"Vício Chave", EP Projecto de Sábado à Tarde (2009). Roulote Rockers.
Da minha janela vejo o Bósforo todos os dias: divisões e correntes, agitações e marés. Tal como no homem, tal como no mundo.
domingo, 31 de julho de 2016
quarta-feira, 27 de julho de 2016
Artes Entre As Letras #13 - Em defesa de "Love"

Quanto aos filmes eróticos ou pornográficos, sem ser um espectador apaixonado pelo género, penso que constituem uma expiação ou, pelo menos, uma dívida por saldar com os sessenta anos de mentira cinematográfica sobre as coisas do amor. Faço parte dos milhões de leitores de todo o mundo que a obra de Henry Miller não só seduziu como ajudou a viver, sofrendo eu então com a ideia de que o cinema continuava tão atrasado em relação aos livros de Henry Miller quanto à vida tal como ela é. Infelizmente, ainda não consigo citar um filme erótico que seja o equivalente de Henry Miller (os melhores, de Bergman a Bertolucci, foram filmes pessimistas) mas, afinal, essa conquista da liberdade é bastante recente para o cinema e devemos igualmente considerar que a crueza das imagens levanta problemas bem mais bicudos do que a das palavras.
François Truffaut, Os Filmes da minha vida, Orfeu Negro, 2015, p. 20.
*
Há tempos, falei aqui desse "Em defesa de..." que o último filme do Gaspar Noé tinha suscitado em mim perante o ataque generalizado de que foi vítima por grande parte (mas não toda) da crítica (e do público, já agora). O prometido é devido e, por isso, no número de Julho do Artes Entre As Letras, dedico o meu espaço a escrever - mais longamente do que o habitual - sobre Love. Como é evidente, o meu desejo não é "convencer" ninguém de nada ou mostrar o que está "certo" e "errado" sobre as leituras que se podem fazer do filme. Além de naturalmente respeitar quem desgoste ou mesmo odeie o filme, o meu desejo é, sim - o mesmo desejo, aliás, comum a todos os filmes sobre os quais escrevo -, contribuir para o debate sobre um dos filmes que mais me impressionaram nos últimos tempos.
O Artes Entre As Letras suspende as suas publicações em Agosto e volta em Setembro. Boas leituras e bons filmes.
***
Em defesa de Love (2016), um filme de Gaspar Noé ★★★★
"Há tempos, referimo-nos,
neste mesmo espaço, a uma tendência no seio de uma certa crítica em mal-tratar,
por tudo e por nada, justa e injustamente, quase “por desporto”, dois cineastas
contemporâneos, de seu nome Alejandro Iñarritu e Paolo Sorrentino (de quem, de
resto, nem sequer somos especiais admiradores). A mesma tendência é possível
observar, no campo do cinema dito psicadélico, sexual e “explícito”, com
Nicolas Winding Refn e Gaspar Noé, autênticos “sacos de boxe” da crítica, tendo
o último filme de Noé, polémico até mais não, sido objecto já de diligente
tareia por parte da esmagadora parte dos nossos colegas. Como tantas vezes
acontece com a crítica (cinematográfica ou não), o culto de ódios de estimação
tem como efeito típico o de fazer com que o crítico, ansioso por iniciar o
exercício de flagelação, se esqueça, hélas!,
de olhar para o que os filmes têm lá dentro, seja por preguiça, inépcia, maldade
ou, simplesmente, para seguir a tendência do momento (fazer crítica também é,
sempre foi, um acto de coragem, sobretudo em tempos de unanimismos autoritários
como são os nossos).
Um
amigo que recentemente passou por uma experiência amorosa difícil confidenciou-nos
que tinha achado Love um filme
“perigoso”, no sentido em que talvez só pudesse ser devidamente apreciado
(positiva ou negativamente, é irrelevante por agora) por alguém que se
encontrasse emocionalmente estável. É um pensamento que indicia a carne de que se faz um filme como Love: a ilustração, autêntica e
visceral, pungente e sincera, do amor como um sentimento radicalmente
ambivalente, um afecto “extremista” capaz do 8 e do 80, de nos levar ao paraíso
e ao inferno (por vezes em segundos…), pulsão shakespeareana de vida e morte. Aliás,
olhando-o (ao amor) como essa parábola maldita e, por isso, disforme e contraditória,
como não colocar a derradeira pergunta: será que o amor, de facto, existe? Ou
será ele, antes de tudo, como uma personagem dizia em A Academia das Musas (o último filme de José Luís Guerín), uma
“invenção literária”?
