by this point. Clearly she was only prepared to go so far in an R-rated direction: she's not involved in the robbery, is never shown taking drugs or having sex doesn't even swear much.)
As depicted in Korine's film, the participants in Spring Break act out an idea of unbridled freedom and lascivious irresponsability that's a convention-bound and repetitive as the regular, regulated life of which it's a carnivalesque inversion. Is that the message?
(...)
Watching Spring Breakers play out to its morally unsatisfactory (in)conclusion, I thought finally of Marcuse's concept of "repressive desublimation". Way back in the 1960's, the Frankfurt School associate grasped that capitalism had an interest in creating wanton consumers, insatiable and impulsive. External constraints on our appetites for sex and destruction still exist (police, law, social services etc), but they are contradicted and undermined by a consumer capitalism that erodes internal restraints like guilt and inhibition (...). Stimulating desire and narcissism, the economy's interests collide with those of other political structures like church, education and family, all of which aim to channel energy into long-term projects ('heaven' being the longest term of them all). Capitalism and advertising, as well as their bedfellow pop culture, have harnessed Romanticism not for repressive ends (unrepression is precisely the modus operandi) but for the dissipation of energy and the displacement of anger from any kind of political articulation.

When a pop star as bland as Kate Perry can sing, in her number-one hit 'TGIF', about binge-drinking past oblivion (...) and ménage-à-trois romps, it seems pretty clear that excess is normative and 'breaking loose' just another set of chains. Likewise, of Spring Break and Spring Breakers, I found myself wondering: if this is the beach underneath the pavement, what, if anything, lies beyond the beach? Pop culture in its present state has exahausted its point; its incitements to poor impulse control and attention-deficit disorder no longer threaten anything".

Simon Reynolds, "You only live once", in Sight & Sound, May 2013, Vol, 23, Issue 5, p. 30 e 31.


Joy



"I'm Good" (com BJ The Chicaco Kid e Punch), álbum Setbacks (2011). Schoolboy Q.


"Had a little daughter, glad it ain't a boy
Knew she'd bring me joy, so I named her Joy
Kiss her on her head, then I kiss her lips
Then I kiss her cheek, lay her down to sleep"

domingo, 19 de maio de 2013

mensonge


No Coração da Mentira (1999), Claude Chabrol.

terça-feira, 14 de maio de 2013

Jurassic 5

Os festivais de Verão têm destas coisas (ou virtudes, porque não dizê-lo): volta e meia, lembram-se de trazer figuras da música cuja probabilidade de vermos ao vivo era, até esse momento, praticamente nula (ainda que nenhum critério inteligível pareça presidir a essas escolhas).

Desta feita, são os Jurassic 5, grupo histórico do hip-hop norte-americano, que terão o beneplácito do Optimus Alive, no dia 13 de Julho. Oportunidade, portanto, para presenciar um dos grupos mais marcantes do hip-hop do fim da década de 90, sobretudo das franjas mais "alternativas" de Los Angeles (hoje, cairiam, provavelmente, sob o rótulo "indie"), o que não deixa de ser curioso, tendo em conta as suas afinidades com grupos como os De La Soul, A Tribe Called Quest ou os Jungle Brothers, todos eles da cena nova-iorquina - east coast, portanto. Com efeito, no panorama norte-americano, sempre se falou numa certa oposição entre o hip-hop da costa oeste (com Los Angeles como epicentro), politicamente descomprometido e centrado em temas festivos ou apologéticos de um certo novo-riquismo gangster, e o da costa este (Nova Iorque), fortemente político e auto-reflexivo. Como em tudo na vida, este vis-à-vis é, muitas das vezes, na prática, mais fictício do que outra coisa, e os Jurassic 5 são a prova viva disso mesmo, baralhando as contas dos mais puristas (já para não falar, por exemplo, no sub-género do southern hip-hop, que fez de cidades como Miami ou Memphis a bandeira de uma "terceira via" frente a essa bipolaridade).

Marcado por beats mesclados com sonoridades jazz e soul, o hip-hop dos Jurassic 5 é completado pela bagagem funky herdada dos clássicos (Parliament, Funkadelic, James Brown), que empresta o groove para paragens mais dançantes. A isto se alia um discurso positivo, introspectivo e frequentemente humorístico - sem esquecer as derivas mais políticas - que fazem do grupo californiano um dos mais idiossincráticos do hip-hop norte-americano.
13 de Julho constitui, assim, uma golden chance que, muito provavelmente, não se repetirá. Mas... what's golden?


"What's Golden", álbum Power in Numbers (2002). Jurassic 5.


domingo, 12 de maio de 2013

modinhas

Depois da moda que foi andarem todos a encher as bocas com "narrativa" e "paradigma" (pobre Kuhn), a moda actual é dizer que está na moda dizer "narrativa" e "paradigma". O mundo, que sempre foi um lugar para baboseiras, transforma-se, vezes demais, num lugar profundamente entediante e fútil.

