domingo, 31 de janeiro de 2016



(The Grapes of Wrath, 1940, John Ford)

sexta-feira, 29 de janeiro de 2016

Walsh #39 - Sopa de Planos (Montanhas de branco lá no céu/Creed)



A nova sopa de planos é agradavelmente nebulosa. O meu ingrediente vem das ruas de Filadélfia. Para ler aqui.
 
Não escolhemos este plano por ser o mais bonito de Creed (Creed: O Legado de Rocky, 2015). Na verdade, como alguém muito apaixonado que aproveita qualquer razão para falar sobre a pessoa amada, também nós nos aproveitámos do tema proposto (e das escassas nuvens que se vêem neste plano, lá ao longe) para voltarmos a Rocky, às ruas de Philly, à obstinação de Adonis, à porta de casa de Bianca às três horas da manhã com aqueles graves a estoirar e uma voz a sibilar “I like when you grip”. Não foi fácil, de facto, encontrar nuvens em Creed , mas quem disse que o amor era fácil? Adonis, depois do primeiro encontro com Rocky, e no fim de mais uma corrida pela cidade que ainda não conhece, passa pelo restaurante como quem não quer a coisa, como se estivesse só de passagem, ali ao virar da esquina. Sabemos – e Rocky também – que não é assim. Numa admirável mise en scène, Adonis insiste com Rocky para ele o treinar enquanto lhe dá uma ajuda a retirar os móveis da carrinha, enérgico e bem-disposto. Surge, logo aqui, a primeira manifestação do elo sinalagmático geracional e fraternal que marca todo o filme: eu ajudo-te na tua velhice (os móveis, primeiro; a doença, depois) e tu ajudas-me na minha juventude (os treinos, primeiro; a namorada, depois), pode ser? Ainda não será desta que Rocky se “renderá”, que voltará ao ringue, mas acede em dar-lhe algumas dicas, que regista no papel, não reparando que Adonis as reescreve, ao mesmo tempo, no smartphone. Despedem-se e Rocky entrega-lhe a folha, que Adonis rejeita, dizendo-lhe, já retomando o passo de corrida, que tem o que precisa no smartphone. “E se o perdes?”. “Já estão na cloud, não há problema!”. Rocky fica confuso: na cloud? Como assim? Olha para o céu, claro, e nós, espectadores, rimo-nos com gosto, com ternura. O mesmo gosto e ternura com que os olharemos no plano final acima (“raccord de quarenta anos entre um Stallone a correr fulgurantemente pelas  escadas e o mesmo a precisar de ajuda para o fazer”, como aqui se escreveu), felizes e fraternos. Estão, já adivinharam, na cloud nine, ou, se preferirem… nas nuvens.

quinta-feira, 28 de janeiro de 2016

Artes Entre As Letras #7

Há dias, usei "45 RPM" para me referir a 45 Anos. No último número de Janeiro do Artes Entre As Letras, tento explicar melhor o porquê. Escrevo também sobre o último filme do Benoit Jacquot.