Love é a história de um casal e, como tal, necessariamente
uma história de amor e de sexo, este último figurando aqui, mais do que nunca,
como sexo-dependência, como o último elemento que, por vezes, segura uma
relação, o aditivo que duas pessoas, por mais que racionalmente se queiram
separar uma da outra, não conseguem largar. Por isso é que, contra aqueles que criticaram
a reprodução alegadamente repetitiva e gratuita de cenas de sexo a partir de
certa altura do filme, importa lembrar que tais cenas – isto é, o lugar e o sentido de tais cenas – são,
em rigor, consequência de uma montagem inteligente e sintonizada com a “narrativa”
própria das relações de amor: na verdade, essas cenas têm lugar após Murphy e
Electra (Aomi Muyock, talentosa e lindíssima actriz de quem é difícil não ficar
a pensar nos seus olhos para o resto da vida) terminarem pela primeira vez a
sua relação e se reconciliarem, passado pouquíssimo tempo, de modo precipitado
e titubeante (não é assim na vida?). Em rigor, até esse momento, as cenas de
sexo alternam, de forma natural, com outras cenas, justamente porque essa é uma
fase (relativamente) estável da relação; é, pois, na iminência da separação, da
perda do outro, do abismo de “ficar sozinho” que o sexo-dependência vem
violentamente à superfície e os cérebros não encontram outra solução senão a de
ordenar aos corpos que se voltem a encontrar, senão a de fazer do prazer a única
(mas artificial) salvação – e isso por mais que Murphy e Electra saibam como
aquela relação não tem solução, como, no fim do dia, o estarem juntos só é
pior, como a separação seria a opção mais sensata e saudável (não por acaso, o
casal volta, pouco tempo depois, a separar-se definitivamente). Por outro lado,
sendo o filme oferecido ao espectador de um ponto de vista declaradamente
subjectivo (a narração, em off, por
Murphy), a omnipresença do sexo no filme justifica-se pela sua omnipresença no
pensamento do próprio Murphy: quão real é a circunstância de, quando recordamos
uma pessoa que amámos no passado, nos lembrarmos também – senão sempre –, além de
frases, lugares, gestos ou cheiros, do sexo com ela? E quão mais intensa não é
essa memória quando se está, como Murphy, na mó de baixo, deprimido, quando se
foi o rejeitado, quando se é forçado a fazer o luto de um amor perdido?
A narração desordenada,
feita em off por Murphy, dos altos e
baixos da relação passada com Electra (como “cenas da vida conjugal”) está
perfeitamente harmonizada com a descontinuidade lógico-temporal das cenas que
vão sendo mostradas (virtude do trabalho de montagem, novamente), oferecendo
uma interpretação justamente subjectiva (porque é do interior da cabeça de
Murphy que partimos e onde estamos durante todo o filme) dos acontecimentos, a
qual corresponde ao confuso stream of
consciousness do narrador (frases, imagens, gestos, lugares, tudo numa imparável
torrente memorial), naquela que foi a forma achada por Noé para aproximar o mais
possível o cinema da vida, no caso, a velocidade e a aleatoriedade dos
pensamentos, da memória, enfim, da forma como olhamos retrospectivamente para
os acontecimentos marcantes das nossas vidas. Quem não viu isto em Love, não viu nada e, seja-nos perdoada
a desfaçatez, só ficou a perder.
Como Noé afirmou – e bem – publicamente,
o sexo está na cabeça de muita gente durante grande do tempo, mas, ainda assim
– completamos nós –, chegada a hora de o ver sem filtros no cinema, a primeira
tendência é para o apupo: “pornográfico!”, “gratuito!”, “boçal!”. Manifestações
que deixam latente um certo e real complexo com a visão do corpo humano como
ele é e da sua dinâmica sexual. Foi assim com um incontável número de filmes na
história (dispensamo-nos de fazer as citações óbvias) e, pelos vistos, ainda
hoje o continua a ser. Claro que os menos (ou nada) moralistas (do público à
crítica) recusarão esta ideia de si mesmos, preferindo falar do “vazio” do
filme, embora esse qualificativo tenha sido utilizado precisamente como forma
de enfatizar a excessiva “insuflação” do filme com o sexo (e, quanto a filmes
“vazios”, o melhor da história do cinema faz-se deles: Antonioni, Kiarostami,
Angelopoulos, Ozu, etc.).
