quarta-feira, 31 de março de 2021

25 anos FDUP, 25 filmes - O mundo que o cinema nos dá


(Cartaz e programação do Cineclube FDUP em 2007-2008)


A minha cinefilia começou - ainda nem eu sabia o que o palavrão significava - em casa com o Chaplin, o Tati e o meus pais, mas só verdadeiramente como coisa consciente e obsessiva a partir da entrada na Faculdade de Direito, que era, pelo menos enquanto lá andei, uma Academia no sentido original (grego) do termo: Cineclube FDUP, Jornal Tribuna, Sociedade de Debates, direitoÀcena (grupo de teatro), muitos etc.. Pelo menos destes quatro grupos fiz parte com o maior entusiasmo e vigor, tal como a esmagadora maioria das pessoas que lá encontrei. 31 de Outubro de 2007, via o meu primeiro filme no Cineclube FDUP: Rumble Fish, Coppola... Não o digo por nostalgia de ocasião, pois já então o sentia desta exacta forma (“I remember thinking: ‘I’ll remember this…’”): por essa altura, a FDUP era um lugar ligeiramente utópico (um lugar “ainda-já-distante”, como se estivéssemos a viver a faculdade do tempo dos nossos pais, essas que víamos, claro está, nos filmes que amávamos: França, Itália, anos 60-70…), que fervilhava a todo o momento, pleno de ideias, cultura, debate. Em resumo, duvido que volte a encontrar um espaço assim na minha vida; espero estar enganado.

A Faculdade de Direito comemora em 2021 os seus 25 anos e convidou-me a fazer uma selecção de 25 filmes – um por cada ano (e realizado nesse ano), desde 1995, data da sua fundação. É uma selecção (sublinho “uma”) que acompanhará um mini-ciclo de cinema (com outros filmes) a ser exibido ainda este ano em data a anunciar oportunamente. Abaixo, a selecção e o texto enquadrador.


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25 anos FDUP, 25 filmes - O mundo que o cinema nos dá

No 25.º aniversário da FDUP, uma “lista dos melhores filmes dos últimos 25 anos” é coisa que não podia estar mais distante da selecção que aqui se propõe, a qual pretende, antes de mais, servir de complemento aos estudantes da FDUP para o mini-ciclo de cinema a realizar em 2021 por ocasião das comemorações da sobredita efeméride (razão pela qual os filmes aí a serem exibidos não constam da presente selecção). Assim, aquilo para que se convida os estudantes (e demais comunidade: docentes, funcionários, alumni) é uma possível leitura do mundo e do cinema que ele nos deu – e quanto mundo o cinema nos dá, por sua vez… – nos últimos 25 anos. Três turbulentas décadas de aceleração e transformação que mostram à evidência como o fim da História, afinal, nunca chegou.
Escusado será de referir a óbvia dificuldade em fazer uma tal selecção. É, por isso, e naturalmente, apenas isso mesmo, uma selecção. Simultaneamente uma proposta e um desafio aos estudantes. Procurou-se escolher um filme por cada ano (e realizado nesse ano) subordinado a uma ideia de conjunto assente num duplo vector. Por um lado, tactear a diversidade de propostas estéticas que a arte cinematográfica vem conhecendo desde os anos 90, quer em termos formais e programáticos (as tendências e figuras que vêm marcando o cinema contemporâneo, do melodrama à Nova Vaga Romena, do cinema português ao pós-documentário), mas também técnicos (o digital, a internet e a democratização por eles possibilitados no acesso à produção e consumo de filmes). Num outro plano, pretende-se também reflectir sobre as transformações – políticas, sociais, culturais – que marcaram o mundo no preciso momento em que uma nova e profunda mutação trazida pela pandemia Covid-19 acaba de ser experienciada – por agora sem fim à vista – pela sociedade global (o primeiro filme escolhido, de 1995, fala já sobre isso…).
É esta, por isso, uma selecção que se pretende diversificada mas rigorosa, plural e comunicante, bem assim orientada por um sentido pedagógico e prospectivo de aventura e descoberta para o público a que primacialmente se destina: estudantes, cidadãos pensantes e de espírito crítico. Uma selecção ancorada, agora e sempre, na curiosidade e no prazer de que se reveste o acto de ver filmes, acreditando na possibilidade de cada um deles servir de ponte para outros filmes, outros cineastas, outros mundos. Para o Outro. Esse é, afinal, o destino de toda a cinefilia, paixão de que um jurista – que tantas vezes ouve durante a feitura do curso que “Quem só sabe de Direito nem de Direito sabe” ou que a Equidade é a “justiça do caso concreto” – só beneficiará na sua intervenção no mundo dos princípios e das normas jurídicos. Um filme, um bom filme, nunca pretende ser juiz, antes proporcionar ao espectador todos os elementos e nuances (todos os cinzentos) para que este possa pensar em liberdade. Não manipula; oferece, respeita, ilumina. Porque a realidade – ou a ficção, uma supera a outra e vice-versa – é sempre mais complexa do que os conceitos e as ideias por que nos orientamos; do que "a previsão e a estatuição". Porque, no fim do dia, como se ouve ao Octave de La Régle du Jeu (1939, de Jean Renoir), "Le plus terrible dans ce monde c'est que chacun à ses raisons".