Diário de Uma Criada de Quarto (2015), Benoît Jacquot ★★
A sensação com que se fica depois de sair da sala é a mesma de 3 Corações (2014), o filme anterior de Jacquot: a de que o francês, partindo para o filme com matéria interessante q.b., desbarata o que tem nas mãos e desorienta-se, traduzindo-se o saldo final num filme desequilibrado, desconexo e com demasiadas pontas soltas (a personagem do Capitão, a gravidez da criada, a morte da criança), às quais não é dado qualquer seguimento substancial e parecendo existir apenas como sugestão de algo narrativamente interessante que nunca chega, afinal, a concretizar-se (os flashbacks estéreis – que nada acrescentam à composição da personagem principal – para quê?). Ou talvez essas pontas sejam, de um outro prisma, o reflexo de uma adaptação algo canhestra à obra original de Octave Mirbeau, já trabalhada no cinema por gente como Renoir e Buñuel. E é pena, desde logo pelas presenças de Léa Seydoux (Célestine, cujos murmúrios parecem, a certa altura, indiciar uma brechtiana queda da “quarta parede”, como se fôssemos cúmplices do seu rancor aos patrões) e de Vincent London (Joseph), demasiado “grandes” para o filme. Depois, porque, reconheça-se, Jacquot sabe o que faz com a câmara (e com a música), algo visível nos zoom in intensos com que se aproxima das personagens, o que confere às cenas um tom algo surrealista, condizente com os “crimes e escapadelas” macabros que perpassam as relações de força entre patrões e empregados, exploradores e explorados, conquanto estes últimos não sejam maniqueistamente pintados como integralmente “bons” (os empregados que inicialmente destratam Célestine por ela ser, apesar de empregada, uma “parisiense”; o anti-semitismo de Joseph). Um filme desperdiçado, portanto (que falta fazem o requinte e a perversidade do Buñuel de Viridiana ou do Chabrol de A Cerimónia), e do qual se salva a interpretação irrepreensível de Seydoux, a confirmá-la como uma das grandes actrizes francesas da sua geração (e inclusivamente de, digamos, “prestígio mundial”, como a sua chamada para bond girl no último 007 o comprova).
45 Anos (2015), Andrew Haigh ★★★
Num filme em que a música (e que música) está tão presente, com uma função intra-diegética tão poderosa, talvez não seja descabido olhar para o título e vê-lo não como significando apenas uma data, um conjunto de anos, mas também como um conjunto de… rotações. 45 RPM, então: é a este ritmo, maduro e bem vivido, próprio de um single tão velho quanto maravilhoso como o “Smoke Get In Your Eyes” (dos saudosos The Platters) a rodar no gira-discos, que Kate e Geoff (Charlotte Rampling e Tom Courtenay, ambos estupendos) vivem o seu casamento na velhice, entre livros (e talvez a insistência de Geoff em voltar a Kierkegaard indicie algo do que virá…), passeios pelo campo e cups of tea, até que uma inesperada carta lhes chega a casa, isto a uma semana de celebrarem a festa dos 45 anos do seu casamento. Haigh filma com uma serenidade e uma elegância que quase passam despercebidas, como se fosse fácil, mas não é; há um perfeito sentido de mise en scène, ao qual ajuda, é certo, a experiência de Rampling e Courtenay (que, segundo consta, apenas se reuniram no dia anterior às filmagens para ler o argumento), mas a qual não seria suficiente para filmar, como Haigh o faz, por exemplo, Kate a ver os slides no sótão – um grande momento de cinema em que os fantasmas vêm ao de cima, no escuro, por força do medium fotográfico (como o cinematográfico), espécie de projector místico do passado enquanto matéria semi-adormecida, imprevisível, capaz de ressuscitar questões (e pessoas) pretensamente enterradas (o problema é também esse: Katya nunca foi enterrada, literal e metaforicamente). Momento em que imagem (da desaparecida Katya) e som (do vento e da água das paisagens onde se vê Katya, elementos que Haighes “cola” ao filme e à imaginação auto-flageladora de Kate), na sua extrema sensorialidade, abanarão os sentidos (precisamente) de Kate, a partir daí definitivamente desorientada. Tanto ou mais que o marido, que entra numa espécie de depressão “desinteressada” e unicamente centrada em procurar “macacos”… no sótão (nem de propósito). Naquele que é, outrossim, um estudo sobre o modo diverso como os homens e as mulheres lidam com os afectos (e quanta razão tem a amiga de Kate quando lhe diz que os homens choram sempre nos grandes momentos, mesmo os mais durões), Haigh contrapõe todo este caos privado da intimidade à normalidade que o casal aparenta em público. O que, além de honesto (a vida não é assim?), deixa, na última e fabulosa cena, Kate e o próprio filme em suspenso (ou será que não? aquele braço que tomba, revoltado; o “Go now” dos The Moody Blues que se ouvira um pouco antes…), um declarado open ending que subtrai ao espectador o poder de julgar seja quem for (até porque, no final das contas, o que se passou entre Geoff e Katya aconteceu antes de Kate o conhecer, não havendo, por isso, sequer qualquer “infidelidade” em equação…). Ao contrário daquilo que tantas vezes se diz, o passado não é passado – sobretudo quando o ciúme é a pá utilizada para o desenterrar.