Relativamente à “questão
pornográfica”, apetece dizer que só quem nunca viu pornografia é que poderá
dizer que Love é um exemplar do
género. Em boa verdade, a pornografia, muito mais do que a opção pelo explícito,
obedece a todo um código performativo e cénico da prática sexual, algo patente
numa série de elementos, a começar nas posições sexuais (todas e mais algumas, sobretudo
as malabaristas) e no modo de as filmar (os ângulos estereotipados), passando
pelo tipo de corpos que as praticam (elas voluptuosas; eles musculados e
altamente dotados) e as expressões (faciais, verbais) que os acompanham, terminando
nos “feitos” alcançados (a duração temporal da relação sexual, a ausência de
cansaço, as proezas de difícil execução, os supostos actos superlativamente
“indecentes” praticados, etc.). Aliás, tanto é assim que cineastas feministas
como Erika Lust, realizando filmes assumidamente pornográficos, têm procurado
mudar as regras do jogo a partir “de dentro”, i.e., reformulando, a partir de
um ponto de vista feminino e sexualmente paritário, a dialéctica do prazer e da
praxis sexual interpretada pelos
actores, por sua vez transmitida e, consequentemente, assimilada –
“normalizada” – pelo espectador. Ora, nenhum dos elementos característicos do
filme pornográfico acima referidos se consegue encontrar no filme de Noé. Aliás,
não deixa de ser irónico que alguns dos detractores de Love sejam os mesmos que, perante A Vida de Adèle – onde a cena lésbica central, essa sim, tem muito
de pornográfico (as posições sexuais e os ângulos de onde são filmadas, desde
logo), voyeurista e “machistamente” fetichista (e não somos os únicos a
dizê-lo; João Salaviza, por exemplo, afirmou o mesmo em entrevista) –, não
tenham sentido nenhum “alarme” com o sexo. Onde muitos viram “pornografia” em Love, nós vemos verdade e beleza, vemos,
acima de tudo, o amor e o sexo como eles são, as fantasias como elas são. Existem pénis e
vaginas no filme? Seios, saliva, sémen? Penetrações? E o que é que existe, fora
dos filmes e na vida dita “real”, senão isso mesmo? Quando, em Cannes, perguntaram a Noé
sobre a noção de “transgressão” alegadamente subjacente ao filme, o cineasta
deu a resposta correcta: “Transgressão? Qual transgressão?”. Porque, em Love, é da vida – e da vida na sua
dimensão quase primitiva: amor e sexo – que estamos a falar, em primeiro e em
último lugar.
Veja-se o espantoso
primeiro plano do filme, um longo plano fixo de prazer mútuo entre dois amantes
num quarto (quietude absolutamente impossível de encontrar num filme
pornográfico), com a lindíssima música de Erik Satie (a composição para piano Gnossienne No. 1) em fundo a potenciar a
dimensão fortemente pictórica (e poética) do quadro oferecido ao espectador. Dimensão
pictórica, essa, transversal a todo o filme (a personagem de Electra,
recorde-se, é pintora e o próprio Noé é filho de um pintor) e latente nos
geométricos enquadramentos, os quais, mais do que convocadores de referências cinéfilas
(Ozu, Kubrick), concorrem para a espacialidade claustrofóbica e irrespirável da
relação de Murphy e Electra e, consequentemente, do filme, que, não por acaso,
decorre, quase todo ele, em interiores (sobretudo a partir da primeira vez que
o casal se separa). É, afinal, a mesma espacialidade “de quatro paredes”, de
isolamento e reclusão do mundo, que preside a um filme como O Império dos Sentidos, por sua vez fundada
nessa ideia do amor – sobretudo o amor possessivo e obsessivo, como este é –
enquanto clausura física e espiritual (voluntária, claro, mas, ainda assim, uma
clausura). E o que dizer do modo terno e delicado (nada “sexual” ou voraz, na
verdade) como Noé filma aquele ménage à
trois, momento do mais puro e inocente prazer entre três jovens a
experimentar uma das fantasias sexuais mais habituais nas cabeças dos comuns
mortais (é comparar com um ménage à trois
num filme pornográfico e tirar as conclusões)?
Onde Noé macula o filme – e não temos reservas
em dizê-lo – é, de facto, na ejaculação filmada em direcção ao espectador, que,
além do tom de provocação óbvia (se bem que, aqui, até achemos alguma graça),
parece ter sido o único pretexto justificativo para a utilização do 3D, na
verdade perfeitamente dispensável (um chamariz de marketing, talvez), como
dispensáveis são as brincadeiras egocêntricas e fetichistas do realizador com o
seu próprio nome (decomposto em dois e atribuído a duas personagens). Mas isto
– e um ou outro diálogo menos conseguido (o do “sentido da vida” quase a fechar
o filme, por exemplo) – é pouco, muito pouco, para retirar valor e beleza a um
filme que vive, todo ele, sob o signo de um sentimento que, desde tempos
ancestrais, move os homens e alimenta fantasias, ilusões e mitos; que mói,
mata, rejuvenesce, vivifica. Coloque-se agora a palavra “sexo” no lugar do nome
desse sentimento e o efeito é o mesmo – é disso que fala Love".
Crítica - "Lights Out"
Entusiasmei-me tanto com a dimensão meta-cinematográfica do Lights Out (2016), filme de terror de David F. Sandberg apadrinhado pelo James Wan (produtor), que escrevi a crítica para o À pala de Walsh (clicar para ler). Para os que ainda não viram, há um prudente spoiler alert pelo meio do texto, por isso podem estar descansados.