1995 – Safe (Todd Haynes)
1996 – Conto de Verão (Eric Rohmer)
1997 – O Sabor da Cereja (Abbas Kiarostami)
1998 – Os Mutantes (Teresa Villaverde)
1999 – Tudo Sobre a Minha Mãe (Pedro Almodóvar)
2000 – No Quarto da Vanda (Pedro Costa)
2001 – O Quarto do Filho (Nanni Moretti)
2002 – Sinais (M. Night Shyamalan)
2003 – A Melhor Juventude (Marco Tullio Giordana)
2004 – A Rapariga Santa (Lucrecia Martel)
2005 – A Morte do Sr. Lazarescu (Cristi Puiu)
2006 – Offside (Jafar Panahi)
2007 – O Segredo de um Cuscuz (Abdellatif Kechiche)
2008 – As Praias de Agnès (Agnès Varda)
2009 – Morrer Como Um Homem (João Pedro Rodrigues)
2010 – Filme Socialismo (Jean-Luc Godard)
2011 – Melancolia (Lars von Trier)
2012 – 00:30 A Hora Negra (Kathryn Bigelow)
2013 – Até Ver a Luz (Basil da Cunha)
2014 – João Bénard da Costa: Outros Amarão as Coisas Que Eu Amei (Manuel Mozos)
2015 – Montanha (João Salaviza)
2016 – Lumière! (Thierry Frémaux)
2017 – Dragonfly Eyes (Xu Bing)
2018 – Dogman (Matteo Garrone)
2019 – Atlantique (Mati Diop)
2020 – O Sal das Lágrimas (Philippe Garrel)

segunda-feira, 29 de março de 2021

you just add to my troubles



(LP Pleasure, Joy and Happiness, 2020, Eddie Chacon)

De volta a Tokyo-3


Quiçá tenha sido aqui que o Oliveira filmou aquela cena do Aniki... Um pedaço da minha infância (?), esse, está no Y da última sexta-feira... Evangelion e os primeiros vislumbres do apocalipse

sábado, 27 de março de 2021


(Le Corniaud, 1965, Gérard Oury)

great music only



Disco longo, rico, cheio de sumo, superiormente interpretado: podia ser de um veterano mas pertence um miúdo de 22 anos... Um black dog na terra dos cangurus

"Smiling With No Teeth", portentosa estreia do ganês-australiano Genewis Owusu, no ípsilon

Link:

quinta-feira, 18 de março de 2021

notes to self

Heremakono (2002, A. Sissako) *** 
39 Steps (1935, A. Hitchcock) ***
Bamako (2006, A. Sissako) ***
25th Hour (2002, Spike Lee) ***
Before Sunrise (1995, R. Linklater) ***
Before Sunset (2004, R. Linklater) *****
Before Midnight (2013, R. Linklater) ****
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[séries]
Ways of seeing (1972, J. Berger) ***
Neon Genesis Evangelion (1995, Hideaki Anno) ****

terça-feira, 16 de março de 2021




(Before Sunset, 2004, R. Linklater)