sábado, 23 de janeiro de 2016

Malibu



[Fortemente habilitado a ser o álbum de hip-hop do ano, coisa que a crítica e imprensa em geral obviamente não reconhecerão, forçadas que estão a acompanhar os sound bites, por mais ocos e desinteressantes que sejam (os pares de Adidas que vendi, os óculos de sol que a minha mulher se dá ao luxo de perder, etc.), de Kanye West, Pusha T e afins (atenção: Kanye West é e será sempre um dos meu rappers preferidos por tudo o que fez até 2010 e por algumas, pouquíssimas, coisas depois disso)]

segunda-feira, 18 de janeiro de 2016

o homem da farmácia

O ponto alto do dia do homem da farmácia dá-se pelas duas e dez, duas e um quarto da tarde. Almoça rápido num dos cafés das redondezas, um olho no prato (bitoque, escalopes, filetes, não é muito exigente) e outro na televisão, às vezes no Jornal de Notícias gasto e com as palavras cruzadas já preenchidas aberto em cima da mesa (lamenta-se sempre interiormente pelo facto de ser o Jornal de Notícias o único que existe, até preferia as crónicas das últimas páginas da Bola). Depois do café, paga a correr, pronto, o almoço já está, vamos lá, agora só tenho que abrir a farmácia às duas e meia, quanto tempo tenho?, ah, vinte minutos, sim senhor, vamos lá. Dirige-se para o carro, que estacionou de manhã perto da farmácia. Liga o rádio, 92.5 onde estás tu, aqui, isso, pronto. Abre ligeiramente as duas janelas da frente, uma nesga de cada uma chega, o que importa é que estejam abertas faça chuva ou faça sol. Abre o porta de luvas e tira-o de lá. Faz a cadeira deslizar um pouco para trás, recosta-se para encontrar o ponto de conforto exacto que conhece de todos os dias.

É neste momento que eu invariavelmente passo pelo carro, do lado do passeio, e o olho de livro na mão, compenetrado, raramente desviando o olhar, porque a curiosidade está toda dirrecionada para as linhas defronte. Invejo-o, inveja boa, partilho o prazer dele naqueles breves segundos e penso que quero que ele leia por muitos mais anos no intervalo do almoço.

45 RPM







(45 Years, 2015, Andrew Haigh)

domingo, 17 de janeiro de 2016

fases da lua (2)



Há tempos, falei aqui desta maravilhosa prenda que recebi no Natal passado. O projecto definitivo foi agora lançado, em formato mixtape, com o título Fases da lua. Trabalho amador, claro (os instrumentais são pedidos de emprestado a alguns dos meus produtores preferidos: Exile, J Dilla, etc.), com todos os defeitos inerentes a essa circunstância, mas a transbordar de amor e solidariedade. 18 aninhos do meu irmão aqui vertidos, 18 anos que acompanhei praticamente todos os dias, no quarto ao lado, com muitas alegrias e zangas pelo meio. 18 anos durante os quais, entre outras coisas, lhe passei música, hip-hop em grande parte, o mesmo que ele agora "devolve" neste projecto, o qual, se é certo que dele sempre me orgulharia em qualquer circunstância, ainda mais assim é pelo facto de, sendo dez anos mais velho que ele, as letras me tocarem - e, digo-lo com sinceridade, não apenas por serem dele, mas pela identificação com as preocupações, os receios, enfim, com as mesmas merdas que vivi nos meus 18 anos, se bem que algumas delas nunca mais nos abandonem. Essa é a parte que ele ainda não sabe: as fases da lua não terminaram, não fecharam o círculo, repetir-se-ão, ciclicamente. "Porquê que tudo o que é belo, é belo demais? Porquê que amo sempre demais?"

O projecto integral (8 faixas, letras na descrição) pode ser ouvido aqui.

sexta-feira, 15 de janeiro de 2016

It was one of those great spring days, it was Sunday





"It was one of those great spring days, it was Sunday, and you knew summer would be coming soon. And I remember that morning Dorrie and I had gone for a walk in the park and come back to the apartment. We were just sort of sitting around and I put on a record of Louie Armstrong which was music I grew up with and it was very, very pretty, and I happened to glance over and I saw Dorrie sitting there. And I remember thinking to myself how terrific she was and how much I loved her. And I don't know, I guess it was a combination of everything, the sound of the music, and the breeze, and how beautiful Dorrie looked to me and for one brief moment everything just seemed to come together perfectly and I felt happy, almost indestructible in a way. It's funny, that simple little moment of contact moved me in a very, very profound way".
 