«“Stay in the light!”, diz Rebecca (Teresa Palmer) aos polícias que tentam, ingloriamente, ajudá-la a ela e ao seu pequeno meio-irmão Martin; “Please just let the lights go out!”, implora, ao invés, Sophie (mãe de Rebecca) ao mesmo Martin quando o tenta convencer da bondade de Diana, a criatura indesejada. Logo por estes dois diálogos se intui a basta matéria cinéfila que temos em mãos para explorar a ideia-de-terror central do filme e, sobretudo, para cruzá-la com aquela que é uma das quintessências do cinema, a saber, a Luz (ou, se quisermos, a iluminação). É na escuridão que o fantasma de Diana – outrora uma criança com uma rara e extrema sensibilidade à luz (e de quem nunca vemos o rosto senão na sua versão “fantasmática” e, por isso, deformada) – assome e mata (é no escuro que o Mal se manifesta), e é na luz, pelo contrário, que ela fraqueja, que ela desaparece, que os seus malvados propósitos claudicam (é à luz que o Bem triunfa). A excepção é essa brincadeira cinéfila, esse piscar de olhos a George Lucas: o “sabre de luz” desencantado por Rebecca e que lhe permite combater o “dark side of the force” personificado por Diana».
[Excerto]
terça-feira, 26 de julho de 2016
eu, os meus amigos e os filmes
"(...) o que me importa não é fazer um balanço dos prós e dos
contras, que indicasse o que nesses filmes resistiu ao tempo e o que neles se
encontra já calcificado (se jogássemos esse jogo, ganharias nas calmas). O que
me importa, sim, é dizer-te que, revendo-os hoje, descubro que me relaciono com
eles do mesmo modo que me relaciono com alguns dos meus amigos de infância
(entre eles, tu): os nossos interesses já não são os mesmos, mas – apesar dos
defeitos que possamos descortinar uns nos outros – não somos capazes de fingir
que não nos conhecemos para ficarmos bem na fotografia tirada por um terceiro.
Até pode ser que não nos fique bem, mas – para o bem e para o mal – ainda não
aprendemos a fazer de outra forma: nem eu, nem tu".
Belo texto e belíssima conclusão (sinto-a como se fosse minha, ainda que o Bud Spencer não faça parte do meu imaginário infantil) do Vasco Baptista Marques no À pala de Walsh (clicar).
sábado, 23 de julho de 2016
far from here
"Far From Here" (feat. Schoolboy Q), Kendrick Lamar EP (2009). Kendrick Lamar.
"You ever feel like nobody never understands you but you?
Not your momma, your poppa, only person is you
Not your brother, your sister, the only person is you
You ever feel like nobody never understands you but you?
Nobody, nobody but you
So it feels like, like it's only you"
Not your momma, your poppa, only person is you
Not your brother, your sister, the only person is you
You ever feel like nobody never understands you but you?
Nobody, nobody but you
So it feels like, like it's only you"
sexta-feira, 22 de julho de 2016
só com gelo, sem limão
A Menina Rute da churrascaria ao lado de minha casa já não é a Menina Rute.
Começou por me pedir para não tratá-la por Menina, ao que eu obviamente acedi: não quero confusões com ninguém, muito menos com quem me põe picante (ou outro veneno) no frango. Menina porquê?, não tenho sessenta anos, alvitrou ela, inconscientemente formulando um dos mais engraçados paradoxos de que me lembro. E não tem, de facto, tem quase a minha idade a Menina Rute, é de Vila Real, terra do meu pai, que se meteu com ela logo da primeira vez que lá fomos, ainda eu estava em mudanças. Então como lhe chamo, homessa pelo nome, como é que haveria de me chamar. Está bem, Rute; e Rute ficou. Uns dias depois, peço uma coca-cola gelada para afogar a noitada anterior e ela diz-me: deixe lá essa coisa de me tratar por você. Deixo?, está bem, Menina, vou deixar, então. Não é Menina, é Rute, já disse! Sim, tem razão: Rute!, esqueci-me.
Há dias, cheguei passava já da hora do fecho da cozinha, e ela, lá de dentro e com olhar garoto, atira: o senhor faz de propósito para chegar a estas lindas horas, não faz? Continuei a andar como se não me fosse dirigido, ignorando-a, e desci para o andar de baixo. Passado uns segundos, ela vem ter comigo com ar ofendido, a lista na mão e uma toalha na outra, e diz-me: não me ouviu a falar para o senhor?
O Senhor está no céu, Rute, ou já te esqueceste? Uma salsicha crioula e uma cola só com gelo, sem limão, trazes-me, por favor?