Neste amontoado de inanidades, reservo-me a igual dignidade e pergunto: estarei, com isto, a iniciar uma terceira fase vanguardista (dizendo que está na moda dizer que está na moda dizer "narrativa" e "paradigma")?

sábado, 11 de maio de 2013

boyz n the hood



"Say Wassup", álbum Follow Me Home (2011), Jay Rock. O álbum de hip-hop simultaneamente mais street (a crueza do ghetto sem filtros) e blues (donde é que eles vieram, afinal, senão da rua?) desde o tempo do Tupac. 

Kendrick Lamar, Ab-Soul, Jay Rock e Schoolboy Q: o vídeo definitivo dos miúdos lá do bairro.

quarta-feira, 8 de maio de 2013

la fille de nulle part


A Rapariga de Parte Nenhuma (2012), Jean-Claude Brisseau.


A Mulher Que Viveu Duas Vezes (1958), Alfred Hitchcock.

"O velho solitário acolhe-a, com reserva primeiro, com genuína afecção depois de algum tempo. Ela desafia-o (como se, jogando com as armas femininas, “desafiasse” também o erotismo da trilogia anterior), abandona-o, depois volta. Começam os fantasmas. Brisseau vê nela a recordação da mulher, morta vai para 29 anos. Uma pequena gota hitchcockiana de sabor a Vertigo começa a insinuar-se - será esta rapariga a “reencarnação” dessa mulher?" Na mouche.


sexta-feira, 3 de maio de 2013

Chris Kelly



"Warm It Up", álbum Totally Krossed Out (1992). Kris Kross.

Rest in peace. Aiiight?

domingo, 28 de abril de 2013

contact sport



"Love is a contact sport", álbum Whitney (1987). Whitney Houston.


Whitney parece-me um álbum definidor, a par de outros, dos anos 80 e de um tempo em que a pop tinha um refinamento que, julgo eu, perdeu entretanto (é ouvir aquele baixo, logo no início, a destilar o funk jamesbrowniano), e que lhe advinha do facto de estar paredes-meias com a melhor música negra e respectivos intérpretes (por isso é que Houston tem um dueto com um monstro como Teddy Pendergrass no álbum imediatamente anterior, Whitney Houston, 1985).

quarta-feira, 24 de abril de 2013

da liquidez


Naissance des Pieuvres (2007), Céline Sciamma.


Como a modernidade líquida de Z. Bauman, a adolescência é também, enquanto processo de crescimento, um período líquido: período de incertezas, dúvidas, medos, anseios, inquietudes (e, em nova analogia com Bauman, podemos também dizer que, na vida, anteriormente à adolescência, conhecemos um período sólido, assente na infância e nos seus padrões de estabilidade). Incertezas, desde logo, acerca da orientação sexual de cada um (é a leitura mais imediatista do filme); mas incertezas, também, sobre aquilo que constitui, mais latamente, a substância das nossas vidas, e que, concretamente na adolescência, está em permanente convulsão: o bem e o mal, o amor e a amizade, a infância e o "ser adulto", a inclusão na maioria ou a procura de formas de ser e de estar alternativas com que genuinamente nos identificamos. 

É de tudo isto que Naissance des Pieuvres trata, com uma subtileza, uma graça, uma serenidade, admiráveis. Fá-lo não só do ponto de vista narrativo e estético, mas, ainda, de um ponto vista que é, essencialmente, plástico (e simbólico): não é por acaso que é na piscina, espaço de água imensa, que grande parte do filme se passa. A água vai, precisamente, de encontro à ideia de liquidez, do tal período líquido; água que, durante quase todo o tempo, cobre o corpo (e o corpo é outro dos grandes temas deste filme) das personagens - por vezes sugerindo até, nas cenas fora da piscina, a ideia de transpiração, como se elas estivessem em transe, o que, no caso de Marie, não anda muito longe da verdade (cena da maçã) -, como que acentuando a sua intrínseca liquidez. Assim se obtendo uma correspondência perfeita entre a liquidez (interior) das personagens e a liquidez (exterior) do cenário.

Temos, portanto, um elemento plástico e cénico (água) como equivalente psicológico do estado interior das personagens - o que, ao contrário do que poderia sugerir à primeira vista, é diferente daquilo que Antonioni faz nos seus filmes, pois que, aí, o espaço é instrumento determinante do estado psicológico das personagens, queremos dizer, é o espaço que determina o seu ennui. Diferentemente, no filme de Céline Sciamma, a água não tem esse efeito impositivo, já que lhe pré-existe um dado, a saber, a adolescência enquanto período crítico de questionamento e auto-descoberta. Nenhum (o elemento plástico água e a condição psicológica das personagens) determina o outro; convivem, equivalem-se, respiram lado a lado. São os corpos de Marie e Anne boiando sobre a piscina, as suas costas fundidas na superfície da água como duas inseparáveis faces da mesma moeda, daquilo a que chamamos de crescer.
Apetece, por isso, inverter uma expressão que hoje está tão na moda ("x não é uma questão líquida") e dizer: crescer é uma questão... líquida. Se é.