O que pensaste tu quando o viste? E tu? E tu? E tu, e tu, e tu...

segunda-feira, 8 de março de 2021

vozes na cabeça



(LP Regresso ao Futuro, 2012, Mind Da Gap)

It's a Wonderful Life



(25th Hour, 2002, Spike Lee)


second chances, guardian angels... It's a Wonderful Life

sábado, 27 de fevereiro de 2021


(Bamako, 2006, A. Sissako)


O filme mais palavroso de Sissako, cineasta tradicionalmente atento ao vento e ao silêncio, arranca de uma estrutura de tribunal coral – a meio caminho entre o utópico e o não-tão-inexequível-assim – em que as instituições financeiras internacionais se encontram a ser julgadas pela sociedade civil, “We the People”, à conta dos danos históricos causados ao Mali e a África (pelo meio, um ainda mais inusitado, cómico também, "Western spaghetti-na-medina” exibido durante o serão na TV maliana, protagonizado por… Danny Glover). Um certo maniqueísmo (o advogado do Banco Mundial que exige o símbolo da Gucci nos óculos que compra na candonga…) que se vai instalando ao longo do filme encontra, todavia, um travão desde o primeiro momento, quando um auto-intitulado “criminólogo” de câmara na mão diz a Chaka: “Os rostos das pessoas quando falam… Isso não me interessa. Não existe verdade. Eu prefiro o mortos, são mais verdadeiros”. Nunca sairemos daqui, dessa reserva fundamental, mantra que, por isso, assombrará irremediavelmente as “verdades” clamadas por advogados e testemunhas, por mais ou menos justas, mais ou menos distorcidas ou simplistas, que soem. Outra forma, também, de dizer que os mortos – e particularmente os “mortos de África”, do colonialismo ao ciclo vicioso, perverso, da dívida – falam sempre melhor do que os vivos, “dizem tudo”, são a prova documental, cabal e acabada, de todo e qualquer “facto” ou “alegação”. Mesmo do que aqueles proferidos por populares que, numa adaptação do coro grego, interrompem o julgamento para intervir através de canções, poemas, ditos, enquanto o resto da população ora vai seguindo o julgamento com atenção, ora se enfastia e, distante dos elaborados argumentários em disputa, desliga os cabos das colunas que ecoam o julgamento pelas ruas...

Eis um inusitado “courtoom movie” cujo pleito, decorrendo no pátio de uma casa habitada por um casal (na verdade, casa do falecido pai de Sissako), vai sendo cruzado por outros pequenos litígios do foro familiar, doméstico, a História sempre perpassada pelas histórias (o espaço público pelo privado), pelo melodrama... Um casal prestes a separar-se: a mulher, cantora num bar nocturno, pretende voltar ao Senegal e o homem, acabrunhado e indiferente (passa as noites a ler um manual de Hebreu), exige ficar com a filha. A pistola do polícia presente no tribunal que desaparece; um tiro seco, suicida, imediamente a seguir ao plano da filha bela-adormecida… “A morte é melhor do que a vergonha”, ouvira-se, muito antes, a um dos advogados…




(The 39 Steps, 1935, A. Hitchcock)


Num filme tão marcado ainda pela despedida do mudo, de que a direcção de actores e o seu comportamento expressivo são exemplares (notável como os olhos “falam”, dizem tudo sem ruído, o movimento corporal de cada actor decisivo na aclaração de uma emoção ou na injecção de ambiguidade; como uns lábios podem desenhar desejo ou pavor e um meneio do pescoço, rápido e seco, impõe o ritmo à acção), há esse raccord de som-imagem extraordinário: uma mulher que, depois de ver a cena de um crime macabro, grita. Mas o grito é abafado - ou não (em rigor, o plano da mulher é mudo tout court, sem som, o que só favorece a estranheza da cena) - pelo apito estridente, vertiginoso, paranóico, do combóio no plano imediatamente seguinte (ambos, mulher e comboio, dispostos à direita do plano; à esquerda, o cadáver que não vemos e o escuro do túnel…).