A fome de Bubu
Há dias, estava a rever ao almoço um episódio do Dragon Ball Z, saga "Bubu", fase morfo-psicológica "Gordo e bonacheirão" (uma entre muitas), quando dois momentos curiosos me chamaram a atenção. O primeiro, de que já não me recordava, era o absolutamente inusitado hábito da SIC em colocar a pronúncia portuense numa série de personagens. Quais? Personagens anódinas e sem destaque, frequentemente labregas e simplórias, como civis a fugirem da cidade a meio de uma catástrofe. Depois não admira que todo um país de Coimbra para baixo cresça a utilizar expressões - essas, sim, labregas e simplórias - como "o pessoal lá de cima", "lá no Norte", próprias de um esquema mental e cultural do país assente numa chaveta com dois únicos vectores: Lisboa e "o resto lá em cima".
O outro, não menos inusitado mas bem mais simbólico (e escatológico), diz respeito a toda uma sequência que começa com Bubu elevado no céu (porque as personagens voavam quase todas, as boas e as más) a inspirar profundamente e, depois, numa demonstração da sua avassaladora força, a expirar uma espécie de tornado que racha uma série de edifícios ao meio, colocando a população em pânico. Depois disto, Bubu desce até ao chão e contempla, naquele seu ar simultaneamente inocente e maquiavélico, o rasto de destruição causado pela sua brincadeira pulmonar. Não satisfeito, decide fazer uma corridinha, acelerando contra tudo o que vê à frente e aumentando o saldo de edifícios desfeitos.
Neste passo, já não se vêem praticamente pessoas (quase nunca se viam mortos ou feridos civis na série, simplesmente eclipsavam-se, espécie de pudor que reservava a mutilação e o sangue para as personagens principais); sobra, apenas, uma rapariguita, vistosa e de pernas e ombros destapados. Bubu, de sorriso glutão, aproxima-se dela, agora visivelmente com outras intenções que não a de a matar: ela no chão, em pânico, ele de pé, Bela e o Monstro versão urbano-apocalíptica. Bubu ensaia um tête-à-tête com ela, inclusivamente tentando dar-lhe um beijo (esticando extraordinariamente a sua boca elástica), mas ela não acede. Nisto, Bubu repara numa revista caída ao lado da rapariga, na qual pega e vê a imagem de um rapaz bonito e em forma. "É de rapazes magros que tu gostas?", pergunta-lhe, após o que esfrega a cara e ganha, magicamente, um rosto franzino. Tenta, então, novamente o beijo e leva com nova recusa. Ofendido e impaciente, decide logo o que fazer em alternativa: não podendo "comer" a rapariga como quer, transforma-a num saboroso e domesticável caramelo que, num ápice, deglute a seu bel-prazer, celebrando o banquete com uma série de piruetas de contentamento.
O que é engraçado aqui, além dessa dupla noção de comestibilidade (e onde o canibalismo está implícito, ainda que imperfeito: Bubu não é um ser humano), é o modo como o problema do sexo é ultrapassado: provavelmente, Bubu não sabe exactamente o que isso (o sexo) é (se soubesse, talvez o passo lógico imediato fosse a violação), pelo que a forma que encontra para substituir o seu voraz apetite sexual é transformar a mulher em comida, dessa forma se pondo - e sobrepondo - em cena dois instintos primários (o sexo e a fome) - ou, se quisermos, duas "fomes": a "alimentícia" e a sexual -, duas pulsões animais capazes de se compensar mutuamente, enfim, dois prazeres que, desde os romanos, andam de mão dadas. Ao fazê-lo, porém, Bubu acaba por concretizar aquilo a que, num primeiro momento, renunciara, i.e., matar a rapariga. Como elemento de desejo, e se tivesse correspondido à fome sexual de Bubu, a rapariga sobreviveria; recusando esse papel e passando a ser percepcionada por Bubu como um alimento em sentido literal, a rapariga receberá o destino - o castigo - fatal. Sexo, alimentação, morte - constelação essencial à qual, para estar completa, só faltaria o último e definitivo golpe escatológico, a defecação (que tipo de excrementos se geraria a partir de um caramelo... "humano"?!).
Que mal tem?
Videoclip da faixa "Que Mal Tem?" [Sobre(tudo), 2002, um dos discos da minha vida], o qual nunca chegou a ser terminado e que, por isso mesmo, nunca chegou a ser lançado. É mais uma extraordinária incursão de Sam The Kid ao seu incalculável arquivo de memórias (música, filmagens, fotografias), o qual vem sendo desempoeirado, nos últimos tempos, através do seu novo projecto, TV Chelas, que promete ser todo um regresso ao passado. Para acompanhar avidamente.
quinta-feira, 21 de julho de 2016
segunda-feira, 18 de julho de 2016
the music don't feel like it did when I felt it with you
"Teardrops", álbum Conscience (1988). Womack & Womack.