 

quarta-feira, 13 de janeiro de 2016

One step at a time, one punch at a time, one round at a time

 
 
"(...) há a história de uma cidade, Philadelphia, ou Philly, como dizem os residentes. Nunca ostentatória ou forçada, é uma perspectiva das pequenas aventuras quotidianas, como a já referida cena dos cozinhados, na degradação da “zona perigosa” da cidade, nos planos do já mítico caminho de ferro que sobrevoa o ginásio do Mickey, ou na subida das escadas do museu que já é lenda da “história do cinema”. O esplendoroso plano final presta melhor homenagem a uma cidade do que mil cartas de amor. Não há a sujidade operária do primeiro filme, mas ainda assim é das coisas mais próximas de que hoje em dia estaremos de um “cinema de rua” na fábrica de Hollywood.
 
Pode-se dizer e escrever que Creed segue uma fórmula, que é previsível, que segue por caminhos seguros do reconhecimento de quem já viu os outros filmes. É tudo verdade, mas também há, como sempre houve, personagens com o coração na boca, recusa de cinismos, e, maior que tudo, um tremendo arco emocional, simbolizado num raccord de quarenta anos entre um Stallone a correr fulgurantemente pelas  escadas e o mesmo a precisar de ajuda para o fazer, o fim já próximo. (...)".

 

segunda-feira, 11 de janeiro de 2016

Alguém falou em filmes de "super-heróis"?


 
(Deux jours, une nuit, 2014, Jean-Pierre Dardenne e Luc Dardenne)

terça-feira, 5 de janeiro de 2016

I WANNA KNOW




"Who Made You Go", álbum Heavy Love (1972). Faith, Hope & Charity.

2016: invite the light




"Missing U", álbum Invite The Light, 2015. Dam-Funk.

sábado, 2 de janeiro de 2016

2015 - Música



No primeiro dia do ano, o Rimas e Batidas publicou o meu balanço de 2015, com a feliz particularidade de a proposta que me foi feita ter sido no sentido de abordar a música que ouvi em 2015 (e não "os melhores" de 2015), o que permite que as referências incluam gente de tempos e eras muito distintas, bem como o cruzamento com bandas sonoras de filmes. Mais "contemporaneamente", digamos assim, além de me interrogar sobre o fenómeno To Pimp a Butterfly, deixo elogios a The Good Fight (Oddisee), The Free Food Tape (Slow J; não se deixem enganar, é produto nacional), Sou Quem Sou (SP Deville), Sobre Crianças, Quadris, Pesadelos e Lições de Casa (Emicida), entre outros.

Para ler aqui (clicar). Bom ano!


É neste estado das coisas que se pode compreender – e problematizar – o fenómeno To Pimp a Butterfly, autêntica ilustração de como a peer pressure é geradora de unanimismos pouco ou nada genuínos: de repente, o álbum de Kendrick Lamar – um tratado da música negra, uma magnífica obra que ressoará nas próximas décadas, disso não duvido – aparece em primeiro lugar em tudo o que são listas dos melhores álbuns do ano. Coisa da máxima ironia: o politicamente correcto a “obrigar” à eleição de um álbum de hip hop, género politicamente incorrecto por natureza (por todos os motivos, bons e maus), como “o melhor do ano”. Mas a questão também se coloca a um outro nível: será verosímil que, para todas essas publicações e mais algumas, o álbum de Lamar seja, de facto, o melhor do ano? Bom, possível até poderá ser, mas pouco credível (e, se o for, então é um aborrecimento, porque significaria que gostaríamos todos do mesmo…!), sobretudo quando tal escolha é desacompanhada de exercícios críticos informados que a sustentem (ou, então, que se limitam a reproduzir frases de efeito de outras publicações).

[Excerto]

terça-feira, 29 de dezembro de 2015

Artes Entre As Letras #6

No último número do Artes Entre As Letras de 2015, escrevo sobre aquele que foi o filme que mais me encantou em 2015: Montanha, de João Salaviza. Os elogios, já advinharam, são muitos (mas justos, estou convicto, e o tempo tratará de o provar). A pequena divergência do elenco dos filmes que escolho por comparação com a selecção que fiz para o À pala de Walsh justifica-se pelo facto de, neste último, se ter definido a trilogia de Miguel Gomes como elegível apenas na sua globalidade.



