quarta-feira, 21 de setembro de 2016

explosões controladas



Se as Montanhas se Afastam (2015), Jia Zhang-ke.

segunda-feira, 19 de setembro de 2016

burning


 
 
"Burning Eyes", álbum Love Is a Hurtin’ Thing (2015). Gloria Ann Taylor.

I'll even do wrong for you


 
 
"That's All Right With Me", álbum From A Whisper To A Scream (1971). Esther Phillips.

segunda-feira, 12 de setembro de 2016

I Wish I Had Someone Else's Face #5: Quem quer (mesmo) voltar à Terra do Nunca?

 
 
Dores de crescimento: mais precoce ou mais tardiamente, todos as temos (uns mais, outros menos). É sobre elas e sobre Big (1988), com um Tom Hanks ainda tenrinho, que escrevo no último número da minha crónica I Wish I Had Someone Else’s Face.

Para ler no À pala de Walsh (clicar).
 
 
"Hanks é uma espécie de “último moicano”, anti-herói que, vivendo e actuando no mundo dos adultos, conserva a sua infantilidade e respetiva forma de estar, evitando, assim, ser “assimilado” pela “classe” etária em que se insere (e os códigos que ela pressupõe), no que o filme ensaia uma espécie de grito contra a formatação a que, nas nossas vidas, nos vamos progressivamente submetendo, simultaneamente mostrando simpatia por todos os “inadaptados” que, por um motivo ou outro, são tradicionalmente olhados de lado. Todavia – e aqui se inicia o tom pragmático do filme a que aludimos acima –, à medida que o tempo passa, Hanks começará a “adultizar-se”, seja pelo fato e gravata que passa a utilizar ou pelo stress e irritabilidade (motivados pelo trabalho na empresa) que começa a acusar e que, inclusivamente, o afastam de Billy, seu melhor amigo de infância e o único que está ao corrente da sua metamorfose"
 
(Excerto)
 

a fugir do plano


The Quiet Man (1952), John Ford.

 
(Um plano nada habitual em Ford, embora isso seja o menos importante aqui).


O Sabor da Cereja (1997), Abbas Kiarostami.

quinta-feira, 8 de setembro de 2016

"António, lindo António" - Folha de sala

 
 
António, lindo António (2015), de Ana Maria Gomes, filme vencedor do Curtas Vila do Conde deste ano, passa hoje no Cinema Passos Manuel, pela mão do Porto/Post/Doc.
 
A folha de sala que escrevi para a sessão pode ser lida aqui (clicar).

terça-feira, 6 de setembro de 2016

ao contrário

- Olha o cem anos de solidão...
(silêncio)
- Este livro... Na altura, foi uma cambalhota para mim.
(silêncio)
- Porquê, papá?
- Comecei a pensar ao contrário...

It's rare I know you love me



"Silkk Da Shocka", álbum The Sun's Tirade (2016). Isaiah Rashad.

"I know you love me
It's rare I know you love me
But yeah I know you love me
It's rare I know you love me"


"Imani Vol. 1" (2015)

 
 
Não sei como é que isto me passou ao lado no ano passado, mas passou.
 
Não é o Nia, o Blazing Arrow ou o The Craft (sobretudo nas letras; já a produção continua maravilhosa); mas, passados dez anos de silêncio (desencontros criativos, doença, projectos alternativos, enfim, a vida a correr), Imani Vol. 1 (2015) não deixa de ser um grande regresso dos Blackalicious, um dos meus grupos predilectos e que continuam, aqui, a fazer música com uma marca única, indiferentes a tendências e conveniências – é ver a lista de convidados (ou a falta deles). E quão "oportuno" teria sido voltar com um Lamar ou um Chance como ‘sidekicks’ mediáticos...

segunda-feira, 29 de agosto de 2016

Você já tá pra lá de Marrakesh


"Qualquer Coisa", álbum homónimo (1975). Caetano Veloso.

cumulação

O feitio também pode ser defeito.

terça-feira, 16 de agosto de 2016

Dona Antónia

A Dona Antónia viu-me crescer. Em altura, mas também no resto: as borbulhas, o cabelo, a roupa, as companhias, as namoradas, enfim, em coisas tão simples quanto reveladoras como a expressão do rosto quando nos cruzamos com alguém e a educação que lhe dedicamos.
 