"Footsteps on the dance floor remind me baby of you
(...)
When
I'm dancin' 'round, remind me baby of you"
domingo, 17 de julho de 2016
Curtas Vila do Conde #8: Encontros com Realizadores + "Por Diabos"
Estive ontem à conversa no Curtas com Anabela Moreira e João Canijo, André Santos, Rita Barbosa e Gabriel Abrantes, no âmbito dos Encontros com Realizadores da Competição Nacional. Hoje, estarei a moderar o debate com Carlos Amaral, Diogo Costa Amarante e Pierre-Marie Goulet, todos eles também com filmes em Competição Nacional. Apareçam.
Deixo também aqui o meu último texto que escrevi para o festival, sobre um dos filmes de que mais gostei nesta edição: Por Diabos (2016), de Carlos Amaral.
***
Por Diabos
Que sopro de frescura e
originalidade se encontra neste último filme de Carlos Amaral – que competiu no
festival em 2013 com “Longe do Éden” –, uma espécie de “etnoficção” na qual a
história detectivesca da busca por uma mulher desaparecida se cruza com um
olhar antropológico sobre as tradições do Entrudo num vilarejo de Trás-os-Montes.
O mistério do desaparecimento confunde-se, assim, com o mistério das tradições
e crenças milenares associadas aos “Caretos”, assim se gerando um enorme
caldeirão místico (“O diabo a quatro” é expressão que aqui assenta como uma
luva) favorecido quer pelo recurso a imagens de arquivo e a fotografias da
desaparecida, quer pela banda-sonora (as cordas sempre a apurar o ambiente de
mistério).
À narração em off, espécie de diário da investigação, somam-se os diversos “testemunhos”, desde um historiador, passando pelos habitantes da vila e até à própria desaparecida (neste caso, em modo “epistolar”), tudo gravado numa cassete cuja fita vemos a ser reproduzida, naquele que é mais um híbrido piscar de olhos à ficção e ao documentário e uma forma de despistar, com graça, o espectador.
À narração em off, espécie de diário da investigação, somam-se os diversos “testemunhos”, desde um historiador, passando pelos habitantes da vila e até à própria desaparecida (neste caso, em modo “epistolar”), tudo gravado numa cassete cuja fita vemos a ser reproduzida, naquele que é mais um híbrido piscar de olhos à ficção e ao documentário e uma forma de despistar, com graça, o espectador.
sábado, 16 de julho de 2016
We are both to blame
"Take Me Back", álbum Words (1982). F.R. David.
"I never said I could be
The guy
you once saw in me
I wasn't
made to love you
Everyone
make mistakes
We are
both to blame
Take me back where I long to be
Where
the music's free
And
the lights are bright"
sexta-feira, 15 de julho de 2016
quando namorarmos
Eu estava na mesa do canto e ouvi-lhe dizer
– Eu pago, deixa estar.
– Oh, não pagas nada – foi o que ouviu de resposta.
– Anda lá – insistiu ele –, esta é por minha conta. Fui eu que te convidei, por isso...
– Não, dividimos!
A senhora do restaurante chegou junto deles com a conta e ele acrescentou
– Quando namorarmos, dividimos, por agora pago eu.
Ela pousou os olhos no chão, passou a mão no cabelo e depois sorriu – mas isto fui só eu que vi, o rapaz não se apercebeu porque estava a introduzir os números do multibanco no aparelho.
Curtas Vila do Conde #7: Vária
Sexta-feira é dia para ver, entre outros, Retrospective (2016, Salla Tykka, uma habitué do Curtas) e Pedro (2016, de André Santos e Marco Leão). À noite, depois dos filmes, também há festa.
***
Pedro
A partir da (aparente)
simplicidade de um dia de praia entre mãe e filho, a dupla portuguesa prossegue
na senda formal e material dos seus trabalhos anteriores (exibidos amiúde no
Curtas), construindo um filme cujo silêncio global rima com os “silêncios” mal
resolvidos daquela relação (o namorado da mãe, as idas à “casa de banho” do
filho), tema – o da dificuldade de comunicação familiar – que já vem de Má Raça. O som, recurso magnificamente
trabalhado e verdadeiramente central na composição do filme (tal como na curta Infinito, por exemplo), chega, quase
sempre (com excepção da momentânea banda sonora), de elementos exteriores: a
mota, o vento, o mar. Nos planos sobre o rosto adolescente de Pedro e,
sobretudo, no gosto por esse rosto, ecoa uma vasta tradição do cinema
português, a começar em Paulo Rocha e Manuel Mozos, passando por Teresa
Villaverde e chegando a Pedro Costa (e, mais recentemente, a João Salaviza).