Numa dessincronia imediatamente perturbadora, o som é colocado ainda no plano da mulher (ferramenta igualmente utilizada com os efeitos que se conhecem em Psycho), continuando depois a ser reverberado pelo túnel, uma segunda boca também ela virada para a câmara. O contrastante fumo branco a tornar tudo ainda mais nervoso, stressante; e o grito e o combóio que não param, nunca param, prontos a embater de frente nas personagens, no espectador…


... E, contudo, talvez esta sequência não passe, afinal, de um sonho da personagem que surge no último plano, dormindo....

soulful distance


A pandemia não entra aqui: fumo, blues, deboche, humores e amores frustrados, eis mais um excelente disco de um veterano que é também um goofy irresistível.

... E com toda a certeza que este The Dude, primo do do Grande Lebowski, apreciaria uma bela cachimbada nestas areias... "Soulful Distance" hoje no Y


Link: Há mais vida para além do trap no Sul dos EUA | Crítica | PÚBLICO (publico.pt)


quarta-feira, 24 de fevereiro de 2021

Algodão Doce


("Algodão Doce", Roke, Sinceramente Porto, 2020)


"Diz-me o instinto que um amor extinto
Vira algodão ou então labirinto
Eu minto quando digo: não te gramo
Este coração de pedra perde peso se te chamo
Nega tudo o que eu transmito, tanto fogo como água
P'a quê ser doutro mundo se é p'a ser de novo nada?
Eu nunca senti frio na verdade
Porque tu nunca saíste do outro lado da geada
Para quê jurar chama?
Se o pensamento é gelo e a nossa pele escama
O maior pesadelo nem é drama
A cova onde durmo guarda os sonhos de catana
Insano...
Insónias põem-se em fila indiana
Memórias dão-me vida momentânea
Mas máquinas do tempo são inúteis
Se é para viver p'a sempre sob condição humana

Quem dera que o chão não fosse duro
E fosse meu delírio ouvir gritos no escuro
Bizarro... Fazer bruços no fumo
É boiar sem destino e voar sem descuido, claro
Trocam-se olhares não maus-olhados
Se 'tamos a ver fantasmas me'mo com os olhos selados
Saudades? Algumas são ciúmes
Algumas semelhantes a tortura ou seis bagos
Que estrago, que estrilho, que história...
O nosso estilo sujo não é tratado como escória
A sério? A sério? A sério?!
Não somos números de série mas não voltemos ao zero
'Bora...
Se era p'a ser a princesa e o sapo...
De certeza que é mais tigresa e macaco
Não há roque e a amiga se levarmos saco

Amor nos mata, amar-te é mel
Amor nos salvará ou dirá à selva xau?
Se amor for ra-ta-ta, amar é click-clack-pow
Amor é arte? Nah! Amar é pôres-te a pau

Amor nos mata, amar-te é mel
Amor nos salvará ou dirá à selva xau?
Se amor for ra-ta-ta, amar é click-clack-pow
Amor é arte? Nah! Oh mia bella ciao"

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2021

meninos estão à janela... en attendant le bonheur








(Heremakono - En attendant le bonheur, 2002, Abderrahmane Sissako)

breathe and stop


(LP Amplified, 1999)



Greatest abstract mortherfucker in the game since ever... Fo real... and give it whatchugat

Elegance



Ken Burns, Wynton Marsalis, Albert Murray e mais deux ou trois choses... cronicada no Y de última sexta-feira


Link:

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2021



(Ways of Seeing, 1972, J. Berger)


I hope *you*

segunda-feira, 8 de fevereiro de 2021

notes to self

Siberia **
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Happy Together (1997, Wong Kar-wai) ***
Boogie Nights (1997, P. T. Anderson) ***
Point Break (1991, Kathryn Bigelow) *
La ragazza con la valigia (1961, V. Zurlini) ***
La Notte Brava (1959, Mauro Bolognini) ****
Kiki - A Aprendiz de Feiticeira (1989, H. Miyazaki) ***
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[séries]
Adult Material (2020, D. Shadforth) **
Fleabag (2016, Phoebe Waller-Bridge) ***
Jazz (2001, Ken Burns) ****