A Dona Antónia é senhora de um outro tempo: aparentemente muito rica (há quem duvide), sempre no cabeleireiro a manter-se loira e volumosa, bem-vestida, anelada e encolarada a preceito, óculos de sol de lentes muito escuras a disfarçar as rugas, sempre preparada para receber o derradeiro telefonema que solicitará a sua presença no Palácio de Buckingham para tomar chá com a rainha. Tem mil criados informais (desde a sua empregada, a Ermelinda, que trata com um misto de companheirismo e desprezo snob, até familiares, amigas e simples conhecidos de propósitos duvidosos) que lhe fazem as vontades e desvontades todas, servindo de chaffeur ou confidente (ou os dois em simultâneo) quando à Dona Antónia bem lhe apetece. Suponho que salivam por receber o seu quinhão em troca (nomeadamente, quando a Dona Antónia passar a fazer companhia aos do lado de lá),  mas algo me diz que a montanha, isto é, a Dona Antónia, há-de parir mais ratos do que o contrário.
 
Viva, Dona Antónia, como está, estou bem meu querido, que bonito que tu estás, se eu fosse da tua idade oh minha nossa casava-me logo, elas andam a dormir ou quê? Já viu oh Ermelinda, e antes de a Ermelinda proferir algo mais substancial do que um tímido gaguejo concordante, já me está a perguntar pelo trabalho, eu com o embaraço do costume e a pressa em me ir embora. Faz sempre questão de me dar dois beijos (mesmo quando timidamente eu os tento evitar), momento em que sinto o perfume e os odores dos cremes todos que a Dona Antónia laboriosamente coloca no início de cada dia (imagino-a a acabar de tomar banho e a gritar pela Ermelinda para lhe vir entregar a toalha e o roupão).

quinta-feira, 11 de agosto de 2016

repetição

Numa conversa sobre os inconvenientes de termos os nosso telemóveis pessoais ligados ao Wi-Fi das empresas onde trabalhamos e a possibilidade (real) de estas acederem livremente aos nossos dados, um amigo, espantado com as minhas reservas, interroga-se indignadamente: "Mas qual é o problema? Tens conversas assim tão secretas?!".

Costuma dizer-se, para sublinhar a tragédia do mundo, que a História se repete; é uma forma - o uso desse "H" maiúsculo e anónimo - um tanto ou quanto airosa e auto-indulgente de remeter as culpas para alguém ou alguma coisa distante, informe, desconhecida e, ao mesmo tempo, de estugar, sorridente e furiosamente, o passo num caminho sinuoso. Sinuoso, sim, mas previsível; onde ele vai dar, não preciso de o dizer.

quarta-feira, 10 de agosto de 2016

os bascos

Só há uma coisa no mundo mais bonita do que o País Basco: os bascos. Soubesse eu disto quando, no segundo ano da faculdade, fiz um trabalho para a cadeira de Direito Internacional Público em defesa do seu direito à independência e a minha fúria argumentativa teria, por certo, sido (ainda) maior.

terça-feira, 9 de agosto de 2016

This gravity hurts when you know the truth



"Weigh In Gold", álbum Ology (2016). Gallant.

domingo, 31 de julho de 2016

Agosto



"Vício Chave", EP Projecto de Sábado à Tarde (2009). Roulote Rockers.

quarta-feira, 27 de julho de 2016

Artes Entre As Letras #13 - Em defesa de "Love"

 
Quanto aos filmes eróticos ou pornográficos, sem ser um espectador apaixonado pelo género, penso que constituem uma expiação ou, pelo menos, uma dívida por saldar com os sessenta anos de mentira cinematográfica sobre as coisas do amor. Faço parte dos milhões de leitores de todo o mundo que a obra de Henry Miller não só seduziu como ajudou a viver, sofrendo eu então com a ideia de que o cinema continuava tão atrasado em relação aos livros de Henry Miller quanto à vida tal como ela é. Infelizmente, ainda não consigo citar um filme erótico que seja o equivalente de Henry Miller (os melhores, de Bergman a Bertolucci, foram filmes pessimistas) mas, afinal, essa conquista da liberdade é bastante recente para o cinema e devemos igualmente considerar que a crueza das imagens levanta problemas bem mais bicudos do que a das palavras.