Mas existe também essa atracção pelo corpo, a mesma de alguém como, por
exemplo, João Pedro Rodrigues ou, fora de portas, Pasolini, de quem Mamma Roma faz uma aparição no plano da mãe
agarrada ao filho de mota. O gag dos sapatos, determinante na narrativa, é inteligentíssimo:
uns e outros a dar largas, de acordo com a liberdade que a norma social concede,
aos mesmos desejos nos mesmos refúgios (o mesmo bosque, aliás, de um filme, que
aqui não deixa de ressoar, como O Desconhecido do Lago, de Alain Guiraudie, ou da
própria curta dos realizadores Aula de Condução).
Retrospective
Podemos falar sobre a nossa vida a partir de
determinados objectos? Artista visual multi-facetada (cinema, vídeo,
fotografia), Salla Tykkä – cuja obra tem sido frequentemente exibida no Curtas,
tendo mesmo sido uma das autoras In Focus em 2009 – ensaia, como o título indica,
a retrospectiva de uma mulher tendo como referente cronológico o material
fotográfico que esta foi adquirindo, pela sua voz se ouvindo a descrição das
características, funcionalidades e outras particularidades e sendo nas dúvidas
que tem sobre determinados aspectos que reside uma das dimensões mais
interessantes do filme, a do esquecimento e da fragilidade da memória (“foi
mesmo assim?”). O registo não é biográfico no sentido convencional do termo,
pelo que a narração em off diz mais
sobre o material do que sobre a vida pessoal da mulher, se bem que os objectos
que estimamos possam, por vezes, revelar muito sobre nós. E depois, claro, há a
imagem, não apenas a da mulher a manejar o equipamento mas, sobretudo, aquela
que é filmada em diferentes momentos e locais (Patagónia e Terra do Fogo),
quase sempre em registo paisagístico, a espaços poético, e cuja acumulação vai,
bem assim, construindo toda uma outra paisagem, “memorial” (e neste sentido
sim, biográfica), tal e qual as imagens mais ou menos nítidas (o problema da
fidelidade da memória, novamente) que conservamos dos locais por que passámos
na vida.
Nice (2)
Lembro-me de parar em Nice pelo meio de uma viagem num Verão conturbado. 2007, 2008? Por aí, vê bem, já lá vão oito anos, quem diria. Lembro-me da desilusão que tive ao meter os pés naquela odiosa praia de pedregulhos: então e a areia? É para aqui que os actores de cinema vêm?, que raio, não sabem mesmo o que fazer ao dinheiro. Também me lembro de conhecer uma americana, muito atraente por sinal, disse-me que não sabia o que era Portugal, é em Espanha, perguntou, o fascínio que eu lhe dedicava havia uns minutos por saber que andava a viajar sozinha há um par de meses a eclipsar-se de mansinho. Já não me lembro onde fiquei a dormir, mas recordo-me de estar a comer um gelado na mesma Promenade da noite de ontem e de um miúdo com um balão ter engraçado comigo e pedir a minha atenção, os pais com o embaraço natural de o filho estar a incomodar terceiros. O gelado caiu-me ao chão quando dei uma sapatada no balão, para felicidade do miúdo, que achou tudo aquilo muito cómico.
As pessoas costumam dizer, nunca percebi porquê, que não devemos voltar aos sítios onde fomos felizes. Que sentido esta porcaria faz? Nenhum; eu não tenho é vontade de voltar ao sítios onde fui infeliz. Por isso, não voltei entretanto a Nice, como não voltarão, umas por estarem mortas, outras pelo medo, as pessoas que lá estiveram ontem. Não voltei pelas minhas pernas, mas acabei por lá regressar como muitas vezes me acontece com outros lugares, ou seja, através dos filmes. No caso, esse maravilhoso La baie des anges do Demy (quão ignominiosa a tradução portuguesa do filme...), solar, poético e indolente como aquele jantar da Moreau com o Mann num terraço em frente ao Mediterrâneo em que dançam, apaixonam-se e desapaixonam-se com a mesma velocidade com que a Moreau ganha e perde umas coroas no casino. E aí, sim, Nice fez-se-me feliz, fez-me feliz, acendendo-me, pese embora os pedregulhos, uma ponta de desejo em lá retornar. A ressureição de que falei abaixo passa por isso: voltar, com mais determinação do que nunca, a Nice, comer um gelado, magoar os pés no caminho para o mar, beber bom vinho em terraços soalheiros, dançar sem saber dançar só porque podemos e temos gosto nisso.