*

Montanha (2015), João Salaviza *****
Não é apenas a chancela de um-dos-melhores-filmes-do-ano que Montanha, a primeira longa-metragem de Salaviza, partilha com Minha Mãe, de Moretti; neste último, Margherita Buy, a realizadora em crise, descontente com os figurantes contratados mas informada pelo produtor de que eles possuem efectivamente o aspecto dos operários actuais, responde “mas este é o meu filme!”, outra forma de afirmar que a arte é também isso, a reinvenção pessoal da realidade.
Ora, na estrondosa primeira longa-metragem de Salaviza, os adolescentes também não usam telemóveis, iPads, portáteis e afins, e, se isso parecer implausível a alguém, a resposta é a mesma: este é o filme de Salaviza, dono de um cinema profundamente autoral no tratamento dos temas, no manejamento da câmara, na sua impressionante força plástica. Pelo olhar documental sobre os Olivais, Salaviza confessou-se um nostálgico da vida de bairro, mas a ausência da tecnologia faz dele igualmente um nostálgico de um tempo pré-digital em que os miúdos, como os do filme, não tinham senão – e já era imenso – os amigos, os prédios e as ruas como possibilidades de brincadeira e diversão, muito ironicamente, como possibilidades, afinal, de comunicação, da mais genuína e não a das “redes sociais”. Neste sentido, neste assumido “banimento” da tecnologia, Montanha é um filme utópico, porque empenhado em resgatar, em 2015, um tempo e um modo de vida que, para o bem e para o mal, definitivamente já não existem, não sendo por acaso que, numa das raras vezes em que a tecnologia faz uma aparição (o telefone), seja para comunicar uma morte. Sim, a tecnologia também “mata” (e, quando não mata, aprisiona, como a pulseira electrónica em Arena, a curta-metragem que valeu a Palme d’Or a Salaviza em Cannes 2009): mata a atenção, a concentração, a simples predisposição para, por exemplo, contemplar demoradamente o horizonte da cidade em silêncio, como o fazem David e Paulinha num magnífico plano.
A adolescência e a curta-metragem eram, até esta parte (além de Arena, o cineasta conta com as curtas Cerro Negro e Rafa no currículo, esta última Urso de Ouro na Berlinale 2012), o território por excelência de Salaviza, enquanto etapa nebulosa do crescimento connosco próprios e com os outros; Montanha é, no formato longa, o culminar desse percurso, aqui através de um miúdo que, com a mãe momentaneamente presente e o avô no hospital em estado muito débil, passa os cálidos dias do seu Verão à deriva pelas ruas da zona. Num filme a “toda a altura”, com as personagens frequentemente enquadradas (e que magníficos enquadramentos…!) no topo de altos edifícios, os adultos estão praticamente ausentes do filme, donde sai reforçada a ideia de um crescimento forçado destes miúdos (como se, no plano de David e Rafa a andar de mota, este último estivesse a ocupar o lugar maternal de Anna Magnani no plano muito semelhante de Mamma Roma, de Pasolini), de quem podemos dizer, com muita propriedade, não terem “medo das alturas”. Nem das alturas nem do escuro, habitando frequentemente as sombras, a penumbra, os espaços e os tempos mortos; pelo contrário, há uma atracção – uma “vertigem” (diferente de “ter vertigens”, coisa que estes miúdos, insista-se, não têm…) – quase secreta, rebelde, por esses elementos (as alturas e o escuro), à qual as histórias de suicídio que os miúdos contam só acrescentam uma certa pulsão destruidora, por sua vez latente ao longo de todo o filme na atracção (mais uma) pelo fogo e concretizada na gloriosa combustão da mota roubada.
Montanha condensa, na forma e na substância, o cinema de Salaviza até esta parte, todo ele de uma escuridão perfeitamente controlada, perfeitamente bela, perfeitamente pictórica (e também cinematográfica, claro: o plano de David à porta do prédio de Paulinha, à noite, é uma lição sobre expressionismo alemão). A outro nível, e em tempos em que o retrato dos adolescentes impingido pelos formatos telenovelescos e afins é de uma estupidez e pobreza confrangedoras, importa sublinhar a justeza do olhar de Salaviza e, até, o respeito pelos miúdos que filma (em David Mourato pode-se ter ganho um enorme actor, quiçá um novo Pedro Hestnes), de que as duas “curtes” de David e Paulinha são exemplo paradigmáticos, filmadas como só os maiores cineastas sabem filmar a intimidade, o corpo, a descoberta. Montanha é, quanto a nós, o filme do ano e Salaviza o mais fascinante realizador português em actividade, a quem auguramos coisas grandiosas. Aguardemos.