François Truffaut, Os Filmes da minha vida, Orfeu Negro, 2015, p. 20.
*
Há tempos, falei aqui desse "Em defesa de..." que o último filme do Gaspar Noé tinha suscitado em mim perante  o ataque generalizado de que foi vítima por grande parte (mas não toda) da crítica (e do público, já agora). O prometido é devido e, por isso, no número de Julho do Artes Entre As Letras, dedico o meu espaço a escrever - mais longamente do que o habitual - sobre Love. Como é evidente, o meu desejo não é "convencer" ninguém de nada ou mostrar o que está "certo" e "errado" sobre as leituras que se podem fazer do filme. Além de naturalmente respeitar quem desgoste ou mesmo odeie o filme, o meu desejo é, sim - o mesmo desejo, aliás, comum a todos os filmes sobre os quais escrevo -, contribuir para o debate sobre um dos filmes que mais me impressionaram nos últimos tempos.
O Artes Entre As Letras suspende as suas publicações em Agosto e volta em Setembro. Boas leituras e bons filmes.
***
Em defesa de Love (2016), um filme de Gaspar Noé ★★★★
"Há tempos, referimo-nos, neste mesmo espaço, a uma tendência no seio de uma certa crítica em mal-tratar, por tudo e por nada, justa e injustamente, quase “por desporto”, dois cineastas contemporâneos, de seu nome Alejandro Iñarritu e Paolo Sorrentino (de quem, de resto, nem sequer somos especiais admiradores). A mesma tendência é possível observar, no campo do cinema dito psicadélico, sexual e “explícito”, com Nicolas Winding Refn e Gaspar Noé, autênticos “sacos de boxe” da crítica, tendo o último filme de Noé, polémico até mais não, sido objecto já de diligente tareia por parte da esmagadora parte dos nossos colegas. Como tantas vezes acontece com a crítica (cinematográfica ou não), o culto de ódios de estimação tem como efeito típico o de fazer com que o crítico, ansioso por iniciar o exercício de flagelação, se esqueça, hélas!, de olhar para o que os filmes têm lá dentro, seja por preguiça, inépcia, maldade ou, simplesmente, para seguir a tendência do momento (fazer crítica também é, sempre foi, um acto de coragem, sobretudo em tempos de unanimismos autoritários como são os nossos).
Um amigo que recentemente passou por uma experiência amorosa difícil confidenciou-nos que tinha achado Love um filme “perigoso”, no sentido em que talvez só pudesse ser devidamente apreciado (positiva ou negativamente, é irrelevante por agora) por alguém que se encontrasse emocionalmente estável. É um pensamento que indicia a carne de que se faz um filme como Love: a ilustração, autêntica e visceral, pungente e sincera, do amor como um sentimento radicalmente ambivalente, um afecto “extremista” capaz do 8 e do 80, de nos levar ao paraíso e ao inferno (por vezes em segundos…), pulsão shakespeareana de vida e morte. Aliás, olhando-o (ao amor) como essa parábola maldita e, por isso, disforme e contraditória, como não colocar a derradeira pergunta: será que o amor, de facto, existe? Ou será ele, antes de tudo, como uma personagem dizia em A Academia das Musas (o último filme de José Luís Guerín), uma “invenção literária”?
Love é a história de um casal e, como tal, necessariamente uma história de amor e de sexo, este último figurando aqui, mais do que nunca, como sexo-dependência, como o último elemento que, por vezes, segura uma relação, o aditivo que duas pessoas, por mais que racionalmente se queiram separar uma da outra, não conseguem largar. Por isso é que, contra aqueles que criticaram a reprodução alegadamente repetitiva e gratuita de cenas de sexo a partir de certa altura do filme, importa lembrar que tais cenas – isto é, o lugar e o sentido de tais cenas – são, em rigor, consequência de uma montagem inteligente e sintonizada com a “narrativa” própria das relações de amor: na verdade, essas cenas têm lugar após Murphy e Electra (Aomi Muyock, talentosa e lindíssima actriz de quem é difícil não ficar a pensar nos seus olhos para o resto da vida) terminarem pela primeira vez a sua relação e se reconciliarem, passado pouquíssimo tempo, de modo precipitado e titubeante (não