Nice
Tinha jantado fora, junto ao rio, numa mesinha da esplanada de um restaurante muito agradável. A seguir, fui a um festival de cinema. Ver filmes, discuti-los, encontrar conhecidos, fumar um cigarro e beber uma cerveja, trocar meia dúzia de impressões. Vim despreocupadamente para casa. Estava quase a adormecer quando oiço um casal meu amigo que ia ficar a dormir em minha casa a entrar silenciosamente. Fui à porta, um abraço grande, como estás, estejam à vontade, amanhã acordo cedo mas vocês estejam à vontade, o que precisarem, bom casório. Volto para o quarto e, antes de me deitar, dou tranquilamente uma volta pelas notícias, fico a saber do que se passa em Nice.
O que as pessoas estavam a fazer em Nice era exactamente o que eu fiz na noite passada: conviver e divertir-se com as pessoas de quem gostavam, gozar em liberdade da comida, do vinho, do tempo, daquilo a que nos acostumámos a chamar "as coisas boas da vida". Por isso é que a barbárie de Nice é a barbárie das nossas casas, das nossas ruas, por isso é que as pessoas mortas em Nice são também as pessoas com quem estive ontem à noite. Morremos todos ontem; saibamos nós que a ressurreição se faz pela persistência, pela bravura ingénua e indefectível de continuarmos a praticar o prazer e o riso.
quinta-feira, 14 de julho de 2016
Curtas Vila do Conde #6: Vária
Hoje, são exibidos, entre outros, Fim de Linha (2016, Paulo D'Alva e António Pinto) e Abigail (2016, Isabel Penoni e Valentina Homem) nas competições nacional e internacional, respectivamente.
***
Fim de Linha
Realizado
por Paulo d’Alva (presente em edições anteriores do festival com “A noite
cheirava mal” e “Carrotrope”) e António Pinto, este é um filme de contrastes: a
animação e as imagens de arquivo, a cor e o preto
e branco, a musicalidade (cortesia dos Dead Combo) e a mudez das personagens, o
registo surrealista (predominante) e o realista (proveniente das referidas
imagens de arquivo), enfim, a omnipresente – mas ambígua – noção de tempo (os
inúmeros relógios que vão aparecendo simbolicamente) e a descontinuidade
temporal e lógico-narrativa de todo o filme. Quebra-cabeças misterioso e
intrincado para o espectador, mas não menos poético e melancólico, do filme
poder-se-ia sugerir ser, todo ele, um sonho, um delírio, enfim, uma fantasia
própria de uma criança que não quer crescer, ideia favorecida pela sensação de
recusa da passagem do tempo (12h17m e 20h17m são as horas que, invariavelmente,
os relógios apontam) e de uma certa nostalgia pela infância (o baloiço, o miúdo
defronte do combóio). São várias as pistas e as “pontas soltas” interpretativas
que vão sendo deixadas aqui e ali (o “Crime e Castigo” de Dostoiévski…), mas é
na contemplação e não tanto na decifração que está o poder encantatório do
filme (e, afinal, de toda a arte). Ao contrário do que tantas vezes se ouve, o
combóio não passa apenas uma vez.
Abigail
Se um documentário é sempre um processo de
aprendizagem para o próprio realizador, no sentido em que, à medida que vai
filmando o seu objecto, o vai descobrindo e conhecendo mais aprofundadamente,
este filme, presente em Cannes 2016, leva tal ideia a um inteligente grau de
literalidade “visual”. De facto, num movimento simultaneamente fílmico e
epistemológico de “fora para dentro” (característico, justamente, de todo o
processo de aprendizagem), do exterior para o interior, as realizadoras partem
de um jardim abandonado para entrar na casa de Abigail Lopes, mulher que sempre
se bateu pela pacificação e convivência entre índios e não-índios e que
inclusivamente viveu durante oito anos com o seu companheiro e histórico
sertanista Francisco Meireles junto dos índios Xavantes da Serra do Roncador
(Mato Grosso). Serra do
Roncador (Mato Grosso), Xavantes da Serra do Roncador (Mato Grosso), vivendo
oito anos junto a esses índiosSempre de câmara à mão, as realizadoras
vão andando, literalmente, “de porta em porta” (de obstáculo em obstáculo),
quase sempre no escuro, desse modo progredindo, às “apalpadelas”, na decrépita
casa, cuja forma labiríntica rima com a dimensão mágica, mística, espiritual
(no caso, o candomblé) de Abigail, patente nos objectos de culto e outras
memórias que pululam neste “templo” improvisado. O registo documental
(alternado com valiosas imagens de arquivo dos índios Xavantes nos anos 40),
sendo predominante, não deixa de ser “provocado” por um ou outro elemento de
ficção, desde logo a mulher (Abigail?) que a câmara vai perseguindo num jogo do
“gato e do rato” no qual, à medida que mais nos aproximamos dela, mais ela nos
continua a escapar (e não é assim todo o processo de aquisição de conhecimento?).
quarta-feira, 13 de julho de 2016
Subscrever:
Mensagens (Atom)