segunda-feira, 28 de dezembro de 2015

fases da lua




Nunca imaginei que a melhor prenda de Natal me pudesse vir parar às mãos (ou ao coração) com a idade que tenho hoje. Mas veio - e foi do meu querido irmão. Chama-se "Retrospectiva" e é a primeira canção de uma mixtape intitulada "Fases da lua" (a sair nas próximas semanas), a primeira coisa que ele põe cá fora. O refrão é da Maria Branco. Orgulho imenso, yo!

domingo, 27 de dezembro de 2015

2015 - Filmes



Os melhores filmes de 2015 para a equipa do À pala de Walsh já são conhecidos - para ler ali (clicar). As minhas preferências abaixo. Na próxima semana, sai o número do Artes Entre As Letras no qual escrevo sobre Montanha.

  1. Montanha (2015) de João Salaviza
  2. Clouds of Sils Maria (As Nuvens de Sils Maria, 2015) de Olivier Assayas
  3. Mia madre (Minha Mãe, 2015) de Nanni Moretti
  4. Turist (Força Maior, 2014) de Ruben Östlund ex aequo Leviafan (Leviatã, 2014) de Andrey Zvyagintsev
  5. Eden (Éden, 2014) de Mia Hansen-Løve
  6. Fehér isten (Deus Branco, 2014) de Kornél Mundruczó
  7. Phoenix (2014) de Christian Petzold
  8. Bande de filles (Bando de Raparigas, 2014) de Céline Sciamma
  9. Taxi (Táxi de Jafar Panahi, 2015) de Jafar Panahi ex aequo The Look of Silence (O Olhar do Silêncio, 2014) de Joshua Oppenheimer
  10. João Bénard da Costa: Outros Amarão as Coisas Que Eu Amei de Manuel Mozos ex aequo Timbuktu de Abderrahmane Sissako

quinta-feira, 24 de dezembro de 2015

por debaixo da máscara


                                                                         (Dekalog, sześć, 1989, Krzysztof Kieślowski)

"Kieślowski (...) complementa a proibição de descrever os momentos íntimos da vida «real» precisamente com a ficção, com imagens «falsas» - nós não podemos mostrar «sexo real» ou momentos emocionais íntimos, mas os actores podem perfeitamente simulá-los, mesmo de um modo muito «realista» (...). A tese de Kieślowski será então, simplesmente, a de que o uso de uma máscara deve servir como uma espécie de escudo protector, como o sinal de respeito por aquilo que deve permanecer escondido? Ou então ele está perfeitamente consciente da dialéctica de «usar uma máscara»: a nossa identidade social, a pessoa que assumimos ser nas nossas trocas intersubjectivas, é já «uma máscara», envolve já o recalcamento dos nossos impulsos inadmissíveis, e é precisamente nas situações em que se trata «apenas de um jogo», em que as regras por que se pautam as nossas trocas na «vida real» se encontram temporariamente suspensas, que nos podemos permitir exibir estas atitudes recalcadas.
(...)
Como prova desta dimensão, devemos evocar o sentimento estranho que sentimos quando vemos os documentários de Kieślowskii: é como se as pessoas (da vida real) desempenhassem literalmente o seu próprio papel (na vida real), criando uma estranha sobreposição de documentário e ficção, na qual uma pessoa «se interpreta a si mesma» (...). Quando em Night Porter's Point of View (1977), o porteiro de uma fábrica (...) insiste que «as regras são mais importantes do que as pessoas», não exibe imediatamente a sua postura íntima; é que, numa atitude reflexa, ele «desempenha o papel de si mesmo» (...). Foi para evitar este impasse que Kieślowski teve de se mudar para a ficção. Com efeito, quando filmamos cenas da «vida real» num documentário, temos pessoas a representar o seu próprio papel (...), pelo que o único modo de descrever as pessoas debaixo da sua máscara protectora é, paradoxalmente, fazê-las desempenhar directamente um papel, ou seja, passar à ficção. A ficção é mais real do que a realidade social de representar papéis".

Slavoj Žižek, Lacrimae Rerum, Orfeu Nefro, 2013, pp. 11-13.


(Dekalog, siedem, 1989, Krzystof Kieslowski)