é assim na vida?). Em rigor, até esse momento, as cenas de sexo alternam, de forma natural, com outras cenas, justamente porque essa é uma fase (relativamente) estável da relação; é, pois, na iminência da separação, da perda do outro, do abismo de “ficar sozinho” que o sexo-dependência vem violentamente à superfície e os cérebros não encontram outra solução senão a de ordenar aos corpos que se voltem a encontrar, senão a de fazer do prazer a única (mas artificial) salvação – e isso por mais que Murphy e Electra saibam como aquela relação não tem solução, como, no fim do dia, o estarem juntos só é pior, como a separação seria a opção mais sensata e saudável (não por acaso, o casal volta, pouco tempo depois, a separar-se definitivamente). Por outro lado, sendo o filme oferecido ao espectador de um ponto de vista declaradamente subjectivo (a narração, em off, por Murphy), a omnipresença do sexo no filme justifica-se pela sua omnipresença no pensamento do próprio Murphy: quão real é a circunstância de, quando recordamos uma pessoa que amámos no passado, nos lembrarmos também – senão sempre –, além de frases, lugares, gestos ou cheiros, do sexo com ela? E quão mais intensa não é essa memória quando se está, como Murphy, na mó de baixo, deprimido, quando se foi o rejeitado, quando se é forçado a fazer o luto de um amor perdido?
A narração desordenada, feita em off por Murphy, dos altos e baixos da relação passada com Electra (como “cenas da vida conjugal”) está perfeitamente harmonizada com a descontinuidade lógico-temporal das cenas que vão sendo mostradas (virtude do trabalho de montagem, novamente), oferecendo uma interpretação justamente subjectiva (porque é do interior da cabeça de Murphy que partimos e onde estamos durante todo o filme) dos acontecimentos, a qual corresponde ao confuso stream of consciousness do narrador (frases, imagens, gestos, lugares, tudo numa imparável torrente memorial), naquela que foi a forma achada por Noé para aproximar o mais possível o cinema da vida, no caso, a velocidade e a aleatoriedade dos pensamentos, da memória, enfim, da forma como olhamos retrospectivamente para os acontecimentos marcantes das nossas vidas. Quem não viu isto em Love, não viu nada e, seja-nos perdoada a desfaçatez, só ficou a perder.
Como Noé afirmou – e bem – publicamente, o sexo está na cabeça de muita gente durante grande do tempo, mas, ainda assim – completamos nós –, chegada a hora de o ver sem filtros no cinema, a primeira tendência é para o apupo: “pornográfico!”, “gratuito!”, “boçal!”. Manifestações que deixam latente um certo e real complexo com a visão do corpo humano como ele é e da sua dinâmica sexual. Foi assim com um incontável número de filmes na história (dispensamo-nos de fazer as citações óbvias) e, pelos vistos, ainda hoje o continua a ser. Claro que os menos (ou nada) moralistas (do público à crítica) recusarão esta ideia de si mesmos, preferindo falar do “vazio” do filme, embora esse qualificativo tenha sido utilizado precisamente como forma de enfatizar a excessiva “insuflação” do filme com o sexo (e, quanto a filmes “vazios”, o melhor da história do cinema faz-se deles: Antonioni, Kiarostami, Angelopoulos, Ozu, etc.).
Relativamente à “questão pornográfica”, apetece dizer que só quem nunca viu pornografia é que poderá dizer que Love é um exemplar do género. Em boa verdade, a pornografia, muito mais do que a opção pelo explícito, obedece a todo um código performativo e cénico da prática sexual, algo patente numa série de elementos, a começar nas posições sexuais (todas e mais algumas, sobretudo as malabaristas) e no modo de as filmar (os ângulos estereotipados), passando pelo tipo de corpos que as praticam (elas voluptuosas; eles musculados e altamente dotados) e as expressões (faciais, verbais) que os acompanham, terminando nos “feitos” alcançados (a duração temporal da relação sexual, a ausência de cansaço, as proezas de difícil execução, os supostos actos superlativamente “indecentes” praticados, etc.). Aliás, tanto é assim que cineastas feministas como Erika Lust, realizando filmes assumidamente pornográficos, têm procurado mudar as regras do jogo a partir “de dentro”, i.e., reformulando, a partir de um ponto de vista feminino e sexualmente paritário, a dialéctica do prazer e da praxis sexual interpretada pelos actores, por sua vez transmitida e, consequentemente, assimilada – “normalizada” – pelo espectador. Ora, nenhum dos elementos característicos do filme pornográfico acima referidos se consegue encontrar no filme de Noé. Aliás, não deixa de ser irónico que alguns dos detractores de Love sejam os mesmos que, perante A Vida de Adèle – onde a cena lésbica central, essa sim, tem muito de pornográfico (as posições sexuais e os ângulos de onde são filmadas, desde logo), voyeurista e “machistamente” fetichista (e não somos os únicos a dizê-lo; João Salaviza, por exemplo, afirmou o mesmo em entrevista) –, não tenham sentido nenhum “alarme” com o sexo. Onde muitos viram “pornografia” em Love, nós vemos verdade e beleza, vemos, acima de tudo, o amor e o sexo como eles são, as fantasias como elas são. Existem pénis e vaginas no filme? Seios, saliva, sémen? Penetrações? E o que é que existe, fora dos filmes e na vida dita “real”, senão isso mesmo? Quando, em Cannes, perguntaram a Noé sobre a noção de “transgressão” alegadamente subjacente ao filme, o cineasta deu a resposta correcta: “Transgressão? Qual transgressão?”. Porque, em Love, é da vida – e da vida na sua dimensão quase primitiva: amor e sexo – que estamos a falar, em primeiro e em último lugar.
Veja-se o espantoso primeiro plano do filme, um longo plano fixo de prazer mútuo entre dois amantes num quarto (quietude absolutamente impossível de encontrar num filme pornográfico), com a lindíssima música de Erik Satie (a composição para piano Gnossienne No. 1) em fundo a potenciar a dimensão fortemente pictórica (e poética) do quadro oferecido ao espectador. Dimensão pictórica, essa, transversal a todo o filme (a personagem de Electra, recorde-se, é pintora e o próprio Noé é filho de um pintor) e latente nos geométricos enquadramentos, os quais, mais do que convocadores de referências cinéfilas (Ozu, Kubrick), concorrem para a espacialidade claustrofóbica e irrespirável da relação de Murphy e Electra e, consequentemente, do filme, que, não por acaso, decorre, quase todo ele, em interiores (sobretudo a partir da primeira vez que o casal se separa). É, afinal, a mesma espacialidade “de quatro paredes”, de isolamento e reclusão do mundo, que preside a um filme como O Império dos Sentidos, por sua vez fundada nessa ideia do amor – sobretudo o amor possessivo e obsessivo, como este é – enquanto clausura física e espiritual (voluntária, claro, mas, ainda assim, uma clausura). E o que dizer do modo terno e delicado (nada “sexual” ou voraz, na verdade) como Noé filma aquele ménage à trois, momento do mais puro e inocente prazer entre três jovens a experimentar uma das fantasias sexuais mais habituais nas cabeças dos comuns mortais (é comparar com um ménage à trois num filme pornográfico e tirar as conclusões)?
Onde Noé macula o filme – e não temos reservas em dizê-lo – é, de facto, na ejaculação filmada em direcção ao espectador, que, além do tom de provocação óbvia (se bem que, aqui, até achemos alguma graça), parece ter sido o único pretexto justificativo para a utilização do 3D, na verdade perfeitamente dispensável (um chamariz de marketing, talvez), como dispensáveis são as brincadeiras egocêntricas e fetichistas do realizador com o seu próprio nome (decomposto em dois e atribuído a duas personagens). Mas isto – e um ou outro diálogo menos conseguido (o do “sentido da vida” quase a fechar o filme, por exemplo) – é pouco, muito pouco, para retirar valor e beleza a um filme que vive, todo ele, sob o signo de um sentimento que, desde tempos ancestrais, move os homens e alimenta fantasias, ilusões e mitos; que mói, mata, rejuvenesce, vivifica. Coloque-se agora a palavra “sexo” no lugar do nome desse sentimento e o efeito é o mesmo – é disso que fala Love".